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2 O PROGRAMA DE SEMENTES COMO EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO POPULAR

2.3 O PROGRAMA DE SEMENTES CRIOULAS DE HORTALIÇAS DO MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS EM SANTA CATARINA

2.3.2 Os objetivos do Programa de Sementes

O objetivo geral do Programa das Sementes Crioulas é construir, junto com as mulheres camponesas, a experiência prática e teórica de recuperação, produção e melhoramento de sementes crioulas de hortaliças. A partir da fala das dirigentes entrevistadas, conseguimos perceber que esse objetivo foi alcançado, conforme o depoimento de Geneci:

Hoje a minha família consegue ver a importância de produzir para o autoconsumo familiar. Isso significa que, quanto mais produzir, menos vamos depender do mercado. [...] A gente sente falta de uma alimentação diversificada e de qualidade, então temos consciência que precisamos produzir [...]. Acho que de tanto eu falar conseguimos, principalmente meu pai, conseguiu compreender que, quanto mais produzir, menos vai depender do mercado. Não vamos precisar comprar, é um alimento que nós produzimos que podemos controlar o que vamos colocar nele, não tem agrotóxico, não tem veneno (GENECI).

Nos objetivos específicos, constam as seguintes pretensões: trabalhar as novas relações de gênero e uma consciência mais aprofundada do ambiente como um todo, num processo de recuperação da sabedoria popular, no que diz respeito à produção de alimentos e de reeducação alimentar. Em se tratando dos saberes das mulheres, trazemos a fala de Letícia, quando relata sua experiência como monitora:

É interessante ver o conhecimento que as mulheres traziam pras oficinas, porque não era uma coisa que a gente chegava à oficina e falava, dava pronto pra elas, mas surgiam muitas coisas que não estavam no roteiro da oficina, que eram os exemplos que elas trazem dos conhecimentos práticos mesmo, que as avós delas sabiam e foram passando. E o momento da oficina tornava-se um momento de troca do conhecimento que elas traziam, do conhecimento empírico, isso é importante, essa partilha do conhecimento. Respeitar isso foi o que aprendi e o mesmo deve ser valorizado (LETÍCIA).

Letícia expressa também seu aprendizado, enquanto Monitora, em respeitar os conhecimentos populares. Sobre tais questões, podemos trazer Sousa Santos (2004), que confirma a importância de trabalharmos com os conhecimentos populares que foram invisibilizados e que é necessário resgatá-los e torná-los visíveis. Com isso, é possível relacionar e mostrar os nexos com outro objetivo, que é oportunizar às mulheres camponesas o aperfeiçoamento técnico na recuperação, produção, melhoramento e uso de sementes crioulas de hortaliças a partir das práticas acumuladas pelas mesmas. Conforme narram as camponesas, esse conhecimento proporciona que as mulheres mudem seus hábitos de plantar e de cuidar da horta, como podemos perceber na fala de Lucimar, que define sua horta como uma bagunça e, quando questionada para explicar melhor, ela expressa que essa bagunça é

deixar a natureza sobreviver naturalmente. Se quero colher um pé de alface, vou lá, limpo um lugarzinho e planto alface, mas deixo o picão e o caruru vir, por exemplo, se eu plantar um pé de tomate e um de caruru, o inseto vai comer o caruru e não o tomate, o equilíbrio da natureza eu acho que tem lá na horta porque existe o controle natural das espécies (LUCIMAR).

Essa fala expressa que as mulheres, a partir da formação do Programa de Sementes, obtêm o conhecimento da agroecologia, que permite a convivência de várias espécies, cultivando o cuidado com os seres vivos. Essa concepção objetiva também contribuir para que a mulher camponesa desenvolva, na sua Unidade de Produção ou no seu grupo, as práticas de produzir sementes crioulas de hortaliças, cultivando o sentimento de novos valores a serem compartilhados com as gerações atuais e repassados para as gerações futuras. Com isso, faz-se necessária uma relação com as lutas, motivo pelo qual, para mostrar como acontece no Movimento, trazemos a fala de Noeli, que é a coordenadora do coletivo de lutas do MMC/SC.

Na questão, por exemplo, das lutas tem ligação muito grande, porque a gente luta por uma sociedade onde haja possibilidade de vida. E o programa de sementes do Movimento de Mulheres Camponesas vem muito com uma proposta de projeto de agricultura camponesa agroecológica. Para implementar o projeto de agricultura, há uma necessidade muito grande de luta, porque na sociedade está colocado dois modelos, que é o agronegócio e o projeto de agricultura camponesa agroecológica.

Nesse sentido, a minha tarefa como coordenadora das lutas vem muito ao encontro disso. Não basta só plantar semente, cuidar as sementes, preservar, multiplicar as sementes, é preciso também fazer a luta para que consiga implantar, você precisa também ter o lugar onde produzir essa semente, e isso implica um contraponto com a agricultura química industrial que está colocada hoje. Por isso, acho que de fato a ligação das lutas com o Programa de Sementes é muito forte, garantia de produção, mas também pela terra, reforma agrária, a luta que é necessária no país (NOELI).

Constatamos, nessa fala, que a luta é por vida e para isso é que são pensadas as ações, essa vida é como um todo, do planeta, sendo assim, objetiva denunciar e alertar sobre as consequências dos alimentos transgênicos e das tecnologias que destroem a vida.

As sementes transgênicas estão dentro de uma lógica do agronegócio e modelo de produção dominante, o qual é concebido e mandado pelas grandes empresas, segundo Andrioli e Fuchs (2008), pois é realizado um contrato no momento da compra da semente pelo agricultor, por exemplo, em que é concedido à Monsanto32 o direito de estabelecer “mecanismos de controle nas propriedades dos agricultores, o que os compromete com enormes responsabilidades financeiras e estabelece os direitos que estes possuem em relação à semeadura, colheita e comercialização de sementes transgênicas” (p. 87).

Segundo consta nos documentos do MMC, o Programa de Sementes objetiva também desenvolver, entre as mulheres participantes, hábitos de cuidar da terra, da água e do ambiente, intensificando o trabalho de conscientização e valorização da produção de sementes crioulas de hortaliças, oferecendo, para a sociedade, melhores condições de saúde e de vida, o que podemos perceber na fala seguinte.

A nossa Unidade de Produção é um pequeno sítio, só 3,5 ha de terra. O que temos é uma grande riqueza, nascente, que cuidamos, preservamos, temos criação de pequenos animais pro consumo e pra renda, venda direta, tratados a partir de pasto, mandioca, temos também um plantio diversificado muito grande de muitos produtos, parte vendemos pra consumidores. Organizamos algumas vendas, fizemos luta da merenda escolar compra 30%, vendemos mandioca, que foi uma luta local do Movimento de Mulheres Camponesas, colocar quanto mais possível do alimento local. Potencializar a venda desses produtos orgânicos à sociedade, a partir da venda de orgânicos, mostrar que é possível. O discurso era que crianças não comeriam mandioca e que é saudável e foi aumentando a quantidade inclusive na venda, não usamos nenhum tipo de veneno. Criação de porcos pra banha, pra carne, pro salame. Leite o suficiente. Pequeno espaço com muita diversidade e a garantia da vida saudável (JUSTINA).

O que Justina expressa, além da diversidade de produção, é valorizar um modo de ser ou a cultura camponesa, o que nos leva a ressaltar o objetivo de elevar a autoestima e a valorização da profissão de trabalhadora rural. Isso constitui e fortalece uma nova identidade

32 Monsanto, empresa multinacional, responsável por boa parte da comercialização de sementes e insumos para

camponesa, que valoriza a capacidade de produzir, de criar e recriar participando ativamente na produção e reprodução da vida. Esse objetivo se concretiza em várias falas, como a de Letícia, que afirma: “Se não tivesse o Movimento em minha vida, minha vida seria essa, seria só mais uma, não seria uma Jovem Camponesa”.

A pesquisa revela que essa conscientização enfatizada pelas entrevistadas acontece a partir dos objetivos do Programa. Como, por exemplo, criar as condições para que as mulheres camponesas participem das oficinas e sejam agentes de um novo projeto, baseado em novas relações e sentimentos. Essas condições são criadas a partir da metodologia adotada no desenvolvimento das atividades, sendo que, para a formação das monitoras, o Movimento organiza o local e busca formas de garantir o deslocamento e a acomodação das participantes. A contrapartida das mesmas é trazer a alimentação para os dias de formação e contribuir com a organização do espaço, sendo esta uma prática adotada pelas organizações populares, onde há mútua ajuda dos sujeitos envolvidos no processo, o que é igualmente educativo.

Então, conforme constatamos a partir de observações, análises de documentos e entrevistas abertas, a metodologia do Programa é participativa, pois é cuidadosamente pensada, desde os momentos de formação específica, até o todo, para que as mulheres participem do processo “lá na ponta33”, como está no discurso das militantes. Esse participar se dá mediante duas ou três oficinas anuais em cada um dos municípios coordenados pelas monitoras, que em 2005 (MMC, 2005) somavam um total de quarenta e nove. As mulheres que realizam a monitoria reúnem-se, periodicamente, para avaliação e planejamento do trabalho junto às demais mulheres, sendo que é, permanentemente, avaliada a necessidade de reformulação das propostas.

Com a pesquisa, constatamos que o envolvimento das mulheres camponesas nas oficinas, e na formação como um todo, vem construindo suas identidades. Por isso é necessário, como é o objeto de nossa pesquisa, discorrer mais sobre a constituição de identidades. As oficinas são um espaço de “falar da vida”, onde as camponesas refletem tanto sobre seus problemas, como encontram saídas para os mesmos. Nesse sentido é que se “encaixam”, a agroecologia e a produção, como alternativa às dificuldades encontradas pelas Unidades de Produção, que muitas vezes ficam dependentes de empresas vendedoras de veneno, as quais, por sua vez, estão ligadas a grandes empresas transnacionais que decidem muito sobre a agricultura no mundo.