3 REFLEXÕES SOBRE A LEGISLAÇÃO DA EDUCAÇÃO
3.2 Objetivos da LDB 9394/96 e dos Parâmetros
O ensino proposto pela LDBEN (BRASIL, 1996) está em consonância com o objetivo maior do ensino fundamental, que é propiciar a todos formação básica para a cidadania, a partir da criação, na escola, de condições de aprendizagem para:
I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;
II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;
IV – o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social (art. 32).
Verifica-se, pois, como os atuais dispositivos relativos à organização curricular da educação escolar caminham no sentido de conferir ao aluno, dentro da estrutura federativa, efetivação dos objetivos da educação democrática.
Em se tratando de leis que regem a educação, o alimento está implícito como primeira necessidade básica para o ser humano; portanto considero fundamental que governantes, legisladores, diretores, professores, pais e alunos comecem a conferir maior importância ao consumo de alimentos naturais e mais saudáveis. Como não há uma legislação específica do alimento como instrumento de produção do conhecimento contínuo, minhas buscas – agora na legislação do Departamento de Desenvolvimento Curricular e de Gestão da Educação Básica, do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Educação, relacionada à Lei de Diretrizes e Bases (BRASIL, 1996), os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Currículo – atentam para os Temas Transversais, do planejamento escolar (BRASIL, 1998).
Nesse documento, foram elaborados textos de orientação com cinco temas transversais: Educação Ambiental, Educação em Direitos Humanos, Educação Fiscal, Educação das Relações Étnico-Raciais e Educação em Saúde. Lembram os organizadores do documento que esses são alguns dos temas possíveis, sendo uma forma de estímulo aos (às) professores (as) para o desenvolvimento de trabalhos a partir da perspectiva da transversalidade na abordagem dos conteúdos que permeiam o Currículo.
Nessa abordagem, os conteúdos dos temas transversais visam contribuir com a formação humanística do aluno, diante da multiculturalidade e das situações de aprendizagem apreendidas pelos estudantes. Entende-se que esse fato pode se dar quando o docente se apropria da realidade, do cotidiano e da leitura de mundo do discente e os conecta aos temas da atualidade, presentes nos temas transversais. Note-se que esses são os eixos geradores de saberes, a partir das experiências dos alunos, assim como os eixos de conexão entre os conteúdos tradicionais, sem
perder de vista que vivemos em uma era marcada pela competição e pela excelência, em um cenário onde progressos científicos e avanços tecnológicos definem exigências novas para os jovens que ingressarão no mundo do trabalho. (BRASIL, 1998).
Minha esperança como educadora é sugerir, para as matrizes de diferentes “níveis de estudos”, prioridades e orientações específicas relacionadas à educação alimentar e enfatizar a importância do ato de cozinhar, pois hoje isso (quase) inexiste.
Pergunto-me: Por que não pensaram em temas ligados à educação alimentar como prática educacional? Os alimentos brasileiros são conhecidos pelos legislantes, autoridades, discentes, docentes e pelo seu povo? Será possível pensar na Lei de Diretrizes e Bases vigente contemplando educação alimentar como tema transversal? .
Como pesquisadora e educadora no trabalho com alimentos, em especial nas oficinas práticas, deixo aqui uma sugestão e contribuição para a inclusão de outro (e possível) tema transversal.
Considero a educação alimentar um eixo temático de caráter transversal que deve permear todas as disciplinas de nosso currículo escolar, em todas as modalidades do ensino formal. Portanto, cada professor tem a responsabilidade de compreender, estudar e discutir, junto a seus pares de disciplina, de sua área do conhecimento ou entre equipes interdisciplinares, a educação alimentar no âmbito escolar, seja para desenvolver a temática em sua disciplina específica. Seja em parceria com seus pares ou com outras instituições formais ou não formais, ela é fundamental para a sobrevivência do ser humano.
Assim, inserir a educação alimentar com a sua condição de transversalidade contempla o ideal de uma nova organização de conhecimentos por meio de práticas interdisciplinares. A questão da interdisciplinaridade metodológica e epistemológica da educação alimentar está presente no artigo 2º da Lei nº 9795/99 (BRASIL, 1999), como “componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal” (BRASIL, 1999)- (Vide anexo 1).
A sugestão é refletir sobre o alimento como instrumento para produção de conhecimento, contribuindo para uma política alimentar mais saudável, mas como desenvolver ações, projetos para atingir esses objetivos?
O momento atual é de consolidar práticas pedagógicas que estimulem a interdisciplinaridade, na sua diversidade, e de estabelecer cortes transversais na compreensão e explicação do contexto de ensino, buscando a interação entre as disciplinas, ampliando conhecimentos em diferentes ou variadas dimensões.
Considerando a importância da temática educacional, no tempo e no espaço, e a visão integrada do mundo, entendo por educação alimentar os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem saúde, cultura, valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para o bem-estar comum de um povo, essencial à qualidade de vida.