• Nenhum resultado encontrado

7 A SACIAÇÃO DE ANSEIO

7.5 O Valor “Simbólico” dos Conteúdos dos Anseios

Estivemos trabalhando até agora com os casos mais simples de saciação de anseio, os casos em que não há conflito entre aquilo que é visado pelo anseio e as convicções morais do sujeito. Esses casos, no entanto, são muito mais raros que as expressões oníricas em que se exprimem forças antagônicas. A maioria dos sonhos é constituída por aglomerados incoerentes de imagens e representações absurdas. Esse aspecto fragmentado dos sonhos é resultado da interferência da censura. As representações recuperadas pelo anseio que figuram situações ou eventos escandalosos segundo os próprios padrões éticos do indivíduo sofrem deformações impostas pela autocensura. Dessa maneira, uma representação disforme e ininteligível assume o lugar da representação escandalosa.

A censura psíquica é responsável, portanto, por disfarçar o conteúdo do anseio atuante durante o sonho: uma representação escandalosa ou repugnante é substituída por outra inofensiva. Essa substituição é feita por associações mecânicas em que a coincidência de traços irrelevantes determinará qual representação substituirá aleatoriamente a imagem inibida. Esse vínculo entre a representação demandada pelo anseio e a representação substituta pode ser meramente transitório ou pode se tornar uma conexão constante. Devido à constância de algumas conexões entre anseios e representações substitutivas, os psicanalistas freqüentemente chamam-nas de “simbólicas”. Dessa maneira, alguns sonhos típicos podem assumir o mesmo significado em pessoas diferentes: varas, troncos de árvores, guarda-chuvas e gravatas são símbolos do órgão genital masculino; caixas, estojos, armários, navios e objetos ocos representam o ventre (FREUD, 1900). Os sintomas histéricos também seriam simbólicos nesse sentido. Uma paralisia parcial no rosto de uma paciente simboliza a indignação com as palavras duras que lhe haviam sido dirigidas antes da manifestação do

sintoma, palavras essas que tiveram o impacto de um “tapa na cara”. Os fetiches, por sua vez, simbolizam o objeto proibido do desejo sexual e sobre eles investem as demandas libidinais.

A semelhança dessas relações entre anseios e representações substitutivas com as associações entre palavras e objetos e, sobretudo, com as relações entre metáforas e sentidos literais levou o próprio Freud, em várias ocasiões, a falar das representações oníricas como signos próprios a uma linguagem dos sonhos:

[A] expressão “fala” deve ser entendida não apenas como significando a expressão do pensamento por palavras, mas incluindo a linguagem dos gestos e todos os outros métodos, por exemplo, a escrita, através dos quais a atividade mental pode ser expressa. Assim sendo, pode-se salientar que as interpretações feitas por psicanalistas são, antes de tudo, traduções de um método estranho de expressão por outro que nos é familiar. Quando interpretamos um sonho estamos apenas traduzindo um determinado conteúdo de pensamento (os pensamentos oníricos latentes) da “linguagem dos sonhos” para a nossa fala de vigília. À medida que fazemos isso, aprendemos as peculiaridades dessa linguagem onírica e nos convencemos de que ela faz parte de um sistema altamente arcaico de expressão. Assim, para dar um exemplo, não existe uma indicação especial para o negativo na linguagem dos sonhos. Os contrários podem se representar uns aos outros no conteúdo do sonho e ser representados pelo mesmo elemento. Ou, noutras palavras: na linguagem onírica, os conceitos são ainda ambivalentes e unem dentro de si significados contrários – como é o caso, de acordo com as hipóteses dos filólogos, das mais antigas raízes das línguas históricas. (FREUD, 1913, p. 179)

Essa assimilação das representações oníricas a uma espécie de sistema codificado ou mesmo a uma espécie de linguagem arcaica esbarra em sérias objeções. Wittgenstein ataca precisamente essa idéia de conceber os sonhos como um sistema codificado de transmissão de informações:

Suponha que você encare os sonhos como uma espécie de linguagem. Como uma forma de dizer alguma coisa ou como uma forma de simbolizar alguma coisa. Essa forma pode apresentar regularidade, mas não precisa ter regularidade alfabética – ela poderia ser, digamos assim, similar ao chinês. Podemos, então, descobrir um meio de traduzir esse simbolismo na linguagem da fala cotidiana, dos pensamentos comuns. Mas, nesse caso, a tradução pode ser feita nos dois sentidos. Deve haver a possibilidade de, empregando- se as mesmas técnicas, traduzir os pensamentos para a linguagem dos sonhos. Como Freud reconhece, isso nunca foi feito nem pode ser feito. Portanto, podemos questionar se o sonho seria uma forma de pensar em alguma coisa, se o sonho seria mesmo uma linguagem. (WITTGENSTEIN, 1967, p. 48)

Além de se expor a esse argumento acerca da impossibilidade de traduzir os pensamentos ordinários numa linguagem dos sonhos, a proposta de assimilar os símbolos psicanalíticos a um sistema de códigos reconduz a teoria psicanalítica ao quadro proposto pelas teorias divisoras da mente e às suas conseqüências problematicamente paradoxais. De um lado, temos uma representação inconsciente X; de outro, um símbolo S – ao qual a

consciência tem acesso – para essa representação X. Só que a consciência não tem acesso ao significado de X; e o inconsciente, por sua vez, não tem acesso aos juízos cognitivos de similaridade ou de codificação que efetuam a substituição de X por S. O vínculo de compreensão terá que novamente ser efetuado por uma instância privilegiada (o sistema plenipotenciário), pois só ele é capaz de representar o vínculo simbólico entre S e X. Mas isso significa, como já vimos, recolocar o mesmo problema que a hipótese da divisão buscava eliminar: como é possível que um mesmo compartimento psicológico esconda de si mesmo as suas intenções?

A comparação dos “significados” dos sonhos e dos sintomas psicanalíticos com os significados lingüísticos só prejudica a compreensão do que ocorre nos processos de substituição de representações. A melhor maneira de entender a relação simbólica na psicanálise é concebê-la como um processo quase-mecânico de associações. Esse processo estabelecerá, para cada indivíduo particular, relações muitas vezes esdrúxulas e idiossincrásicas entre pessoas, objetos e eventos.

Essa é a estratégia de Gardner para resolver o problema das relações “simbólicas” sem precisar recorrer a uma teoria divisora da mente. O problema principal a ser enfrentado por essa abordagem alternativa é explicar como o anseio aufere algum tipo de gratificação não obstante o fato de uma representação estranha ter assumido a posição de seu objeto primário. O primeiro passo é rejeitar qualquer interferência de juízos de similaridade ou de comparação, assim como qualquer aplicação de habilidades cognitivas de tradução, substituição, decodificação, etc. Essas operações são típicas de um raciocínio prático. Se sei que a ação de agitar uma bandeira branca simboliza a minha rendição, o desejo de me render pode ser convertido num desejo de agitar uma bandeira branca. Mas esse tipo de substituição é característica das atividades cognitivas superiores e não pode ser aqui assumida, sob pena de termos que postular sistemas subpessoais operando de forma independente.

Mas, se removemos essa interferência de operações cognitivas de codificação ou substituição de termos, que fatores devem entrar em seu lugar para explicar a substituição de um objeto X por um símbolo S? A hipótese de um sistema dotado de plenas capacidades cognitivas interferindo no processo propiciaria uma resposta fácil a essa questão. Diante de um anseio inibido, o sistema plenipotenciário faria uma avaliação da seguinte espécie: o objeto do anseio X tem em comum com o objeto S tais e tais aspectos. Feita essa avaliação o mesmo sistema atribuiria ao anseio a representação S.

Mas aí surge uma dificuldade adicional. O sistema em que surge o anseio – o sistema das pulsões cegas – não tem as mesmas capacidades do sistema plenipotenciário. Se em nossa teoria fizermos a virtude compensatória de S depender dos seus vínculos simbólicos com o objeto X, só poderemos concluir que o sistema pulsional não poderá jamais tomar a representação substitutiva como compensatória da representação perdida, pois, por sua própria natureza, ele é completamente alheio aos vínculos que levaram o sistema plenipotenciário a perfazer a substituição. Mesmo se adotássemos a hipótese divisora, teríamos que reconhecer que a gratificação do anseio é, em parte, resultante de disposições inerentes ao próprio anseio, independentemente de qual seja o seu conteúdo representacional. Ora, admitir isso importa em admitir também a superfluidade da hipótese divisora e do sistema plenipotenciário. Se a gratificação do anseio depende, em parte, de traços característicos do mesmo, a melhor rota a ser seguida é a investigação da natureza dessas disposições psicológicas. A postulação de sistemas subpessoais torna-se, então, uma mera digressão ociosa. Isso porque, se da investigação das disposições do anseio resultar a explicação da gratificação, a relação simbólica de caráter cognitivo deixará de ser um fator determinante na explicação das gratificações substitutivas.

A teoria econômica de Freud fornece justamente esse exame das disposições do anseio. A partir de sua teoria, Gardner enumera as principais propriedades econômicas do anseio:

(a) Os anseios têm intensidade própria. Na caracterização feita por Freud dos anseios, esses aparecem como estados psicológicos dotados de força, independentemente de seu conteúdo representacional ou dos valores a eles atribuídos pelas avaliações racionais do sujeito. Aliás, essa é uma constatação válida inclusive para os desejos. Nos casos de acrasia, como vimos, o desejo interfere de maneira incisiva nos pensamentos e ações do sujeito, ainda que esse não tenha a intenção de agraciá-lo – ainda que na escala de valores do sujeito, ele confira relevância e preferência a vários outros desejos. Freud apenas dá um passo a mais: um desejo pode regredir à condição de anseio e interferir de maneira incisiva, mesmo quando o seu conteúdo representacional é severamente modificado. Com a inibição do desejo que codifica o seu alvo, o anseio fica como que destituído de objeto. Mas a sua força permanece a mesma. Essa moção psíquica investirá imediatamente sua intensidade em alguma representação alternativa. A ocorrência desse investimento alternativo evitaria o acúmulo de excitação e estaria, portanto, em conformidade com o princípio de constância do aparelho psíquico.

(b) Como conseqüência da característica (a), os vínculos entre o anseio e a

representação capturada pelo anseio são estritamente contingentes e causais. Ao contrário

do que acontece com o desejo racional, em que vigora uma relação interna entre o seu conteúdo proposicional e a descrição do evento que o satisfaz, na saciação de anseio os vínculos são contingentes. Aquilo que sacia um anseio sexual não precisa estar conceitualmente relacionado a desejos sexuais, basta que seja contingentemente uma representação sobre a qual se possa exercer o anseio sexual, ainda que a descrição dessa representação seja neutra em relação a qualquer aspecto sexual. Por meio da combinação das características (a) e (b), podemos dizer que o anseio é dotado de certa avidez-por-objeto e de plasticidade.

(c) Em muitos casos de saciação dissimulada de anseio, as similaridades entre a representação potencial do anseio e a representação efetiva promovem o deslocamento do investimento psíquico, mas tais similaridades não passam por uma avaliação cognitiva. Com a atribuição de certas disposições ao anseio descartamos a necessidade de postular uma operação cognitiva de substituição que fizesse a intermediação entre o objeto X e o objeto S. Como vimos, por sua própria natureza, o anseio apodera-se de representações disponíveis, mesmo que destituídas de traços de similaridade ou de um vínculo propriamente simbólico. Mas, se correta essa abordagem, parece ser uma de suas conseqüências a absoluta aleatoriedade das associações. O que dizer então da grande quantidade de associações relatadas por psicanalistas em que a substituição parece ser conduzida por traços – relevantes ou insignificantes – de similaridade? Não podemos descartar, evidentemente, a interferência de um forte viés no exame de casos clínicos. Muitos casos de substituição simbólica devem- se, de fato, a operações cognitivas superiores, mas não do analisando, e sim do próprio analista. Por outro lado, não podemos atribuir a esse viés simbolizador todos os casos de constatação de similaridades relevantes. Ao menos nos casos que examinamos aqui, algumas relações de similaridade parecem desempenhar alguma função no estabelecimento da gratificação substitutiva. Contudo, não precisamos atribuir um juízo de similaridade ao sujeito para explicar os deslocamentos. É bastante plausível e consistente com muitas descobertas da psicologia cognitiva uma associação de representações em função de aspectos físicos ou emotivos dessas representações, sem que haja necessidade de relações semânticas entre elas.34 Desde que admitida nos limites de uma seleção pré-atentiva ou do reconhecimento de

34

Para uma avaliação da conformidade das hipóteses psicanalíticas com as teorias cognitivistas e as descobertas da neurociência, ver WESTEN (1998), CAVELL (2006) e LEDOUX (1998).

padrões, a associação por similaridades não implica a retomada da hipótese divisora nem de um sistema plenipotenciário.

(d) A representação substitutiva é assimilada a um processo de construção gradual de uma fenomenologia partilhada com a representação original do anseio. Esse processo é que permitirá uma resposta satisfatória à pergunta: como uma representação substitutiva, estranha ao objeto primário do anseio, pode causar alguma espécie de gratificação, mesmo que atenuada? A resposta simples e direta é dizer que, apesar de ser um produto disforme e fragmentado, é uma propriedade inerente de toda a representação provocada pelo anseio induzir sensações residuais de gratificação. Essa tese, embora simples, é fundamental, pois nela se apóia toda a concepção de gratificação substitutiva aqui apresentada. Dela depende a própria idéia de partilha fenomenológica defendida por Gardner. Na reconstrução que estamos apresentando, temos em primeiro lugar uma associação mecânica entre a representação original e a substitutiva, com ou sem a incidência de reconhecimentos de similaridade. Por sua força característica, o anseio apodera-se da representação alternativa e a submete ao tratamento regressivo que lhe é próprio. A regressão, devido às propriedades inerentes ao processo, deixa um rastro de saciação. Esse resíduo de gratificação fornecerá o primeiro liame que permitirá o reforço do vínculo mecanicamente estabelecido. Com esse reforço, o objeto S se constituirá mais tarde em “uma via à fenomenologia de X”. Novamente, a construção dessa fenomenologia partilhada, em que o objeto S acaba por se tornar eficaz em provocar fenômenos mentais que estavam antes associados apenas à representação de X, depende da contribuição dada pelo próprio anseio. Um anseio suscitado pela fome será inevitavelmente um anseio devorador, um anseio suscitado pela libido terá inevitavelmente um teor sexual, um anseio suscitado pela agressividade terá inevitavelmente um teor destrutivo, e assim por diante. Gardner emprega uma analogia com as artes para explicar esse processo de formação da fenomenologia partilhada. Suponhamos que um artista queira expressar uma emoção específica – digamos, a melancolia – em seu trabalho. A obra de arte não surge de um juízo ou de considerações de similaridade entre o seu estado de espírito e o conceito artístico que ele imagina. Os materiais são trabalhados gradualmente a fim de que progressivamente assumam contornos que despertem ou acentuem o estado de espírito idealizado. O trabalho, porém tem um efeito reverso. Ao projetar a melancolia em certos traços da obra, esses traços passam a ser um elemento a mais a despertar melancolia na alma do artista.