PARTE B Estudo Empírico
1. Objecto, objectivos e hipóteses
Neste trabalho definimos como objecto de estudo a vivência (burnout) que conduz ao desenvolvimento de um sentimento de fracasso em relação a um objectivo profissional idealizado, bem como as relações entre burnout e satisfação no trabalho. Optamos por delimitar este objecto estudando-o em bombeiros que trabalham na área da emergência pré- hospitalar, procurando desta forma centrar a nossa atenção numa população alvo que de certa forma não tem sido valorizada, apesar de estes técnicos, diariamente, se confrontarem com situações complicadas quando vão socorrer vítimas. Consideramos pertinente olhar com outra óptica o trabalho desenvolvido pelos bombeiros (sejam eles voluntários ou profissionais) e perceber como também eles podem, ou não, ser afectados pelo síndrome de burnout. Apresentamos como objectivos deste estudo conhecer a prevalência deste fenómeno em bombeiros que trabalham na área da emergência pré-hospitalar, verificar se existem diferenças entre o aparecimento do burnout e determinadas variáveis profissionais (nomeadamente, tempo de serviço e tipo de situação profissional, como bombeiros voluntários ou bombeiros profissionais), e verificar se existe uma associação entre o burnout e a satisfação profissional neste grupo de profissionais.
Tendo por base a bibliografia consultada e para concretizar os objectivos propostos, enunciamos as seguintes hipóteses:
H1 – Existem diferenças nos níveis de burnout em função das seguintes variáveis: sexo, tipo de situação profissional e zona do país onde exercem a sua actividade profissional.
H2 – Existem diferenças nos níveis de satisfação no trabalho em função das seguintes variáveis: sexo, tipo de situação profissional e zona do país onde exercem a sua actividade profissional.
H3 – Existem correlações entre burnout, satisfação no trabalho e algumas variáveis individuais como idade, tempo de serviço, número médio de horas semanais.
2. Instrumentos
Em função dos objectivos deste estudo optámos por construir um questionário, dividindo-o em três grandes grupos. Foi construída uma primeira versão para ser testada em alguns bombeiros e, simultaneamente, solicitamos a opinião de pessoas com grande
experiência em trabalhar com bombeiros, no sentido de verificarmos se havia dúvidas quanto ao preenchimento. Em função dos resultados desta versão provisória efectuamos pequenas modificações e elaborámos a versão final (apresentada em Anexo).
Assim, no Grupo I incluímos as características sócio-demográficas, onde englobámos todas as informações caracterizadoras dos sujeitos que constituíram a amostra, bem como algumas questões com relevância nas variáveis em estudo. Inquirimos então sobre a corporação de bombeiros a que pertence, zona/localidade onde exerce a sua actividade na área da emergência pré-hospitalar, idade, sexo, estado civil, situação profissional, tipo de horário de trabalho, número médio de horas semanais de trabalho e anos de serviço na área da emergência pré-hospitalar. Questionamos especificamente sobre a zona de actuação destes profissionais, para perceber se o exercício das suas funções na área da emergência era restritivo à localidade a que pertencia a corporação, e sobretudo, para confirmar que era esse tipo de actividades e não todas as outras funções que um bombeiro exerce. Ao longo das conversas que fomos estabelecendo com profissionais da área foi levantada a possibilidade de os participantes entenderem a questão como abrangente, incluindo nela também as ocasiões em que se deslocam para outros pontos do país em ajuda a outras corporações, para o combate aos incêndios florestais.
Consideramos igualmente pertinente distinguir a situação profissional dos participantes, uma vez que existem quatro grandes categorias de bombeiros:
- Bombeiros sapadores - exercem horários semelhantes à média do trabalhador comum (35 a 40 horas semanais) e estão ao serviço de uma empresa de carácter público. No país só existem em Lisboa, Setúbal, Coimbra, Porto, Vila Nova de Gaia e Braga. São também aqueles que podemos designar como profissionais, à semelhança dos bombeiros dos E.U.A. ou da Europa.
- Bombeiros municipais - obedecem a um horário semelhante à categoria do sapador, estando contudo sob a alçada das autarquias. É de acrescentar que em algumas Câmaras Municipais existem funcionários que acumulam às suas funções as de bombeiro (geralmente designada de situação mista, em que por exemplo são electricistas mas realizam um certo número de horas em tarefas de bombeiros), mas esta situação não é generalizada e tem tendência a desaparecer.
- Bombeiros voluntários assalariados de uma associação humanitária - estão ao serviço de uma instituição de carácter humanitário, sem fins lucrativos de utilidade pública, e o seu horário de trabalho assemelha-se ao das categorias anteriores.
- Bombeiros voluntários - contrariamente às categorias anteriormente referidas, podem apresentar grandes variações em termos de horas realizadas (nomeadamente, trabalhar apenas
em épocas de férias ou fins de semana) e como a própria palavra indica, não usufruem de remuneração pelo serviço realizado, exceptuando nas épocas dos incêndios florestais.
Incluímos ainda duas questões que visavam analisar o grau de satisfação e motivação com o trabalho no momento actual e se existiam intenções de mudar de funções ou de instituição.
O Grupo II contempla um questionário usado para avaliar a satisfação no trabalho. O instrumento foi inspirado nas versões de Vala, Pereira Bastos e Catarro (1983) e de Vieira (2005). Atendendo às características da nossa amostra e à especificidade das suas funções, foram excluídos alguns itens e introduzidos outros, ficando no total uma escala com 19 itens, cujas opções de resposta se encontram formuladas numa escala de Likert de 5 pontos, que vão do 1 (pouco satisfeito) ao 5 (muito satisfeito). È assim possível obter um valor total que varia entre o mínimo de 19 pontos e o máximo de 95.
No Grupo III apresentamos o instrumento destinado a analisar o burnout, recorrendo para tal ao MBI (Maslach Burnout Inventory, de Maslach & Jackson, 1997), dado ser um dos instrumentos mais usado e expressivo que se destacou ao longo da nossa pesquisa bibliográfica. Utilizamos uma versão portuguesa adaptada da versão espanhola, população europeia com características mais próxima da nossa e já utilizada em outras teses com amostras portuguesas (Silva, 2002; Mendes, 2005). A inclusão do questionário MBI deve-se, não só ao facto de avaliar as três dimensões já descritas no enquadramento teórico deste trabalho, constituindo também uma medida passível de correlação com a satisfação no trabalho (avaliada no Grupo II). O MBI é constituído por 22 itens cujas opções de resposta se encontram formuladas numa escala de Likert de 7 pontos, que vão do 0 (nunca) ao 6 (todos os dias). Contém na sua organização as três sub-escalas que medem a Exaustão Emocional, Despersonalização e Realização Pessoal. Para calcular os resultados de cada sub-escala, procede-se ao somatório da pontuação correspondente a cada um dos itens (que pode ir de 0 a 6). No caso da Realização Pessoal, como tem um total de 8 itens, pode-se atingir uma pontuação mínima de 0 e máxima de 48. A Despersonalização é composta por 5 itens, podendo atingir um mínimo de 0 e um máximo de 30. A Exaustão Emocional, que compreende 9 itens, pode verificar um mínimo de 0 e um máximo de 54. Segundo Maslach, Jackson e Leiter (1996), o burnout é conceptualizado como uma variável contínua, sendo classificado como algo que é experienciado num grau baixo, moderado ou elevado. Não é visto como uma variável dicotómica, que ora está presente ou ausente. Assim, um elevado grau de burnout é reflectido em elevados resultados nas sub-escalas de exaustão emocional e despersonalização e em baixos resultados na sub-escala da realização pessoal. Já um grau médio de burnout é reflectido em resultados médios nas três sub-escalas. Por fim, um baixo
grau de burnout é reflectido em baixos resultados nas sub-escalas de exaustão emocional e despersonalização e em elevados resultados na sub-escala de realização pessoal.