CONTEXTO DE TRABALHO ARTÍSTICO 39 2.1 CULTURA E ECONOMIA
6. O TRABALHO ARTÍSTICO NA SOCIEDADE CENTRADA NO MERCADO: Um olhar a partir da Psicodinâmica do Trabalho e da
1.1 OBJETIVOS 1 Objetivo Geral
Compreender e analisar como ocorrem as vivências de prazer- sofrimento e o contexto de trabalho artístico na região da grande Florianópolis, tendo em vista o processo de mercantilização da cultura. 1.1.2 Objetivos Específicos
No contexto de trabalho artístico na região da grande Florianópolis: • Caracterizar a organização do trabalho artístico;
• Analisar a mobilização subjetiva do artista;
• Identificar as vivências de prazer e sofrimento no trabalho artístico;
• Descrever as principais estratégias de defesa utilizadas pelos artistas participantes do estudo.
1.2 JUSTIFICATIVA
Em trabalhos desenvolvidos nas duas últimas décadas (MENGER, 2001, 2002; TRANSFORM, 2008; LOACKER, 2013; BRAGA, 2015; BENDASSOLLI; BORGES-ANDRADE; GONDIM, 2016), pode-se vislumbrar uma série de mudanças que tiveram um relevante impacto na forma de fazer cultura, e também nas identidades dos que nela trabalham. No entanto, apesar de o trabalho artístico abrigar um número relevante de trabalhadores, no último século, os estudos organizacionais, não parecem ter se voltado ao que acontecia nos domínios trabalhistas fora das organizações formais (BENDASSOLLI, 2009). Pouca atenção foi dada àqueles setores situados às margens do trabalho do tipo industrial ou pós-industrial, principalmente no que diz respeito a sua capacidade para criação de empregos e condições de trabalho (THROSBY, 2001; BENDASSOLLI, 2009; BENDASSOLLI; BORGES-ANDRADE, 2012).
Em circunstâncias em que inúmeros países têm enfrentado o aumento do desemprego estrutural (THROSBY, 2001b), e que
recentemente a cultura passou a ser vislumbrada como vetor de desenvolvimento econômico (THROSBY, 2001b; MENGER, 2001,
2002, 2005; BENHAMOU, 2007; BENDASSOLI, 2009;
BENDASSOLLI; BORGES-ANDRADE, 2012; LOACKER, 2013), tem emergido nos últimos anos, um interesse no setor cultural, de maneira especial, em seu potencial para geração de trabalho.
Todavia, o quadro analítico para a concepção de um retrato do artista enquanto trabalhador, frequentemente é transpassado por desafios teóricos e metodológicos que relacionam esse tipo de atividade, à genialidade, ao prazer, ao lazer, ao ócio (CERQUEIRA, 2015). Tal perspectiva de análise insiste no caráter extra econômico da atividade artística, em que a arte é vislumbrada como inspiração pura e a atividade artística é contemplada romanticamente como forma idealmente desejável de trabalho (ANTUNES, 2003; MENGER, 2005; TRANSFORM, 2008; SENNETT, 2009; BENDASSOLLI; BORGES- ANDRADE, 2011; BANKS; GILL; TAYLOR, 2013; HOPE; RICHARDS, 2015; CERQUEIRA, 2015).
Assim, o trabalho artístico é concebido por muitos como um modelo de trabalho não alienado, por intermédio do qual, o sujeito se realiza na plenitude de sua liberdade (MARX, 2004; MENGER, 2005; SENNETT, 2009; BENDASSOLLI; BORGES-ANDRADE, 2011; BANKS; GILL; TAYLOR, 2013; CERQUEIRA, 2015). Em consonância com Antunes (2003, p. 88-89), a concepção romantizada e utópica do trabalho artístico, “acaba desconsiderando a dimensão totalizante e abrangente do capital, que engloba desde a esfera de produção até o consumo, desde o plano da materialidade ao mundo das idealidades”.
Diante de tais pressupostos, presume-se que a ideologia utópica e romântica do trabalho artístico mascara a existência de aspectos reais de uma carreira (ANTUNES, 2003; MENGER, 2005; SENNETT, 2009; BENDASSOLLI; BORGES-ANDRADE, 2011; BANKS; GILL; TAYLOR, 2013; HOPE; RICHARDS, 2015; CERQUEIRA, 2015), visto que as análises a respeito do trabalho na esfera artística tendem a privilegiar a obra artística enquanto criação estética, em detrimento do processo de trabalho que a elaborou (MENDES, 2005; CERQUEIRA, 2015).
Nesse sentido, Banks, Gill e Taylor (2013) referem que o debate a respeito das condições reais de trabalho artístico, tem sido ignorado na sociedade contemporânea. Os autores convidam pesquisadores a desenvolverem estudos com vistas a re-teorizar o trabalho artístico. De maneira semelhante, Bendassolli e Borges-Andrade (2012) convidam
pesquisadores a desenvolverem reflexões sobre as tensões existentes entre a atividade artística e a economia.
Hope e Richards (2015) realizaram um estudo a respeito da experiência e as implicações de prazer e amor ao trabalho dito imaterial. O estudo desenvolvido pelas autoras ocorreu em três países Europeus durante os meses de fevereiro e março, em três workshops que contaram com a presença de 25 trabalhadores do setor cultural. Hope e Richards (2015) elucidam em seu estudo que discutir a respeito do trabalho artístico, pode ser o primeiro passo para que as desigualdades no mundo das artes sejam superadas e que as condições de trabalho sejam adequadas.
Todavia, destaca-se que apesar do processo de mercantilização da cultura não ser algo recente, trabalhos sobre as vivências de prazer- sofrimento e contexto de trabalho artístico, em administração e mais especificamente nos estudos organizacionais, assim como em psicodinâmica do trabalho, são escassos e recentes (SEGNINI, 2006, 2010; LIMA, 2009; BUENO, 2012; FERREIRA, 2011a,2011b; ALVARENGA, 2013). De maneira a aprofundar conhecimentos relativos aos estudos concernentes ao trabalho artístico em psicodinâmica do trabalho, realizou-se um levantamento das publicações nacionais relacionadas ao tema.
Como ponto de partida de revisão de literatura, este trabalho embasa-se em um estudo realizado por Merlo e Mendes (2009), em que são levantadas as publicações nacionais em Psicodinâmica do Trabalho existentes entre os anos de 1996 a 2009. Em tal estudo, os autores encontraram 79 publicações: incluindo artigos, que em sua maioria estavam disponíveis, à época da pesquisa, nas bases de dados Scientific Electronic Library Online Brasil (SciELO Brasil) e Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC); dissertações e teses disponíveis para consulta via internet; e textos em livros, nos quais a psicodinâmica do trabalho fora utilizada como referência.
As publicações encontradas por Merlo e Mendes (2009) concentram-se nas áreas de: psicologia, com trinta e seis estudos; saúde coletiva, com treze; engenharia de produção, com doze; enfermagem, com seis; administração, com cinco; e áreas variadas, com sete estudos. Entre as principais categorias profissionais contempladas pelas publicações encontradas por Merlo e Mendes (2009) estão: bancários, coletores de lixo, operários extratores de mármore, operários de indústria de cimento, policiais e seguranças, professores, profissionais da saúde, profissionais de atendimento ao público, trabalhadores rurais e trabalhadores de tecnologia da informação. Na referida pesquisa
levantou-se ainda, um estudo a respeito da dimensão física do fazer musical, não sendo constatada a presença de estudos em psicodinâmica voltados à análise das vivências de prazer-sofrimento no trabalho artístico.
De modo a complementar os achados propostos no estudo anteriormente descrito, e de embasar a escolha do objeto a que esta pesquisa se propõe, realizou-se uma análise das publicações na base de dados Scientific Periodicals Electronic Library (SPELL). No entanto, a pesquisa não retornou resultado algum de busca. Dessa maneira, realizou- se pesquisas assistemáticas no Google Acadêmico, buscando-se estudos em psicodinâmica que investigassem o contexto de trabalho artístico. Foram encontrados seis estudos nas áreas de psicologia e fisioterapia. As categorias profissionais contempladas pelos estudos encontrados foram: dançarinos; musicistas; escritores literários, e atores de teatro.
Entre os trabalhos referidos anteriormente encontra-se uma pesquisa desenvolvida por Segnini (2006). A partir de referenciais teóricos da psicodinâmica do trabalho, a autora procurou analisar as mudanças nas formas de regulação e racionalização do trabalho em Artes e Espetáculos (músicos e bailarinos) e em Educação (professores). Lima (2009) analisou o prazer no trabalho e as estratégias de enfrentamento do sofrimento no trabalho de artistas de uma companhia de comédia do Distrito Federal. Bueno (2012) realizou um estudo com escritores literários, utilizando da psicodinâmica do trabalho, para analisar o sentido do trabalho em relação às vivencias de prazer, sofrimento e adoecimento, na produção de uma obra literária.
Segnini (2010) analisou a relação existente entre o trabalhador bailarino e a organização do trabalho, fundamentada na psicodinâmica do trabalho, por intermédio de um estudo de caso do Balé da Cidade de São Paulo. Já Ferreira (2011b), realizou um estudo com objetivo de analisar o trabalho vivo de produção literária. Destaca-se também, o estudo desenvolvido por Alvarenga (2013), em que o autor analisou as vivências de prazer e de sofrimento no trabalho de músicos da Orquestra Sinfônica da Amazônia, baseando-se em pressupostos da psicodinâmica do trabalho.
Ressalta-se que não foram encontrados estudos envolvendo psicodinâmica do trabalho e arte nos estudos organizacionais, e que não foram encontrados estudos que se utilizassem da psicodinâmica do trabalho para investigação da influência do processo de mercantilização da cultura nas vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores do setor cultural, nas diversas áreas de conhecimento. Consoante ao que aqui foi apresentado, percebe-se a carência de estudos que investiguem a
influência do processo de mercantilização da cultura nas vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores do setor cultural, fato que demonstra o ineditismo do estudo proposto.
Destaca-se que a cultura, bem como as artes em geral, correspondem, por essência, a um campo da experiência humana que lida com valores simbólicos, e não necessariamente econômicos (BENDASSOLLI; BORGES-ANDRADE, 2015). Em uma sociedade centrada no mercado (RAMOS, 1989; POLANYI,2002), cabe questionar se as artes se constituem como uma esfera de trabalho diferente dos mundos de produção, ou se, pelo contrário, se o desenvolvimento das atividades artísticas obedece às mesmas regras econômicas, com alguns ajustes (MENGER, 2005).
Uma vez que a consolidação da noção de economia como um sinônimo para o mercado autorregulado fez com que lhe fossem subordinadas todas as formas de manifestação humana, e com a produção da área da cultura não foi diferente (BRANT, 2009). Nesse sentido, pode- -se afirmar que a atividade artística não permaneceu imune à unidimensionalidade do sistema social contemporâneo, como diria Ramos (1989) ou Braga (2015). Assim, acredita-se que a opção por compreender e analisar as possíveis relações existentes entre o contexto de trabalho no setor cultural, e vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores nele inseridos, tendo em vista o processo de mercantilização da cultura, é justificada.
Para o desenvolvimento do percurso teórico do presente estudo, primeiramente, discutir-se-á a respeito da relação existente entre o setor cultural e economia, e levantar-se-á aspectos relativos ao contexto de trabalho na economia da cultura. Apresentar-se-á também, bases teóricas e reflexões sobre a psicodinâmica do trabalho, levando em consideração a sua evolução histórica, construção teórica e principais contribuições. Buscar-se-á, em seguida, elucidar a respeito das especificidades metodológicas, a que está investigação se propõe. Posteriormente, apresentar-se-á respectivamente os casos de Luiz, Equilibrista, Fernando e Ricardo, bem como o conteúdo expresso verbalmente pelos artistas, a respeito do trabalho artístico. Transcorrer-se-á, ainda, a respeito das vivências de prazer-sofrimento e do contexto de trabalho artístico na região da grande Florianópolis, tendo em vista o processo de mercantilização da cultura, e a partir da experiência vivida por Luiz, Equilibrista, Fernando e Ricardo. Por fim, buscar-se-á realizar algumas reflexões concernentes à problemática que esta investigação propõe.
2. ECONOMIA DA CULTURA E CONTEXTO DE TRABALHO