O presente relatório técnico buscou validar o formato eletrônico de um questionário sobre estratégias para perda rápida de peso corporal em atletas de Taekwondo. Tal proposta é direcionada aos profissionais do esporte e da saúde que prestam serviços de prescrição e monitoramento do treinamento e/ou estratégias nutricionais. Uma informação acurada sobre prevalência, métodos, magnitude, e efeitos colaterais associados a perda rápida de peso corporal em atletas de Taekwondo poderia contribuir no entendimento de fatores associados com a saúde e o sucesso competitivo na modalidade.
3 REVISÃO DE LITERATURA
3.1 TAEKWONDO CLÁSSICO
Tradicionalmente, considera-se o termo Taekwondo como o resultado da combinação de três palavras distintas, nomeadamente, ‘Tae’ indicando saltar, voar, esmagar com os pés, ‘Kwon significando bater ou destruir com as mãos, e ‘Do’ denotando caminho, arte, método ou filosofia. Portanto, Taekwondo refere-se ao ‘caminho dos pés e das mãos’. Todavia, com base na sua essência, Taekwondo poderia ainda ser definido como a ‘arte que treina a mente através do corpo’ (Goulart, 2006). De acordo com Hornsey (2002), seus pressupostos fundamentais seriam cortesia, integridade, perseverança, domínio sobre si mesmo e ‘espírito indomável’.
3.1.1 Taekwondo No Mundo
De acordo com Goulart (2006) o Taekwondo é reconhecido como uma arte marcial milenar que data de cerca de 2000 a.C. Desde então, o Taekwondo foi sistematicamente usado como um instrumento de educação para jovens e adultos em diversas partes do mundo, pois visava, através de um conjunto de regras, conscientizar seus praticantes sobre a importância de serem cidadãos dignos e leais nas sociedades as quais estavam inseridos (Chung & Lee, 1994). Em 1909, contudo, um importante fato histórico foi crucial para que o Taekwondo aumentasse a sua abrangência ao redor do Mundo: a invasão japonesa na península coreana. Com a entrada das tropas japonesas no território coreano, proibiu-se a prática de artes marciais originárias da península coreana, incluindo o Taekwondo. Todavia, após a desocupação japonesa ao final da Guerra da Coréia em 1945, a adesão à prática da modalidade foi tamanha que no ano de 1971, o Taekwondo foi proclamado esporte nacional pelo presidente sul-coreano. Somente dois anos depois, no ano de 1973, fundou-se a World Taekwondo Federation (WTF) e realizou-se o primeiro campeonato mundial da modalidade (Fargas, 1993). Em 1988, o Taekwondo participou dos Jogos Olímpicos de Seul como esporte de demonstração. Porém, em virtude da
aceitação por parte dos dirigentes, da mídia e do público em geral, a modalidade foi inserida no programa olímpico dos Jogos Olímpicos de Sydney 2000.
3.1.2 Taekwondo No Brasil
Atendendo um pedido feito pelo Ministério da Educação, o Taekwondo foi introduzido no Brasil em 1970, no bairro da Liberdade em São Paulo (SP), onde o Grão Mestre Sang Min Cho encarregou-se de ensinar o esporte aos brasileiros. Todavia, foi somente no ano de 1973, que o Conselho Nacional de Desportos reconheceu o esporte em solo tupiniquim, onde em janeiro daquele ano, realizou-se o primeiro campeonato nacional na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Em 1975, criou-se a Associação Brasileira de Taekwondo e, somente em 1987, fundou-se a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD, 2007).
Em termos competitivos, o Brasil teve a sua primeira participação olímpica nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000, representando pela atleta Carmem Carolina Silva, na categoria até 57kg. Em todas as edições olímpicas subsequentes, o país enviou representantes na modalidade;
todavia, somente nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, a primeira medalha olímpica foi conquistada pela atleta Natália Falavigna Silva. Os maiores feitos do Taekwondo brasileiro ainda incluem a vitória no Campeonato Mundial Adulto da Espanha, em 2005, pela atleta Natália Falavigna Silva, na categoria até 72kg, e as medalhas de ouro conquistadas pelos atletas Fabio Goulart e Diogo Silva nos Jogos Panamericanos de Havana 1991 e Rio de Janeiro 1997, respectivamente (Silva, Vianna & Ribeiro, 2007).
3.2 TAEKWONDO MODERNO
Atualmente, o Taekwondo é praticado em dois estilos distintos. O sistema International Taekwondo Federation (ITF) é baseado em golpes de pernas e mãos com predominância quase
equivalentes, além da existência de torções e uso de armas, em particular bastões e bengala. O sistema WTF por sua vez, predomina na maioria dos países do mundo e conta com aproximadamente 60 milhões de praticantes (Kil, 2006), sendo o único estilo reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional. Neste sistema, o ‘Taekwondo Olímpico’ é caracterizado pelo uso primordial de pernas e seu caráter competitivo. Para o escopo da presente proposta, somente serão abordadas as particularidades do sistema WTF (Lee, 2006).
3.2.1 Taekwondo Olímpico: Regras Da Competição
Em conformidade com o regulamento da WTF (2015), uma luta de Taekwondo Olímpico é realizada em uma área de formato quadrangular 8m × 8m, denominada dojan, ou de formato octogonal, com 8m de diâmetro e cada linha lateral com 3.3m. Os oponentes são separados por duas cores, vermelho ‘Hong’ e azul ‘Tchong’, visualizadas por meio dos protetores utilizados durante a luta. Nas linhas laterais estão dispostos três árbitros responsáveis pela marcação de pontos adicionais, socos, e pontos na cabeça, quando não utilizados protetores eletrônicos. Ao centro um quarto árbitro, este com maior poder de decisão entre todos, tem a atribuição de comandar o combate e aplicar punições. O tempo de combate são três rounds de dois minutos cada, com um minuto de intervalo entre si. Em uma competição internacional, o atleta faz em média, 4 a 5 lutas, podendo em algumas categorias chegar a 7 combates em um único dia (Bridge et al., 2014).
De modo sucinto, considera-se vencedor, com exceção de nocaute ou desqualificação, o competidor que somar o maior número de pontos ao final do terceiro round. Caso permaneça o empate ao fim das três etapas, um round extra denominado de morte súbita, deverá ser conduzido. Neste caso específico quem fizer o primeiro ponto será declarado vitorioso; todavia, se o empate persistir até mesmo após o fim deste período, o vencedor será o competidor que durante o round de desempate obteve o maior número de batidas registradas no colete. Ainda,
caso não haja vencedor pelos dois critérios anteriores o combate será decidido pelos árbitros oficiais levando em consideração o critério de superioridade. Especificamente, esta decisão baseia-se pela dominância técnica e por meio dos seguintes critérios de desempate:
agressividade e melhor gerenciamento da luta, maior número de técnicas executadas com um alto grau de dificuldade e complexidade. Neste caso, deverá ser analisado apenas o round extra, ignorando assim o que os atletas demonstraram ao longo da luta em tempo normal WTF (2015).
Durante um combate permite-se ao competidor desferir golpes com os pés em toda a região do tronco coberta pelo colete, e da cabeça, acima da clavícula, incluindo as orelhas e a nuca. Já com as mãos, ficam válidos apenas socos no colete. Existem diferentes tipos de pontuação, dependendo do grau de dificuldade da técnica utilizada, conforme segue:
- 01 ponto: Golpes válidos desferidos na região do tronco;
- 03 pontos: Golpes giratórios válidos desferidos na região do tronco e golpes válidos desferidos na altura do rosto;
- 04 pontos: Golpes giratórios válidos desferidos na altura do rosto.
Técnicas ilegais e mau comportamento são penalizados com uma advertência ou com a indução de um (01) ponto. O acúmulo de duas advertências pelo competidor resulta na adição de um (01) ponto ao adversário. O atleta que ceder cinco (05) pontos ao adversário via penalidades é automaticamente desqualificado. As advertências são dadas para punir atos proibidos, dentro os quais destacam-se atitudes como agarrar, puxar, desferir golpes abaixo da linha da cintura, cair intencionalmente, sair da área designada para o combate, socar o rosto do oponente, comportamento abusivo e desrespeito aos árbitros (Lee, 2006).
3.2.2 Taekwondo Olímpico: Categorização De Peso Corporal
Inúmeras outras regras foram elaboradas para promover o avanço de uma atividade competitiva na modalidade. Em competições oficiais sancionadas pela WTF, como Campeonatos Mundiais, Jogos Olímpicos, e Jogos Continentais, torna-se obrigatório constar o registro de faixa-preta no Kukkiwon e a carteirinha Global Athlete License (GAL) pelo praticante. A primeira divisão diz respeito ao gênero, masculino e feminino, enquanto a segunda refere-se à idade, como segue:
Cadete, 12 a 14 anos de idade; Juvenil, 15 a 17 anos de idade, e Adulto, > 18 anos de idade.
Além do gênero e faixa etária, atletas são categorizadas de acordo com o seu peso corporal. As Tabelas 1-3 mostram a divisão de categorias de peso corporal normatizada pela WTF (2015):
Tabela 1 Divisão de peso corporal, categoria Cadete.
Masculino Feminino
Tabela 2 Divisão de peso corporal, categoria Juvenil.
Tabela 3 Divisão de peso corporal, categoria Adulta.
Masculino Feminino
Em grandes eventos multiesportivos, tais como Jogos Olímpicos de Verão ou Jogos Olímpicos da Juventude, e Jogos Continentais, há uma redução substancial no número de categorias de peso corporal. As Tabelas 4 e 5 mostram a divisão de categorias de peso corporal normatizada pela WTF (2015) para eventos multiesportivos:
Tabela 4 Divisão de peso corporal, categoria Juvenil, para eventos multiesportivos.
Masculino Feminino
< 48 kg Inferior a 48kg < 44 kg Inferior a 44kg
- 55 kg Superior a 48kg e inferior a 55kg - 49 kg Superior a 44kg e inferior a 49kg - 63 kg Superior a 55kg e inferior a 63kg - 55 kg Superior a 49kg e inferior a 55kg - 73 kg Superior a 63kg e inferior a 73kg - 63 kg Superior a 55kg e inferior a 63kg
> 73 kg Superior a 73kg > 63 kg Superior a 63kg
Fonte: WTF (2015)
Tabela 5 Divisão de peso corporal, categoria Adulta, para eventos multiesportivos.
Masculino Feminino
< 58 kg Inferior a 58kg < 49 kg Inferior a 49kg
- 68 kg Superior a 58kg e inferior a 68kg - 57 kg Superior a 49kg e inferior a 57kg - 80 kg Superior a 68kg e inferior a 80kg - 67 kg Superior a 57kg e inferior a 67kg
> 80 kg Superior a 80kg > 67 kg Superior a 67kg
Fonte: WTF (2015)
3.3 PERDA RÁPIDA DE PESO CORPORAL EM ESPORTES DE COMBATE
Em diversos esportes de combate, atletas são categorizados de acordo com o seu peso corporal, com o propósito primordial de assegurar combates mais equiparáveis em termos de força, agilidade, e tamanho dos competidores. Tal sistema de categorização instiga profissionais do esporte a mostrarem uma preocupação sistemática no monitoramento do peso corporal de seus atletas. Todavia, estudos realizados com atletas de luta olímpica (Steen, Oppliger & Brownell, 1998; Scott, Horswill & Dick, 1994; Oppliger et al., 1996; Oppliger et al., 2006; Alderman et al, 2004) e Judô (Artioli et al, 2010a) demonstram que independente do escopo de uma competição mais igualitária e justa, tais sistemas de categorização de peso corporal encorajam uma parcela considerável de competidores a reduzir o seu peso corporal em um tempo relativamente curto previamente a um evento oficial, com o propósito de competir em uma categoria de peso tão baixa quanto possível, assegurando assim uma vantagem teórica sobre oponentes menores, mais leves e fracos. Torna-se importante notar que em relação aos esportes de combate recentemente incluídos no programa dos Jogos Olímpicos, Taekwondo e boxe feminino, tais sistemas de categorização possuem intervalos consideravelmente mais amplos entre as diversas categorias de peso corporal em comparação aos esportes de combate mais tradicionais, como o judô e o boxe masculino (Franchini, Brito & Artioli, 2012). De fato, enquanto o intervalo entre as diversas categorias de peso corporal nos esportes de combate tradicionais varia em torno de 5-10%, nos esportes de combate recém inclusos nos Jogos Olímpicos este intervalo aumenta para cerca de 15%. Neste contexto, pode-se acreditar que um competidor com um peso corporal no ponto médio entre duas categorias seria mais propenso a reduzir abruptamente o seu peso corporal para adequar-se a uma categoria inferior em esportes de combate tradicionais. Portanto, um competidor de esportes de combate, como o Taekwondo, seria menos propenso a mudar seu peso corporal, em virtude de uma maior necessidade de redução no seu peso; todavia, caso o atleta tomasse a decisão de competir em uma categoria inferior, a mudança no peso corporal deveria ser mais drástica, colocando-o em uma situação de vulnerabilidade às complicações à
saúde decorrentes da perda abrupta de peso corporal (Centers for Disease Control & Prevention, 1998). Logo, uma informação acurada sobre prevalência, métodos, magnitudes, e efeitos colaterais associados a perda rápida de peso corporal pode contribuir no entendimento de fatores associados com a saúde e o sucesso competitivo em esportes de combate, como o Taekwondo.
Portanto, uma breve revisão sobre a relação entre os padrões de perda abrupta de peso corporal (capítulo 3.3.1), saúde (capítulo 3.3.2), e sucesso competitivo (capítulo 3.3.3) será conduzida abaixo.
3.3.1 Perda Rápida De Peso Corporal: Prevalência, Magnitude, & Métodos
Conforme citado anteriormente, atletas de diversos esportes de combate são categorizados de acordo com o seu peso corporal, com o propósito de assegurar combates mais equiparáveis em termos de força, agilidade, e tamanho dos competidores. Tal sistema de categorização instiga profissionais do esporte a demonstrarem uma preocupação sistemática no monitoramento do peso corporal de seus atletas. Todavia, estudos realizados com atletas de luta olímpica (Steen, Oppliger & Brownell, 1988; Scott, Horswill & Dick, 1994; Oppliger et al., 1996; Oppliger et al, 2006; Alderman et al., 2004), judô (Artioli et al, 2010a), boxe (Hall & Lane, 2001; Morton et al, 2010), e inclusive, Taekwondo (Fleming & Costarelli, 2009; Tsai et al., 2011; Brito et al., 2012) sugerem que independente do escopo de uma competição igualitária e justa, tais sistemas de categorização de peso corporal encorajam uma parcela considerável de competidores a reduzir o seu peso corporal em um tempo relativamente curto previamente a um evento oficial, com o propósito de competir em uma categoria de peso tão baixa quanto possível, assegurando uma vantagem teórica sobre oponentes menores, mais leves e mais fracos. Tal redução abrupta e intencional no peso corporal pré-competitivo, denominada corte de peso, pode diferenciar-se de acordo com as tradições e cultura da modalidade em questão (Burke & Cox, 2009; Langan-Evans, Close & Morton, 2011). Entretanto, evidências sugerem que, em geral, a prevalência de atletas de esportes de combate que fazem uma redução rápida de peso corporal é cerca de 60% -
90% (Franchini, Brito & Artioli, 2012). De fato, enquanto atletas de Taekwondo demonstram uma menor, porém elevada, prevalência de corte de peso (~63%) (Brito et al., 2012), atletas de outros esportes como o judô mostram uma prevalência substancialmente maior (~89%) (Artioli et al., 2010a). Torna-se importante ressaltar que variações na prevalência do uso de métodos de perda rápida de peso corporal possam existir dentro de uma mesma modalidade. Por exemplo, no estudo de Artioli e colegas (2010a), uma prevalência de ~89% foi estimada em uma amostra de 822 judocas; por outro lado, no estudo de Brito e colegas (2012), uma prevalência de ~62%
foi estimada em uma amostra de 302 judocas. Tais diferenças poderiam originar-se de fatores como idade, gênero, e nível competitivo dos respondentes (Franchini, Brito & Artioli, 2012).
Contudo, evidências sugerem que o gênero pouco afeta a prevalência de perda rápida de peso corporal em atletas de judô (Artioli et al., 2010a), embora Fabrini et al. (2010) não confirmarem tal informação. Por outro lado, o nível competitivo pode influenciar tal prevalência, onde atletas de um nível competitivo maior poderiam usar métodos de perda rápida de peso corporal mais agressivas (Artioli et al., 2010a). Por fim, a prevalência de atletas que iniciam a cortar peso em idades jovens é elevada. Artioli e colegas (2010a) mostram que ~60% dos judocas entrevistados começam a fazer o uso de métodos de perda abrupta de peso corporal na adolescência, em geral, entre 12 e 15 anos. Tais achados foram corroborados por Brito et al. (2012) usando uma amostra de atletas de Taekwondo e Caratê. Tal fato torna-se relevante na medida em que mudanças regulares no peso corporal na adolescência podem afetar, de modo negativo, o crescimento e o desenvolvimento do jovem (Roemmich & Sinning, 1997), predispondo-o para um risco elevado de eventos adversos à saúde física e mental, sob o risco de morte (Steen, Oppliger & Brownell, 1998). De fato, somente no período competitivo estivo de 1997, três atletas norte-americanos de luta olímpica faleceram em decorrência de complicações à saúde causadas pelo uso de métodos drásticos de perda rápida de peso corporal (Centers for Disease Control & Prevention 1998).
Os eventos adversos à saúde causados pela perda abrupta de peso corporal relacionam-se com a magnitude da mudança (Steen, Oppliger & Brownell, 1998). Embora muitos atletas reduzam
seu peso corporal, em média, em uma magnitude 2-5%, sabe-se que uma parcela considerável desta população (~40%) reduz até 5-10% de seu peso corporal nos dias anteriores a competição (Steen & Brownell, 1990; Artioli et al., 2010a). Em certas ocasiões, uma magnitude de perda abrupta de peso corporal superior a 10% foi reportada pelos respondentes (Steen & Brownell, 1990; Artioli et al., 2010a; Brito et al., 2012). Para reduzir o seu peso corporal, atletas fazem o uso de múltiplas estratégias, incluindo ingestão baixa de líquidos e alimentos, primariamente carboidratos e gorduras, uso de sauna, roupas de plástico e/ou borracha, medicamentos como laxantes e diuréticos, e indução ao vômito, entre outros (Oppliger et al., 2003; Artioli et al., 2010a; Langan-Evans, Close & Morton, 2011; Brito et al., 2012).
3.3.2 Perda Rápida De Peso Corporal: Relação Com A Saúde Física & Mental
Em uma perspectiva epidemiológica, uma associação direta entre perda rápida de peso corporal e risco de lesões parece existir (Agel et al., 2007; Green et al., 2007). Usando uma amostra de 392 judocas, Green e colegas (2007) notaram que uma redução superior a 5% no peso corporal aumenta a probabilidade de lesões em um evento competitivo (P = 0.02), independentemente de gênero, categoria de peso, e nível competitivo. Oopik et al. (1996) corroboraram tais achados indicando que reduções de 5% (ou maior) no peso corporal afetam, de modo negativo, respostas metabólicas e neuromusculares, como a função do músculo quadríceps femoral, tornando assim o atleta susceptível e exposto a lesões. Todavia, a perda rápida de peso corporal poderia causar inúmeros outros eventos adversos a saúde do atleta (Franchini, Brito & Artioli, 2012), os quais serão discutidos em detalhe neste tópico.
Em uma recente revisão bibliográfica, Bridge e colegas (2014) revelaram que durante eventos oficiais, atletas de Taekwondo deveriam ser capazes de intercalar períodos breves de combate (ataques; 3 - 5seg.) e períodos mais longos de pausa (‘non fighting’) em uma razão de 1:2 até 1:7, dependendo da categoria de peso (Bridge, Jones & Drust, 2011; Santos, Franchini &
Lima-Silva, 2011), nível competitivo (Santos, Franchini & Lima-Lima-Silva, 2011; Tornello et al., 2013), e estilo do Taekwondo praticado (Heller et al., 1998; Campos et al., 2012; Matsushigue et al., 2009). Em termos fisiológicos, tais combates podem resultar em respostas cardiovasculares (por exemplo, frequência cardíaca > 90%FCpico) e lactato sanguíneo (7.0 - 12.0 mmol/L) elevadas, causando assim uma exigência substancial dos metabolismos aeróbico e anaeróbico na disputa de cada round (Bridge, Jones & Drust, 2009; Chiodo et al., 2011; Campos et al., 2012; Bridge et al., 2013). Porém, tanto o metabolismo aeróbico quanto o metabolismo anaeróbico poderiam ser afetados negativamente pela perda rápida de peso corporal (Franchini, Brito & Artioli, 2012).
De fato, Fogelholm (1994) sugeriu que uma piora no desempenho aeróbico poderia derivar de fatores como a desidratação, piora na termorregulação, reduzido volume plasmático, distúrbios eletrolíticos, e elevada frequência cardíaca, além da depleção do glicogênio muscular. Por sua vez, uma piora no metabolismo anaeróbico poderia ser causada por distúrbios eletrolíticos, depleção do glicogênio muscular, e reduzida capacidade de tamponamento (Fogelholm, 1994).
Torna-se importante notar que uma piora no metabolismo aeróbico e/ou anaeróbico apenas seria observada caso o atleta não tivesse tempo hábil para reidratar-se ou alimentar-se no período pós-pesagem (Hickner et al., 1991; McMurray et al., 1991; Filaire et al, 2001). Porém, independente de mudanças no desempenho físico, distúrbios orgânicos causados pela perda rápida de peso corporal afetam negativamente a saúde física de um atleta. Por exemplo, a desidratação induzida pela perda abrupta de peso corporal reduz o volume plasmático, atenuando a eficiência cardíaca e causando um aumento na frequência cardíaca; portanto, o fluxo sanguíneo microvascular e a desoxigenação tecidual seriam reduzidos, dificultando assim a eliminação de coprodutos e calor.
Tal hipertermia corporal pode causar danos orgânicos irreversíveis e condições clínicas severas, incluindo coma e morte (Jetton et al., 2013; Cheuvront & Kenefick, 2014). De fato, Clowes &
O´Donnel Jr (1974) sugeriram que uma perda hídrica > 6% pode ocasionar morte induzida por choque térmico. Infortunadamente, uma perda hídrica severa, associada com uma inadequada reidratação, têm sido observada em diversos esportes de combate (Jetton et al., 2013; Pettersson
& Berg, 2014).
Estudos anteriores revelam que a perda abrupta de peso corporal poderia não somente afetar a saúde física de uma atleta, mas também a sua saúde mental (Steen & Brownell, 1990; Horswill, Park & Roemmich, 1990; Filaire et al., 2001; Degoutte et al., 2006). Uma piora em estados psicológicos, como memória, vigor, concentração, auto estima, confusão, raiva, e fadiga, foram reportadas por atletas após reduzir o seu peso corporal, de modo rápido, no período pré combate (Franchini, Brito & Artioli, 2012). Embora tais estados psicológicos possam causar uma piora no desempenho físico no treinamento e na competição, outros estados psicológicos, incluindo ansiedade e depressão, poderiam ter uma significância clínica ainda maior (Montenegro et al.,
Estudos anteriores revelam que a perda abrupta de peso corporal poderia não somente afetar a saúde física de uma atleta, mas também a sua saúde mental (Steen & Brownell, 1990; Horswill, Park & Roemmich, 1990; Filaire et al., 2001; Degoutte et al., 2006). Uma piora em estados psicológicos, como memória, vigor, concentração, auto estima, confusão, raiva, e fadiga, foram reportadas por atletas após reduzir o seu peso corporal, de modo rápido, no período pré combate (Franchini, Brito & Artioli, 2012). Embora tais estados psicológicos possam causar uma piora no desempenho físico no treinamento e na competição, outros estados psicológicos, incluindo ansiedade e depressão, poderiam ter uma significância clínica ainda maior (Montenegro et al.,