2. REVISÃO DA LITERATURA
2.3. VÍCIO RELACIONADO AO USO DE MÍDIAS SOCIAIS
2.3.4. O Vicio como um risco no uso das Mídias Sociais
A respeito da mudança da personalidade no ser humano, Erikson (1976) descreve oito estágios de desenvolvimento da pessoa, considerada como a teoria da personalidade (Anexo C). Percebe-se que no primeiro estágio as crianças são dependentes de cuidados e de estímulos das pessoas que as cercam. O seu amadurecimento equilibrado, na visão do autor, seria fruto do desenvolvimento da confiança nas pessoas e no mundo, sustentada, por sua vez, pelo sentimento de segurança e afeto. Já no quinto estágio (12 - 18 anos), período de crise psicossocial pontual, a pessoa procura uma identidade a ser valorizada socialmente. Erikson (1976) ressalta que o adolescente precisa de segurança frente a todas as transformações físicas e psicológicas do período. Essa segurança ele encontra na forma de sua identidade social, que foi construída por seu ego em todos os estágios anteriores (ERIKSON, 1976).
Segundo Young (2004), o uso sem controle da internet e suas ferramentas midiáti- cas, por pessoa de qualquer faixa etária, provoca sinais semelhantes aos apresentados pelos usuários de drogas, sendo caracterizado como a incapacidade de permanecer temporariamente sem esses aparelhos tecnológicos. Para a autora, a euforia ou alívio de curto prazo são riscos associados ao passar cada vez mais tempo nele, com igual ou maior prazer tido anteriormente, caso contrário o usuário fica ansioso e irritado (YOUNG, 2004).
sendo chamados de pedófilos, pornográficos ou exploradores sexuais (ESTEFENON; EISENSTEIN, 2008, p. 91).
Da mesma maneira, segundo Fogel e Nehmad (2008, p. 159), “aqueles que pos- tam informações sobre si mesmos em seus perfis de redes sociais, ficam mais confortáveis com os possíveis riscos desta informação ser vista por outros”19.
Carr (2011) descreve algumas características apresentadas por um usuário de mídias sociais com perfil viciado:
Preocupação excessiva com algum tema ligado à internet. Procura aumentar seu tempo online.
Apresenta irritabilidade ou depressão.
Mostra irritação quando o acesso é restringido.
Permanece navegando mais tempo do que o programado.
Coloca o trabalho, a família ou a amizade em risco pelo seu uso excessivo. Mente a respeito da quantidade de horas online.
Distraído;
Alteração na estrutura cerebral;
Perda da calma interior e do autocontrole; Influência na maneira de pensar e de agir;
O processo de reversão das pessoas mais influenciadas é penoso e lento, podendo ter recaídas no meio caminho, sendo, em alguns casos, irreversível este processo.
Seu uso intenso, no lazer, no trabalho ou na vida social, torna mais difícil o processo de reversão.
Há várias instituições Clinicas e Psicológicas, no Brasil e no mundo, que estudam e atendem os problemas relacionados ao vício no uso das mídias sociais. Como exemplos brasileiros, pode-se citar:
Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
(Disponível: <http://www5.usp.br/servicos/atendimento-psiquiatrico-sao-paulo/>) Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC- SP.
(Disponível: <http://www.pucsp.br/nppi/>)
Programa de Orientação e Atendimento ao Dependente (PROAD) da UFSP. (Disponível: <http://www.psiquiatria.unifesp.br/d/proad/proad/ />)
Em Porto Alegre, grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas. (Disponível: < http://dependenciadetecnologia.org/quem-somos/>).
Contextualizando o desenvolvimento biológico da dependência digital, Young (2004)20afirma que cada pessoa apresenta no cérebro um neurotransmissor que está relacionado a uma experiência de prazer, denominada de dopamina21. Esta sustância é
19 (Tradução nossa): “clearly those who are posting information about themselves on their social networking
profiles are more comfortable with the possible risks of their information being seen by others”.(FOGEL;
NEHMAD, 2008, p. 159).
20 PhD. Kimberly S. Young foi a primeira pesquisadora a observar o uso problemático da internet em 1996. 21Segundo o Dr. Ananya Mandal.A dopamina é um neurotransmissor. É um mensageiro químico que ajuda na
liberada de maneira espontânea, fazendo intensificar a necessidade e ansiedade de satisfação de prazer (YOUNG, 2004). Assim, por exemplo, o uso contínuo de drogas, álcool, sexo, comida, jogos de azar e até o mesmo exercício físico, podem liberar mais de 50% de dopamina nos cérebros. Conceitualmente, a dopamina é uma sustância química gerada pelo cérebro que negocia o grau de prazer numa determinada situação (OATES; SMITH; JOHNSON, 2012; NABUCO DE ABREU, 2009). Em essência, as pessoas tornam-se dependentes do intermitente e imprevisível fluxo de dopamina que passa a ser classicamente associado à substância ou ao comportamento que se utiliza. É aqui que a internet se encaixa (NABUCO DE ABREU, 2009, p. 170)22.
Pirocca (2012, p.24) sugere alguns motivos que levam usuários de mídias sociais a se tornarem dependentes digitais:
Socializar com pessoas com baixa autoestima, inquietas e solitárias. Interagir como anônimo, oportunizando situações antiéticas.
Liberar a sobrecarga de problemas pessoais ou eventos significativos (divórcio recente, transferência, morte).
Sentir a integração e aceitação numa comunidade determinada (falta de autoestima). Sentir sensações de conforto nas interações nas mídias sociais.
Escapar de sentimentos e emoções desagradáveis para conseguir conforto. Explorar conteúdos sexuais, procurando alívios aos sintomas depressivos.
As mulheres, com sentido mais romântico, procuram envolvimento em relacionamentos e parcerias. Esquecimento do estresse e da forte pressão, seja do trabalho ou dos estudos.
Fazer amizade e novos amigos ou intensificar relacionamentos.
Procura de satisfação virtual de necessidades insatisfeitas na realidade real.
Em relação aos motivos da dependência digital, Young (2011) afirma que isto depende da compulsividade que envolve a presença de tolerância, assim como o padrão de abstinência. Isto, de acordo com o autor, seria caracterizado como um estado maior de excitação, desconforto psicológico e fisiológico que usualmente acontece quando o usuário é separado da internet (altera humor e a consciência) (NABUCO DE ABREU; YOUNG, 2011).
animais, incluindo os vertebrados e invertebrados (NEWS MEDICAL, 2014) Disponível em < http://www.news- medical.net/health/Dopamine-Functions-(Portuguese).aspx >. Acesso em 24 de Fevereiro, 2014.
22Nabuco de Abreu é coordenador do Programa de dependentes de internet do Ambulatório Integrado dos
Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do instituto de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (NABUCO DE ABREU, 2009).