2. Winnicott diante do rosto materno
2.1. O viver inicialmente
Segundo Vieira (2010) Winnicott fundamenta – em contraste com Lacan – o rosto materno como matriz especular para o bebê. Mas de modo comparável a ele, associa o funcionamento especular a um modelo psíquico determinado por processos ilusórios, cuja presença da mãe suficientemente boa é essencial nessa fase inicial da vida, pois falar de um bebê é falar de sua mãe. Em Ansiedade associada à insegurança, Winnicott (1952/2000) rememora ter ficado alarmado por ter pronunciado, em outro momento, que “’isso que chamam de bebê não existe’” (p. 165), justificando-se que, ao mostrar-se um bebê, apresenta-se, junto, seu cuidador: vê-se, portanto, a “dupla amamentante” (p. 165).
Inicialmente o bebê não está preparado para perceber a existência de uma fronteira entre si e o meio ambiente, e isto ocorre, sobretudo, por não haver um self individual que possibilitaria a distinção entre o eu e o não-eu (WINNICOTT, 1990, apud VIEIRA, 2010).
61 Como citado na p. 21 (item 1.1.3.).
46 Haveria, nos primeiros seis meses de vida, um estado de total dependência do bebê em relação ao meio (representado pela mãe ou substituto, e denominada como a fase de dependência absoluta), dependendo do mundo que lhe é oferecido, ao mesmo tempo em que desconhece sua própria condição, pensando ser, ele e o meio, uma única coisa. Os processos de maturação do bebê poderão ocorrer existindo uma adaptação, da mãe, às necessidades de seu filho. (ARCANGIOLI, 1995).
Segundo Winnicott, em A Preocupação materna primária (1956), é dito com frequência que a mãe é biologicamente condicionada à tarefa de lidar com as necessidades de seu bebê, existindo, pois, uma identificação (com aspectos conscientes e inconscientes) da mãe com seu bebê. Ocorre, porém, uma distinção psicológica entre esta identificação e a dependência do bebê em relação a sua mãe, pois esta dependência não implica uma identificação – um processo complexo não compatível com os primeiros estágios do desenvolvimento do bebê.
Parece-me razoavelmente óbvio que aquilo de que o bebê necessita é, antes de mais nada, da capacidade da mãe de dispensar atenção plena. Introduzi, neste caso, a palavra devoção sob risco, porque existem pessoas que associam essa palavra a sentimentalismo (WINNICOTT, 2005, p. 172).
A tese do psicanalista inglês é a de que, na primeira de todas as fases, a mãe apresentaria um estado muito especial, denominado de preocupação materna primária – condição psiquiátrica pouco valorizada na literatura, conforme o autor. Alguns pontos são indicados sobre este estado, como o de uma sensibilidade exacerbada durante e ao final da gravidez; duração de algumas semanas após o nascimento; dificuldade posterior de recordação pela mãe (tal memória é, possivelmente, reprimida). Todos estes aspectos poderiam sugerir uma doença caso a gravidez não estivesse presente, e a mulher deve ter saúde não só para desenvolver este estado de “doença normal”, porém para recuperar-se dele – à medida que o bebê a libera.
Nem todas as mulheres, contudo, conseguem adquirir esta disponibilidade que as adaptam, sensível e delicadamente, às necessidades de seus filhos já nos primeiros momentos, não conseguindo desprenderem-se dos outros interesses. As que contraem esta condição proporcionam ao bebê um contexto para constituir-se, experimentando movimentos espontâneos e, aos poucos, tornando-se dono das sensações condizentes a esta etapa de sua vida.
47 Em 1945, em Desenvolvimento emocional primitivo, Winnicott aponta a frequência com que foi observada uma mudança ocorrida nos bebês entre os cinco e os seis meses de idade, a qual lhe permitiu discorrer sobre o desenvolvimento emocional
“em termos que podem ser aplicados aos seres humanos em geral” (p. 221). O autor comenta que também Anna Freud e Bowlby abordaram este momento – de modos distintos –, mas que ele próprio já havia percebido que somente aos seis meses o bebê joga com um objeto anteriormente apenas agarrado e levado à boca (como faz aos cinco meses), referindo-se ao jogo da espátula (WINNICOTT, 1941/2000).
Pode-se dizer que nesse estágio o bebê já é capaz de mostrar, através de seu brincar, que ele compreende que tem um interior, e que as coisas vêm do exterior. Ele mostra que sabe que está enriquecendo com as coisas por ele incorporadas (física e psiquicamente) (WINNICOTT, 1945/2000, p. 221).
No mesmo texto, Winnicott aponta que o desenvolvimento emocional primitivo é importante, inclusive porque será neste período que se encontrarão os indícios para compreensão da psicose – ponto de semelhança com Jacques Lacan, o qual tem na psicose uma referência para os processos psíquicos primitivos. Trata-se de um momento anterior ao reconhecimento de si e dos outros como pessoas inteiras.
O autor indica três processos muito precoces: integração, personalização e realização. A integração, desencadeada imediatamente após o início da vida, é uma tendência ajudada por dois conjuntos de experiências, as que envolvem o handling (segurar o bebê, dar-lhe banho etc) e as instintivas, que buscam aglutinar a personalidade desde dentro.
Na vida normal do bebê ocorrem longos períodos de tempo nos quais o bebê não se importa em ser uma porção de pedacinhos ou um único ser, nem se ele vive no rosto da mãe ou em seu próprio corpo, desde que de tempos em tempos ele se torne uno e sinta alguma coisa (p. 224, grifo nosso).
Mas se a integração apresenta um caráter inato, enquanto uma tendência biológica, é certo que somente por meio de um ambiente favorável ao desenvolvimento que ela poderá ser alcançada, sendo que o cuidado físico desempenhado no estágio inicial é um cuidado psicológico (WINNICOTT, 1990, apud VIEIRA, 2010). Reunindo, portanto, experiências nos encontros e desencontros com o ambiente, aos poucos ocorre uma relação entre soma e psique: psicossoma (VIEIRA, 2010). Se no início, para o
48 desenvolvimento saudável desse psicossoma o ambiente necessita ser perfeito, sendo uma necessidade absoluta, aos poucos esta se torna relativa (WINNICOTT, 1949).
Discorrendo sobre o mesmo processo de integração em 1962, em A integração do ego no desenvolvimento da criança, Winnicott caminha dizendo que o desenvolvimento do ego62 é caracterizado por diversas tendências, sendo a principal, em seu processo de maturação, a integração; o ego baseia-se em um ego corporal e, somente quando tudo ocorre bem, é que a pessoa do bebê inicia um relacionamento com o corpo e suas funções (processo de personalização, sendo a despersonalização a perda da união entre o ego e o corpo); o ego inicia as relações objetais:
Com cuidado materno suficientemente bom de início, o bebê não está sujeito a satisfações instintivas a não ser quando há participação do ego. Neste aspecto, não é tanto uma questão de gratificar o bebê como de lhe permitir descobrir e se adaptar por si mesmo ao objeto (seio, mamadeira, leite etc) (WINNICOTT, 1962/1983, p. 58).
Neste mesmo texto, porém, o autor relata que a integração está relacionada com o cuidado (holding); a personalização, com o manejo (handling) – conceitos que examinaremos adiante – e as relações objetais, com a apresentação de objetos.
No que concerne a uma origem da integração, acrescenta:
É conveniente cogitar de que material emerge a integração em termos de elementos sensoriais e motores, a base do narcisismo primário. Isto levaria à tendência ao sentido existencial. Outra linguagem pode ser usada para descrever esta parte obscura do processo maturativo, mas os rudimentos de uma elaboração imaginária de exclusivo funcionamento do corpo devem ser pressupostos se se pretende afirmar que este novo ser humano começou a existir e começou a adquirir experiências que podem ser consideradas pessoais (p. 59, grifo nosso).
Isto tenderia ao estabelecimento de um self unitário63, ressaltando que os acontecimentos deste estágio precoce dependem da proteção do ego assegurada pela mãe. Esta proteção propicia ao bebê “construir uma personalidade no padrão da continuidade existencial” (p. 59). A fragmentação do ser, ao contrário, seria acarretada
62 Winicott preserva a utilização do termo latino, conforme a tradução realizada por seu analista, James Strachey, e comentada melhor adiante.
63 No início deste texto, Winnicott (1962/1983) aponta que o conceito de self não será trabalhado neste capítulo, apesar de constantemente o autor oscilar entre os termos eu, ego e self. Optamos por seguir os termos empregados pelo autor – conforme estão indicados nas traduções utilizadas –, sendo que discorreremos adiante sobre a distinção entre tais vocábulos.
49 pelas falhas que produzem a ansiedade inimaginável e que geram uma reação de ruptura de continuidade na criança.
A integração está intimamente ligada à função ambiental de segurança. A conquista da integração se baseia na unidade. Primeiro vem o ‘eu’64 que inclui ‘todo o resto é não-eu’. Então vem ‘eu sou, eu existo, adquiro experiências, enriqueço-me e tenho uma interação introjetiva e projetiva com o não-eu, o mundo real da realidade compartilhada’. Acrescenta-se a isso:
‘Meu existir é visto e compreendido por alguém’; e ainda mais: ‘É me devolvida (como uma face refletida em um espelho) a evidência de que necessito de ter sido percebido como existente’ (p. 60, grifo nosso).
Nesta proposição, Winnicott sinaliza que esta existência deve ser devolvida por um outro (mãe), em um espelho (rosto da mãe) e antecipa, assim, o que será trabalhado cinco anos mais tarde (em seu texto de 1967): que a assunção do self implica um reconhecimento do outro e pelo outro (mãe) sobre o bebê em formação. Comentaremos melhor adiante.
No que concerne à personalização satisfatória, esta seria o sentimento de estar dentro do corpo próprio, também construído pelas experiências, tanto instintivas quanto de cuidado físico. Percebe-se neste processo uma conquista realizada pelo bebê, não sendo uma consciência que acompanha, naturalmente, o organismo. Esta localização de viver em seu próprio corpo é alcançada gradativamente, como resultado das marcas deixadas anteriormente, do período em que sua existência foi sustentada por sua mãe (VIEIRA, 2010).
Em Desenvolvimento emocional primitivo (1945), é dito que especialmente no início, a mãe é de fundamental importância, executando, inclusive, a tarefa de apresentar ao seu bebê um recorte do mundo mais simplificado, que ele passa a conhecer por meio dela. A realização, por sua vez – indicada como a apreciação dos aspectos da realidade, inclusive o tempo e o espaço – refere-se à “tomada de consciência de que a coisa ou fenômeno em questão não é produzido pela própria imaginação” (p. 223). O bebê, assim, percebe a existência como algo para além de si mesmo, perdendo o controle onipotente sobre o objeto (VIEIRA, 2010).
Em A Preocupação materna primária (1956), discorre-se que uma mãe suficientemente boa – aquela que, ao identificar-se com seu bebê, é capaz de
64 Na edição em inglês, constata-se o emprego do pronome da primeira pessoa do singular “I”
(WINNICOTT, 1962/1965).
50 corresponder às necessidades deste, de modo suficiente – permite ao seu filho a possibilidade de um “continuar a ser” (p. 403), sendo pouco perturbado por reações de intrusão, as quais provocam uma ansiedade muito primitiva: a ameaça de aniquilação.
Segundo o autor, este sentimento de “continuar a ser” será a base para o estabelecimento do ego do bebê.
Somente no caso de a mãe estar sensível do modo como descrevi poderá ela sentir-se no lugar do bebê, e assim corresponder às suas necessidades. A princípio trata-se de necessidades corporais, que gradualmente transformam-se em necessidades do ego à medida que da elaboração imaginativa das experiências físicas emerge uma psicologia (p. 403).
Neste mesmo artigo, Winnicott aponta que dessa indissociação do ego entre a mãe e o seu bebê a mãe se recupera e, assim, o bebê passa a construir, de modo positivo, a ideia de que a mãe é uma pessoa diferente dele. Em contraste, “a falha da mãe em adaptar-se na fase mais primitiva não leva a coisa alguma, salvo à aniquilação do eu65 do bebê” (WINNICOTT, 1956/2000, p. 403).
A constituição inicial do ego é silenciosa e sua primeira organização origina-se das experiências de ansiedade primitiva que não se cumprem, fazendo com que o bebê se recupere e esta confiança de recuperação transforma-se em uma capacidade do ego de suportar frustrações (WINNICOTT, 1956/2000). Neste estágio, o bebê relatado é um ser imaturo a ponto de sofrer de uma ansiedade inimaginável66, e esta é evitada pela mãe nessa capacidade de colocar-se no lugar de seu bebê e, dessa forma, descobrir o que este necessita no cuidado geral de seu corpo e, consequentemente, de sua pessoa (WINNICOTT, 1962/1983). Também neste momento precoce, a mãe é tida como parte da criança, não havendo fator externo. Esta ansiedade apresenta poucas variedades, mas cada uma aponta um aspecto no desenvolvimento emocional; mais ainda, é a essência das ansiedades psicóticas, a saber: desintegração; cair para sempre; não ter conexão alguma com o corpo; carecer de orientação (WINNICOTT, 1962/1983). Prover um ambiente suficientemente bom desde muito precocemente é propiciar ao bebê a oportunidade de começar a existir, constituir um ego pessoal, ter experiências e enfrentar os desafios inerentes à vida (WINNICOTT, 1956/2000).
65 Trata-se, conforme da edição em inglês consultada, do “self” (WINNICOTT, 1956/1975, p. 304).
66 Na edição em inglês consultada, entretanto, o autor utiliza a expressão “unthinkable anxiety”
(WINNICOTT, 1962/1965, p. 56), ou seja, trata-se de uma ansiedade sem imagem e “impensável”. Mas o termo “inimaginável” é empregado na edição brasileira utilizada.
51 De acordo com Winnicott, em A integração do ego no desenvolvimento da criança (1962), a palavra “ego” pode ser utilizada “para descrever a parte da personalidade que tende, sob condições favoráveis, a se integrar em uma unidade” (p.
55). Essa unidade é, inclusive, a organização das funções do id, sendo possível falar-se em id se um ego pré-existe, pois “não há id antes do ego” (p. 55). E mais, só é passível de sentido utilizar a palavra id para acontecimentos que são registrados e vivenciados pelo funcionamento do ego. O autor também aponta que o estudo do “ego” é anterior à relevância da palavra “self”.
A partir disso, o psicanalista revela que não se trata de questionar-se se há um ego desde o início, mas sim, de afirmar-se “que o início está no momento em que o ego inicia” (p. 56). A existência de um ego fraco ou forte dependerá da mãe e de sua disponibilidade e capacidade para satisfazer as necessidades de seu bebê – sua dependência absoluta –, neste momento anterior à separação mãe-self. Trata-se, portanto, de assumir sua tarefa única: o cuidado.
Tal tarefa é possibilitada pela capacidade do bebê em se relacionar com objetos subjetivos, quando a função de ego auxiliar – exercido pela mãe – está em execução. O bebê “mantém áreas de objetos subjetivos juntamente com outras que há algum relacionamento com objetos percebidos objetivamente” (p. 56), ou seja, com objetos
“não-eu”, atingindo algumas vezes, assim, o princípio de realidade.
As noções de não integração, integração (trabalhada acima) e desintegração são importantes na teoria winnicottiana. A não integração é um estado que começa dentro do útero, caracterizado por uma ausência de globalidade (tempo-espaço) e de consciência, experimentado, pelo bebê, em seus estados não excitados (WINNICOTT, 1990, apud VIEIRA, 2010).
A desintegração, por sua vez, refere-se a um estado quando há a perda da integração, sendo esta uma defesa bastante sofisticada do indivíduo que, apesar de ser caótica, é vantajosa por ser uma produção do próprio bebê – diferentemente do caos/instabilidade do meio. É, portanto,
uma defesa que é produção ativa do caos contra a não-integração na ausência de auxílio ao ego por parte da mãe, isto é, contra a ansiedade inimaginável ou arcaica resultante da falta de segurança no estágio de dependência absoluta (WINNICOTT, 1962/1983, p. 60).
52 Estabelecidas, contudo, as condições favoráveis, o autor indica que a pele se torna o limite entre o eu e o não-eu, ou seja, a psique passa a viver dentro do soma, uma vida psicossomática se instaura no indivíduo e se estabelece o estágio do “EU SOU” (p.
60).
Será em 1958, em A capacidade de estar só, que Winnicott alegará ser esta habilidade um dos vestígios mais significativos do amadurecimento, no que concerne ao desenvolvimento emocional. Esta capacidade, porém, surge da experiência do bebê de ficar só, mas na presença da mãe, sendo sua base, desta forma, um paradoxo, pois “é a capacidade de ficar só quando mais alguém está presente” (p. 32). Em outras palavras – e agora o autor diz fazer referência à Melanie Klein – esta capacidade de estar só dependeria da existência de um objeto bom na realidade psíquica do lactente (um objeto interno).
Relacionar-se com este objeto interno o torna capaz de descansar, contente, mesmo na ausência de estímulos externos. Assim:
Maturidade e capacidade de ficar só significam que o indivíduo teve oportunidade através da maternidade suficientemente boa de construir uma crença num ambiente benigno. Essa crença se constrói através da repetição de gratificações instintivas satisfatórias (p. 34).
Presume-se, neste período, uma maturidade egoica e, portanto, o indivíduo integrado em uma unidade, visto que já se marca um papel de uma fantasia interior, em contraste ao que é externo. Considera-se, assim, que a base da experiência de ficar só encontra-se nos estágios precoces do desenvolvimento e conta com a presença do outro, em um período “quando a imaturidade do ego é naturalmente compensada pelo apoio do ego da mãe” (p. 34).
Winnicott (1958/1983), por fim, ainda em A capacidade para estar só, discorrendo sobre a expressão “eu estou só”, enfatiza que se utilizar da palavra “eu”
implica um crescimento emocional e indica o estabelecimento de uma unidade e “uma afirmação topográfica da personalidade como um ser, como a organização do núcleo do ego” (pp. 34 – 35). Atingir o estágio do “eu sou” requer um suporte realizado por um meio que é protetor, que está orientado para as necessidades do ego infantil, por meio da identificação com o próprio infante. Logo, “eu estou só”, significa uma percepção da criança da continuidade de sua mãe, cuja disponibilidade e consistência proporcionam à criança sentir prazer em estar só, em alguns momentos; e estando nesta solidão
53 compartilhada, o bebê pode descobrir sua vida pessoal que lhe é própria, cena “armada para uma experiência do id” (p. 36).