• Nenhum resultado encontrado

5 ESTUDO DE CASO SOBRE AS AULAS DE MÚSICA DE UM

5.2 HERMENÊUTICA OBJETIVA: DA ESTRUTURA DO CASO, PARA UMA

5.2.2 Oba! Aula de música! Ou que chato! aula de música dentro da sala

fundamenta seu planejamento na Pedagogia Tradicional, sendo muito forte esta tendência em suas aulas. Esta afirmação embasa-se em alguns fatos como por exemplo, os primeiros momentos das aulas analisadas, existe uma sequência metódica: fez a chamada, entrega o caderno de Arte (cartografia) aos alunos, escreve o cabeçalho no quadro, com o conteúdo do dia, para que o mesmo seja

registrado pelos alunos72. “Pessoal é o seguinte. Ééé. Vou fazer o seguinte. Vou chamando bem rapidinho aqui o nome, vem buscar o caderno, já faz a margem e escreve a data. Tá bom?” (Aula 2, Linha 45). Esta sequência acontece em todas as

aulas observadas.

Sabe-se da exigência da Secretaria de Educação do Município em questão, de se registrar o conteúdo no caderno, mas questiona-se aqui se a aula não poderia começar com uma didática diferente. Será que é necessário começar a aula da mesma forma sempre? Percebe-se que com esta burocracia inicial o professor demonstra a preocupação em manter a ordem, o controle e a disciplina da turma. Por exemplo, a chamada já pressupõe que os alunos prestem atenção e fiquem em silêncio, pois caso contrário podem ficar com falta.

Conforme Behrens (2005), na pedagogia Tradicional a metodologia tem como princípio a transmissão dos conhecimentos por meio da aula expositiva, numa sequência predeterminada e fixa, enfatiza a repetição de exercícios com exigências de memorização. As aulas são centradas no professor e este é o detentor do saber, desconsiderando o conhecimento que os alunos trazem de sua realidade. Nas aulas analisadas foi possível perceber que a todo momento, o professor conduz os educandos e o conteúdo, tentando verificar quem terminou e quem ainda está copiando a matéria do quadro. Este ritmo de aprendizagem dos alunos é sempre um dilema no ensino e aprendizagem. Como conciliar aqueles que terminam antes a atividade com aqueles que demoram mais para copiar? Neste sentido é tarefa do professor acompanhar o nível de desenvolvimento de cada um, mas percebe-se que no exemplo abaixo, que o que prevaleceu foi a competição.

ALM 11 – Quem já acabou? ALF 17 – Eu também já terminei.

ALM 7 – Estou fazendo os retoques finais. ALM 22 – Estou no lápis agora!

ALM 16 – Agora? Ainda?

ALM 13 – Terminei o lápis (Aula 1, Linhas 51- 56).

Os alunos querem saber quem foi o mais rápido na cópia, sendo que o

ALM 11 pergunta quem já acabou? E ALM 16 destaca você ainda está no lápis?

72 Ressalta-se o fato de que a necessidade do registro é muito forte nesta aula, pois os alunos não

tem um material didático e a Secretaria de Educação orienta para que os alunos escrevam no caderno a aula do dia, ou seja, é uma forma de controlar o trabalho do professor.

Desdenhando do colega que estava no início da atividade enquanto outros já estavam terminando. O professor poderia ter destacado que cada um tem um ritmo, mas não intervém neste momento, não tomando para si o papel de mediador das falas dos alunos.

Durante o processo de cópia ele passa nas carteiras olhando os cadernos e os desenhos, elogiando o capricho de alguns alunos. Nesta situação didática existe uma contradição na fala do professor, pois no início da aula ele ressalta que não é importante o desenho, mas quando passa olhando os cadernos ele elogia: “Legal!

Capricho né” (Aula 1, Linha 44). Do ponto de vista didático esta situação ambígua

pode representar uma quebra no fato dos alunos interessarem-se pelo conteúdo, pois no início da aula ele destaca que não será criterioso com o desenho: “Não é o desenho em si. Esse desenho é só pra gente ter uma referência. É para desenhar. O que eu estou dizendo é que não vou ser tão criterioso com o desenho” (Aula 1, Linhas 11-13).

Mas depois da atividade feita, ele elogia alguns, isto demonstra uma certa dubiedade em sua fala. O elogio pode ser um reforço positivo73 que pode contribuir para aqueles que receberam, para terem motivação para aprender, ao mesmo tempo reforçar negativamente aqueles que não se empenharam em fazer o desenho, porque julgavam que o professor não iria cobrar, já que em sua fala ele destaca que não seria criterioso.

Quando o professor pede para os alunos só copiarem e não criarem, pode-se fazer um paralelo com as ideias de Fusari (2001), que ressalta que nas aulas de Arte das escolas brasileiras, a tendência tradicional está presente desde o século XIX, quando predominava uma teoria estética mimética, isto é, mais ligada às cópias do ‘natural’ e com a apresentação de ‘modelos’. Estes contribuem para a adoção de um padrão de beleza que se assemelhem aos objetos do ambiente, apresentando-se como cópias da realidade. Sem contar que acaba limitando a criatividade dos alunos. O professor faz o modelo do desenho no quadro, e os alunos podem copiar igual em seu caderno. Sobre a criatividade Vygotsky e Luria (1990) ressaltam que, resulta em complexos processos psíquicos, e depende de vários fatores para desenvolver-se, sendo diferente em adultos e em crianças. Este processo vai atingindo níveis elaborados até a idade adulta, para tanto o professor é de extrema

73 Sobre reforço positivo e negativo, ver SKINNER, B. F. Tecnologia do ensino. São Paulo: Herder,

relevância para que o aluno atinja níveis mais elaborados de criatividade, pois a depender da atividade realizada em sala ele pode adotar uma atitude passiva, de receptor e reprodutor, ou ativa, tendo a possibilidade de criar.

Mesmo assim, com este momento de cópia, destaca-se uma sincronia entre a aula de Música e de Artes Visuais, ao unir o desenho com a música, mesmo que esteja em uma perspectiva tradicional. Como escreve Penna (2010), a extrema liberdade encontrada na área de Arte, permite todo tipo de prática educativa, onde o professor pode ensinar as áreas fragmentadas74 ou de maneira interdisciplinar. Neste caso o professor uniu as duas linguagens artísticas, mas pode-se questionar: será que o educando não pode fazer a sua interpretação do lápis ou da mão batendo na carteira? Ou deve copiar em seu caderno o modelo feito do professor? Será que a cópia do desenho contribui para estimular a sensibilidade em uma aula de música? Ou neste contexto está incentivando a competição e a reprodução?

Outra questão importante a ser elencada, é que neste momento, ao utilizar o desenho como recurso didático para representar os instrumentos alternativos que serão trabalhados na sequência, mesmo sendo uma aula tradicional, ele acabou despertando a imaginação dos alunos, não na forma de criar um desenho diferente ao que ele propôs, mas sim olhar o desenho e imaginar uma situação lúdica. Isto aconteceu quando ele representou no quadro o som se propagando da mão quando esta bate na carteira. Mas os alunos entram na situação lúdica e a imaginação (que é uma capacidade intelectiva) é estimulada – os alunos dizem ser o movimento do Sayiajin75, e gerou um pouco de tumulto, pois começam a bater a mão na mesa

imitando o desenho do professor.

Parece que a intenção do professor neste momento é trazer um desenho diferente, mas acabou criando uma expectativa para a atividade que seria desenvolvida na sequência. Outro ponto importante sobre a metodologia, o professor ressalta que iria fazer uma aula diferente, pois os alunos estavam pedindo, mas o que impede é a indisciplina (como já foi tratado no item anterior),

Professor – Por favor. Pare. Pare. Eu disse pra outra turma, que não

é uma reclamação só minha. A diretora veio conversar com vocês. A

74 A autora esta referindo-se às linguagens artísticas: Artes Visuais, Música, Teatro e Dança.

75 Refere-e ao desenho Dragon Ball, onde o personagem evolui para uma forma mais poderosa

(Disponível em: http://ptbr.dragonball.wikia.com/wiki/Super_Saiyajin_4). Será explorado novamente no item 5.4.1 desta seção sobre a Indústria Cultural.

diretora chamou toda escola. Gente vocês não tão conseguindo se controlar. Vocês estão brigando demais entre vocês. Todo dia! Professor ela mexeu, ele mexeu no meu cabelo! Ela não sei o que. Todo dia! Vocês estão chegando na sala de aula e não estão respeitando o professor. Vocês, nem professor. Parou gente, a gente tenta trazer coisa diferente pra vocês, vocês precisam valorizar. Ah! Professor. Isso são palavras de vocês. Ah! Professor. A gente quer uma aula diferente. Sei lá professor, trás umas músicas diferentes, faz umas brincadeiras professor. Pra sair da rotina. Eu faço, mas vocês não estão sabendo valorizar. Não estão. Porque não sabem? Não precisa levar na brincadeira. Gente vocês não concentram, não concentram, se ficar na brincadeira. A única coisa que eu peço pra vocês. Vão no ritmo do professor. Eu ... eu gosto. Eu gosto, sabe, de fazer uma aula diferente, eu chego, faço vocês estudarem em sala, tem hora que eu chego, mas gente, tem que estar no ritmo do professor. O professor chega e fala pra vocês, pessoal hoje preciso de atenção, concentração, não brinca, concentra. Preciso da colaboração de vocês. Vamos fazer uma dança! Beleza gente, beleza. Mas cada dia, cada hora, cada coisa no seu lugar. Ééé (Aula 2, Linhas 27-42).

Esta fala demonstra alguns itens já discutidos no tópico anterior, como indisciplina, falta de respeito, de atenção e concentração: a indisciplina chegou no extremo, pois o professor faz um desabafo, dizendo que os alunos não conseguem se controlar. Todo dia acontecem brigas e desrespeito entre os alunos e até com o professor e o destaque aqui é que ele culpa o comportamento dos alunos em sala para que não utilize metodologias diferenciadas. É como se fosse uma troca, se os alunos se comportarem ele fará brincadeiras e colocará músicas diferentes, para sair da rotina. Levam na brincadeira. Em alguns momentos existe um conflito com o conteúdo e alguns valores que ele considera importante, mas sempre que acontece o desrespeito entre os alunos ele se omite. Esta situação demonstra que existe um descontentamento com a forma como as aulas vem sendo ministradas. O que os alunos entendem por aula diferente e com o que eles estão descontentes? Com a metodologia das aulas? Ou será que ele não faz estas atividades justamente porque causam indisciplina?

Cabe a uma educação musical sintonizada com o mundo contemporâneo reconhecer e acolher a multiplicidade tanto de manifestações musicais, quanto de formas de experienciar a música na vida cotidiana, foram estas que tem se renovado com bastante rapidez nos últimos anos, inclusive em decorrência dos avanços tecnológicos e dos avanços das novas mídias (MATEIRO; ILARI, 2012, p. 21).

Mesmo com estudos dizendo sobre a importância de uma metodologia ativa, as escolas ainda adotam uma metodologia tradicional. Vive-se em uma sociedade com um grande avanço tecnológico, os alunos estão em contato diariamente com as novas tecnologias da informação, e a escola ainda continua no formato do século passado. Neste contexto existe a necessidade de avanços, pois os alunos de hoje não são os mesmos do século XX e a escola sente o reflexo desta situação no comportamento dos mesmos.

Percebe-se claramente que o professor demonstra ser o detentor do saber, e o responsável por direcionar didaticamente o processo de ensino, bem como a disciplina, mas instaura-se um conflito: os alunos querem aula diferente e o professor quer a concentração, por este motivo as aulas continuam tradicionais!

Neste sentido, ao constatar o problema da falta de atenção, ele pede a colaboração dos alunos, reforçando que cada coisa deve estar no seu lugar, como por exemplo hora de estudar, hora de brincar. Nesta fala aparece a conotação de que a dança, o jogo são atividades lúdicas desvinculadas do processo ensino e aprendizagem, quando na verdade a aprendizagem acontece de forma significativa, quando o professor se utiliza de metodologias diferenciadas. Quanto ao autoritarismo, percebe-se, como dito anteriormente, que apresenta o perfil de Plural Majestade, onde o aluno o obedece sem se impor, mas pelo simples fato de ele estar no comando e ser a pessoa mais experiente no processo de aprendizagem. Esta fala confirma o que foi dito: “ALM 24. Por favor ALM 24! Gosta tanto do professor. Fala que gosta tanto. Quando eu gosto de alguma coisa, eu, eu não vejo a hora de ficar perto. Ó professor, gosto tanto de você! Gosta né! Demonstra!” (Aula 3, Linhas 273-275). Aqui a fala está direcionada à afetividade, eu obedeço porque gosto do professor, não vou decepcioná-lo. Por isso eu fico no time dos que escutam e obedecem.

Por meio da pesquisa empírica pode-se perceber o caráter disciplinador da escola, onde até a ida ao banheiro é direcionada:

Professor – Isso. Então vamo fazer assim. Senta lá. Começando

daqui, ééé ALF 13, você pode ir no banheiro tá. Começando de lá, os meninos ALM 7. Então ó, quem é que depois do ALM 7? [...] Não a fila dos meninos começa aqui. Mas vocês não precisa nem perguntar. Chegou sua vez já sai (Aula 3, Linhas 255-260).

Os alunos vão ao banheiro na sequência da fila, as perguntas também são feitas pela ordem da fila, e durante as aulas foram poucas vezes em que a posição das carteiras foram alteradas – sempre em filas. Isto possibilita o controle do professor sobre os alunos. Neste sentido, que tipo de formação esta aula promove? É um aspecto muito importante a ser pensado e analisado, pois pode-se perceber claramente como se reproduz a frieza na escola. O professor quer agir diferente mas está engessado com a metodologia tradicional, não consegue perceber alternativas para seu fazer docente. Se não tiver o silêncio, se a atenção não estiver no professor, a aula não está se efetivando e a frieza de como as situações são reproduzidas na escola acaba por prevalecer. O professor se indigna com a situação mas a reproduz pois, é o que conhece: os alunos devem permanecer em fileiras, obedientes.

Os alunos por sua vez, podem pedir para ir ao banheiro para saírem da sala, fugindo de uma situação enfadonha e monótona, porque a aula não está interessante. Neste sentido reforça-se a importância da formação dos educadores, para que tenham um referencial teórico sólido e uma boa formação pedagógica, para que assim seja possível refletir sobre algo, além do superficial, da aparência. Isto só ocorre quando se tem o conhecimento necessário para tal e consciência da importância das interações pedagógicas possíveis, para que se tenha um ensino de qualidade. É esta a interferência que se espera do professor, no intuito de fazer com que os processos mentais dos alunos transcendam o imediato.

Durante as interações que ocorrem entre professor, conhecimento-aluno, as possibilidades de aprendizagem podem ser ampliadas de maneira a fazer frente à força da Indústria Cultural. Se o intento é proporcionar uma educação com um ensino e uma aprendizagem direcionados para a formação do pensamento crítico- reflexivo, da estética, da sensibilidade, a mera reprodução de metodologias tradicionais e o ensino de conteúdos desconectados não basta. É preciso que se inicie, em sala de aula, um processo inverso ao que domina na atualidade. Em lugar da educação para a adaptação, para o “conformismo onipresente”, como escreve Adorno (2000, p. 144), a educação para a transformação.

Ao escrever sobre a forma do ensino, Vygotsky (2000) insiste na necessidade de o mesmo ser despido do caráter enciclopédico, revestir-se, portanto, de sentido histórico. Há que ser um saber que proponha desafios, que leve o aluno a entender e a refazer conceitos e relações indo além do que poderia adquirir sozinho. Ao

contrário, percebe-se que nestas aulas o professor assume uma postura tradicional, sendo que em uma aula de Arte, ele deveria primar por uma metodologia que proporcionasse a experiência estética, indo na direção inversa à do Currículo do estado da Paraná que destaca que a Arte “ [...] deve interferir e expandir os sentidos, a visão de mundo, aguçar o espírito crítico, para que o aluno possa situar-se como sujeito de sua realidade histórica” (PARANÁ, 2008, p. 56) .

Falta uma compreensão mais ampliada da Arte, transformar o conteúdo em conhecimento significativo aos alunos. Para tanto, é necessário uma didática mais coerente, o que não ocorre, pois as aulas se encaixam em uma estrutura tradicional, de transmissão de conhecimento. Ensinam-se os conteúdos de Arte, mas de forma fragmentada, como se fossem mecânicos, destituídos de sentido, que por sua vez, não promovem uma experiência estética. Neste sentido ao observar a aula do professor, percebe-se muitas contradições sobre a Arte, por exemplo, os elementos sobre ensino e aprendizagem precisariam de uma compreensão diferente da apresentada, para que a aula ultrapassasse o ensino fragmentado.

Também existem pontos positivos apresentados na metodologia das aulas analisadas. Estas foram planejadas, o professor organizou os recursos audiovisuais, editando um DVD que seria passado. Procurou desenvolver na medida do possível os conceitos de forma prática, por exemplo, percussão corporal ele pede aos alunos que façam os movimentos e produz um ritmo. Mas é limitador, porque sua metodologia prioriza a sala de aula, não leva os alunos para outros espaços que possibilitariam unir a música e a dança. Por que estas duas linguagens não poderiam acontecer juntas, por que separa o movimento com som e dança? Ele mesmo sinaliza,

Começa a tocar a música. ‘Seu delegado digo a vossa senhoria que sou filho de uma família.’ Alunos batendo palmas no ritmo do baião.

Professor – Ó pessoal, só um pouquinho, mesmo que já saiba. ALF 13 – Não dá pra ouvir.

Professor – Isso que eu ia falar. Gente eu sei. É difícil a gente

conseguir ficar parado.

Alunos – Verdade! (Aula 3, Linhas 291-296).

Nesta aula o professor levou alguns gêneros musicais, os alunos puderam ouvir e tentar identificar qual é. Mas eles ficaram empolgados, queriam dançar ao ritmo das músicas e gerou tumulto. Ele admite que é difícil ficar parado, enquanto se

escuta as músicas, mas insiste em continuar com o mesmo formato da aula, com o mesmo planejamento, não apontando outra possibilidade para sua didática. Em termos de aprendizagem, boa parte das aulas analisadas são dedicadas a instruções e disciplina – quando os alunos tem a oportunidade de vivenciar a atividade em grupo o que eles experienciaram? Os ritmos individuais são desconsiderados, a questão da consciência corporal e o fato de ter uma aluna de inclusão também chamam a atenção.

Outro exemplo interessante, diante do tema da aula: Manipulação de Instrumentos alternativos, o professor, após ter realizado a rotina inicial, utiliza um instrumento alternativo para trabalhar a pausa: a tesoura. Mas da maneira que realizou a atividade, entende-se que ele utilizou a tesoura como um recurso didático. A pausa não foi explorada, foi apenas um exemplo, uma ilustração de uma manipulação de instrumento alternativo. Uma questão importante é que o professor chama a atenção dos alunos pelo fato de não ter os instrumentos musicais na sala de aula. Ausência de materiais na escola pública é motivo de estudos de Penna (2010), que destaca a necessidade de recursos físicos para a implementação da Lei nº 11.769/08 (BRASIL, 2008). Neste contexto de falta de materiais, o professor precisa se adequar, e uma aula como esta demonstra a escola real, com instrumentos alternativos que devem ser explorados quando não se tem os recursos físicos – no caso instrumentos musicais76.

De fato, a escola de educação básica – especialmente a escola pública – apresenta inúmeros desafios para o educador musical, na medida em que oferece condições de trabalho distintas da escola especializada em música (quanto ao tamanho das turmas, recursos, instalações, etc.), e seus alunos trazem para a sala de aula vivências musicais diferenciadas e variadas expectativas em relação à aula de música (PENNA, 2012, p. 150).

O conteúdo: Instrumentos alternativos é um conteúdo que está no currículo, mas é preciso se perguntar quais os impactos que a ausência dos instrumentos musicais na escola tem na formação estética? Entende-se que este conteúdo é uma

76 No Currículo da Educação Básica do município consta como objetivo da Linguagem Música, 4º.

ano: “Manipular os diferentes instrumentos musicais, tais como: teclado, flauta, violão, bandinha rítmica para exercício auditivo de grave e agudo; Exercitar a flauta doce como instrumento melódico para desenvolver a acuidade musical” (MARINGÁ, 2010, p. 191-192). No que se refere a instrumentos alternativos: “Fazer com o corpo ou objetos, jogos de ritmos para o desenvolvimento motor; Produzir instrumentos musicais para o manuseio em sala de aula; Desenvolver atividades rítmica com brincadeiras de copos e latas” (MARINGÁ, 2010, p.191-193).

forma de justificar a grade curricular, sem que o poder público faça os investimentos necessários. A gestão valoriza este tipo de ação, pois justificaria a falta de investimentos, ou seja, por que o professor quer instrumentos musicais, se ele pode utilizar instrumentos alternativos? É uma situação recorrente em várias escolas do país e deve ser levada em consideração.

No geral o professor demonstra ser conteudista em uma aula de Arte, onde deveria priorizar os aspectos estéticos. Ele não planeja momentos que possibilitem a oportunidade de uma experiência estética. O que esperar dos alunos que estão sendo formados nesta perspectiva? Para tentar responder a esta pergunta, o