2 TRILHANDO UM CAMINHO METODOLÓGICO: OS FIOS E OS OLHARES NA
2.2 O universo pesquisado: sujeitos e espaços
Ao planejar o seu trabalho de campo, Bragagnolo preocupou-se em encontrar uma escola parceira que oferecesse abertura à pesquisa acadêmica e na qual os gestores e professores apresentassem disponibilidade para contribuir com ela. A partir então, do diálogo estabelecido com a equipe diretiva da instituição (Margarida), em setembro de 2014, foram iniciadas as observações. A escolha das turmas (três no início e no ano seguinte mais duas, totalizando cinco) deu-se, especialmente, pela aceitação das professoras, todas elas com formação inicial em Pedagogia.
A doutoranda primou por um processo de pesquisa e de ingresso no campo bastante respeitoso. Dessa forma, antes de aproximar-se das crianças, caminhou pelo bairro, acompanhada da diretora da escola, com a finalidade de (re)conhecer um pouco sobre os arredores e a comunidade que frequenta aquele espaço escolar. Uma série de percepções produzidas nessa caminhada foi apontada por ela no Diário de Campo (14.10.2014). Com base nele, sabemos que os moradores alegam o enfrentamento de dificuldades relacionadas à saúde, ao saneamento básico, à segurança, ao lazer e à educação, queixa frequente em todas as periferias de nossas cidades. Além disso, observamos que as condições de vida das pessoas que ali residem são dessemelhantes, algo explicitado no trecho a seguir.
[...], encontramos a ex-merendeira da escola, que gosta de morar ali, apesar do esgoto que desce de outras casas. Nos diz aqui é calmo, mas do outro lado a coisa tá
feia!. [...]. A diretora me convida para ir ao ‘outro lado'. Caminhamos, enxergando o
contraste com os prédios do centro da cidade, talvez os mais altos. Esse lado tem outro retrato: são casas mais precárias, com menos espaços, muito lixo, na rua, ao redor e dentro das casas. [...]. São muitos sujeitos circulando pelo bairro, mas
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destaco as crianças, boa parte delas matriculada na escola, especialmente de zero a seis. São crianças plurais, filhos de catadores, netos de avós silenciosos, alguns longe de seus pais, têm pouco espaço para brincar, mas fazem dos espaços do bairro, como a própria rua, o seu quintal.
A escola Margarida, fundada em 21 de julho do ano de 2008, é pertencente à rede pública municipal e está localizada em um loteamento de periferia da cidade de Passo Fundo. Sua história é recente e, segundo inventário, foi implantada como decorrência de intensas reinvindicações da comunidade, a qual sonhava e lutava por um espaço educativo que atendesse às crianças pequenas.
Por ser considerada uma das maiores EMEIs do município e contar com uma apropriada infraestrutura, o espaço responsabiliza-se por atender aproximadamente a duzentas crianças entre os turnos matutino e vespertino. Em termos de grupo profissional, a escola conta com o trabalho da direção, coordenação pedagógica, doze professoras, cinco assistentes (todas com algum nível de formação para a docência – Magistério ou Pedagogia), uma monitora, uma servente e uma cozinheira. No total são doze turmas de crianças, seis em cada turno de funcionamento.
Com relação à infraestrutura da instituição, existe uma ampla e bonita área com gramado, praça com brinquedos e monitoramento por câmeras na área externa. Internamente, além dos corredores com grandes janelas que permitem a visibilidade para as seis salas de aula, há um refeitório que comporta até quarenta crianças, cozinha, lavanderia, banheiro para adultos, sala de professores, sala de vídeo, sala de atividades múltiplas com diversos espaços ou “cantinhos” para recreação. Destacamos que todas as salas de aula, além de permitirem acesso ao pátio, são especialmente planejadas para receber crianças de seis meses a seis anos de idade, estando equipadas com mesas e cadeiras, colchonetes, prateleiras, quadro negro, brinquedos acessíveis, cantinho da leitura e para exposição das produções feitas pelas crianças; suas instalações também contam com ar condicionado e banheiros apropriados, que incluem chuveiro, pia e vaso sanitário.
Apresentamos de forma concisa na Tabela 4, o tempo destinado às videogravações por turma observada.
Tabela 4 - Tempo de filmagem em cada turma observada
Ano/ Turma Maternal I Profª Taís Maternal I Profª Taís Maternal II Profª Luana Pré-escola I Profª Ariane Pré-escola II Profª Ariane Total 2014 5h X 4h 11min X 7h 16h 11min 2015 X 11h 7min X 21h X 32h 7min
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Total 48h 18min
Fonte: Elaboração da pesquisadora Adriana Bragagnolo
Após explorarmos todo o material produzido, delimitamos para a presente investigação, o aprofundamento dos estudos somente em duas turmas, devido à regularidade
dos projetos de trabalho como caráter organizativo da prática pedagógica da professora29.
Voltamo-nos, então, para a pré-escola II (2014), constituída por dezessete crianças de cinco para seis anos de idade, e para a pré-escola I (2015), formada por quinze crianças na faixa etária de quatro para cinco anos, cujos trabalhos eram coordenados pela professora Ariane.
Organizamos duas tabelas (Tabela 5 e Tabela 6) que agrupam as datas e os tempos destinados para as filmagens nessas duas turmas, com o intuito de expor a dimensão do material a ser considerado para a análise.
Tabela 5 - Datas e tempo de filmagens – Pré-escola II (2014)
Fonte: Elaboração da pesquisadora Adriana Bragagnolo
Tabela 6 - Datas e tempo de filmagens – Pré-escola I (2015)
29 O uso do termo “professora”, no singular, é explicado em virtude de que o trabalho, em ambas as turmas, foi
coordenado pela mesma profissional, a quem demos o nome fictício de Ariane, conforme escolha da própria professora. As crianças participantes da pesquisa também terão sua identidade resguardada por meio de pseudônimos. Aquelas crianças cuja fala não permita identificar a sua procedência serão designadas com a sigla CNI (Criança Não Identificada).
Ação Data Tempo de filmagem
Observação 21/11 Observação 05/11 Filmagem 1 – F1 10/11 01:05 Filmagem 2 – F2 12/11 00:39 Filmagem 3 – F3 17/11 00:37 Filmagem 4 – F4 19/11 01:09 Filmagem 5 – F5 20/11 00:25 Filmagem 6 – F6 26/11 00:56 Filmagem 7 – F7 27/11 00:40 Filmagem 8 – F8 28/11 00:20 Filmagem 9 – F9 01/12 01:08
Total 419 minutos / 07 horas
Ação Data Tempo de filmagem
Observação simples 26/02 Observação simples 09/03 Observação simples 16/03 Filmagem 1 – F1 11/05 00:55 Filmagem 2 – F2 13/05 00:52 Filmagem 3 – F3 20/05 00:45 Filmagem 4 – F4 22/05 01:00 Filmagem 5 – F5 25/05 01:03 Filmagem 6 – F6 26/05 01:20
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Fonte: Elaboração da pesquisadora Adriana Bragagnolo
2.3 O processo de análise: primando pelos aspectos microgenéticos, históricos e culturais
Entendendo que a metodologia orientadora da produção dos dados foi respeitosa da premissa teórica que se orienta para a análise das interações que se instituem entre professora e crianças e destas com seus pares, que valoriza a produção de significados pelos sujeitos e o modo como um interfere e age sobre/com o outro, a análise dos dados, em hipótese alguma, poderia distanciar-se desses mesmos desígnios.
Nessa direção, principalmente no que tange a processos que se instanciam nas dinâmicas realidades educativas, dentre as possibilidades de análise existentes, procuramos nos orientar pelos princípios da análise microgenética, apresentada por Góes (2000, p. 9-10) como
[...] uma forma de construção de dados que requer a atenção a detalhes e o recorte de episódios interativos, sendo o exame orientado para o funcionamento dos sujeitos focais, as relações intersubjetivas e as condições sociais da situação, resultando num relato minucioso dos acontecimentos. Frequentemente, dadas as demandas de registro implicadas, essa análise é associada ao uso de videogravação, envolvendo o domínio de estratégias para a filmagem e a trabalhosa atividade de transcrição.
Sendo assim, colocamos em evidência que a palavra microgenética pode ser interpretada em suas duas partes constitutivas: é micro pois é dirigida pelos pormenores, preocupa-se com os detalhes, prima pelas interpretações indiciárias. Por isso, Góes (2000, p. 15) considera indispensável a realização de recortes em um espaço temporal que tende a ser limitado; é genética pois é alusiva à historicidade, no sentido de centralizar o movimento no processo, relacionando o passado e o presente e, enquanto situação contemporânea,
Filmagem 7 – F7 27/05 01:18 Filmagem 8 – F8 29/05 01:02 Filmagem 9 – F9 01/06 01:20 Filmagem 10 – F10 03/06 01:00 Filmagem 11 – F11 08/06 01:16 Filmagem 12 – F12 10/06 00:55 Filmagem 13 – F13 17/06 00:38 Filmagem 14 – F14 19/06 00:59 Filmagem 15 – F15 22/06 01:17 Filmagem 16 – F16 23/06 01:17 Filmagem 17 – F17 24/06 00:48 Filmagem 18 – F18 29/06 01:00 Filmagem 19 – F19 30/06 00:57 Filmagem 20 – F20 01/07 00:43 Filmagem 21 – F21 03/07 01:02