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No Brasil, a falta de consenso em torno do termo “terceiro setor” tem explicação na sua própria origem. Originário dos Estados Unidos, o termo reflete a realidade deste país, “onde a relação a uma tradição de Estado Social não aparece como primordial na sua história” (FRANÇA FILHO, 2001, p.52). Nos EUA, o Terceiro Setor tem forte relação com a filantropia empresarial, tendo surgido a partir da iniciativa privada. Já no Brasil, a relação com o Estado é clara desde as origens, como já foi colocado anteriormente (Herbert de Souza, s.d. apud SANTANA, 1992).

Falconer (1999, p. 10) coloca que

tampouco foi a identidade das tradicionais filantrópicas, ou mesmo as associações comunitárias e de base que deu o tom deste recém-descoberto setor. Mais problemática ainda é a atribuição do fenômeno à sociedade civil (...). A construção do terceiro setor brasileiro, pode-se afirmar com segurança, deu-se de fora para dentro: de fora do país e de fora do setor para dentro dele.

Neste sentido, é notória a fragilidade do termo terceiro setor. Não é que o terceiro setor brasileiro tenha surgido efetivamente “de fora do país e de fora do setor para dentro dele”, mas talvez o uso do termo terceiro setor para se referir à realidade brasileira o tenha. Prevalece a noção de que o termo terceiro setor abarca todo tipo de organização que não possui fins lucrativos, independente do foco em questões sociais, do interesse público ou coletivo.

Outro questionamento refere-se ao fato de que o papel do terceiro setor seria preencher lacunas deixadas pelo Estado ou pelo mercado, existindo à reboque destas duas esferas e, portanto, atuando numa perspectiva funcionalista. Como surgiu nos Estados Unidos, o termo terceiro setor está bastante atrelado à teoria do market failure/government failure, como parte da estratégia do neoliberalismo (FRANÇA FILHO, 2001, p. 52 e 58). Em sua tese de doutorado, Alves (2002) coloca alguns questionamentos sobre o uso da terminologia terceiro

setor para designar as organizações da sociedade civil e atesta que se deve ao Johns Hopkins

Center for Civil Society Studies, dos EUA e sob a liderança de Lester Salamon, o

renascimento e a ampla divulgação da expressão para todo o mundo.

É fato que algumas organizações não simpatizam com a idéia de se identificar enquanto terceiro setor. Foi o caso da ABONG (Associação Brasileira de Organizações não governamentais) que, em 1998, declarou: “Nós não nos reconhecemos como parte do terceiro setor. Não achamos que esse modelo teórico contempla quem nós somos e o que fazemos”. (Silvio Caccia Bava, então presidente da ABONG, apud FALCONER, 1999, p. 10). Certamente, há uma dimensão política no termo ONG (organização não governamental) que não existe na expressão “terceiro setor”, daí a restrição ao seu uso por parte de alguns representantes de organizações não governamentais. Tal fato é compreensível, uma vez que o termo terceiro setor existe mais por exclusão — o que não é Estado nem mercado — do que por uma questão identitária das organizações. Afinal, comparativamente à realidade das organizações do Estado e do mercado, não é nada comum, ao menos no Brasil, empresas se referirem a elas próprias enquanto segundo setor ou o Estado se identificar como primeiro setor.

Com base em Fernandes (1997), na América Latina e, especificamente, no Brasil, é comum o uso da expressão organização da sociedade civil (OSC) para se referir a organizações que se distinguem do Estado e do mercado. Considerando a definição existente sobre terceiro setor, tanto faz falar OSC ou terceiro setor, pois ambos os termos representam a mesma coisa. Diante desse contexto, por que se referir a organizações da sociedade civil como terceiro setor? Porque em torno dele há mais controvérsias e, por isso mesmo, mais discussões a respeito atualmente. Além disto, se admitirmos que fundações e institutos constituídos a partir da iniciativa empresarial não podem ser consideradas organizações da sociedade civil (pois não surgem da sociedade civil, enquanto esfera autônoma), tais organizações seriam excluídas deste estudo, o que não ocorreu.

Retomando a questão de imprecisão conceitual e restrições ao uso da expressão terceiro setor, vale ressaltar que Leilah Landim, uma das principais responsáveis pela introdução do termo terceiro setor no Brasil a partir de uma parceria com o Johns Hopkins, veio a criticar o termo em 1999 (p. 9), colocando que

[...] evocando não o conflito, mas a colaboração e a positividade da interação, o termo terceiro setor tende a esvaziar as dinâmicas politizadas que marcam, pela força das circunstâncias, a tradição associativista das últimas décadas e talvez da história do Brasil.

Analisando esta crítica cuidadosamente, verifica-se que, de fato, a restrição não se refere ao termo terceiro setor em si, mas talvez ao fato de esta esfera englobar organizações bastante diversas entre si e de o discurso em torno do terceiro setor ser permeado pela cooperação com organizações das demais esferas (Estado e mercado), o que pode acarretar cooptação. Porém, ao que me parece, esta realidade ocorre independentemente da denominação ser terceiro setor, organizações da sociedade civil (OSCs) ou, até mesmo, organização não governamentais (ONGs).

Alves (2002, p. 308 e 309) faz uma crítica semelhante ao dizer que

[...] apesar de “incorporar” diversas vozes, o discurso do Terceiro Setor é, antes de tudo monólogico, voltado para os interesses de uma elite que pretende — acima de tudo — criar ambientes “business friendly”. Para isso, procura assimilar uma linguagem que é muito cara a pessoas e grupos que efetivamente procuram transformar a sociedade, destituindo-a de seus significados originais.

De fato, é preciso sempre lembrar que terceiro setor engloba todo tipo de organização sem fim lucrativo e que, portanto, não é uma esfera homogênea. Assim sendo, é preciso ponderar comparações, por exemplo, entre uma ONG ambientalista como o Greenpeace e uma entidade sem fim lucrativo criada e mantida por uma determinada empresa e que atua com projetos sociais para fins de marketing.

Cabe destacar que a falta de uma definição consensual precisa ocorre mesmo dentro do setor mais restrito das ONGs, conforme aponta Vakil (1997 apud ROESCH, 2002), que encontrou dezoito denominações diferentes para este grupo de organizações. Segundo esta autora, tal variedade ocorre devido à natureza multidimensional destas organizações, à natureza interdisciplinar inerente na literatura a seu respeito e na diversidade destas organizações.

Seguindo as orientações de Fernandes (1994, p. 32),

Pensar “terceiro setor” significa reunir sob uma mesma classe conceitual atividades tão distintas que, no passado, costumavam ser vistas como contraditórias ou mesmo antagônicas. Perceber a relevância desta possibilidade de agrupamento ideal implica dar um passo no sentido de torná-lo eficaz e, neste sentido, acenar para a passagem do possível ao real.

A opção por estudar o campo do terceiro setor permite conhecer e compreender a diversidade que o permeia e diferenciá-lo do que seja Estado e mercado dentro da lógica do chamado modelo tri-setorial, considerando que a separação em setores não elimina a interface entre eles. Scherer-Warren (1999), baseada em Cohen e Arato (1992), coloca que a sociedade civil é o espaço onde nascem e se desenvolvem associações voluntárias como movimentos sociais ou populares, ONGs, grupos de mútua ajuda, entidades filantrópicas, entre outras. Mas alerta que é preciso lembrar que o indivíduo carrega consigo a síntese da vivência e das relações que estabelece com o mercado e com o Estado. “Por isso, não é possível entender as ações coletivas da sociedade civil sem pensá-las em seus relações com as outras duas esferas mencionadas” (p. 43).

Na tentativa de ilustrar o terceiro setor, alguns desenhos expressos por uma das principais organizações do terceiro setor no país, a RITS – Rede de Informação sobre Terceiro Setor, deixam evidente esta imbricação entre os três setores:

Figura 3 – Representações do terceiro setor. Fonte: www.rits.org.br (Acesso em 05/09/2000).

Do desenho 1 ao desenho 4 (na Figura 3), percebe-se uma evolução no sentido da articulação entre as esferas do mercado, do Estado e do terceiro setor. No desenho 1, não existe articulação entre atores. No desenho 2, o terceiro setor é entendido como a interseção entre Estado e mercado. No desenho 3, a esfera do terceiro setor já é entendida separadamente e articulada com o Estado e com o mercado. Mas é no desenho 4 que é incluída toda a gama de organizações existentes em algum contexto, seja no Estado, no mercado, no terceiro setor ou as interseções entre eles, numa perspectiva de articulação. Fernandes (1994) colocou que a inclusão dos partidos políticos no universo de organizações não governamentais seria algo

questionável, uma vez que os partidos políticos são organizados em função do Estado e alternam-se em seu controle. Do mesmo modo ele refletiu sobre a inclusão dos sindicatos e associações patronais, que cumprem também funções de mercado. Pensamento similar pode ser estendido para as fundações e institutos privados criados e instituídos por empresas pois, muitas vezes, as ações sociais são utilizadas para fins de promoção da imagem empresarial e, consequentemente, aumento do lucro. Todos esses exemplos seriam melhor ilustrados não no campo do terceiro setor puramente, mas nos campos de interseção entre Estado e terceiro setor ou entre mercado e terceiro setor. Isso ocorre porque as relações interorganizacionais estão presentes, caracterizando em maior ou menor intensidade as organizações.