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O VERDADEIRO SENTIDO DO MODELO PROPOSTO PELA CUT

CAPÍTULO 3 – AS MUDANÇAS ANUNCIADAS PELO FÓRUM NACIONAL DO TRABALHO E AS POSIÇÕES ASSUMIDAS PELA CUT

3.1 CUT: A CONSTRUÇÃO DE UM MODELO

3.1.7 O VERDADEIRO SENTIDO DO MODELO PROPOSTO PELA CUT

Todavia, muito embora a proposta de instituir o Contrato Coletivo de Trabalho estar vinculado ao fortalecimento dos organismos sindicais como condição prévia, a disposição da CUT (especialmente de seus setores majoritários) em discutir o Contrato Coletivo embute um risco considerável para o sindicalismo combativo na medida em que a livre negociação (da forma como é defendida pela Articulação Sindical) pode significar a transferência da regulamentação do trabalho dos textos legais para o dos acordos trabalhistas, como também o deslocamento do processo de negociação coletiva para níveis, cada vez mais, inferiores. Mesmo que a CUT não assuma uma perspectiva contratualista no sentido estrito do termo, pois, para a Central, em tese, o contrato destina-se a introduzir direitos e garantias adicionais, superiores aos assegurados por lei, acaba acenando para um futuro onde as leis trabalhistas seriam negociadas de acordo com a realidade econômica (e social) de cada setor da economia, o que permite a desregulamentação das relações de trabalho, pelo menos, nos setores sindicalmente pouco organizados.

A proposta inicial de Contrato Coletivo de Trabalho (elaborada pelos setores majoritários da CUT) já indicava a intenção de transferir a regulamentação do campo dos textos legais para o dos acordos trabalhistas, apontando para a contratualização das relações de trabalho no país. Essa proposta inicial, formulada em 1988, seria atualizada 4 anos depois, quando da posse de Walter Barelli ao Ministério do Trabalho. Em dezembro de 1992, a Direção Nacional da CUT elaborou, a pedido do novo Ministro, o documento intitulado “Sistema Democrático de Relações de Trabalho” onde faz uma reavaliação de sua proposta

inicial de Contrato Coletivo introduzindo, como novidade, o estabelecimento de um período de transição para a implantação do novo modelo de organização sindical e negociação coletiva.

Nesse documento, a CUT posiciona-se, de início, contra a proposta das associações de empresários que vinham se manifestando a favor da eliminação imediata dos direitos sociais e da legislação trabalhista, contidos na Constituição e na CLT, como condição para que a contratação coletiva pudesse prosperar no Brasil. A CUT que, em sua projeto inicial, apontava para uma radical contratualização das relações de trabalho no país (com a transferência dos direitos consagrados nos textos legais para o processo de negociação coletiva), recua diante das propostas de flexibilização das leis trabalhistas, apresentada pelos setores empresariais. De um certo modo, a Articulação Sindical percebe que a concepção que vinha apresentando poderia servir aos interesses mais retrógrados do empresariado, deixando descoberto não apenas os trabalhadores menos organizados, mas também a sua própria base social, centrada nos setores com maior capacidade de organização e de mobilização sindical:

Segmentos conservadores das elites, mesmo falando em contrato coletivo de trabalho, dão a ele uma interpretação toda especial. Em seu nome, pregam a remoção de todos os dispositivos da Constituição e da CLT que ofereçam algum amparo ao trabalhador. Preparam-se para realizar seu projeto ainda este ano, durante a revisão constitucional. Chamam a isso desregulamentação, flexibilização de direitos, ou, mais pomposamente, modernização das relações de trabalho

(CUT, 1993 p. 2-3).

No entanto, a despeito do que possa parecer, mesmo afirmando que “a passagem do atual sistema, fundado na tutela do Estado sobre os trabalhadores, para um Sistema Democrático de Relações de Trabalho, não pode, sob qualquer hipótese, implicar perdas de direitos para os trabalhadores” (CUT, 1996b p. 6), a proposta de Contrato Coletivo de Trabalho apresentada pela Articulação Sindical, conforme temos dito, pode abrir caminho para a contratualização das relações de trabalho no Brasil, com uma redução significativa do Estado como fonte de direito e a ampliação da esfera contratual como campo prioritário para a elaboração de direitos do trabalho. Mesmo estabelecendo um período de transição, onde os direitos consagrados na Constituição Federal e na CLT estariam assegurados, sugere que, a longo prazo, esses direitos poderiam ser objetos de negociação coletiva, o que reflete os efeitos diruptivos dessa proposta, pelo menos para os setores mais desorganizados sindical e politicamente.

É verdade que a proposta de Contrato Coletivo da CUT comportava uma dimensão centralizada de caráter nacional, onde seriam discutidos (e elaborados) os direitos mínimos (aplicados a todos os trabalhadores) e que não poderiam ser objetos de negociação coletiva.

Todavia, apesar de conferir um caráter nacional ao Contrato Coletivo, esse contrato mais amplo seria completado por contratos de menor abrangência, conforme as especificidades regionais e setoriais, o que certamente colocará uma boa parcela dos trabalhadores na dependência exclusiva do mínimo estabelecido em âmbito nacional. Acontece que o mínimo estabelecido pode significar um rebaixamento dos direitos contemplados na Constituição, acabando por deixar muitos setores completamente desguarnecidos, que não conseguiriam verter a resistência do capital (pois este não medirá forças para rebaixar (e eliminar) os direitos dos trabalhadores).

Ao mesmo tempo, a noção de direitos mínimos, juntamente com a proposta de Contrato Coletivo de Trabalho reativam um comportamento corporativista (enquanto egoísmo de fração), na medida em que cada categoria (ou parte dela, como no exemplo das câmaras setoriais) passa a lutar de acordo com as condições econômicas do setor em que está inserida e segundo a capacidade organizativa do sindicato ao qual pertence. Essa posição supõe que a desigualdade regional/setorial impede as regiões mais desenvolvidas e organizadas de obterem ganhos superiores aos demais, já que alguns setores podem, ao negociar separadamente, ganhar mais do que outros. Esse comportamento corporativista aparece nitidamente na fala de Luiz Marinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC entre 1996 e 2003: para Marinho a Contratação Coletiva “rompe com o princípio de uma falsa igualdade nacional nas relações de trabalho, responsável pelo rebaixamento dos direitos trabalhistas que deixam de corresponder às condições concretas de cada setor produtivo e de cada momento específico da vida da sociedade” (Marinho, 2002 p. 21). Nesse sentido, o nivelamento por baixo dos direitos trabalhistas em virtude das desigualdades regionais e setoriais, faz com que o sindicalista proponha que o Contrato Coletivo, a partir de um mínimo estabelecido, satisfaça às condições econômica (e social) dos diferentes setores da economia, tendo como base a realidade organizativa dos diferentes segmentos da classe trabalhadora.

Assim, a proposta cutista de Contrato Coletivo de Trabalho parece atender aos interesses dos setores mais organizados (e com maior poder de pressão) dentro da CUT (metalúrgicos, petroleiros, bancários), em detrimento do conjunto da classe trabalhadora. Foi justamente nesses setores (representados pela Articulação Sindical) que se desenvolveu e ganhou força a campanha pelo Contrato Coletivo de Trabalho. Tal contrato é, para eles, muito mais uma proposta para liberar os setores mais organizados para assinarem acordos melhores sem ter que carregar consigo o peso do conjunto dos trabalhadores do que um fator de unificação da luta sindical. Ademais, estes setores sentem-se em condição de negociar regras de contratação mais favoráveis aos trabalhadores de sua base do que as fixadas pela lei (daí

assumirem, de forma mais sistemática, uma perspectiva contratualista, pois acreditam-se capazes de negociar com o patronato a regulação do mercado de trabalho sem que seja necessário recorrer à intervenção estatal).

Uma última observação se faz necessária. Não se trata aqui de questionar a legitimidade do Contrato Coletivo de Trabalho e do processo de negociação coletiva, mas sim de problematizar a forma com que foi apresentado pelos membros da Articulação Sindical. Uma coisa é negociar e lutar para que a legislação trabalhista estenda seu campo de aplicação, envolvendo trabalhadores que hoje se encontram à margem dela, e reivindicar a ampliação do nível dos direitos existentes; outra coisa é admitir que a legislação seja reduzida a um mínimo para que o restante dos direitos sejam obtidos através da negociação coletiva (de acordo com a realidade econômica (e social) dos diferentes setores da economia), o que certamente implicará em perdas substanciais à grande maioria dos trabalhadores brasileiros.

Conforme destaca Boito Jr (1999 p. 158), a real dimensão dos efeitos destrutivos da proposta de Contrato Coletivo sobre os trabalhadores pode ser devidamente avaliada quando se considera a importância da legislação, e não da contratação, na regulamentação do mercado de trabalho no Brasil, os desequilíbrios e instabilidades do capitalismo periférico, a burocratização e o governismo de grande parte dos sindicatos brasileiros e a reduzida taxa de sindicalização existente no país. Segundo o autor, embora colida com a ideologia neoliberal, pelo simples fato de ser um tipo de ação sindical, impedindo a livre circulação e contratação de trabalhadores atomizados, a livre contratação coletiva (da forma como é proposta pela Articulação Sindical) faz apelo à ideologia do contrato entre partes supostamente livres e iguais, fragmenta o coletivo de classe em setores, é refratária à intervenção do Estado para impor limites (jurídicos) à exploração do capital, e permite a desregulamentação das relações de trabalho, pelo menos, nos setores sindicalmente pouco organizados. A defesa da livre contratação é encampada pela burguesia e pelos governos neoliberais exatamente nesse aspecto: não se trata de assegurar “liberdade” e “autonomia” sindical (nem de fortalecer o sindicalismo brasileiro), mas de eliminar, reduzir (e flexibilizar) os direitos consagrados na Constituição Federal e na CLT.

3.2 AS POSIÇÕES ASSUMIDAS PELA CUT NO FÓRUM NACIONAL DO

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