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3.RESULTADOS 3.1 Objetivos primários

4.2. Obesidade e EIM-C

Neste estudo mostramos que as medidas maiores da EIM-C em indivíduos obesos foram associadas a idade e aos triglicérides no período pré-cirúrgico (basal, p<0,05.

As medidas de EIM-C nos pacientes submetidos a cirurgia bariátrica mostraram redução estatisticamente significativa a partir do primeiro mês após a intervenção e em declínio até o sexto mês, com aumento não significativo após um ano. Em termos percentuais, houve redução de 20,3% na medida de EIM-C após 1 mês da cirurgia, em relação ao basal, e de 28,1% com 2 meses. O máximo de queda na EIM-C foi atingido 6 meses após a cirurgia, com 30,3% de redução. Entre o segundo mês e o sexto mês, não houve regressão significativa entre as medidas de EIM-C, o que sugere que a regressão da EIM-C dos pacientes obesos submetidos à cirurgia bariátrica foi quase totalmente atingida já no segundo mês após a intervenção. Outros estudos mostraram regressão na EIM-C de pacientes submetidos ao mesmo tipo de intervenção após 3 meses55, 6 meses e até 24 meses 61,62. Nossos achados apontam para uma regressão precoce da EIM-C que ainda não havia sido registrada.

Como mencionado anteriormente, este estudo demonstrou redução de 32% no IMC dos pacientes após 6 meses da cirurgia bariátrica. Desta maneira, seria natural esperar uma redução da EIM-C concomitante com a evolução da redução no IMC. A Figura 4 mostra que as curvas de decréscimo em porcentagem nas variáveis em questão não são sobreponíveis, sendo a regressão no IMC de 13,6% e 20,3% na EIM-C no

primeiro mês após a intervenção cirúrgica. No segundo mês, a EIM-C regrediu 28,1% para uma redução de 20,4% no IMC. De fato, a queda no IMC é estatisticamente significativa no sexto mês em relação ao segundo mês, enquanto o mesmo não ocorre na EIM-C.

Figura 4 – Redução das medidas de EIM-C e IMC em relação ao basal ao longo período estudado.**=P<0,001

Quando comparamos as mudanças da EIM-C com outra medida antropométrica, a circunferência abdominal, a dissociação das curvas continua. A circunferência abdominal dos pacientes reduz em apenas 6,7% no primeiro mês após a intervenção cirúrgica, 14,3% no segundo mês e atinge a regressão máxima de 19,6% ao sexto mês. Como são medidas de achados diferentes e que a cirurgia impacta de forma singular, não podemos esperar mudanças equivalentes. Contudo, era esperado que ocorressem em tempos semelhantes.

É definido que parte da espessura medida na camada íntima-média das árterias se deve a depósitos de colesterol86, primeiramente em parte profunda da íntima, e

medidas farmacológicas para reduzir o colesterol são capazes de promover a redução da EIM-C ou barrar sua evolução. O estudo METEOR reduziu o nível de LDL-C plasmático em 49% nos pacientes tratados em seguimento de 12 meses com redução discreta na progressão das medidas da EIM-C. Em 6 meses de tratamento, porém, não houve diferença na progressão entre o grupo tratado e o placebo.

Em nosso estudo, o nível de LDL-C nos pacientes caiu em 20,9% no primeiro mês após a cirurgia bariátrica e manteve-se inalterado nos 12 meses de seguimento. Em apenas um mês de tratamento, algumas estatinas potentes podem baixar o LDL-C em 45%, como foi feito no estudo MIRACL 88. O mesmo aconteceu em vários estudos com estatinas que objetivaram a redução ou inibição da progressão da EIM-C89, e mesmo no citado METEOR. Apesar da queda rápida do nível plasmático de LDL-C nos pacientes conseguida com o uso de medicações, a redução na EIM-C obtida com a cirurgia bariátrica em nosso estudo foi mais significativa. Podemos especular que este fato seja decorrente de vias de atuação diferentes que resultam na redução dos níveis de LDL-C. Sabemos que os níveis de colesterol no corpo respondem ao balanço entre síntese hepática, excreção hepática, reabsorção intestina, absorção da dieta e síntese extra- hepática do colesterol90. Este balanço entre oferta, síntese e absorção, mantém o depósito de colesterol em níveis adequados à sobrevivência ou até acima deles. As estatinas bloqueiam a síntese, principalmente hepática, do colesterol. A cirurgia bariátrica realizada em nosso estudo diminui a oferta e a absorção de colesterol da dieta. Esta atuação diferenciada, teoricamente, poderia ser capaz de mobilizar depósitos de colesterol nos tecidos e árvore arterial. Assim, a mudança nos níveis séricos do LDL-C estaria ligada a prevalência de transporte reverso e poderia justificar parte da mudança precoce no EIM-C registrada em nosso estudo. De fato, a idéia de que o transporte

reverso do colesterol tem uma relação inversa com a EIM-C já foi comprovada em um estudo que analisou o efluxo de colesterol e a EIM-C em 203 voluntários sadios91.

Outro fator que participa na redução da EIM-C é o HDL-C. Como mencionado anteriormente, o nível sérico de HDL-C nos pacientes apresentou aumento significativo após o segundo mês da cirurgia bariátrica, continuando elevado até o final do estudo. Este achado coincide com, pelo menos, a fase de maior queda na medida da EIM-C.

Alguns estudos apontam a relação dos níveis de triglicérides e a EIM-C em população de baixo risco92 em ambos os sexos, embora pareça haver uma maior influência no sexo feminino. Em nosso grupo, os níveis iniciais de triglicérides nos pacientes eram normais, em média, e não variaram significativamente na fase de maior decréscimo da EIM-C após a cirurgia bariátrica.

A inflamação sistêmica de baixo grau que encontramos na aterosclerose pode ser avaliada pelo marcador PCR sérica. Em análise prospectiva de 1268 pacientes, um estudo realizado na Áustria mostrou relação positiva entre a progressão da EIM-C e os níveis de PCR. Em nosso estudo, o nível basal de PCR sérica dos pacientes diminuiu significativamente 2 meses após a intervenção.

A inflamação pode ser potencializada pela ingestão de macro nutrientes. Em voluntários sadios, a ingestão de 900 kcal de alimentos de dieta ocidental provocou expressão leucocitária de NFκB e aumento da PCR sérica após 2 e 3 horas da ingestão93. Em obesos, foi demonstrado que uma dieta rica em carboidratos e gorduras provoca uma elevação prolongada de metalloproteinase-9 e NFκB94. O efeito inflamatório prolongado e intenso dos macro nutrientes encontrado em obesos parece estar ligado a um estado proinflamatório que envolve as células mononucleares do sangue periférico95. Estes efeitos inflamatórios dos macro nutrientes podem ser diminuídos com apenas 2 semanas de dieta96.

Nossos pacientes foram submetidos a uma cirurgia restritiva e malabsortiva. As ingestões calóricas neste grupo de pacientes estavam entre 2500 e 3000 kcal antes da intervenção cirúrgica e caíram nos primeiros meses para 1500 kcal , chegando próxima de 2000 kcal apenas após 1 ano da cirurgia97. Em nosso ambulatório de obesidade, os relatórios alimentares podem revelar ingestão de até 5000 kcal antes do procedimento cirúrgico. A diminuição da capacidade do estômago restringe a alimentação e os pacientes levam em torno de 2 meses para se adaptarem ao novo modo de alimentação, que envolve pequenas porções e valor energético inferior . Este período de ingestão baixa equivale ao período de maior queda na EIM-C e sugere uma relação pelo menos parcial com o achado do estudo.

Estudos posteriores serão necessários para distinguir os fatores causais da regressão da EIM-C em pacientes submetidos a cirurgia bariátrica derivados da terapia de restrição alimentar e da terapia cirúrgica, que promove outras alterações além da restrição da ingestão calórica.

Uma questão importante também pode ser levantada. A mesma magnitude de regressão pode ser obtida nas artérias coronárias? Em nosso estudo, as coronárias não foram avaliadas pois a metodologia era apenas no modo invasivo no início das coletas. Com as novas tecnologias de tomografia e ressonância magnética, imagens não invasivas das coronárias podem ser obtidas para avaliar regressão. Em nossa amostra, apenas 2 pacientes apresentava placa na Carótida comum, o que impediu a avaliação da regressão em placas. Como a doença coronária sintomática também é mais freqüente em indivíduos obesos grau II e III, o entendimento do impacto nas coronárias da cirurgia bariátrica poderia indicar uma nova abordagem da coronariopatia sintomática nesse grupo específico de pacientes.

4. CONCLUSÃO

Em conclusão, nosso estudo demonstra uma regressão precoce e significativa da EIM-C nos pacientes submetidos a cirurgia bariátrica. Esta regressão pode estar relacionada ao período de alimentação reduzida que se segue à cirurgia e também às reduções nos níveis séricos de LDL-C, aumento do HDL-C e redução nas medidas de circunferência abdominal e IMC.

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