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No âmbito da presente investigação pretende-se contribuir para o conhecimento da forma de divulgação da prática profissional do arquitecto na área da habitação económica, como resposta ao problema da escassez do alojamento urbano, a partir das revistas de arquitectura na década de 1920. A presente investigação procura responder à seguinte questão:

Como se expressa no projecto a prática profissional do arquitecto perante a necessidade de habitação económica urbana na década de 1920 em Portugal?

Foram estabelecidos os seguintes objectivos:

Estabelecer definições operativas dos conceitos de formação, profissão e função do arquitecto na década de 1920 em Portugal;

Identificar os elementos que caracterizam o papel social do arquitecto na década de 1920 em Portugal através da análise dos documentos publicadas pela Sociedade dos Architectos

Portuguezes;

Definir Habitação Económica no contexto social e histórico em que se desenvolve a investigação, identificando as suas características identitárias;

Explorar as revistas de arquitectura no seu contributo para a prática de arquitectura no princípio do século XX;

Aplicar o enquadramento conceptual prévio na análise de uma resposta da prática profissional às necessidades de habitação económica, e publicada na revista A Architectura Portugueza.

1.4. METODOLOGIA

Esta investigação procurou metodologicamente utilizar técnicas de identificação e análise que permitissem identificar acções de projecto que reflectissem preocupações com o bem-estar e qualidade de vida em habitações económicas. No artigo Uma Nova Ordem para a Cidade a partir da Casa: registros em revista do Eng. Victor da Silva Freire Júnior (Azevedo, 2011) são destacados alguns temas divulgados nas várias revistas de especialidade brasileiras nas primeiras duas décadas do século XX relativamente a projectos de habitação económica. Na leitura que Azevedo (2011) realiza dos artigos apresenta “um estudo comparativo dos diversos typos de villas operárias Standard” (Valentini, 1912, p.150 apud Azevedo, 2011, p.58). O autor refere que os diferentes tipos de planta apresentados (Fig. 01.07) obedecem a critérios funcionais (circulação e áreas), ao programa e aos processos técnicos e construtivos adoptados. As duas páginas da revista apresentam uma procura pela organização espacial que foi explorada através da possibilidade construtiva dos processos industriais. Na Figura 01.07 os projectos apresentados são de habitações operárias na Rússia e o texto do artigo faz notar a importância do conforto no desenho do espaço interior: “as casas são dispostas em grupos de 4, em cruz, sempre no intuito de diminuir as dispersões de calor” (Revista Engenharia, 1913, p.229 apud Azevedo, 2011, p. 71). Azevedo (2011) refere ainda que o artigo apresenta um diagnóstico sobre a consciência da situação económica de cada país e também o contexto das classes sociais envolvidas, e o enquadramento “da devida responsabilidade social das respectivas elites” (p.58), no desenvolvimento de habitação económica. No artigo compreende-se que a classe profissional dos arquitectos e engenheiros fazem parte das “elites” e ambas tinham uma responsabilidade acrescida na solução da habitação confortável, devido à sua formação académica.

Esta investigação também tomou como referência a metodologia desenvolvida pelo grupo MOM (Morar de Outras Maneiras), sediado na Escola de Arquitectura da Universidade Federal de Minas Gerais, na investigação A habitação social no Brasil do século XX e as estruturas informacionais da arquitectura, urbanismo e engenheraria por proporem uma “organização e classificação de artigos e/ou matérias publicados em periódicos brasileiros de arquitetura, urbanismo e engenharia para constituir um mapa conceitual e temático sobre a habitação social do século XX” (MOM, para.1). A metodologia utilizada pelo MOM sintetiza-se num quadro que organiza e categoriza as características da habitação social com base em conceitos teóricos. Estas características permitem identificar e analisar os conceitos teóricos publicados em artigos incluídos em revistas de arquitectura com o objectivo de se compreender o modo de pensar e de fazer a habitação social.

Considerou-se a revista A Architectura Portugueza por ser a única revista especializada em arquitectura e construção publicada na década de 1920 em Portugal e que por sua vez coexiste no mesmo período de lançamento das primeiras políticas públicas de habitação e do aumento na construção de fogos.

FIG.01.07 | Tipos de Habitação Operária na Rússia | Fonte: Revista Engenharia, Vol. II, n.º 9, 1913, p.229 apud Azevedo, 2011, p.71

Neste estudo procurou-se compreender a sua importância como meio difusor de conhecimento sobre a habitação económica nesta década, identificando os problemas, orientações regulamentares e soluções arquitectónicas que incluiu nos seus editoriais.

A consulta dos números da revista A Architectura Portugueza (publicados entre 1908 e 1929) disponibilizados em formato digital no âmbito do portal Revistas de Ideias e Culturas (RIC)3, permitiu

seleccionar sete artigos que divulgaram projectos de habitação económica. Os artigos foram publicados entre os anos 1923 e 1928 por dois editores (Nunes Colares e o arquitecto António da Silva Júnior) sugerindo o interesse editorial sobre o tema e demonstrando o interesse no assunto na década de 1920. Salienta-se que o editor Nunes Colares apelou nesta mesma revista em diversos artigos à consciencialização da classe dos arquitectos, reconhecendo a importância deste tema para a realidade social do país, destacando aspectos sociais, económicos, morais e higiénicos.

Na revista A Architectura Portugueza seleccionou-se o artigo Projecto de um grupo de dez casas de habitação (A Architectura Portugueza, 1926), localizado na cidade do Porto, iniciativa de promoção privada e de tipologia em banda. Estas características que que definem habitação económica na década de 1920 em Portugal (Fig. 01.08) destacam-se por ser comuns a um elevado número de bairros construídos naquele período segundo a relação entre a localização e número de bairros construídos, a promoção (privada ou pública) e o tipo de construção, maioritariamente em banda.

Procedeu-se à análise quantitativa dos artigos sobre habitação económica divulgados na revista A Architectura Portugueza na década de1920, de modo a identificar as características da habitação económica relevantes neste período, observando os projectos arquitectónicos e comparando-os. Os critérios de comparação para a selecção do projecto cujo estudo seria aprofundado foram: a localização, a promoção (pública ou privada), tipologia (urbana e da habitação), a organização programática e o desenho dos espaços de circulação internos.

3 O portal Revistas Ideias e Culturas (RIC), coordernado pelo Doutor Luís Andrade, é um projecto que tem como objectivo fazer o mapeamento da cultura portuguesa a partir da análise sistemática do conteúdo das revistas tidas por mais significativas do século XX disponibilizadas numa base de dados online, do qual já faz parte a revista de arquitectura A Construcção Moderna. Este projecto é desenvolvido pelo Seminário Livre de História das Ideias (SLHI) no âmbito do CHAM – Centro de Humanidades, da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores, e o centro de investigação da FCSH-UNova.

Procura de melhores condições de vida Êxodo Rural

Industrialização Défice Habitacional Problemas de Saúde Pública Movimentos Sindicais Lisboa Porto Braga Coimbra Médicos Engenheiros Arquitectos Políticos

Iniciativa Privada: Associações; Filantropos; Industriais

Iniciativa Pública: Governantes

Saúde Pública Higiene Salubridade Iluminação Ventilação Conforto Economia Custo Estética Bairros Operários Habitação Isolada Edificios multifamiliares Edificios em banda Habitações Geminadas

Habitáveis: sala e quartos (com 9m2)

Não habitáveis: cozinha e sanitário Serviço: despensa e casa de arrumações Habitação Colectiva Projecto de Arquitectura Autoconstrução Produção em série PROBLEMA DO ALOJAMENTO LOCALIZAÇÃO DO PROBLEMA INTERVENIENTES NO DEBATE E CONSTRUÇÃO DE HABITAÇÃO ECONÓMICA IDENTIDADES QUE PROMOVEM A HABITAÇÃO ECONÓMICA TIPOLOGIA DE