“O Yoga, como costumo dizer, é como a música. O ritmo do corpo, a melodia da mente e a harmonia da alma criam a sinfonia da vida.”
(Iyengar, 2018, p. 23).
3.1. Contextualização
O Yoga é um Sistema Filosófico Prático, que surgiu na Índia e tem mais de 9000 anos de existência. Yoga significa “juntar” (ou ligar), deriva da raiz Yuj (do Samkrta7), é um
termo masculino e pronuncia-se “o Youga”, como “iodo” (Amrta Súryánanda, 2018a). O Yoga Tradicional da Índia foi declarado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) no dia 1 de Dezembro de 2016. Esta classificação foi primeiramente proposta à UNESCO por H. H. Jagat Guru Amrta Súryánanda Mahá Rája, Grande Mestre Internacional do Yoga, Jorge Veiga e Castro, Presidente da Confederação Portuguesa do Yoga, que foi também o proponente do Dia Internacional do Yoga8, tendo ambos sido
conseguidos com a intervenção do Primeiro-Ministro da Índia, Shrí Narendra Modi, que tem, por sua vez, promovido o Yoga Tradicional da Índia como uma riqueza mundial.
Em Portugal pratica-se o Yoga Tradicional da Índia, através da Confederação Portuguesa do Yoga, com todas as suas catorze Disciplinas Técnicas, que permitem o desenvolvimento do ser humano como um todo, procurando, entre outros, o autoconhecimento, a auto-exigência, a auto-estima e autoconfiança, a felicidade e o equilíbrio consigo e com o que o rodeia. O primeiro objectivo do Yoga é manter o ser humano na sua forma natural: saudável e feliz. Todas as catorze Disciplinas Técnicas são realizadas em aula e contribuem para o desenvolvimento do ser humano em todas as suas facetas, sendo que todas preparam a mais importante delas: Dhyána/Samádhi ou Meditação, que não existe fora do Yoga (Amrta Súryánanda9, 2018).
1. Dhyána/Samádhi - Meditação/Iluminação pelo controlo da frequência das ondas mentais; 2. Pránáyáma - Exercícios respiratórios de influência energética e neurovegetativa;
3. Ásana - Posições Psicobiofísicas;
4. Yoganidrá - Técnicas do relaxamento físico, emocional e mental; 5. Kriyá – Tonificação e limpeza orgânica;
6. Mantra – Domínio dos sons, da vibração e da Harmonia/ Kírtanam – Sons extroversores; 7. Jápa Tala – Sons cadenciados concentradores;
8. Jápa Shesha – Sons contínuos elevadores;
7 Vulgarmente, e incorrectamente, traduzida para “sânscrito”, Samskrta é considerada a língua-mãe de todas as línguas Indo-Europeias. É em Samskrta que se encontram os mais antigos textos sobre Yoga. 8 Consagração em 2014 do dia 21 de Junho como Dia Internacional do Yoga, pela Organização das Nações Unidas (ONU).
9. Bandha – Dinamizações musculares e neuro-endócrinas; 10. Yantra – Símbolos concentradores de efeito psicossomático; 11. Pújá – Retribuição energética;
12. Mudrá – Gestos reflexológicos feitos com as mãos; 13. Nyása – Toque Energético e Projecção Psíquica;
14. Mánasika – Mentalização, fortalecimento da vontade, e projecção da consciência.
Apesar de persistir na sociedade actual, como forma de atingir uma vitalidade essencial, o Yoga é tão antigo e tradicional quanto a civilização. Ainda assim, o Yoga permite que se desenvolva não só força corporal como também atenção e consciência plena da mente (Iyengar, 2018).
3.2. Benefícios gerais do Yoga
O Yoga Tradicional é o Yoga Completo, vasto e complexo e todas as catorze Disciplinas Técnicas têm efeitos específicos, que no seu conjunto agem globalmente em todas as facetas do ser humano, trazendo benefícios que podem ser aplicados no contexto do músico. Por exemplo, cada um dos 40 Pránáyáma tem características que os distingue e formas diferentes de actuar no organismo. No entanto, pode dizer-se que, em geral, os exercícios respiratórios promovem uma massagem abdominal, trazendo benefícios aos órgãos aí situados. O sangue fica mais oxigenado, trazendo vitalidade ao organismo, e aumentando a energia. O coração também é beneficiado, uma vez que a circulação venosa é acelerada, com o uso do diafragma. O plexo solar - o cérebro abdominal vegetativo, o plexo da Ansiedade - sofre uma acção descongestionante, o que explica o efeito calmante e tranquilizante da respiração (Amrta Súryánanda, 2018b).
A prática dos Ásana envolve o trabalho de vários aspectos como o equilíbrio, a tonicidade e elasticidade musculares e a flexibilidade das articulações (Amrta Súryánanda, 2018c), sendo que cada um dos Ásana trará benefícios específicos ao praticante. Os Ásana de rotação, por exemplo, actuam sobre a coluna vertebral, levando à sua rotação completa. Desta forma, corrigem e previnem desvios na coluna, alongam todos os seus músculos e ligamentos e produzem uma generosa afluência de sangue, tonificando o sistema nervoso simpático10 e revitalizando o organismo. É criada, de
imediato, uma sensação de bem-estar. Os Ásana de anteflexão, através da compressão abdominal, proporcionam uma massagem aos órgãos abdominais, revitalizando-os, ao mesmo tempo que a coluna é alongada, até à cervical. Através do estiramento dos músculos vertebrais da zona lombar, o sangue é expulso dessa área e, aquando do
10É um dos componentes do sistema nervoso autónomo e é responsável, juntamente com o sistema
endócrino, pela regulação de toda a actividade do organismo. Além disso, o sistema nervoso simpático actua de forma oposta ao parassimpático, preparando o organismo para responder perante situações de medo, stress e excitação, ajustando a actividade de diversos sistemas internos, maximizando o seu
desfazer do Ásana, é provocada uma grande afluência de sangue, favorecendo a irrigação dessa zona. Favorece também a eliminação da lordose (Amrta Súryánanda, 2018c; Lysebeth, 2009; Hermógenes, 2010; Yesudian & Haich, 1997).
Dando também a Disciplina Técnica Yoganidrá como exemplo, é possível atingir um relaxamento profundo e consciente que trará inúmeros benefícios ao praticante. O
Yoganidrá permite uma recuperação física e energética rápida e estimula a produção
de péptidos (soníferos naturais), que possibilitam ao corpo beneficiar dos processos de combate ao stress e são, por sua vez, favoráveis ao reforço do sistema imunitário (Amrta Súryánanda, 2018d).
Vários estudos mostraram já que a prática do Yoga tem efeitos positivos sobre o cérebro, nomeadamente no que diz respeito ao volume do hipocampo11, que aparentou
ser superior após a prática do Yoga. Neste contexto, foi realizado um estudo em Detroit com a participação de dois grupos, formados por 13 elementos cada e com idades compreendidas entre os 19 e os 58 anos. O primeiro grupo era composto por praticantes regulares do Yoga há pelo menos três anos, e o segundo grupo era composto por indivíduos que nunca tinham praticado Yoga. Foram encontradas diferenças significativas no volume do hipocampo esquerdo, tendo os praticantes do Yoga um maior volume de massa cinzenta do que o segundo grupo, facto também sustentado por outros estudos (Gothe et al., 2018). Desta forma, as consequências positivas sobre a memória são evidentes.
Desta forma, é possível afirmar que o Yoga é um bom aliado do bem-estar geral do indivíduo, possibilitando que o praticante se sinta retemperado e vigoroso, podendo ainda ser acrescentado que evita depressões e melhora a qualidade do sono. Através das suas Disciplinas Técnicas, o cérebro é fortemente oxigenado, com prática de Ásana,
Bandha e Pránáyáma, por exemplo, com consequências positivas, por exemplo, no
rendimento escolar e o desempenho profissional (Amrta Súryánanda, 2018b, 2018c).
11 Estrutura localizada nos lóbulos do cérebro e faz parte do sistema límbico (região que regula as emoções). É considerado a principal sede da memória e é essencial na transformação de memórias de curto prazo em memórias a longo prazo.