Apesar da análise do consumo como forma de ação política ser recente nas Ciências Sociais brasileiras, o uso político do consumo não é uma forma de ativismo tão recente quanto possa parecer. Autores como Trentmann (2005 e 2006), Portilho (2005 e 2009), Wilkinson (2002), Micheletti (2003), Stolle et al. (2005) e Picolotto (2008) trazem exemplos históricos de ações políticas via consumo.
Trentmann (2005) questiona as abordagens que presumem a emergência do consumidor como um subproduto natural das sociedades capitalistas, em expansão desde final do século XVIII. Segundo o autor, consumidor e consumo costumam ser automaticamente associados à emergência de sociedades capitalistas, como se não houvesse consumo em outros tipos de sociedade. Todo ser humano, em todas as culturas, utiliza os bens disponíveis em sua cultura material para sua reprodução física e social.
Com o objetivo de compreender como a noção de consumidor foi construída, Trentmann (2005 e 2006) parte de uma perspectiva histórica para mostrar que “consumidor” não é uma categoria universal e abstrata (como costumam retratar os economistas) e sim uma categoria social e política. O autor critica a compreensão da história de forma linear e, por isso, mostra que o “personagem” consumidor foi construído de distintas maneiras em cada país, questionando assim a ideia de evolução do conceito ao longo do tempo.
14 Trentmann (2005) argumenta que as tradições de democracia, sociedade civil e participação política variam de um contexto para o outro e que a noção de consumidor surge a partir de relações dinâmicas com estas percepções: “a modernidade criou diferentes aberturas para os consumidores em diferentes espaços políticos e culturais, dependendo do papel da nação, do Estado, das tradições de cidadania e identidades sociais8” (Idem, pg. 15). O autor observa, então, que a ideia de consumidor surgiu na sociedade civil e no Estado. Foi a cultura política de cada contexto que construiu e atribuiu diferentes papéis aos consumidores. Como exemplos, Trentmann (2006) mostra que durante a Primeira Guerra Mundial, na Europa, os consumidores assumiram papéis essenciais na demanda por controle estatal para o abastecimento de commodities, assim como no contexto pós-guerra, nos EUA, o New Deal combinou “um modelo de crescimento econômico baseado no aumento do poder de compra com um modelo democrático de mobilização dos consumidores como cidadãos apoiados pelo Estado” (Idem, pg.51).
Segundo Wilkinson (2002), a primeira fase do processo de politização do consumo também estava relacionada com o desenvolvimento do progressivismo nos EUA. Tal politização era direcionada para a luta por intervenção estatal na distribuição dos produtos, a fim de controlar seus preços e qualidade. No contexto do pós-guerra, a depressão impôs, na Europa, uma pausa no consumo político enquanto que, nos EUA, a política do New Deal visava a aceleração da expansão econômica, através da visão keneysiana de criação de demanda. Assim, nos anos 30 e 40, nos EUA, assistiu-se a uma consolidação do movimento de consumidores liderados, principalmente por mulheres. Ao mesmo tempo, negros se engajavam em boicotes a determinados produtos norte-americanos como um instrumento de luta pela implementação de seus direitos civis.
Neste sentido, Trentmann (2005) aponta que a noção de consumidor surgiu a partir de sinapses políticas9. Desta forma, a ideia de consumidor não surgiu da cultura do consumo (caracterizada no senso comum como cultura do supérfluo), mas ao contrário, surgiu da luta pelos seus direitos, ou seja, em relação direta com a sociedade civil e com o Estado. Trentmann (2005) mostra como um dos primeiros movimentos de consumidores nasceu da luta por direito ao acesso à água. Desta forma, a noção de
8 Toda citação de obras em outra língua baseia-se em tradução própria da autora desta dissertação. 9 Segundo o autor, “a configuração dos consumidores requer necessárias sinapses políticas, isto é, as
tradições políticas e as linguagens por meio das quais os atores são capazes de conectar experiências materiais de sentimento de pertencimento, interesse e direito” (Trentmann, 2006, pg. 20).
15 consumidor surgiu em proximidade com as lutas pelos direitos do cidadão. No entanto, abordagens e caracterizações simplistas costumam enfatizar a ideia de que “quanto mais consumidor, menos cidadão” (Idem, pg.17).
Trentmann (2005 e 2006) aponta a aproximação histórica entre as noções de cidadão e de consumidor, mas ressalta que se antes as ações políticas via consumo ocorriam de forma mais esparsas, agora tendem a ser permanentes. Na expansão do campo político, a esfera da política deixa de ser excepcional para permear a vida cotidiana.
A partir da constatação de que práticas de compra ou boicote de produtos por motivos éticos e políticos têm se tornado cada vez mais recorrente, Stolle et al. (2005) também mostram que o uso político do consumo não é exatamente uma nova forma de ativismo. Os autores citam diversos exemplos como o da campanha da White Label, no início do século XX, que apelava para que as mulheres americanas comprassem roupas íntimas de algodão certificadas pelo movimento "anti-sweatshops", como reação à exploração do trabalho (Sklar, 1998 apud Stolle et al., 2005). Citam também a pesquisa de Jenkins e Perrow (1977 apud Stolle et al., 2005) sobre o boicote de consumidores a grandes agricultores e proprietários de terra da Califórnia, em 1960, que teve como conseqüencia a contratação de trabalhadores rurais nos EUA.
Outros exemplos apontados como significativos pelos autores é o uso do boicote no campo da política racial e o boicote à Nestlé. Friedman, King e Goldberg (1999 apud Micheletti, 2005) analisam o boicote realizado, em 1955, por americanos negros contra sistemas de segregação racial dos ônibus de Montgomery, como parte do movimento de luta pela ampliação dos direitos civis. Nas décadas seguintes, de 70 e 80, boicotes foram usados como uma ferramenta no mundo inteiro contra o regime do apartheid na África do Sul (Seidman, 2003 apud Micheletti, 2005). O conhecido boicote à Nestlé ocorreu entre 1977 e 1984, contra a comercialização de leite em pó infantil e mobilizou os consumidores globalmente.
Esta mobilização fez da Nestlé uma empresa voltada para os valores da família e com elevada visibilidade no mercado. Em 1981, o código internacional de comercialização dos substitutos do leite materno foi adotado. No entanto, grupos políticos de consumo não estavam satisfeitos com a implementação do código e restabeleceram o boicote em 1988 (Bar Yam, 1995; Sikkink, 1986 apud Stolle et al., 2005).
16 Portilho (2005 e 2009) cita autores como Blee (1985), Frank (1991 e 1994), Linden (1994), Cohen (2001) e Ferreras (2001) para mostrar como estratégias de uso do consumo como um ato político não são tão recentes.
Linden (1994) enfatiza a forma de poder resultante do uso coletivo do poder de compra das classes trabalhadoras. Blee (1985) ressalta diversos exemplos, desde o século XVII, em que revoltas de consumidores precederam outras formas de protesto. Frank (1991 e 1994) aborda a mudança de tática do movimento operário de Seattle/EUA e suas famílias que organizaram, entre 1919 e 1929, diversas atividades no sentido de fortalecer seu poder enquanto consumidores, pressionando seus empregadores não apenas nos locais de trabalho, mas também nos locais de consumo (o boicote à loja de departamentos Bom Marché, a criação de cooperativas de consumo como alternativa de compras e a “rotulagem sindical”). Ferreras (2006) analisa uma estratégia semelhante utilizada pelo movimento operário de Buenos Aires, no período entre 1880 e 1920. No Brasil os estudos historiográficos e sociológicos sobre boicotes são ainda raros e periféricos, com destaque para a obra de Edson Nunes sobre a Revolta das Barcas, ocorridas em Niterói e Rio de Janeiro/RJ, em 1959 (Portilho, 2009, pg.209).
Estes exemplos mostram protestos de consumidores devido à percepção de exploração na esfera do consumo ocorridos a partir do século XVII. Em geral, eram protestos relacionados ao aumento de preços e à estrutura de produção e distribuição dos produtos. O uso político do consumo se dava tanto através da compra ou boicote de determinados produtos realizados de forma individual ou por meio de campanhas promovidas por sindicatos e cooperativas de consumidores.
O surgimento de cooperativas de consumo, de acordo com Mascarenhas (2007) e Picolotto (2008), tem como base o cooperativismo criado originalmente por Owen (1771-1859). Entre as várias atividades criadas por Owen estavam as “organizações de trabalhadores”, o “movimento das comunas” e as “cooperativas de consumo”. A experiência pioneira de cooperativa de consumo foi a de Rochdale, em 1844 (Picolotto, 2008). Segundo o autor, em referência ao estudo de Singer (2003), o que tornou esta iniciativa modelo foram seus princípios de funcionamento – “igualdade política (cada cabeça um voto), livre entrada e saída do quadro social, neutralidade política e religiosa, prioridade à educação cooperativa e divisão periódica das “sobras” (Picolotto 2008, pg. 81). A partir desta iniciativa modelo, as cooperativas foram se desenvolvendo de formas variadas. O autor mostra que os empreendimentos que buscaram competir na economia capitalista, de forma geral, não tiveram sucesso e faliram, enquanto outros, ainda na
17 busca por competir, acabaram se afastando dos princípios originais do movimento. No pós-guerra, o movimento cooperativista como um todo foi perdendo seu papel potencial de transformação, adequando-se, em diversos graus, à economia de mercado. A partir dos anos 70, com o aumento da crise estrutural de desemprego e do Estado de Bem- Estar Social, Picolotto (2008) argumenta que começou um movimento de resgate da “solidariedade democrática” nos empreendimentos.
Wilkinson (2002) aponta o pós-guerra, na Europa, como o momento de criação de associações de consumidores – “organizações sem fins-lucrativos apoiadas por assinaturas de um jornal informativo do consumidor” (Idem, pg. 29). A questão central dessas organizações era oferecer informações e qualificação que permitissem a comparação entre bens duráveis por parte do consumidor. Além de fornecer informações, estas organizações de consumidores pressionavam pela criação e aplicação de legislações específicas, bem como participavam da elaboração destas normas. Neste momento, as associações de consumidores estavam preocupadas em promover um “consumidor econômico racional”; o foco era preparar consumidores para lidar com um sistema de produção padronizado.
Posteriormente, em um contexto marcado pela crescente privatização e desregulamentação do mercado, que teve como conseqüência a segmentação e diferenciação da produção, as organizações de consumidores ampliam seu foco para incluir a preocupação em fiscalizar as conseqüências de diversos produtos para a saúde, meio ambiente, bem-estar animal e, ainda, princípios éticos e sociais envolvidos no processo de produção. Segundo Wilkinson (2002), neste momento há um aumento na convergência de movimentos sociais e redes alternativas de comércio que, atualmente, se expressam na proliferação de associações de consumidores.
Neste sentido, pode-se notar que o uso político do consumo, historicamente, era esparso e pontual e girava, principalmente, em torno de lutas por preços adequados, direitos raciais e exploração do trabalho. Atualmente assistimos a uma renovação dos significados políticos do consumo, com a incorporação de preocupações socioambientais e com a saúde. O processo de expansão da participação cívica e ação política (Giddens, 1995; Beck, 1995; Canclini, 1996; Portilho, 2005) também contribuiu para o uso, cada vez mais recorrente, de práticas de compra e consumo como forma de pressão na esfera pública e coletiva.
18 O item seguinte mostra como a emergência do movimento ambientalista, em um contexto de percepção do agravamento da crise ambiental causada pelos níveis e padrões de consumo, renova e atualiza o processo de politização do consumo.