• Nenhum resultado encontrado

Objetivo: Promover a Criatividade, a Expressividade e a Sensibilidade.

No documento As formas animadas e a criatividade (páginas 82-86)

6.3 Discussão dos resultados

6.3.2 Objetivo: Promover a Criatividade, a Expressividade e a Sensibilidade.

Encarámos este projeto como desafiador para os alunos, baseando-nos num conceito de aprendizagem autêntica, isto é, os alunos conseguirem aprender através de tarefas que promovam experiências relevantes e que estejam ligadas à vida do dia-a-dia dos alunos, e do seu envolvimento nas aprendizagens. Tentámos promover o envolvimento ativo dos alunos nas atividades propostas.

A promoção da criatividade foi sem dúvida um desafio quer para nós, quer para os alunos. Embora seja uma palavra que os alunos conhecem e ouvem várias vezes, persiste, como já foi exposto, como não valorizado, trabalhado e incentivado pela escola. Robinson (2010) aponta que o sistema educativo continua a dar enorme importância à avaliação, realçando problemas nos métodos utilizados. Ou seja, cada vez mais a escola se apoia em elaborar testes uniformes, não dando atenção às especificidades de cada um. O autor observa ainda esta opção, como pouco motivante para a inovação e a criatividade na educação, pois para ele, são elas que permitem que as escolas e os alunos se desenvolvam.

Para alguns alunos a Criatividade “ É algo que nos inspira e que faz uma ideia evoluir” (Francisco); “É quando inventamos uma coisa que ainda não foi inventada “ (Gustavo); “Eu tenho ideias que essas pessoas já tiveram e transformo-as (Rui) “Não sou criativo porque nunca fiz coisas que os outros não fizessem, nunca fiz uma marioneta por exemplo” (Rodrigo); “ Não sei bem o que é criatividade…” (Telma). Para a professora titular “…a criatividade: é uma qualidade que todos nós temos (uns tem-na mais desenvolvida); é ser “livre”; é poder criar algo de novo; é ser-se curioso e persistente no que se cria”.

81

Efetivamente, houve estimulação da Criatividade, embora não tenha existido uma maioria de alunos a conseguir desenvolver e a evoluir o seu potencial, pois apenas dois (Francisco e Rui) revelaram crescimento nos exercícios propostos ao longo das sessões. Já outros revelaram muita dificuldade em muitos dos exercícios de criatividade planeados “Foi difícil porque não tava com muitas ideias” (Paulo), “… é difícil pensar” (Gustavo). “Os alunos distraem-se com mais frequência. Peço que se concentrem mais no trabalho que lhes foi solicitado” (diário de bordo).

Como refere a professora titular de turma, esta “…é uma turma formada por 23 alunos. Estão integrados neste grupo turma 4 alunos com necessidades educativas especiais e beneficiam de apoio especializado, cada um deles com um ou dois blocos de 45 minutos de apoio por semana. Outros 8 alunos (participantes neste projeto) beneficiam de apoio educativo todos os dias devido às muitas dificuldades de aprendizagem. Apenas 11 alunos nunca sofreram retenções no ciclo. São crianças muito humildes, algumas carenciadas e com pouco acesso “ao mundo””.

Poderá ser esta uma das razões para uma evolução muito pouco relevante, embora Bahia (2008) faça referência a Vygotsky (1988), onde este autor defende que a criatividade é uma caraterística essencial do Homem e que todos possuem um potencial criativo. Mas acrescenta que o desenvolvimento e a promoção da criatividade não acontece de forma semelhante, quer por diferenças individuais inerentes, quer pelas oportunidades oferecidas pelo meio que pode ou não favorecer a sua necessidade de estimulação.

A criatividade acontece por estar ligado a um processo de tomada de decisão sustentado na postura e nas capacidades do indivíduo com o objetivo de impulsionar transformação. Lubart na sua análise da criatividade transmite-nos que colaboram os processos cognitivos, conativos, que designam os estilos de pensamento, os tipos de motivação e os traços de personalidade, os emocionais e os contextuais onde emerge o produto da criação expresso num qualquer domínio do conhecimento (Lubart, 2007). Ou seja, como refere MacKinon (1975), para abordar o conceito este só estará inteiramente investigado se encararmos as suas várias dimensões: o método, a pessoa, o resultado e o modo.

Para Wall (1975), a entrada das crianças no sistema educacional faz com que o processo de socialização as incite a rejeitar a criatividade e a conformarem-se com atividades em grupo, com normas e regulamentações. E por isso, habituados a cumprir demasiadas regras, veem a sua criatividade limitada.

Por outro lado (Nieman e Bennet, 2002) referidos igualmente por Bahia (2008) consideram que o meio envolvente não beneficia a criatividade, mas sim como

82

acrescenta Watts “…o medo de falhar, a segurança do conhecido, a instauração de rotinas de trabalho, o imperativo da perfeição, o perigo do risco ou o repúdio lúdico, constituem sérios bloqueios à expressão do potencial criativo (Watts em Bahia, 2008, p. 233). Tudo isto se reflete na escola e tem sido um entrave à criatividade.

Quanto à promoção da expressividade considero que foi atingida com relativa facilidade, pelo menos com alguns dos elementos que participaram. Alguns dos alunos já trabalhavam comigo há dois anos letivos, os outros depressa se integraram, com a ajuda desses alunos.

Como refere Chateau (1975), nas atividades dramáticas os alunos deverão desenvolver uma série de capacidades físicas, relacionais, cognitivas, técnicas, para que possam exprimir-se criativamente, improvisando e interpretando pela forma dramática. Os alunos devem desenvolver no processo de aprendizagem, deste meio de expressão, a utilização do corpo, voz e imaginação enquanto veículos de comunicação.

Ao promover a expressividade, os alunos produzem saber sobre si, para si e para os outros. Produzem conhecimento sobre si na medida em que conseguem ler as suas próprias mensagens e em que estas são portadoras das vivências e experiências. Produzem conhecimento para os outros na medida em que transmitem os seus conhecimentos, os seus conceitos ou representações sobre o mundo, e estas são as aprendizagens dos alunos que irão estimular o seu desenvolvimento e que poderá também ser conquistado pelos outros.

Leenhardt (1974), refere que a criança que tem hipótese de se expressar está mais satisfeita, é competente para utilizar criativamente todas as suas capacidades de pensamento, de ação e de inteligência, tornando-se por isso visível a importância de lhe dar a oportunidade de desenvolver essas suas capacidades.

Por isso, as atividades expressivas devem ter como objetivo servir a criança na sua construção como pessoa, e não uniformizá-la no grupo. Neste sentido é fundamental que se lhe proporcionem momentos de reflexão sobre si própria, de forma, a que na e pela sua expressão se façam ajustes e reajustes dentro de si, “ Gostei muito dos jogos de voz, foram divertidos, fizeram-me sentir mais à vontade” (Mariana).

Neste projeto o objetivo não foi perturbar a expressão escrita que também foi usada como recurso em muitos dos exercícios propostos, para a avaliar o pensamento criativo. Não foram feitas correções constantes, e tentámos atuar de forma construtiva estimulando a apreciação da comunicação escrita. Brincar com a palavra escrita significa deter a capacidade de reagir de uma forma descontraída e, experimentar a escrita tal como ela surge espontaneamente, ou despoletada pela solicitação de um exercício. Verificámos que alguns dos alunos na escrita, se revelaram mais perspicazes e

83

aprenderam a ver as propostas com mais atenção e concentração. Esses exercícios ajudaram a perceber como os alunos se exprimem através da palavra escrita e permitiram-lhes expandir a sua capacidade de comunicação. Também alguns manifestaram mais “atrevimento" expressando-se com mais frontalidade. “ Foi giro, porque fizemos coisas, escrevemos palavras em poucos minutos. Nunca tinha feito e podemos escrever o que queremos” (Catarina);“Puxámos pela cabeça a escrever, gostei muito e porque tivemos a contar os nossos sonhos por escrito” (Francisco).

Escrever o que pensamos ou sentimos durante um jogo, ou um exercício permite redescobrir o que gostámos mais, ou o que fizemos menos bem. Ouvir, ler, ver, falar e escrever aumentam a nossa capacidade de avaliar uma situação ou as potencialidades e intenções de uma pessoa.

No que diz respeito à promoção da sensibilidade, termo que se define como o conjunto dos nossos sentimentos e das nossas sensações e o modo como as experimentamos, porém é também a capacidade de as perceber e interpretar. Por isso, como refere Andrea (2005), quanto mais e melhor a criança se relacionar com as diferentes expressões artísticas, então, mais ela amplia o seu mundo percetivo e mais aumenta a capacidade de sentir e experimentar, facilitando o desenvolvimento de todas as suas capacidades.

Assim, ao promover a educação da Sensibilidade criam-se condições para que estes alunos descubram as suas diversas potencialidades e, em função das situações que lhes foram propostas, desenvolver umas ou outras. Por isso, o uso da palavra levou- os a aprender a colocar a voz, a articular e a controlar a respiração. A utilização do seu corpo levou-os a dominar melhor os gestos, a deslocarem-se e a situarem-se no espaço. Alguns dos alunos recorreram aos seus conhecimentos, adquiridos também neste projeto, para encontrarem a melhor forma de reproduzir um sentimento, e de se colocarem numa dada situação, “Eu também tenho vergonha a fazer coisas, a mostrar, pensava que não era capaz de fazer um boneco a partir de uma garrafa, mas consegui. Aqui não tenho vergonha, mas lá na sala tenho… porque há colegas que gozam connosco.” (Catarina) Um colega diz-lhe “não te rales, entra por um ouvido e sai por outro”. (Francisco). “Aprendemos a fazer coisas que nunca tínhamos feito, foi diferente”. (Telma).

Desta forma, a sensibilidade é uma categoria do conhecimento e poderá ser a via de acesso ao mundo externo, ao nosso corpo. É o modo como olhamos para as coisas, como ouvimos, mas também como pensamos. O que melhor resume a sensibilidade é que ela é uma capacidade de ter e de dar atenção às coisas, o modo como nos dispomos

84

ao que não somos e ao que não conhecemos, o esforço de cada um que sente, deverá ser então reunir, estabelecendo pontes, reintegrando capacidades.

Também Tejerina (1994) como já foi referido, esclarece que quando as crianças não são capazes de explicar verbalmente um pensamento, podem encontrar nas Formas os seus substitutos simbólicos do seu mundo. Por isso acredito que este objetivo foi alcançado, pelo menos para uma maioria dos alunos, houve evolução ao nível da Sensibilidade.

6.3.3 Objetivo: Ajudar a criança a expressar sentimentos e

No documento As formas animadas e a criatividade (páginas 82-86)