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2.2 A QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO

2.3.2 Objetivos da Ergonomia

A ergonomia tem um papel fundamental na melhoria do bem-estar dos trabalhadores e na produtividade, podendo favorecer verdadeiramente a qualidade de vida no trabalho. Como aponta Noulin (2002), a ergonomia tem o objetivo de contribuir na concepção ou na evolução das situações relacionadas ao trabalho, não apenas acerca dos aspectos materiais, mas, sobretudo, acerca das dimensões sociais e organizacionais, visando que o trabalho seja executado com o máximo de conforto, satisfação e eficácia, devendo ser respeitada a saúde e a segurança dos trabalhadores.

Conforme Ferreira (2008), a ergonomia possui o papel de compreender os problemas (contradições) que dificultam a interação dos trabalhadores com o ambiente laboral e possui a perspectiva de promover o bem-estar dos trabalhadores, assim como atingir os objetivos organizacionais. Portanto, o objetivo da ergonomia pode ser interpretado como a busca também por qualidade de vida no trabalho.

Santos e Ferreira (2014) argumentam que o principal desígnio da ergonomia da atividade é compreender os indicadores críticos que existem no contexto do trabalho, com a finalidade de transformá-los, de forma a ir ao encontro das necessidades e objetivos dos atores envolvidos nessa conjuntura, ou seja, trabalhadores, gestores, usuários e consumidores.

A ergonomia possui, ainda, o objetivo de transformar o trabalho, adaptando-o às características e variabilidade do homem e do processo produtivo. Ou seja, para a ergonomia, a variável de ajuste é o trabalho e não o indivíduo (ABRAHÃO et al., 2009).

2.3.3 Pressupostos

Para que a abordagem metodológica da Ergonomia da Atividade obtenha êxito é necessário que sejam respeitados alguns pressupostos básicos que delineiam seu perfil e sua identidade no campo da pesquisa-ação (THIOLLENT, 1997), ou seja, as ações em ergonomia são norteadas pelos seguintes pressupostos: interdisciplinaridade, análise das situações reais e envolvimento dos sujeitos. Segundo Abrahão et al. (2009), o pressuposto da interdisciplinaridade resulta da importância de se analisar o fenômeno do trabalho humano de diferentes perspectivas. Para esses autores, na ação ergonômica, a observação sistemática das situações reais de trabalho é um requisito indispensável.

Quando consideramos a necessidade de análise das situações reais de trabalho, outra questão se coloca: a importância do envolvimento dos trabalhadores no processo de análise, de recomendações e de concepção de soluções. Uma ação ergonômica é, em última análise, um processo de construção coletiva entre a equipe de ergonomistas e o corpo de atores envolvidos. Ela fornece elementos para transformar as situações de trabalho e para produzir conhecimentos, por meio da explicitação dos mecanismos pelos quais o ser humano consegue atingir os objetivos da produção (ABRAHÃO et al., p. 39).

A análise ergonômica deve considerar que a atividade se constitui não só pela variação das situações de trabalho, mas também pela variabilidade das pessoas que o executam, pois cada trabalhador é único e traz consigo suas experiências, representações e estratégias, e as utiliza na regulagem do processo de produção (idem).

Além desses pressupostos, a variabilidade, para a ergonomia, também se configura como um pressuposto, tanto a variabilidade que se refere aos seres humanos quanto a relacionada ao processo produtivo. Por mais homogênea que seja a equipe de trabalho, sempre haverá características que irão conferir variabilidade ao ambiente, aos insumos e, consequentemente, ao produto. Quanto à variabilidade humana, pode-se afirmar que o homem possui características orgânicas e limitações que influenciam a forma pela qual compreendem o mundo e agem sobre ele. As vivências e experiências, dentro e fora do âmbito laboral, modificam as estratégias adotadas e as ações futuras. Essa variabilidade é concebida como variabilidade intraindividual, que é influenciada pelas alterações fisiológicas do ser humano, como envelhecimento, adoecimento, ciclos circadianos, ciclo menstrual. Além da variabilidade individual existe também a interindividual, visto que as pessoas, na situação de

trabalho, geralmente não trabalham sozinhas, sendo o ambiente laboral compartilhado com outros indivíduos, que possuem características, experiências e fazeres diferentes. Portanto, planejar uma situação de trabalho considerando que os trabalhadores se comportam sempre da mesma forma poderá acarretar, em médio e longo prazo, prejuízos ao trabalhador e à organização (ABRAHÃO et al., 2009).

Segundo Ferreira (2011), a abordagem da Análise Ergonômica do Trabalho (AET) origina-se de uma demanda concreta, também denominada situação-problema, que pode ser posta por diferentes interlocutores, como diretores, sindicalistas, trabalhadores etc., os quais, por sua vez, buscam eliminar ou minimizar indicadores críticos existentes (avaliação) nas organizações ou projetar novas situações de trabalho e/ou uso de produtos e tecnologias (concepção). A queixa inicial, normalmente, é a ponta do iceberg e requer um trabalho analítico visando o recorte de um problema concreto de investigação.

Conforme a AET, para a resolução da situação-problema, é primordial a participação dos trabalhadores e demais atores organizacionais envolvidos, seja direta ou indiretamente. Essa participação deve ser voluntária, e não imposta pela hierarquia; efetiva, e não necessariamente formal; e deve ainda ser global, ou seja, deve ocorrer em todas as etapas da AET e não residual, apenas em certas situações. Esses são os elementos necessários para transformar os produtos da AET em resultados de um processo de coprodução (idem).

Além dos elementos citados, Ferreira (2011) prega ainda que o acesso às informações, norteado por regras deontológicas que permitem compreender as causas da situação-problema, constitui uma condição fundamental para o êxito e o desenvolvimento da própria AET, principalmente a possibilidade concreta de coleta de dados empíricos nas situações reais de trabalho. Ainda segundo esse autor, para que sejam compreendidas as diferenças e singularidades que existem entre as pessoas nas situações de trabalho analisadas, principalmente suas estratégias operatórias de trabalho, é necessário existir variabilidade intra e interindividual. Assim como a variabilidade intra e interindividual são fundamentais nesse processo de investigação, “a variabilidade dos contextos de produção de bens e serviços, principalmente as especificidades organizacionais, é essencial para se compreender os fatores que influenciam, interferem, obstaculizam e (ou) facilitam a conduta dos trabalhadores” (FERREIRA, 2011, p. 15).

A atividade real, concreta, ou o que faz cada trabalhador e como faz em cada situação de trabalho, constitui a dimensão analítica central da Ergonomia (daí a denominação Ergonomia da Atividade), pois ela integra, numa dada situação, a diversidade de fatores que deve ser considerada pelo trabalhador para bem executar o trabalho prescrito. Ou seja, a evolução de estado pessoal (desgaste), as condições disponibilizadas de trabalho (materiais, suporte), as variações da situação (fluxo do

produto, de clientes, funcionamento dos equipamentos), as interações sociais de trabalho (colegas, chefias, clientes ou usuários) e a atividade assumem, portanto, na AET, um lugar epistemológico nuclear mais importante na análise (FERREIRA, 2011, p. 15).

A abordagem de QVT de viés preventivo mantêm compatibilidade com esses pressupostos da AET, tendo-se em vista que, entre outros motivos, atuar nas causas efetivas do mal-estar no trabalho constitui uma tarefa complexa, para a qual o engajamento voluntário dos participantes é um processo a ser construído (FERREIRA, 2011).