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2.5 Os programas infantis para a televisão

2.5.1 O Xou da Xuxa

O Xou da Xuxa foi um programa infantil de variedades apresentado por Xuxa Meneghel, na Rede Globo, entre 30 de Junho de 1986 e 31 de Dezembro de 1992.

Ocupando as manhãs de segunda-feira a sábado, o programa apresentava quadros de auditório (principalmente competições e números musicais), intercalados com desenhos animados. Apesar das sistemáticas reações negativas da crítica, rapidamente o Xou da Xuxa se tornou o programa infantil de maior sucesso dos anos 1980 e fez de sua apresentadora a estrela número um da Rede Globo. Escalado para substituir o Balão Mágico, o Xou da Xuxa herdou-lhe o horário, a fatia de público e o acervo de desenhos. Mas a estrutura básica do Xou da Xuxa vinha do Clube da Criança, programa do fim de tarde da Rede Manchete que revelou a modelo Xuxa Meneghel como apresentadora infantil.

O programa Clube da Criança estreou em 1983, na TV Manchete. No início, Xuxa resistiu a aceitar o convite de Maurício Shermman, que tinha como segunda opção outra modelo: Monique Evans. Por fim, Xuxa acabou fechando contrato com a extinta emissora.

O sucesso da atração que embalava as tardes das crianças foi imediato. Xuxa lançou seu primeiro LP − Clube da Criança − ainda em 1983. No disco, ela cantava junto com o palhaço Carequinha e Patricia Marx, além das parcerias com músicos como Martinho da Vila e o grupo Roupa Nova. Em 1985,

ela grava o LP Xuxa e seus amigos, de que se destacam “Leãozinho”, cantada com Caetano Veloso, autor da música, “O gato”, de Vinicius de Moraes, cantando com Marina Lima, e “O caderno”, com o também compositor da música Chico Buarque. O disco vendeu cerca de 250 mil cópias.

Muito rapidamente, Xuxa ganharia a simpatia de todo o país e, em 1986, começa a ser disputada por diversas emissoras e acaba indo para a Rede Globo. Em 1997, o programa muda seu nome para Nave da Fantasia e passa a ser apresentado por Angélica.

A estréia do programa na Rede Globo foi bastante confusa, devido ao atraso causado pelas mudanças do cenário pedidas pela apresentadora:

Estou superentusiasmada para fazer esse programa. Já cancelei seis desfiles e outros compromissos profissionais para me dedicar exclusivamente ao programa, que tenho certeza que vai sair como eu desejei. Para mim, tudo muito simples, parte do principio de que o mais importante é a criança, o programa é para ela, é dela. Só posso me sentir à vontade para trabalhar, se as crianças tiverem condições de correr e brincar pelo cenário, que tem que ser, acima de tudo, funcional. A criança que participa do palco tem que estar inteiramente à vontade para passar a alegria e a liberdade para as outras, que estão em casa assistindo. Isso fundamental. E isso será feito (MENEGHEL, 1986).

Possivelmente nem a emissora nem Xuxa esperavam o sucesso alcançado pelo programa. Com 2,5 milhões de discos vendidos, o LP Xou da Xuxa em apenas três meses alcança uma vendagem inédita na indústria fonográfica brasileira:

Eu tenho pensado muito nisso. A princípio, achei que era por causa do cruzado, depois, vi que não foram todas as pessoas que venderam assim. Estou achando tudo isso fantástico, porque quando eu participei do LP Clube da criança, ele chegou a 250 mil cópias, o que valeu o disco de ouro e o de platina. Então, eu fui para a TV Globo e fiz o meu primeiro disco solo, acreditando que, no máximo, iria dobrar esse número. Nunca pensei em chegar a 2,5 milhões de discos (MENEGHEL, 1986).

Na mesma matéria, João Araújo, Presidente da Som Livre, diz que tinha uma expectativa entre 600 mil e um milhão de discos vendidos. Quanto aos motivos que levaram o disco a ter esse sucesso, diz o executivo do mercado fonográfico:

Em primeiro lugar, a Xuxa encontrou a maneira certa de se comunicar com as crianças. Depois, ela tem uma boa capacidade de escolher repertório, além do que a produção do disco foi muito feliz. Isso tudo, somado ao grande sucesso que ela faz por todo o Brasil, resultou nesse recorde sem precedentes (ARAÚJO, 1986).

A produção do primeiro LP da Xuxa foi feita por Guto Graça Mello, o mesmo que produziu Pirlimpimpim I e II, Plunct Plact Zuuum I e II e A turma do Pererê. Com a vendagem de 2,5 milhões de cópias, Xuxa ultrapassou artistas de peso da música popular brasileira e internacional, como comprovam os dados fornecidos pelas assessorias de imprensa das gravadoras: Roberto Carlos e RPM (a CBS se recusou a dar informações sobre as vendagens), Trem da Alegria (1 milhão e 10 mil cópias, RCA), Legião Urbana (Dois, 700 mil cópias, Odeon), Paralamas do Sucesso (Selvagem, 630 mil, Odeon), Madonna (True blue, 600 mil, WEA) e Dire Straits (Brothers in arms, 600 mil, Polygram). Segundo o jornal O Globo de

18 de junho de 1987, além de ser a primeira a vender mais do que Roberto Carlos, Xuxa assume a liderança de venda de discos na América Latina.

E o sucesso da apresentadora não parou por aí. Com 14 faixas e as participações especiais do Trem da Alegria e dos Abelhudos, o Xegundo Xou da Xuxa vendeu dois milhões e 700 mil cópias. A concepção era de um disco dançante e que falasse dos heróis da televisão − He-Man, She-ha, Scooby Doo, Mickey e Rambo, entre outros − ou do cotidiano das crianças. O novo LP da Xuxa foi produzido pela dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas, que substituiu o produtor do disco anterior, Guto Graça Mello. O cantor e compositor Michael Sullivan fora escolhido por sua grande experiência no ramo musical. Começou a carreira de músico integrando bandas como Renato & Seus Blue Caps e The Fevers, na década de 1960. Tornou-se produtor e compositor, sendo o criador de muitos sucessos da música popular, ao lado de vários parceiros, entre eles, Paulo Massadas. Produziu grandes cantores da MPB como Tim Maia, Alcione, Sandra de Sá, Serguei, Xuxa, Sidney Magal, Rosana e Fagner, entre outros. Convidado para trabalhar e morar nos EUA, Michael Sullivan produziu nomes como Rick Martin, Chayanne e Menudos, entre outros.

O terceiro Xou da Xuxa, também produzido por Sullivan e Massadas, com o sucesso “llaiê”, de Cid Guerreiro, chegou a vender três milhões e 100 mil cópias. Além disso, a por star fez inúmeras turnês, que tinham previsão de receita de cerca de 4,5 milhões de dólares e estrelou o block-buster Super Xuxa contra Baixo Astral, lançado para o cinema.

A notável capacidade de conseguir bons resultados comerciais com a música popular continuou a contribuir para o sucesso dos discos infantis do Xou da Xuxa, mesmo que a apresentadora não fosse reconhecidamente uma grande cantora.

Mais do que artista, Xuxa tornou-se uma instituição empresarial. Uma espécie de Midas, ou máquina de fazer dinheiro. Nem ela própria e seus assessores mais diretos conseguem estabelecer seu faturamento mensal, que aumenta a cada dia. Além do programa da TV Globo, o Xou da Xuxa, que lhe rende uma média de Cz$ 2 milhões mensais46, entre salários e merchandising, e do tranqüilo posto que conquistou como maior vendedora de discos do país, Xuxa

também ganha dinheiro com shows, licenciamento dos mais diversos produtos, firmas e fazendas, além de imóveis. Com esse verdadeiro império, Xuxa foi a primeira brasileira a figurar na lista dos 40 artistas mais ricos do mundo em 1991, segundo a revista norte-americana Forbes47. Ela ficou em 37o lugar, com faturamento anual de 19 milhões de dólares. Kim Basinger, Sidney Sheldon, Harrison Ford, Woody Allen, Julia Roberts e Pink Floyd nem chegam a aparecer na lista. Mel Gibson, o ator de Mad Max, está em 38o lugar, atrás de Xuxa (VEJA, 1991).