1. INTRODUÇÃO GERAL
1.6. Objetivos, algumas hipóteses e estrutura do estudo
Para iniciar esta seção, é necessário dizer que, pelo menos até onde se teve
conhecimento, não há estudos no PB sobre a percepção de fronteiras prosódicas em fala
espontânea e em leitura. Os estudos que mencionam alguns aspectos do fraseamento
prosódico na língua tomam como base corpora de leitura e normalmente envolvendo
contextos pequenos de produção, ou mesmo a produção de frases isoladas (Tenani
2002). Em função disso é que, como dissemos na primeira página desta tese, este é um
trabalho de natureza exploratória. Assim, é necessário esclarecer que o corpus utilizado
aqui não será analisado em todas as suas potenciais características e a formulação de
algumas hipóteses sobre o comportamento dos juízes (ouvintes) acerca da percepção
constitui apenas “especulações” com base em estudos sobre percepção em outras
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línguas (Blaauw 1994; Pijper & Sanderman 1994; Hansson 2003; Carlson & Swerts
2003; Amir, Silver-Varod & Izre´el 2004; Cole, Mo & Baek 2008; Mo, Cole & Lee; Mo
2008, entre outros), levando em conta as evidências sobre os constituintes prosódicos no
PB (Frota & Vigário 2000, Tenani 2002, Fernandes 2007 e Viana & Frota 2007).
O objetivo mais geral deste estudo, portanto, é relacionar percepção e produção
e fazê-lo indo para além da fala controlada de laboratório (examinada em muitos
trabalhos no que respeita à produção), e investigar a função da prosódia de fraseamento
da fala no estilo espontâneo e na leitura de textos provenientes da fala espontânea. Para
essa investigação, partimos da percepção dos ouvintes do que eles julgam ser um
contexto de ruptura, ficando para uma etapa futura de análise a observação da realização
de fronteiras prosódicas independentemente da percepção. Portanto, o critério para a
observação do fraseamento prosódico é a percepção dos usuários da língua e toda a
análise sobre a realização desse fraseamento tem como ponto de partida a sua
percepção.
Como dissemos na seção introdutória, três são os objetivos mais específicos
desta tese:
(1) Relacionar as fronteiras dos constituintes prosódicos, tais como eles são
previstos pela teoria da Hierarquia Prosódica (Selkirk 1984, 1986; Nespor & Vogel
1986; Frota 2000; Tenani 2002; entre outros), e a percepção de rupturas na fala
espontânea e na leitura. Portanto, pretendemos relacionar estrutura prosódica prevista e
percebida, em cada estilo de fala;
(2) Descrever as características fonético-fonológicas e sintáticas das fronteiras
percebidas e não percebidas. Mais especificamente, observar o inventário de tons e a
forma como eles são realizados (Ladd 1996, entre outros); verificar o papel dos
correlatos acústicos (de ocorrência e duração da pausa, de alongamento silábico e de
variação de F0) na marcação de fronteiras; analisar, em termos estritamente
fonológicos, o efeito do tamanho dos constituintes e a distância entre fronteiras
percebidas e não percebidas em número de sílabas e de palavras prosódicas. No âmbito
da sintaxe, testar os efeitos do ranqueamento das fronteiras sintáticas em fronteiras
percebidas e não percebidas, relacionando fronteira sintática com fronteira prosódica
nos termos preditos pelo mapeamento sintaxe-prosódia;
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(3) Capturar as pistas mais relevantes para a percepção de fronteiras prosódicas
em cada estilo de fala (Blaauw 1994; Hansson 2003; Amir, Silver-Varod & Izre´el
2004).
Com este estudo, espera-se contribuir para o conhecimento inter-lingüístico
sobre fraseamento prosódico, fornecendo dados do PB para a discussão e observando a
relação entre previsão, percepção e realização de fronteiras prosódicas.
Duas hipóteses iniciais podem ser levantadas a partir das diferenças relativas ao
processo de planejamento da fala (na produção) na leitura e na fala espontânea:
1) Em função do planejamento limitado na fala espontânea e das unidades de
planejamento na leitura serem presumivelmente maiores, já que o texto a ser produzido
está previamente construído, podemos supor que na fala espontânea haja maior
produção de fronteiras prosódicas em constituintes menores (em posição interna a I), no
fraseamento previsto dos constituintes prosódicos, e que essas diferenças no nível da
produção possam interferir no julgamento das rupturas nos testes de percepção. Dessa
forma, relativamente à prosodização prevista dos constituintes, poderia se esperar que
em fala espontânea haja mais percepção em fronteiras de constituintes menores, como o
sintagma fonológico e a palavra prosódica (que seriam assim produzidos com um
fraseamento diferente do previsto, isto é, com fronteira de I), e que em leitura fossem
percebidas mais fronteiras de constituintes maiores, designadamente a fronteira de
sintagma entoacional (sendo assim os constituintes prosódicos produzidos com um
fraseamento mais próximo do previsto na leitura) (Blaauw 1994).
2) De acordo com uma outra hipótese, podemos supor que não há diferenças
cruciais entre a percepção de rupturas em cada estilo de fala, e que, ao contrário, os
ouvintes se baseiam numa mesma gramática para a percepção de rupturas, qualquer que
seja o estilo de fala, construída na base de alguns fatores gerais de fraseamento. Ou seja,
nesse caso, a percepção, além de ser guiada pela produção, é também alicerçada pela
previsibilidade de ocorrência de uma fronteira. Refletindo os princípios de mapeamento
prosódico, na tarefa perceptiva, o ouvinte tenderia a eliminar toda ruptura que, numa
´gramática de constituintes prosódicos bem formados`, não estivesse prevista, daí
aproximando os dois estilos de fala na percepção. Assim, as fronteiras realizadas em
locais não previstos (mais esperadas na fala espontânea) tenderiam a ser ignoradas na
tarefa perceptiva, buscando-se sempre uma estrutura potencialmente bem formada de
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acordo com fatores sintático-fonológicos de mapeamento dos constituintes prosódicos.
Essa hipótese vai ao encontro do que muitos pesquisadores mencionam sobre a
percepção de fronteiras por parte de ouvintes treinados. Segundo Ladd, por exemplo,
If we hear an audible break in a syntactically or semantically
´impossible` location, we may be tempted to say that it is a
hesitation rather than an IP boundary; conversely, if we fail to
observe a clear boundary where our rules lead us to expect
one, we may be tempted to conclude that one is present
anyway, but that it is hard to hear20. (1996: 236)
Nessa ponte entre produção e percepção, o que está em questão é como a
prosódia é usada para fragmentar o fluxo da fala em unidades com estrutura sintática,
semântica e entoacional apropriadas para a produção e a percepção de fronteiras na fala
espontânea e na leitura, isto é, apropriadas para o falante planejar e produzir a fala nos
diferentes estilos e apropriadas para a transferência bem-sucedida da mensagem ao
ouvinte.
Da comparação entre fronteiras percebidas e não percebidas, espera-se capturar
as pistas envolvidas na percepção de uns contextos em detrimentos de outros. A
ocorrência e a duração da pausa silenciosa, o alongamento silábico pré-fronteira e a
variação melódica são os fatores fonéticos investigados; os fatores fonológicos de tipo e
freqüência dos eventos tonais nucleares são investigados, além dos efeitos relacionados
ao tamanho de constituintes e de distância prosódica entre as fronteiras; a relação entre
fronteira prosódica e fronteira sintática também é observada, tendo em atenção os
princípios de mapeamento sintático-fonológico dos constituintes prosódicos.
Procuraremos detectar quais desses fatores exercem papel na distinção entre fronteiras
prosódicas percebidas e não percebidas e qual o seu peso relativo, relacionando
estrutura prosódica prevista, percebida e realizada, na linha do que já tem sido feito no
estudo do fraseamento prosódico em diversas línguas (Blaauw 1994, Carlson & Swerts
2003, Hansson 2003, Amir, Silver-Varod & Izre´el 2004, Cole, Mo & Baek 2008, Mo,
Cole & Lee; Mo 2008, Dilley & Mcauley 2008, e muitos outros).
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Se escutamos uma ruptura audível em local sintaticamente e semanticamente ´impossível`, podemos ser
tentados a dizer que é uma hesitação em vez de uma fronteira de IP; inversamente, se falhamos em
observar uma fronteira clara onde nossas regras levam-nos a esperar uma, podemos ser tentados a
concluir que a fronteira está presente, mas que é difícil ouvi-la.
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Neste Capítulo 1 introdutório, apresentou-se a base teórico-metodológica para a
análise que se executa aqui, concebida no quadro da Fonologia Prosódica (1.2) e da
Fonologia Entoacional (1.3); uma revisão dos estudos sobre estrutura prosódica e
entoacional no PB (1.4); o comentário de alguns estudos que tratam da produção e da
percepção de fronteiras prosódicas na fala espontânea e na leitura (1.5), e esta seção
(1.6) que trata dos objetivos do estudo. O Capítulo 2 traz a metodologia do nosso
estudo, com a descrição sobre a recolha e o tratamento do corpus (2.1), sobre a
aplicação dos testes de percepção de fronteiras (2.2), sobre a delimitação prevista do
corpus em constituintes prosódicos (2.3) e a apresentação dos parâmetros de análise
utilizados (2.4). O Capítulo 3 apresenta e discute os resultados do teste de percepção
(3.1); da análise acústica (3.2) e fonológica (3.3); da análise que relaciona fronteira
prosódica e fronteira sintática (3.4); e também os resultados de uma análise sobre a
consistência na percepção de fronteiras, que agrupa as fronteiras percebidas em grupos
de acordo com o número de votos que receberam no teste de percepção (3.5); os
resultados obtidos são ainda analisados através de um modelo estatístico de regressão,
com vista a determinar quais os fatores decisivos para a percepção de fronteira, em cada
estilo (3.6); por fim, fazemos um resumo e uma discussão geral dos resultados e
apontamos alguns caminhos de investigação futura (3.7). No Capítulo 4, encontram-se
as considerações finais sobre o estudo da realização e percepção de fronteiras
prosódicas no PB.
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No documento
CAROLINA RIBEIRO SERRA
(páginas 56-61)