3. Enquadramento teórico da área de investigação
3.2. A formação no sistema de saúde português 1 Contextualização
3.2.2. Objetivos, princípios e modalidades da formação
A realização de formação “deve desenvolver competências e capacidades para o exercício das profissões de saúde, que permitam estimular o brio profissional como forma de fazer sentir a importância e o papel de cada um no caminhar do coletivo” (Grupo Técnico para a Reforma da Organização Interna dos Hospitais, 2010, p.38).
No entanto, “a complexidade das organizações de saúde, a multiplicidade de produtos, o nível tecnológico e relacional das prestações implica que a formação preencha várias funções e se projecte segundo diversas orientações” (Rodrigues et al, 2002, p.210).
Neste âmbito, na projeção da formação dirigida aos profissionais de saúde, referida pelo precedente autor, devem ser tidos em conta os seguintes princípios e modalidades:
“i) O princípio da especialização obriga ao desenvolvimento de programas cuja preocupação é a especificação técnica; ii) Quando congrega num mesmo objectivo intervenções de diversas áreas do saber, faz apelo para o trabalho de equipa e para a expressão comportamental dirigida à eficácia do grupo (princípio da multidisciplinaridade); iii) Uma vez que o objecto de toda a actividade é a pessoa doente, condicionada social e emocionalmente, a formação deve cobrir a necessidade de estabelecer a comunicação de uma forma efectiva e empática, no respeito da sua condição humana; iv) As unidades de saúde articulam-se com a escola, no sentido de proporcionar formação curricular complementar. A formação complementar é um percurso fundamental na preparação dos profissionais directamente envolvidos na prestação de cuidados; v) Porque a actualização dos conhecimentos é aqui mais necessária que em qualquer outro ramo da actividade humana, a formação também deve obedecer ao princípio da formação contínua ou permanente, a fim de proporcionar resultados de qualidade; vi) Para algumas profissões ou áreas de actividade cujos requisitos não passam por um diploma técnico, pode ser necessário fazer formação inicial ou de integração” (ibidem).
No que diz respeito às modalidades, e de uma forma mais específica, a formação profissional nas instituições da administração pública pode assumir as seguintes modalidades:
i. Formação inicial: é de caráter “obrigatória” e “tem lugar durante o período experimental” dos profissionais que iniciam funções, objetivando-se “contribuir para a consciencialização dos valores de serviço público e das especiais características do desempenho de funções públicas”. Esta formação é destinada à “aquisição de competências indispensáveis” por parte daqueles que se estão a integrar numa entidade/serviço (artigo 7.º do RFPAP). ii. Formação contínua: procura “promover a atualização e a valorização pessoal e profissional
dos trabalhadores”, em harmonia com “as políticas de desenvolvimento, inovação e mudança da administração pública”. Esta formação é realizada ao “longo da carreira” dos trabalhadores, integrando “a aprendizagem formal, a não formal e a informal”. Objetiva o “aperfeiçoamento profissional, a aquisição de competências e o desenvolvimento de
competências para transferir a aprendizagem para o exercício do trabalho e continuar a aprender de forma autónoma e contínua ao longo da vida” (artigo 8.º do RFPAP).
iii. Formação para a valorização profissional: “visa o reforço das competências profissionais dos trabalhadores com vista à integração em novo posto de trabalho, na sequência de reorganização de órgãos ou serviços” (artigo 9.º do RFPAP).
3.2.3. Financiamento
Em Portugal o sistema de financiamento da Educação e Formação Profissional (EFP) caracteriza- se “pela divisão em três estruturas principais dentro das quais se deverão enquadrar as diferentes entidades formadoras” (Centeno & Sarmento, 2001, p.34).
Essas três estruturas de financiamento, aludidas pelos referidos autores, são as seguintes: i. “financiamento privado (pelos próprios indivíduos ou pelo sector empresarial)”; ii. “financiamento público (através do orçamento de Estado)”;
iii. “co-financiamento através do FSE (com verbas comunitárias e nacionais)”.
Os autores acrescentam que “os mecanismos de atribuição de verbas para a EFP são idênticos em todos os casos, independentemente do tipo de formação, variando unicamente em função da fonte de financiamento, que poderá ser o FSE ou o orçamento de Estado” (ibidem).
Neste mesmo sentido, o antigo Instituto para a Qualidade na Formação (2004, p.67) referia que
“a caracterização da estratégia de financiamento da formação desenvolvida para o mercado (…) engloba a identificação das principais fontes e origens dos recursos financeiros utilizados, mas também a análise do grau de importância e dependência destes operadores de formação relativamente às diferentes fontes de financiamento”.
No caso da saúde, da rede hospitalar, o financiamento da formação “é, na sua maioria, suportado pelos programas do Fundo Social Europeu, o que significa que as actividades de formação podem variar com o volume desse financiamento” (Rodrigues et al, 2002, p.210). Por esse motivo, o autor acrescenta que a formação nos organismos do SNS tem um “estatuto de actividade secundária” (idem, p.223).
Centeno & Sarmento (2001, p.36) afirmam também que
“A maior parte das actividades formais de EFP em Portugal são co-financiadas pelo FSE, beneficiando de fundos comunitários e nacionais. O FSE constitui uma fonte de financiamento fundamental para a formação profissional em Portugal, devendo ser considerado como uma extensão do sistema de financiamento público”.
É de referir que em termos do Orçamento de Estado, “apenas 1% do orçamento destinado à saúde é investido na área educativa”, ou seja, na formação dos profissionais de saúde, manifestando-se pouca preocupação nesta vertente (Baganha, Ribeiro & Pires, 2002, p.16).
Os Centros de Formação dos serviços do SNS, sem orçamentos específicos, previamente atribuídos, “vêem-se obrigados a adaptar as necessidades de formação das organizações ao financiamento recebido do exterior (Rodrigues et al, 2002, p.223).
Afigura-se uma inquietação constante nesta vertente. Verifica-se a
“ausência de uma preocupação estratégica em torno da formação, preocupação que não pode existir com a ideia de que esta actividade tem que estar sujeita a um estatuto de sobrevivência, dependendo da sua capacidade para se autofinanciar à base de recursos incertos. Se a mudança passar pela formação, é bom que se consolidem as condições objetivas em que há-de ocorrer o seu financiamento. A formação para a modernização e a qualidade tem que ser assumida como um custo do processo e não como uma questão acessória e independente” (Rodrigues et al, 2002, p.224).
Após alguns anos de ausência de concursos para financiamento, pelo FSE, de formação dirigida aos profissionais de saúde, abriu em abril de 2017 um concurso para financiamento de formação de profissionais do setor da saúde ao abrigo do Programa Operacional Inclusão Social e Emprego, cuja elegibilidade, para efeitos de execução financeira, são as ações de formação relacionadas com o desenvolvimento de competências dos profissionais de saúde, ou de outros agentes que exercem funções na área de saúde (ponto 3 do aviso n.º POISE-38-2017-05).
Nos termos do ponto 6 (idem, p.4) do aviso referido anteriormente, “a comparticipação pública da despesa elegível é repartida pelo Fundo Social Europeu (85%) e pela contribuição pública nacional (15%), sendo esta última suportada pelos beneficiários”, ou seja, pelos proponentes das candidaturas.
3.3. As políticas e práticas da formação profissional