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3. Ser e identidade

3.5. O uno, seus derivados e opostos

Semelhança, igualdade e identidade.

Ao uno se opõe o múltiplo ou multidão. O ser dividido se opõe a unidade indivisa, e forma a multidão, onde encontramos relações de semelhança, igualdade e identidade.

O uno, pela entidade ou substância, produz a identidade, pela qualidade produz o semelhante, ou símile, e pela quantidade produz o igual.

“O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas,...” (substância, identidade). “Era tanoeiro de ofício...” (qualidade, semelhança).

“Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós - dos avós que a minha família sempre confessou - ...” (quantidade, igualdade) (Cap.III, Machado, Memórias póstumas...Genealogia, p.114)

Semelhança, em sentido próprio, implica uma adequação entre qualidades, conveniência na forma. Pode haver graus de semelhança.

Costuma-se dizer igualdade para a conveniência na quantidade. Quantidades iguais, dois é igual a dois.

A identidade é a unidade substancial e, em sentido próprio, é a adequação de uma coisa consigo mesma. A identidade é, nesse caso, real, ontológica porque coincide com o próprio ser. Da parte da inteligência, que forma o conceito de identidade, há uma afirmação ou juízo de que “o que é, é”.

Esse juízo, como ato da linguagem, exprime a unidade do ser, a realidade de cada coisa. A identidade é um conceito de reduplicação lógica, um conceito sobre si mesmo. “Isto é o que é”.

Quando duas coisas são idênticas não são duas, são uma e mesma coisa, porque a identidade implica unidade, mesmo que o conceito de identidade pressuponha relação entre dois termos, “isto é isto”.

Dizer que duas coisas são perfeitamente iguais faz lembrar o princípio dos indiscerníveis de Leibniz (principium identitatis indiscernibilium), ou a identidade dos

74 indiscerníveis, de que falaremos em outro capítulo.

Entre coisas realmente distintas temos igualdade ou semelhança, e não identidade, em sentido próprio.

Identidade, no entanto, pode ser conceito relativo, quando há relação ocasional ou contingente de identidade entre dois termos, cada termo é o que é, porém acidentalmente esses termos formam uma unidade.

Aristóteles trata dessa relação, quando fala em identidade acidental, já vimos o exemplo do homem que é músico e branco. O músico e o branco são o mesmo porquanto são acidentes de uma mesma pessoa. Músico é branco, há identidade pela substância humana onde se realizam como acidentes. A identidade é acidental, porque nem todo homem é músico e nem todo homem é branco. Os dois termos se reúnem numa única substância, formam acidentalmente um sujeito único.

3.6. Identidade numérica, física e psicológica

O conceito próprio e fundamental de identidade supõe a identidade real e numérica.

A identidade pode ser lógica quando fazemos julgamento e comparação entre seres realmente distintos com identidade apenas genérica ou específica, isto é, identidade conhecida conceptualmente.

João e André são homens, iguais e idênticos na essência, pelo gênero animal e pela espécie humana, mas indivíduos diversos e realmente distintos como pessoa.

Quando se fala de conveniência ou adequação de diversas coisas ou pessoas em algo comum, qualidades comuns, por exemplo, não se trata, nesse caso, de identidade, mas de uma perfeita semelhança. Nesse sentido costumamos falar de gêmeos idênticos.

A identidade conceitual ou lógica é a aplicação do mesmo conceito universal a vários indivíduos singulares. É a identidade pela definição ou pela essência.

Pode haver uma adequação total, como entre o conceito de homem e o conceito de “animal racional”, pois todo homem é “animal racional” e todo “animal racional” é homem. É incompleta ou inadequada a identidade conceitual no caso, por exemplo, de relacionar homem e animal, porque todo homem é animal, mas nem todo animal é homem. A identidade pode ser física, quando se trata de coisa real e a própria realidade permanece sem mudança. É moral e psicológica a identidade, quando, apesar de mudanças

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físicas, julgamos que o mesmo permaneceu. Vivemos cercados de mudanças, de mudanças e permanência.

É preciso não esquecer que deve existir alguma coisa de consistente e permanente para que haja mudança, um ponto firme, que não varia, e nos permite dizer que alguma coisa mudou e está diferente. “Quantum mutatus ab illo”, (como estás mudado!), exclama Enéias ao ver em sonhos a figura de Heitor mortalmente ferido. (Eneida de Virgílio, II, 274)

Heitor, corajoso e forte guerreiro troiano, é o mesmo Heitor ferido mortalmente por Aquiles. Houve mudança porque alguma coisa permaneceu idêntica. Por mais mudanças que alguém sinta em sua vida interior, a pessoa sempre se reconhece como idêntica a si mesma.

O mesmo comentário, podemos estender ao signo lingüístico, que se realiza cada vez de maneira individual, única e irrepetível. O ato da fala no momento da enunciação é sempre novo, ainda que o falante use a mesma língua, repita a mesma palavra ou frase. A fonação concreta e a produção de sentido nessa ocorrência singular são sempre diferentes porque os contextos são diferentes, mas existe algo da parte do ouvinte e do falante que lhes permite perceber identidade na variedade do ato singular.

Reside aí a distinção entre fonética, singularidade concreta, e fonologia, a identidade abstrata, que permanece e possibilita entendimento. O conceito de língua como forma e não substância é a doutrina de Saussure para a identidade lingüística em relação à realização física e singular, sempre nova e sempre outra.

Retomando a questão da identidade pessoal, podemos afirmar que, desde a infância até a velhice, permanece o mesmo “eu” invariável. Todo o fluxo de mudanças, todos estados de consciência são atribuídos ao mesmo sujeito. Se considerarmos a quantidade dos fenômenos que sucedem na consciência, poderíamos pensar numa identidade muito singular, porque a pessoa parece pouco semelhante a si mesma durante a longa duração. Há momentos de distração, de inconsciência. Parece que houve quebra de unidade e identidade.

A unidade da pessoa, no entanto, se mantém, e significa que toda a variedade de estados de consciência converge sobre um centro único, um único sujeito, que se diz “eu”.

É a unidade ontológica, base sólida da unidade de consciência. A pessoa, às vezes, se vê tão pouco semelhante a si mesma através dos tempos, que o adulto ou o velho sente dificuldade em se reconhecer no adolescente. Acha estranhos os sentimentos, as emoções, o comportamento do adolescente e da criança. As lembranças parecem de uma

76 outra pessoa.

Entre esses casos extremos de desdobramento de personalidade e esquecimento, o passado, no entanto, quase sempre é reconstruído pelos fragmentos de história da vida pessoal, que permanecem na memória.

O sentimento da identidade pessoal sofre pelo esquecimento, o que garante a unidade pessoal e identidade, no entanto, é principalmente a consciência da continuidade física e ontológica do mesmo sujeito, do mesmo “eu”. Há um vivo sentimento de unidade psicológica e ontológica.

3.7. A diversidade (alteridade) e a diferença

A apresentação da terminologia por Aristóteles no livro V da Metafísica é considerada por muitos o primeiro léxico filosófico da história, embora não seja um vocabulário de toda a filosofia. O nono capítulo desse livro V trata do significado de termos relacionados com o estudo que estamos fazendo.

Os termos são: idêntico, diverso (outro), diferente, semelhante e dessemelhante.

Coisas idênticas (tautá), diversas (hétera), diferentes (diáfora), semelhantes (hómoia) e dessemelhantes (anómoia). Coisas diversas têm outras identidades.

A identidade é assim a unidade intrínseca da própria substância, ou, com outras palavras, é a conveniência de uma coisa consigo mesma. É a constituição íntima da própria coisa.

Quando se considera a conveniência de diversas coisas em algo comum, não se diz identidade, mas uma perfeita semelhança. Só num sentido lato podemos dizer que duas moedas são idênticas. Identidade nesse caso é conceitual ou atribuição da linguagem, mera denominação.

Ao conceito de idêntico se opõe o conceito de diverso, de alteridade, isto é, da relação entre um e outro.

A relação de alteridade (heterótes) pode existir entre coisas que são idênticas sob algum aspecto. Coisas só numericamente diferentes (numero differentia) não diferem por qualidades intrínsecas. Diferem pelo fato de serem muitas, diversas, diferem pela alteridade ou diferença individual. Assim são diversas as moedas idênticas. É evidente que há aí o problema da individuação ou ipseidade.