Não é possível estudar o comunismo sem levar em consideração o seu contexto mundial. Não é possível estudar o PCB sem levar em conta as suas relações com o PCUS e outros partidos comunistas do mundo. As mudanças ocorridas no PCB compõem apenas um capítulo da história do comunismo. O foco desta pesquisa são as mudanças ocorridas no Brasil e optou-se, assim, por estudar a relação entre as mudanças do PCB com apenas dois dos partidos comunistas: o Partido Comunista Francês (PCF)27 e o Partido Comunista Italiano (PCI)28. Isso porque esses dois partidos tiveram vínculo bastante estreito com o PCUS – até mesmo integraram o Cominform (HOBSBAWM,1982) e seguiram caminhos diferentes.
É comum ver os partidos comunistas francês e italiano citados em acontecimentos envolvendo a URSS ou o PCUS propriamente ditos. Um exemplo disso é a referência que Tony Judt faz a esses partidos quando cita a resistência antifascista no pós-Segunda Guerra Mundial, liderada pela União Soviética – “Líderes comunistas como Maurice Thorez, na França, e Palmiro Togliatti, na Itália, desempenharam papel fundamental na obtenção da cooperação de seus seguidores” (JUDT, 2008:79). Existem semelhanças, diferenças e influências entre as mudanças ocorridas no PCB, PCI e no PCF.
As mudanças ocorridas no PCI durante o Congresso de Bolonha, em 1989, e no Congresso de Rimini, em 1991, foram muito semelhantes às ocorridas nos IX e X Congressos do PCB, em 1991 e 1992, o que aumenta a possibilidade de influências entre um e outro acontecimento. No caso do PCF, onde as mudanças foram mais brandas e se limitaram a aspectos filosóficos – tanto é que o partido continuou com o mesmo nome e símbolos – as possibilidades de influências são bem menores.
Para visualizar as mudanças do X Congresso do PCB no panorama internacional, ao qual, como já visto, elas estão relacionadas, será feito um breve estudo sobre o surgimento de ambos os partidos, de suas reações à crise do comunismo e, por fim, a verificação da possibilidade de semelhanças, diferenças e até similaridades entre as mudanças que esses partidos provocaram e as que não provocaram.
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O Partido francês não fez qualquer mudança em seus nomes e símbolos, permanecendo até os dias de hoje como Partido Comunista Francês (PCF).
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Em 1991, o PCI mudou o seu nome para Partito Democrático della Sinistra (PDS), que, em 2007, fundiu-se com o Marguerita, um partido liberal católico, formando a Democratici di Sinistra (DS) e, em 2008, uniu-se à Democracia Cristiana e transformou-se em Partito Democrático (PD).
137 O Partido Comunista Italiano (PCI)
O Partido Comunista Italiano (PCI) foi criado em janeiro de 1921. Esse partido, assim como o PCF, nasceu de uma cisão com o Partido Socialista, no caso, o italiano. Mas, ao contrário do PCF, do PCB e de boa parte dos partidos comunistas do mundo, manteve uma forte ligação com a social-democracia. Isso se deveu à necessidade da união da esquerda italiana contra um inimigo comum, o fascismo de Mussolini.
O PCI foi muito reprimido durante o governo fascista de Benito Mussolini, que, em 1926, condenou Gramsci, líder comunista, a 20 anos de prisão, de onde ele foi libertado em 1934 por causa de sérios problemas de saúde que o levaram à morte em 1937. Em compensação, a queda de Mussolini em 1943 serviu para fortificar o PCI, pois, durante o seu governo, os anti- Mussolini, até os que não eram comunistas, tinham-se juntado ao partido para lutar contra o fascismo. Houve um sucesso tão grande que o PCI, que antes da Segunda Guerra Mundial, no período do fascismo, era considerado pelo Comintern do PCUS como um partido débil, no pós- guerra chega a ser, juntamente com o PCF, convidado para integrar o Cominform (HOBSBAWM, 1982)29.
Segundo Hobsbawm, o sucesso do PCI se deveu a três fatores: a união com a massa antifascista italiana, o colapso do anarquismo junto com a passividade do partido socialista, o que aumentou o apoio de operários e dos camponeses ao partido, e o ressurgimento da oposição na Itália entre 1935 e 1938 em decorrência do impacto da Guerra Civil Espanhola, que contou com o apoio de jovens intelectuais que entraram para o partido. Isso talvez tenha contribuído em dois momentos importantes da história do partido. Primeiramente, essa associação com a social-democracia favoreceu uma posição sempre menos ortodoxa do comunismo italiano, que, por sua vez, contribuiu para que, alguns anos depois, fosse o líder do movimento eurocomunista. Segundo depoimento de Giusepe Vacca, o eurocomunismo, na verdade, foi o italocomunismo.
O segundo momento é que a ligação do PCI com a social-democracia e essa liderança do movimento eurocomunista tornou-o mais ágil, após a queda do Muro de Berlim, nas mudanças
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O Comintern, abreviatura de Communist International (Internacional Comunista, também conhecida como a Terceira Internacional) foi dissolvida em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1947, após a Segunda Guerra, foi criado o Cominform, abreveatura de Communist Information Bureau (Birô de Informação dos Comunistas).
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necessárias à sua reestruturação e às associações com a social-democracia para tentar manter a sua força política.
Não há dúvida de que o PCI foi um partido muito forte na política italiana e no cenário do comunismo internacional. Haja vista a sua liderança no movimento eurocomunista e a análise feita por Tony Judt (2008:218), que mostra que, no pós-guerra, o PCI era o maior partido comunista fora do bloco soviético: “4,35 milhões de eleitores (19%) do total, em 1946, subindo para 6,12 milhões (23% do total) em 1953". Neste mesmo ano, o Partido Comunista Italiano vangloriava-se de contar com 2,14 milhões de membros pagantes. Provavelmente, um dos motivos desse sucesso seja o citado movimento de união da esquerda contra o regime fascista de Mussolini (de 1922 a 1943).
Consequência disso foi o apoio recebido pelo Partido Socialista Italiano (PSI) de Pietro Nenni, em 1943, na luta antifacista. Além disso, segundo Éric Hobsbawm (1982), muitos comunistas que ficaram clandestinos (dentro e fora da Itália), com fim do fascismo, efetuaram os pagamentos de suas responsabilidades partidárias, montante este que havia ficado guardado por anos e anos. Não se pode também ignorar a contribuição da popularidade de Enrico Berlinguer, que entrou para o PCI em 1943 e o comandou de 1972 a 1984, sendo um dos grandes responsáveis por um certo afastamento do PCUS, que muito contribuiu para as mudanças que ocorreram no PCI em 1989 e 1991, semelhantes ao acontecido no PCB em 1991 e 1992. Segundo depoimento de um militante italiano a Jean-Yves Dormagen (1995), ele só chorou três vezes em sua vida: a primeira quando sua mãe morreu, a segunda quando Berlinguer morreu e a terceira quando o PCI acabou.
Novos rumos do PCI
Falou-se até agora de um PCI bastante próximo ao PCUS, mas é preciso se referir também a um PCI que, influenciado pelos pensamentos gramscianos, manteve certa autonomia em relação à URSS. Como afirma Giuseppe Vacca em entrevista para esta pesquisa, apesar de ter se mantido atrelado ao PCUS, foi um partido pioneiro, por ter como um de seus militantes e fundador Antonio Gramsci, que reavaliou alguns aspectos do marxismo-leninismo, e por ter combatido o stalinismo. A consequência disso foi sua participação pioneira na construção dos ideais eurocomunistas, que, conforme já dito, consistiam na defesa da ideia de um socialismo que fosse implementado de forma menos imediata e mais democrática, que tivesse uma base prática mais pluralista e destinada aos países mais desenvolvidos da Europa Ocidental. Esse
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movimento, que teve também a participação mais direta dos partidos comunistas da Espanha e da França, afetaram os partidos comunistas de diversos países e não poderia ser diferente em relação ao brasileiro.
O peso do partido italiano no eurocomunismo é incontestável, mas a sua identidade e dependência do PCUS também é considerável, como se pode perceber nos trechos a seguir.
(...) é verossímil formular a hipótese pela qual Togliatti tenha compreendido que, “somente evitando uma ruptura aberta” com o Comintern, seria possível ao grupo dirigente saído de Lyon “manter de algum modo viva a continuidade de inspiração que o guiou na luta contra o fascismo (COUTINHO, 1989:85).
Nós devemos ceder nas questões russas e internacionais, para salvar a política italiana do nosso partido. Senão, Moscou não terá nenhum escrúpulo em combinar uma direção de esquerda com qualquer garoto da Escola leninista. Isto levaria à ruína do nosso trabalho de muitos anos" (COUTINHO,1989:90).
Essas ideias permeavam os pensamentos de Palmiro Togliatti e se “consolidaram” com Enrico Berlinguer. Em 1975, Berlinguer participou de dois encontros fundamentais para o nascimento oficial do eurocomunismo. O primeiro com Santiago Carrillo – secretário-geral do Partido Comunista Espanhol, em Livorno – e o segundo com Georges Marchais – secretário-geral do Partido Comunista Francês, em Roma. As três reflexões apresentadas por Berlinguer em seu relatório de abertura do XIV Congresso do PCI, em março de 1975, foram muito importantes para a construção do eurocomunismo. A primeira foi que a via ocidental do comunismo – ou o eurocomunismo – se tratava de um novo modelo, uma nova ordem social, radicalmente diversa da velha ordem social. A segunda foi que o eurocomunismo tinha como objetivo fortalecer o tecido democrático, o que se opunha à ditadura do proletariado defendido pelo comunismo soviético. E a terceira foi sobre a definição das características centrais do eurocomunismo, que estava baseado no pluralismo político, com defesa da pluralidade de partidos, que deveria ser laico e, por último, que deveria haver a negação da unidade da classe operária como conceito de partido único.
Por fim, os comunistas italianos e franceses reforçam aquilo que havia sido afirmado inicialmente na declaração conjunta de italianos e espanhóis: a necessidade do respeito pelo “princípio da autonomia de cada partido”, ou seja, a exigência da não ingerência de quaisquer partidos ou Estados (leia-se: Partido Comunista da União Soviética e União Soviética) nos desenvolvimentos teóricos e nas opções políticas realizados pelos demais partidos comunistas, tanto no campo oriental como no ocidental – fato que assinalava abertamente a vontade dos três
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partidos eurocomunistas de implementar livremente a busca por novos caminhos, a serem seguidos na luta pela construção de uma sociedade socialista e democrática (MONDAINI, 2006:6).
Percebe-se o impacto das ideias do eurocomunismo no paradoxo autonomia versus heteronomia em relação à URSS, quando prega o afastamento da URSS e a oposição luta insurreta versus luta democrática ao defender um socialismo mais democrático. Esse posicionamento, que foi assumido na Declaração de março de 1958, foi confirmado pelos demais congressos do partido, principalmente nos da época em que as ideias do eurocomunismo haviam chegado no Brasil. A questão é que a ingerência da União Soviética no PCB ainda era forte, havendo inclusive o conflito no PCB, em 1982, entre os militantes mais ortodoxos e os eurocomunistas. Vários ex-militantes do PCB, quando foram entrevistados para esta tese, assumiram que hoje entendem como correto o eurocomunismo defender o pluralismo partidário, a liberdade e a autonomia, mas que à época não achavam que isso era bom para o PCB. Com o X Congresso, houve a intenção de se superar essa dependência da URSS. O eurocomunismo foi uma influência positiva da Itália no PCB, mas continuava a gerar conflito em seu interior, contribuindo para o seu enfraquecimento, o que, por outro lado, também serviu para o seu amadurecimento.
O eurocomunismo defendia a pluralidade e a liberdade, em contraposição ao que acontecia na URSS. Por isso, deve ser considerado um avanço em relação ao socialismo real, mas percebe- se também que a transformação que aconteceu no X Congresso foi ainda superior a essa gênese do eurocomunismo. Possui afinidade também com o eurocomunismo, pode-se dizer, mais maduro, de Enrico Berlinguer. Além de todas essas características do eurocomunismo da época de Gramsci, em 1992, a direção do PCB fazia uma inversão colocando o socialismo como um caminho para a democracia, abandonando a ideia de que a democracia é que levaria ao socialismo. Por isso percebe-se, até hoje, no PPS, em seus diversos encontros (palestras, congressos), no discurso de Roberto Freire, seu presidente, e em conversas com os militantes, a repetição da expressão "radicalismo democrático".
Com o enfraquecimento do PCUS, desde seu XX Congresso, com o eurocomunismo e depois com a queda da URSS, os efeitos da crise do comunismo chegaram ao PCI. Já em 1989, mesmo ano da queda do Muro de Berlim, Achille Occhetto começa a articular a desvinculação do PCI
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ao PCUS, anunciando esse processo na televisão. Occhetto anunciou no começo dos trabalhos do Congresso de Bolonha, em 12 de novembro de 1989, o início do fim do PCI. Não conseguindo ser finalizado o processo de liquidação do PCI, ainda foi tema do Congresso de Rimini, em fevereiro de 1991. Assim, então, com as influências externas e os movimentos internos, o PCI mudou seu nome para Partito Democratico della Sinistra – PDS.
Se, por um lado, esse processo era esperado pelo fato de o PCI ter sido precursor no afastamento da URSS, por outro, foi bastante traumático, tendo em vista o grande apego, inclusive sentimental, que os militantes têm pelo partido e seus símbolos. Cabe aqui repetir uma passagem do final da primeira parte deste capítulo. "Segundo um depoimento de um militante italiano a Jean-Yves Dormagen (1995), ele só chorou três vezes em sua vida: a primeira quando sua mãe morreu, a segunda quando Berlinguer morreu e a terceira quando o PCI acabou".
O anúncio do fim do PCI foi traumático para diversos militantes, assim como no caso do PCB, embora pareça que no PCI tenha sido maior. Jean-yves Dormagen (1995) cita até mesmo o depoimento de alguns descontentes com a mudança de nome do PCI: “Eu me senti ferido por dentro. Não se pode mudar as roupas pensando em mudar o interior, o que há no interior permanece: o comunismo” (DORMAGEN, 1995:82). Acontece que o problema do PCI, assim como do PCB e muitos outros, não era mudar a vestimenta. Era mudar o interior, o modo de pensar e de agir.
Semelhanças e diferenças entre o PCI e o PCB
Ao mencionar a história do comunismo no Brasil, principalmente a parte referente às mudanças que ocorreram no PCB, já ficam claras as semelhanças entre o Brasil e a Itália e entre seus partidos comunistas. No entanto, ao contrário do que o título acima pode sugerir à primeira vista, não se pretende aqui fazer uma análise comparativa entre o PCB e o PCI. Nem mesmo uma comparação entre o que aconteceu nos partidos comunistas do Brasil e da Itália com o enfraquecimento do comunismo no mundo. Pretende-se apenas destacar alguns aspectos de um e de outro partido que podem mostrar semelhanças e diferenças na história desses dois partidos e contribuir para o entendimento das mudanças acontecidas no PCB por ocasião da crise do socialismo real.
Primeiramente vamos analisar algumas semelhanças na formação política do Brasil e da Itália. Ambos os países vêm de uma revolução passiva, nos moldes de Gramsci ou de uma
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revolução pela via prussiana, nos moldes de George Lukcás. No Brasil, desde a época do bloqueio continental proposto por Napoleão e a consequente vinda da família real, que significou uma conservação na metrópole e uma “conservação-mudança na Colônia” (VIANNA, 2004:44); na Itália, após a dominação francesa em parte da Europa, por ocasião dos movimentos revolucionários do Risorgimento, influenciado pelo ciclo revolucionário de 1789 a 1848.
Outra semelhança é que, na Itália, na década de 1950, houve uma tentativa de reforma agrária que se propunha inclusive a resolver a questão meridional. Essa tentativa foi frustrada, só alcançando êxito anos depois e, mesmo assim, em partes, pois até hoje a reforma agrária no Brasil não foi resolvida. Percebe-se uma grande semelhança entre o PCI e o PCB no tocante aos meios de se implantar um governo socialista. No PCI, acontece uma discordância de Gramsci com a direção do PCI, dirigido por Amadeo Bordiga. Conforme mostrado por Carlos Nelson Coutinho (1989), Bordiga propunha a ditadura do proletariado a ser implantada mediante um assalto ao poder de forma insurrecional. Gramsci propunha, desde 1925, a luta democrática e progressiva por meio da implementação de uma assembleia republicana com base em conselhos operários e camponeses. No Brasil, semelhante a isso, acontece, conforme já citado, o paradoxo da luta insurreta versus luta democrática.
Em relação às semelhanças entre os partidos comunistas italiano e brasileiro, um aspecto importante é que, assim como o PCB, o PCI, desde sua criação, foi um partido intelectualizado, indo contra os princípios da Internacional Comunista, que defendia a constituição de um partido comunista dirigido por proletários, como aconteceu com o PCF.
Em relação à mudança de seu nome e símbolos, que aconteceu no X Congresso do PCB, em janeiro de 1992, também percebe-se semelhanças com o PCI. Primeiro que o PCI precisou de dois congressos para concretizar as mudanças, o de Bolonha, em 1989, e o de Rimini, em 1991. O PCB também precisou de dois congressos. O IX Congresso no Rio de Janeiro, em 1991, e o X Congresso em São Paulo, em 1992. Outra semelhança é que, durante o X Congresso do PCB, criou-se o Movimento Nacional de Defesa do PCB, que mais tarde voltou a utilizar o nome Partido Comunista Brasileiro – PCB. Na Itália, durante o processo de mudança de nome do PCI, criou-se o Partito della Refondazione Comunista – PRC, embora lá tenha sido criado também, em 1998, o Partito dei Comunisti Italiani – PdCI. Embora haja semelhança na resistência à mudança, o que já é de se esperar em qualquer caso de mudança, essas semelhanças ficam ainda mais próximas no caso de duas culturas parecidas.
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Uma diferença entre o que aconteceu no PCI e o que aconteceu no PCB foi que, no Brasil, a mudança de nome significou uma proposta de modernização ou de reavaliação do partido comunista, embora essa ideia tenha sido contestada pelos militantes dissidentes que formaram o Movimento de Defesa do PCB – hoje, Partido Comunista Brasileiro –, para quem a mudança significava a liquidação do PCB. No caso italiano, a ideia foi dar fim ao PCI e formar um novo partido de esquerda. Isso pode ser evidenciado, também, nas palavras do próprio Achille Occhetto (líder da mudança) em entrevista ao Jornal Le Monde de Paris, no dia 28/01/2009, quando, ao ser perguntado sobre a nova identidade do partido, respondeu: “É claro que o PDS não é o velho PCI com novos hábitos. Ele não lembra o PCI do leste ligado até aqui aos regimes culpados que não hesitam em se livrar de simples máscaras unicamente mudando de nome”.
As mudanças no partido italiano não se limitaram à de 1991. Nesse movimento de criação de um novo partido, em 1998, houve ainda a associação com o partido Democracia Cristiana e a consequente mudança para Democratici di Sinistra – DS30. Em outubro de 2007, durante o seu IV Congresso, acontece a fusão com o partido Marguerita e o surgimento do Partito Democratici – PD31. As duas últimas mudanças significaram, na verdade, uma aliança entre partidos para tentar combater a direita, iInclusive contra Silvio Berlusconi, a quem a Revista
Forum Democrático32 se refere como ditador, lançando até mesmo uma manchete de capa na edição número 71-72, de junho/julho de 2008, entitulada “Berlusconi IV: uma ditadura doce”, em referência a sua eleição para primeiro-ministro da Itália pela quarta vez, em abril de 2008. Eis aí uma diferença entre o movimento dos dois partidos, embora, no Brasil, a transformação não tenha se limitado a uma mudança de nome. Significou, acima de tudo, um combate ao centralismo democrático, a ditadura do proletariado à guerra de movimentos defendidos por Marx, Lênin e Stalin e outras características do socialismo real, ou seja, um rompimento definitivo com o comunismo russo.
Partido Comunista Francês (PCF)
30 Democrático de Esquerda. 31 Partido Democrático. 32
A Revista Forum Democrático é uma publicação da Associação pelo Intercâmbio Cultural Itália Brasil Anita e Giuseppe Garibaldi. Essa revista é direcionada principalmente para a comunidade italiana no Brasil e possui um vínculo com o Partido Democrático (italiano).
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Como consequência, também, do movimento comunista internacional instaurado depois da Revolução Russa de 1917, surgiu, em 1920, o Partido Comunista Francês, com uma luta contra o capitalismo e uma ruptura com a social-democracia. Em dezembro de 1920, durante o Congresso de Tours (18º Congresso Nacional da SFIO – Section Francaise de l’international
Ouvrière33, criada em 1905) houve uma maioria de dissidentes que criou o Partido Comunista Francês, após uma cisão à referida SFIO. O PCF foi um partido que, apesar de compor o grupo dos chamados eurocomunistas na década de 1970, manteve-se sempre mais próximo do PCUS que os partidos comunistas da Itália e da Espanha, desde sua criação. Uma demonstração disso é o fato de seu jornal oficial, o L’Humanité, somente ter anunciado o relatório de Nikita Kruschev, no XX Congresso do PCUS, em sua edição do dia 10 de março de 1956, 15 dias após o seu encerramento e, mesmo assim, de uma forma complacente, não indo frontalmente