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Assim definidos o problema e a hipótese de trabalho correspondente, não pode deixar de estabelecer-se como objecto da investigação o estudo dos mecanismos de selecção da delinquência que determinam, de modo implícito ou explícito, em primeira instância, a decisão judicial resultante da sentença proferida no processo de controlo e declaração da criminalidade. Esta definição do objecto de investigação assenta em algumas delimitações estruturais que não podem deixar de considerar-se de modo muito particular. Em primeiro lugar, o estudo limita-se à análise dos mecanismos de selecção da delinquência, orientando-se apenas para uma abordagem de decisões judiciais relativas a processos cujos factos são susceptíveis de enquadrar um tipo legal de crime, com exclusão de todas as decisões judiciais referentes a conflitos de natureza substantiva diferente, como por exemplo os relativos a matérias civis, laborais,

comerciais, administrativas, ordenacionais, etc.. Em segundo lugar, resulta da definição do objecto de estudo que a investigação não se orienta, segundo uma perspectiva etiológico-explicativa, para a explicação das causas da delinquência mas, no sentido da perspectiva interaccionista, para a determinação dos critérios de selecção da delinquência utilizados pelo sistema de controlo do crime, independentemente dos efeitos que eventualmente possam desencadear-se no decurso da sua utilização. Em terceiro lugar, e quando se fala em sistema de controlo do crime, resulta que o objecto se limita ao estudo dos mecanismos de selecção que determinam a decisão judicial, o que quer dizer que não se compreendem no estudo as designadas instâncias informais de controlo do crime, mas tão só as instâncias formais de controlo do crime, e, mesmo estas, com exclusão das instâncias anteriores e posteriores à instância onde é realizada a selecção da delinquência, o tribunal. Em quarto lugar, o estudo, justamente porque incide sobre os mecanismos de selecção da delinquência utilizados na produção de decisões judiciais, compreende apenas o estudo dos processos que, na sequência de um julgamento, deram lugar a uma decisão judicial, com exclusão de todos os processos cuja resolução foi obtida extra-judicialmente, e que, por consequência, deram lugar a uma decisão de arquivamento por desistência. Em quinto lugar, deve notar-se que o estudo dos mecanismos de selecção da delinquência se limita às decisões judiciais produzidas em tribunais de primeira instância, com exclusão portanto das decisões judiciais que, em via de recurso, tenham sido produzidas por tribunais situados num nível de ordenação hierarquicamente superior, ainda que contrariando as primeiras.

A estas delimitações do objecto junta-se uma outra delimitação relacionada com a sua aplicação e circunscrição territorial. Na realidade, os tribunais judiciais que devem enquadrar o objecto de estudo são os tribunais portugueses. Por força da metodologia aplicada, que assenta no tratamento documental de decisões judiciais, o estudo não poderia incidir sobre todas as decisões judiciais de todos os tribunais portugueses, devendo antes

circunscrever-se a um número razoável de tribunais judiciais com características determinadas. Entre as várias características que se consideraram para a selecção dos tribunais judiciais que deveriam constituir o objecto da investigação, considerou-se como razoável a selecção de dois tribunais judiciais: primeiro porque, com apenas dois tribunais e considerando o seu volume de actividade processual, a metodologia poderia ser operacionalizada com os recursos humanos e técnicos disponíveis na investigação; segundo porque, com dois tribunais, seria possível confrontar os resultados obtidos em cada um deles. Contudo, estes dois tribunais judiciais, para serem seleccionados, deveriam apresentar outras características particulares que favorecessem o confronto de resultados. Entre essas características, e partindo de uma concepção de diferenciação e ruptura do espaço territorial, com tendência para distinguir centros urbanos e centros rurais e interior e litoral do país, entendeu-se seleccionar dois tribunais judiciais, com índices médios de criminalidade, com uma mesma estrutura orgânica que permitissem o confronto de diferentes manifestações do comportamento criminal e do comportamento judicial, em conformidade com as condicionantes introduzidas pelos diferentes contextos sócio-culturais. No sentido da primeira das concepções, que separa centros urbanos de centros rurais, não seria de todo possível confrontar dois tribunais judiciais com estruturas orgânicas idênticas e com um volume processual semelhante, já que os tribunais judiciais de centros urbanos tendem a apresentar uma estrutura muito mais complexa e a revelar um volume de actividade processual maior. No sentido da segunda das concepções, que separa o interior do litoral do país, seria, ao contrário, possível confrontar tribunais judiciais com índices médios de criminalidade e com volumes de actividade processual aproximado. Naturalmente, para seleccionar os tribunais a integrar no objecto de estudo, foi seguida a segunda das concepções, que permitia à partida: excluir os tribunais judicias com estruturas orgânicas demasiado complexas e com elevado volume de actividade processual, como é o caso dos tribunais de Lisboa e Porto, situados no litoral mas sem paralelo no interior do país, e excluir os pequenos

tribunais de centros rurais cujos índices de criminalidade fossem inferiores aos pretendidos pelo estudo.

Assim, e consultando as Estatísticas da Justiça publicadas pelo GEP, em relação ao ano de 1995, tomado como ano de referência no estudo, foi possível determinar dois tribunais judicias com as características referidas, o Tribunal Judicial de Castelo Branco e o Tribunal Judicial da Figueira da Foz, ambos com idêntica estrutura orgânica, com índices médios de criminalidade aproximados e com contextos geográficos diferentes, um situado no interior do país e o outro no litoral do país respectivamente. Todavia, e porque o sistema de divisão judicial concentra em cada um destes tribunais um Tribunal de Círculo, foi necessário introduzir uma outra delimitação ao objecto, com significado particular no processo de recolha de dados, que circunscreve a investigação ao território correspondente à área das respectivas comarcas judiciais, excluindo-se, portanto, do estudo todas as decisões judiciais produzidas por estes tribunais relativas a processos de outras comarcas dos mesmos círculos judiciais.

Para além desta delimitação do objecto de investigação em relação ao espaço, existem ainda delimitações associadas ao tempo da investigação. A delimitação do tempo da investigação não foi feita ao acaso, pelo contrário, fez-se tendo em consideração que a investigação, ao estudar os mecanismos de selecção da delinquência que determinam as decisões judiciais, pretende captar um determinado modelo de justiça e a estrutura da sua transposição nas decisões judiciais que declaram o crime. Mas, mais que isso, a investigação pretende verificar se esse modelo se mantém relativamente estável ao longo do tempo ou se, pelas sucessivas distorções introduzidas pela interferência de concepções alternativas dos intérpretes, dá lugar a modelos de justiça diversos e ajustados a outras condições impostas no decurso do tempo, nomeadamente na sequência de transformações de carácter processual. Em processo penal, para além da tipicidade dos factos criminais exigida pela lei substantiva, é legítimo considerar que o modelo de justiça que estrutura a decisão judicial não se afaste, ou não deva afastar-se, do modelo legal introduzido pelas leis penal e

processual penal. No entanto, como deve compreender-se, a introdução de novas realidades num processo de natureza criminal, realidades que não estavam lá no momento da presumível prática dos factos arguidos, poderá provocar modificações ao nível da estrutura do sistema que desviam o modelo de justiça da sua estrutura formal e abstracta.

Para que a investigação pudesse captar a evolução do modelo de justiça que opera os mecanismos de selecção da delinquência que determinam a decisão judicial, não podia deixar de considerar processos entrados em mais de um ano judicial seleccionados segundo critérios determinados. Em primeiro lugar, a metodologia adoptada não podia deixar de limitar o número de anos a incluir no estudo, já que o aumento progressivo do número de decisões judiciais a tratar diminui na mesma razão as sua possibilidades de análise para os meios humanos e técnicos disponíveis na investigação. Em segundo lugar, os anos judiciais a estudar deveriam corresponder a momentos particularmente associados aos objectivos de análise dos mecanismos de selecção da delinquência que determinam as decisões judiciais que definem o objecto de estudo. Em terceiro lugar, a selecção dos anos judiciais em que se deveriam enquadrar o objecto de estudo deveria reger-se por critérios de maior actualidade em relação à data de planeamento e início da investigação. Partindo destes critérios, não podiam deixar de se seleccionar os anos judiciais de 1988 e de 1995. Primeiro, porque o ano de 1988 é marcado pela introdução de um novo Código de Processo Penal, que estabelece o quadro de actuação judicial em matéria criminal, e pela publicação de uma nova Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais. Segundo, porque 1995 é um ano marcado pela revisão do Código Penal, que estabelece o quadro de criminalização e do Código de Processo Penal, bem como é o ano mais próximo da data de planeamento e início da investigação com maior viabilidade de execução, face à morosidade conhecida do procedimento judicial.

Todavia, esta delimitação temporal do objecto de estudo, não pode considerar-se sem algumas precisões importantes. Na realidade, o objecto de estudo não pode senão incluir apenas processos entrados nos anos

seleccionados, os quais deverão, obviamente, ter sido julgados e estar findos no momento da investigação. Esta especificação da delimitação temporal permite realizar várias exclusões importantes e garantir a exequibilidade do objecto de estudo: ao considerarem-se apenas os processos entrados nos anos em estudo, serão excluídos todos os processos que tenham entrado em anos anteriores, mas cuja conclusão se veio a verificar nestes anos; ao considerarem-se os processos entrados e julgados até ao momento da investigação, excluem-se todos os processos que tenham sido eventualmente arquivados por desistência ou que se encontrem pendentes no momento da sua selecção efectiva, processos estes que por não conterem uma decisão judicial obtida por julgamento ou não a conterem ainda não se enquadram nas condições impostas pelo objecto de estudo tal como foi definido, finalmente, ao considerarem-se apenas os processos entrados, julgados e findos processual (ou seja, que constituam caso julgado) e administrativamente no momento da investigação, pretende-se que integrem o objecto de estudo apenas os processos que se encontrem fora do regime de segredo de justiça e tenham terminado todos os actos administrativos complementares, encontrando-se, portanto, de modo efectivo disponíveis para investigação.