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II. OBJETIVO E JUSTIFICATIVA

1. Objetivo Geral

Investigar o funcionamento psicodinâmico de pacientes drogadictos.

2. Objetivo Específico

Investigar as características próprias da dinâmica afetiva de cinco pacientes drogadictos expressas no Método de Rorschach e no processo de atendimento psicológico.

3. Hipótese

Presume-se que as características próprias da dinâmica afetiva de pacientes adictos, expressas no Método de Rorschach e nos atendimentos, permitam identificar possíveis origens dessa dinâmica e das dificuldades de envolvimento desses pacientes em uma proposta de atendimento de orientação psicanalítica. A partir disso, pressupõe-se que possa ser iniciada uma reflexão a respeito de estratégias de atendimento mais adequadas a esses casos.

4. Justificativa

São freqüentes os trabalhos que apontam a dificuldade de pacientes drogadictos se manterem em diversas abordagens de tratamento (BUCHER; COSTA, 1985; OLIVEIRA; KORN NETO; SILVEIRA FILHO, 2003; PINSKY et al.., 1995; REZENDE, 2003). No entanto, não se têm explorado as causas dessas dificuldades, o que poderia auxiliar no desenvolvimento de estratégias de intervenção.

Decidiu-se pela utilização do Método de Rorschach tanto pelo amplo emprego e fidedignidade dessa técnica projetiva (NASCIMENTO, 2001; SOUZA, 1995), quanto pela possibilidade de comparação entre indivíduos, a partir de uma variável comum, o que se

encontra menos estruturado na literatura quando são usados apenas os dados coletados ao longo do processo de psicoterapia. A análise dos dados é feita por meio dos estudos da escola francesa a respeito do Método de Rorschach (ANZIEU, 1986; CHABERT, 2003, 2004; RAUSCH de TRAUBENBERG, 1998), bem como pela articulação desses estudos a uma leitura psicanalítica, com referencial teórico kleiniano e winnicottiano, que enfatizam as primeiras relações objetais.

III. MÉTODO

1. Participantes

Os participantes são cinco sujeitos adictos a drogas ilícitas, com ou sem associação ao álcool, há pelo menos três anos. São quatro do sexo masculino e um do sexo feminino, com idades variando entre 17 e 24 anos.

Outras oito pessoas também foram atendidas. Duas delas não chegaram a ser submetidas ao Método de Rorschach, visto que interromperam o atendimento antes mesmo que houvesse oportunidade de realizar essa aplicação. As outras seis poderão fazer parte de um estudo futuro, uma vez que foram submetidas aos mesmos procedimentos, mas se encontravam fora da faixa etária pré-estabelecida para o estudo. Duas dessas pessoas ainda estão em atendimento.

Perfil resumido dos participantes:

Sujeito Iniciais Idade Sexo Escolaridade Droga de

escolha Outras Drogas experimentadas Início do consumo

1 W.F. 17 Masc 5ª série Ensino

Fundamental Maconha e Álcool Cocaína, Crack e Mesclado (maconha com crack) 11 anos

2 P.M. 17 Fem 3ªsérie Ensino

Médio Maconha, Álcool e LSD Cocaína, Crack, Ecstasy, Chá de Cogumelo, Lança Perfume e Cola de Sapateiro

11 anos

3 N.V. 18 Masc 3ª série Ensino

Médio Maconha Cocaína, Ecstasy, Lança perfume, LSD e Álcool

12 anos

4 G.R. 19 Masc Superior

Incompleto Cocaína Maconha e Álcool 17 anos

5 O.P. 23 Masc Ensino Médio

Completo

Maconha Cocaína, Ecstasy, LSD e Álcool

12 anos

O sujeito 1 foi encaminhado para o atendimento por uma assistente social da Febem, que tinha contato com a professora orientadora desta pesquisa, devido a seus trabalhos desenvolvidos com pacientes dependentes químicos. A demanda por atendimento foi dele

mesmo, que não era obrigado a comparecer se não desejasse. Os sujeitos 2, 3 e 5 procuraram diretamente a Clínica Psicológica da Universidade de São Paulo (USP) e foram encaminhados ao projeto pelas psicólogas que realizaram a triagem. No caso dos sujeitos 2 e 3, a demanda por atendimento era de suas mães. O sujeito 5, apesar de ter comparecido em presença da mãe, tinha uma demanda própria. O sujeito 4 também foi conduzido ao atendimento a pedido de sua mãe, mas seu encaminhamento partiu de um contato entre ela e outros docentes da USP, que tinham conhecimento dos atendimentos realizados no âmbito da pesquisa em apreço.

Todos os participantes já experimentaram cocaína, mas apenas para um deles ela se tornou a droga de escolha. Acredita-se que essa escolha esteja vinculada à problemática subjacente desses indivíduos, mas que mesmo com condutas adictivas diferentes, possam estar reunidos em um mesmo grupo, cuja semelhança está na necessidade de utilização de um objeto externo para provocar efeitos internos.

2. Instrumentos

2.1 Entrevistas Psicodiagnósticas;

2.2 O Método de Rorschach em aplicação individual; 2.3 Relatos das Sessões de Psicoterapia;

3. Procedimentos

3.1 Tanto no caso dos pacientes que vieram diretamente para o projeto, quanto daqueles que passaram pela triagem da Clínica Psicológica da USP era realizado um esclarecimento do tipo de trabalho que seria desenvolvido, ou seja, que se tratava de uma pesquisa de Mestrado que envolvia atendimentos em psicoterapia a pacientes com adicções, sem que houvesse uma ênfase sobre a drogadicção. Era dito aos sujeitos que esse assunto seria tratado da mesma

forma que os demais, ou seja, quando aparecesse espontaneamente. Era importante frisar que se tratava de um espaço de livre-expressão, pois o título da pesquisa, bem como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO A) com suas detalhadas explicações poderiam interferir na constituição de um espaço aberto em que os pacientes pudessem se colocar naturalmente. O Termo de Consentimento era assinado logo na primeira sessão.

3.2 Os pacientes foram submetidos a um processo psicodiagnóstico composto pelo Método de Rorschach e os dados obtidos nas entrevistas iniciais. Alguns deles passaram por uma, duas, ou três entrevistas antes da aplicação do Método de Rorschach, segundo avaliação individual do melhor momento para essa realização;

3.3 As entrevistas iniciais eram conduzidas de forma livre e, aliadas ao Método de Rorschach, serviam como parâmetro para avaliação do nível de adaptação dos sujeitos à realidade, bem como da possibilidade de que o atendimento psicológico fosse suficiente como forma de intervenção.

3.4 Todos os participantes foram atendidos em sessões individuais, de 50 minutos de duração, na Clínica Psicológica da USP. As freqüências semanais variavam entre uma ou duas sessões e as razões para essas variações serão apresentadas para cada caso, junto com os resultados, uma vez que não são as mesmas de um indivíduo para outro.

3.5 O tempo inicial de intervenção foi estabelecido, com os pacientes, por um ano, mas eles tomavam conhecimento de que era possível haver continuidade se assim fosse avaliado pela terapeuta, pela supervisora e por eles mesmos, que os progressos alcançados justificariam a continuidade. Além disso, estavam cientes de que, mesmo ao final da pesquisa, o atendimento poderia continuar, caso se configurasse essa necessidade.

3.6 Realizou-se, e ainda vem se realizando nos casos em andamento, durante todo o processo, o relato das sessões dos pacientes, bem como a supervisão semanal dos casos.