O Ministro Gilmar Mendes – assim como o Ministro (Relator) Ayres Britto – recebeu a ADPF n.º 132-RJ como ADI, nos termos do pedido subsidiário formulado na ADPF175. Também como o Ministro (Relator) Ayres Britto, Gilmar Men- des conheceu parcialmente da ADI (originariamente ADPF n.º 132-RJ), (somente) na parte em que se requereu a “interpreta- ção conforme” do art. 1.723 do Código Civil176
, uma vez que a Lei Estadual n.º 5.034/2007 (já) “dispôs sobre os temas conti-
172 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 119. 173
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 119. 174
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 119-120. 175
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 146. 176
Trata-se, pois, em última análise, do mesmo pedido formulado na ADI n.º 4.277- DF, que foi julgada conjuntamente (com a ADPF n.º 132-RJ) no Supremo Tribunal Federal.
dos nos pedidos relacionados aos dispositivos do Decreto-Lei 220/75 do Estado do Rio de Janeiro”177
.
O Ministro analisou, inicialmente, a possibilidade e os limites de uma interpretação conforme a Constituição “no pre- sente caso”178. Em “tópico” próprio – o número “2” do voto179 –, Gilmar Mendes mencionou – no que interessa ao presente
trabalho – (1) que se deve “refletir muito sobre as consequên-
cias normativas de uma decisão de interpretação conforme à Constituição do art. 1.723 do Código Civil”180; (2) que “a pos-
sibilidade da interpretação conforme que se convola numa verdadeira decisão manipulativa de efeitos aditivos181 182 não mais constitui um fator de constrangimento ou de estímulo ao
self restraint, por parte do Supremo Tribunal Federal”183; (3) “que o texto do [art. 1.723 do] Código Civil reproduz, em li- nhas básicas, aquilo que consta do [art. 226, parágrafo 3º, do] texto constitucional”184; (4) “que se trata [...] de uma interpre- tação conforme com muita peculiaridade”185; (5) que “não há
177 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 146. 178
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 146. 179
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 146-161. 180
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 154. 181
As decisões manipulativas são os pronunciamentos judiciais em que os órgãos de fiscalização da constitucionalidade não se limitam a reconhecer a inconstitucionali- dade das normas que lhe são submetidas, mas, livrando-se do dogma kelseniano do legislador negativo, modificam diretamente o ordenamento jurídico, adicionando-lhe – no caso das “sentenças aditivas” – ou substituindo-lhe – no caso das “sentenças substitutivas” – normas, com o objetivo de adequá-lo à Constituição. As “sentenças aditivas” – ou decisões manipulativas de efeitos aditivos –, são aquelas em que o Poder Judiciário declara a inconstitucionalidade de um preceito, na parte em que não expressa determinada norma, alargando-se o texto de lei ou seu âmbito de incidên- cia.
182
Ver TASCHETTO, Fernando Maicon Prado. As decisões manipulativas de efei- tos aditivos e de efeitos substitutivos no controle de constitucionalidade: a experiên- cia brasileira à luz da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. 2013. 125 f. Monografia (Especialização em Direito Constitucional Aplicado) – Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus, Santa Maria, 2013.
183
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 158. [grifo do autor] 184
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 158. 185
nenhuma dúvida quanto àquilo que o legislador quis dizer [no art. 1.723 do Código Civil], na linha daquilo que tinha positi- vado o constituinte [no art. 226, parágrafo 3º]”186
; (6) que o texto, em si mesmo, não exclui a “possibilidade de se reconhe- cer a união estável entre pessoas do mesmo sexo, não com base
no texto legal (art. 1.723 do Código Civil), nem na norma constitucional (art. 226, § 3º), mas com suporte em outros
princípios constitucionais”187
; e (7) que, in casu, “o único ar- gumento forte a justificar [...] a interpretação conforme à Cons- tituição é o fato de o dispositivo do Código Civil estar sendo invocado para impossibilitar o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo”188
.
Depois de discorrer (minuciosamente) sobre a interpre- tação conforme a Constituição, o Ministro passou a analisar – no “tópico” “3” do voto189
– a legitimidade constitucional do reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo e a “possibilidade de aplicação analógica do regime da união está- vel entre homem e mulher, diante da ausência de um modelo institucional mínimo de proteção da união homoafetiva”190. Gilmar Mendes destacou (1) – assim como o Ministro Luiz Fux – que a existência de uniões entre pessoas do mesmo sexo é “um fato da vida”191
; (2) – assim como os Ministros Luiz Fux e Ricardo Lewandowski – que, segundo os dados do “Censo 2010” do IBGE, existem 60.002 casais homossexuais vivendo juntos no Brasil192; (3) que, no entanto, os dados do “Censo 2010” do IBGE não refletem a realidade, “em razão da discri- minação, da falta de um modelo institucional, de autoconven- ção e de autoproteção dessas pessoas”193; (4) que não existe, no
186
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 159.
187 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 159. [grifo do autor] 188
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 159. 189
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 161-181. 190
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 161. 191
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 161. [grifo do autor] 192
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 161. 193
Brasil, regulamentação normativa específica sobre a união en- tre pessoas do mesmo sexo194; (5) que o Poder Judiciário, ou negava validade (jurídica) à união entre pessoas do mesmo sexo – por impossibilidade jurídica do pedido –, ou reconhecia a relação como sociedade de fato, ou, ainda, reconhecia a união homoafetiva como entidade familiar, equiparada, no que cou- besse, à união estável195; (6) no “subtópico” “3.1”196, a “con- trovérsia política e a ausência de uma deliberação consensual do Congresso”197 Nacional sobre a união entre pessoas do mesmo sexo; (7) no “subtópico” “3.2”198, que o “Direito Com- parado evidencia a necessidade de aprofundado debate e refle- xão social”199
no que se refere à união homoafetiva; (8) no “subtópico” “3.3”200, o “reconhecimento da união homoafetiva como afirmação de direitos de minorias”201; e (9) no “subtópi- co” “3.4”202, a “insuficiente proteção [à união entre pessoas do mesmo sexo] decorrente da atuação administrativa regulamen- tar”203
.
O Ministro – no “subtópico” “3.1” – citou diversas pro- posições legislativas que foram apresentadas no Congresso Nacional sobre o assunto (da união entre pessoas do mesmo sexo)204. Gilmar Mendes – assim como o Ministro Joaquim Barbosa – mencionou o Projeto de Lei n.º 1.151/1995205, de
194
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 161-162. 195
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 162. 196
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 163-168. 197
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 163. 198
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168-171. 199
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 200
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 171-175. 201
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 171. 202 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 175-181. 203
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 175. 204
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 163. 205
Ver BRASIL. Projeto de Lei n.º 1.151, de 26 de outubro de 1995. Câmara dos
Deputados. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1632 9>. Acesso em: 12 jul. 2013.
autoria da ex-Deputada Marta Suplicy, que “visava a regula- mentar a união civil entre pessoas do mesmo sexo”206
, a fim de garantir os “direitos à propriedade, à sucessão, à equiparação ao cônjuge do companheiro ou companheira de mesmo sexo que [...] [comprovasse] a união estável como entidade familiar, entre outros direitos”207
.
No entanto, conforme o Ministro, o Projeto de Lei n.º 1.151/1995 “sofreu ataques na Câmara dos Deputados e, em razão de acordo entre os líderes partidários, foi [...] [retirado] de pauta em 31 de maio de 2001, e, posteriormente, [...] [arqui- vado]”208
. Gilmar Mendes trouxe, entre outros, (1) a Proposta de Emenda à Constituição n.º 70/2003209, de autoria do ex- Senador Sérgio Cabral (e de outros Senadores), que alterava o art. 226, parágrafo 3º, da Constituição Federal, “para nele in- cluir-se a possibilidade de reconhecimento de união estável entre casais homossexuais como entidade familiar”210
; (2) o Projeto de Lei n.º 6.297/2005211, de autoria do ex-Deputado Maurício Rands, que “visa a incluir na situação jurídica de de- pendente, para fins previdenciários, o companheiro ou a com- panheira homossexual do segurado ou [da] segurada do INSS, bem como os companheiros ou [as] companheiras de servido- res públicos civis da União”212
; (3) o Projeto de Lei n.º 2.285/2007213, de autoria do Deputado Sérgio Barradas Carnei-
206
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 163. 207
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 163. 208
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 164. 209
Ver BRASIL. Proposta de Emenda à Constituição n.º 70, de 02 de setembro de
2003. Senado Federal. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=61093>. Acesso em: 12 jul. 2013.
210 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 164. 211
Ver BRASIL. Projeto de Lei n.º 6.297, de 30 de novembro de 2005. Câmara dos
Deputados. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=3083 73>. Acesso em: 12 jul. 2013.
212
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 164-165. 213
ro, que “reconhece como entidade familiar a união homoafetiva e assegura aos parceiros direitos à guarda e à convivência com filhos, [direito] à adoção de filhos, direitos previdenciários e [direito] à herança”214
; (4) o Projeto de Lei n.º 4.508/2008215, de autoria do ex-Deputado Olavo Calheiros, que proíbe a ado- ção por homossexuais216; e (5) o Projeto de Lei n.º 4.914/2009217, “de autoria conjunta de vários deputados e de- putadas, [...] [que] acrescenta o art. 1.727-A ao Código Civil para aplicar às uniões homoafetivas o regramento das uniões estáveis ordinárias, excetuando-se a conversão em casamen- to”218
.
O Ministro – ainda no “subtópico” “3.1” – citou tam- bém algumas leis estaduais e municipais que tratam “dos efei- tos do reconhecimento jurídico da união homoafetiva”219, co- mo, por exemplo a Lei Estadual n.º 5.034/2007, do Estado do Rio de Janeiro220 – já mencionada pelo Ministro (Relator) Ayres Britto e diretamente relacionada com o julgamento da ADPF n.º 132-RJ –, ou “que determinam a aplicação de san- ções por práticas discriminatórias adotadas em razão de orien- tação sexual”221
. De acordo com Gilmar Mendes, pode-se cons- tatar, pois, a partir “das proposições normativas e dos debates
Deputados. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=3739 35>. Acesso em: 12 jul. 2013.
214
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 165. 215
Ver BRASIL. Projeto de Lei n.º 4.508, de 16 de dezembro de 2008. Câmara dos
Deputados. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=4209 40>. Acesso em: 12 jul. 2013.
216
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 165. 217
Ver BRASIL. Projeto de Lei n.º 4.914, de 25 de março de 2009. Câmara dos
Deputados. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=4276 92>. Acesso em: 12 jul. 2013.
218
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 165. 219
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 166. 220
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 166. 221
travados no Parlamento”222
sobre o assunto,
que parece haver maior consenso relativamente a alguns te- mas, tais como os efeitos previdenciários da união homoafeti- va, ao passo que outros assuntos são bastante controvertidos (como é o caso da adoção de crianças por casais homoafeti- vos).223
No “subtópico” “3.2”, o Ministro concentrou-se na aná- lise do Direito Comparado224. Conforme Fábio de Oliveira Vargas, citado por Gilmar Mendes, “os países podem ser clas- sificados em três grupos, de acordo com o tratamento jurídico concedido ao comportamento homossexual”225
. Existem (1) os
Estados repressores, “que proíbem e punem o homossexualis-
mo”226
– em alguns deles, “as relações sexuais entre homens são, inclusive, punidas com pena de morte”227
–; (2) os Estados
indiferentes, que não criminalizam, mas (também) não criam
medidas favoráveis ao homossexualismo228; e (3) os Estados
avançados, “que possuem medidas para [a] proteção da popu-
lação homossexual”229 .
De acordo com o Ministro, o relacionamento entre pes- soas do mesmo sexo pode, no âmbito internacional, (1) “rece- ber, normativamente, a mesma proteção concedida ao casa- mento tradicional”230 – como na Holanda (desde 2001), na Bélgica (desde 2003), na África do Sul (desde 2006) e na Ar- gentina (desde 2010)231 232 –, ou (2) “ser assemelhado ao que,
222
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 167. 223
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 167. 224
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 225
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 226
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 227
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 228
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 229 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 168. 230
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 169. 231
Ver SEVERO, Felipe. Casamento civil igualitário: um debate inadiável. Revista o Viés, Santa Maria, n. 160, 27 de abril de 2013. Disponível em: <http://www.revistaovies.com/reportagens/2013/04/casamento-civil-igualitario-um- debate-inadiavel/>. Acesso em: 17 maio 2013.
232
no Brasil, denomina-se união estável”233 – como na Inglaterra (com as “parcerias civis”), nos países da Escandinávia (com as “parcerias registradas”) e nos Estados Unidos e em alguns paí- ses da Europa (com as “parcerias domésticas”)234
. Depois de mencionar os exemplos da Dinamarca, da Holanda e da Ale- manha235, Gilmar Mendes concluiu
que o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo é assunto complexo, que gera diversas discussões e reflexões
[...]. Não apenas antes da edição da norma regulamentadora,
que costuma demandar prazo considerável de amadurecimen- to, mas também após sua entrada em vigor.236
O Ministro – (já) no “subtópico” “3.3” – destacou que o reconhecimento do direito de minorias – in casu, dos homosse- xuais – não se confunde com excesso de intervenção judici- al237. Conforme Gilmar Mendes, “não se trata de ativismo ju-
dicial, mas de cumprimento da própria essência da jurisdição constitucional”238.
O Ministro, então, passou a discorrer sobre o “direito que cada indivíduo tem de autodesenvolvimento (Selbstentfal-
tungsrecht)”239, com base no art. 2 (1) da Lei Fundamental da República Federal da Alemanha240, – e (também) sobre o dever de proteção (correspondente ao direito mencionado) que tem o Estado241. De acordo com Gilmar Mendes, o “direito ao livre
233
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 169. 234
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 169. 235
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 169-171. 236
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 171. [grifo do autor] 237
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 171. 238
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 171-172. [grifo do autor] 239
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. [grifo do autor] 240
“Artigo 2 [Direitos de liberdade] (1) Todos têm o direito ao livre desenvolvimen- to da sua personalidade, desde que não violem os direitos de outros e não atentem contra a ordem constitucional ou a lei moral.”
(ALEMANHA. Constituição (1949). Lei Fundamental da República Federal da
Alemanha. Disponível em:
<http://www.brasil.diplo.de/contentblob/3160404/Daten/1330556/Gundgesetz_pt.pd f>. Acesso em: 16 jul. 2013.)
241
desenvolvimento da personalidade do indivíduo” pode ser identificado (também) no ordenamento jurídico brasileiro, a partir (1) dos “fundamentos da cidadania e da dignidade da pessoa humana”242
(art. 1º, incisos II243 e III, Constituição Fe- deral); (2) dos “objetivos fundamentais de se construir uma sociedade livre, justa e solidária e de se promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”244
(art. 3º, incisos I245 e IV, Constituição Federal); (3) da “prevalência dos direi- tos humanos”246
(art. 4º, inciso II, Constituição Federal247); (4) da “igualdade de todos perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantida a inviolabilidade do direito à liberdade e à igualdade”248
(art. 5º, caput, Constituição Federal); (5) da “pu- nição a qualquer discriminação atentatória dos direitos e liber- dades fundamentais”249
(art. 5º, inciso XLI, Constituição Fede-
242
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. 243
“Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [...] II - a cidadania;”
(BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 21 jun. 2013.)
244
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. 245
“Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;”
(BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 21 jun. 2013.)
246
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. 247
“Art. 4º. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacio- nais pelos seguintes princípios: [...] II - prevalência dos direitos humanos;”
(BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 21 jun. 2013.)
248
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. 249
ral250); (6) da “aplicabilidade imediata dos direitos fundamen- tais”251
(art. 5º, parágrafo 1º, Constituição Federal); e (7) da “não exclusão de outros direitos e garantias decorrentes do re- gime constitucional e dos princípios [...] adotados [pela Consti- tuição] ou incorporados por tratados internacionais”252
(art. 5º, parágrafo 2º, Constituição Federal253).
O reconhecimento (constitucional) da união entre pes- soas do mesmo sexo é, pois, conforme o Ministro, a “concreti- zação do direito de liberdade – no sentido de exercício de uma liberdade fundamental, de livre desenvolvimento da personali- dade do indivíduo”254
. Para Gilmar Mendes, existem, in casu,
outros fundamentos e direitos envolvidos, [...] que justificam e justificariam a criação de um modelo de proteção jurídica para [...] [as] relações existentes [entre pessoas do mesmo se-
xo], com base no princípio da igualdade, no princípio da li-
berdade [...] de autodesenvolvimento e no princípio da não discriminação por razão de opção sexual.255
No “subtópico” “3.4”, o Ministro tratou, por sua vez, da “atuação administrativa regulamentar” relacionada com o reco- nhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo256. Gilmar Mendes citou, entre outros, (1) a Portaria MPS n.º 513, de 09
250
“Art. 5º. [...] XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;”
(BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 21 jun. 2013.)
251
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. 252
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 172. 253
“Art. 5º. [...] § 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não exclu- em outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.”
(BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 21 jun. 2013.)
254
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 173. 255
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 174. [grifo do autor] 256
de dezembro de 2010257258 – já mencionada pelo Ministro Luiz Fux –; (2) a Súmula Normativa n.º 12, de 04 de maio de 2010, da Agência Nacional de Saúde Suplementar259 260; (3) o Pare- cer PGFN/CAT n.º 1.503, de 19 de julho de 2010261 262 – (tam- bém) já referido pelo Ministro Luiz Fux –; e (4) a Resolução Normativa n.º 77, de 29 de janeiro de 2008, do Conselho Naci- onal de Imigração263264.
O Ministro mencionou também – ainda no “subtópico” “3.4” – o Recurso Especial Eleitoral n.º 24.564 – Pará265, “em
257
Ver MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. Portaria MPS n.º 513, de 09
de dezembro de 2010. Sislex. Disponível em:
<http://www3.dataprev.gov.br/sislex/index.asp>. Acesso em: 03 jul. 2013. 258
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 175-176. 259
“1 - Para fins de aplicação à legislação de saúde suplementar, entende-se por companheiro de
beneficiário titular de plano privado de assistência à saúde pessoa do sexo oposto ou do mesmo sexo.”
(AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Súmula Normativa n.º 12,
de 04 de maio de 2010. Disponível em:
<http://www.ans.gov.br/index2.php?option=com_legislacao&view=legislacao&task =PDFAtualizado&format=raw&id=70>. Acesso em: 16 jul. 2013.)
260
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 176. 261
Ver COORDENAÇÃO-GERAL DE ASSUNTOS TRIBUTÁRIOS. Requerimen- to administrativo de servidora federal para inclusão de dependente homoafetiva para efeitos fiscais. Legitimidade do pleito. Falta de vedação legal ou constitucional. Princípios da não discriminação e dignidade da pessoa humana. Parecer PGFN/CAT n.º 1.503, de 19 de julho de 2010. Relator: Rodrigo Pirajá Wienskoski. Disponível em: <http://www.pgfn.fazenda.gov.br/arquivos-de-noticias/Parecer%201503- 2010.doc>. Acesso em: 03 jul. 2013.
262
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 176. 263
A Resolução Normativa n.º 77, de 29 de janeiro de 2008, do Conselho Nacional de Imigração dispõe, entre outros assuntos, “sobre critérios para a concessão de visto temporário ou permanente, ou de autorização de permanência, ao companheiro ou companheira, em união estável, sem distinção de sexo”.
(CONSELHO NACIONAL DE IMIGRAÇÃO. Resolução Normativa n.º 77, de 29
de janeiro de 2008. Disponível em:
<http://portal.mte.gov.br/data/files/FF8080812BA5F4B7012BA740F90470DD/rn_2 0080129_77.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2013.)
264
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição... p. 177. 265
“REGISTRO DE CANDIDATO. CANDIDATA AO CARGO DE PREFEITO. RELAÇÃO ESTÁVEL HOMOSSEXUAL COM A PREFEITA REELEITA DO MUNICÍPIO. INELEGIBILIDADE. ART. 14, § 7º, DA CONSTITUIÇÃO FEDE-
que se reconheceu a relação homoafetiva, a fim de declarar-se a inelegibilidade reflexa de pré-candidata ao cargo de prefeito, que mantinha relação de convivência com a prefeita reeleita do Município de Viseu/PA”266
. De acordo com Gilmar Mendes, as decisões judiciais sobre o assunto – como a citada – impulsio- naram “a aceitação social e a proteção jurídica [...] [das] rela- ções [entre pessoas do mesmo sexo], que já não podem ser ne- gadas”267
.
No “tópico” seguinte – o número “4” do voto268
–, Gil- mar Mendes enfrentou “o problema das lacunas valorativas ou
axiológicas e a ideia da aplicação do pensamento do possí- vel”269. O Ministro destacou – no que interessa ao presente
trabalho – (1) que, “diante de um texto constitucional aberto,
que exige novas aplicações”270
, podem surgir lacunas – às ve- zes, lacunas valorativas ou axiológicas271; (2) que se não é pos- sível aplicar uma norma “tal como ela está posta, [...] [pode-se]
fazê-lo numa perspectiva estritamente analógica, aplicando-a naquilo que [...] [couber], naquilo que [...] [for] possível”272;