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5 CAMINHOS METODOLÓGICOS

5.3 APRESENTAÇÃO DO CORPUS

6.2.2 Objeto colecionável

Esta categoria refere-se a uma relação de posse com o objeto, de paixão. Diz respeito a um sentimento de apropriação, de tomar para si o objeto. Dá conta da abstração dos objetos a fim de torná-los uma espécie de “propriedade privada”, em que o dono vê-se refletido em seus itens colecionados.

Referente a esta categoria, ao apresentarmos as imagens de colecionadores ao grupo – ainda que não os tenhamos identificado enquanto tais –, perguntamos o que percebiam nas imagens, e os entrevistados mencionaram a paixão pela marca e pelas motocicletas. Inclusive, referente às imagens de Benetton, o entrevistado 2 ainda acrescentou ser uma paixão beirando o fanatismo, e, após este comentário, o entrevistado 7 comentou ser esse um fanatismo religioso. Podemos entender fanatismo religioso, aqui, como uma crença, e aposta na marca, de que ela representa o estilo de vida ideal de ser vivido. Representa, assim, os consumidores que seguem os ditames da marca, consomem todos os produtos vendidos por ela e vestem-se da cabeça aos pés com os mesmos.

Poderíamos dizer que os consumidores vivem a marca. O entrevistado 1, por exemplo, a partir da relação que os outros mencionaram sobre utilizar as motocicletas para momentos específicos, de viagem, de prazer, de fuga, ele nos disse que utiliza a sua motocicleta para tudo. Parece ser um pouco mais fanático nesse sentido. Para ele, se pudesse, usaria sempre a motocicleta, não fosse o mau

tempo, eventualmente. Mas, aqui, o entrevistado também revela um pouco da funcionalidade do produto, pois, comparada a um carro, ela tem mais mobilidade. Ainda que este entrevistado também repudie atitudes como a dos motoqueiros, de “rasgar” o trânsito, confessa que é um produto de fácil locomoção. Já para o entrevistado 2, andar na cidade de motocicleta, e ele também anda, é fazer um sacrilégio, pois considera ela pesada, não tão prática assim. Embora, para ele, esse sacrilégio valha a pena e se justifique pela paixão que tem pela motocicleta. O sonho que realizou após a compra justifica todas as dificuldades que possam aparecer.

Quando perguntamos sobre o que caracterizavam as imagens, tentarem relacioná-las aos seus próprios hábitos e paixões. As imagens fizeram os entrevistados contar sobre os seus próprios consumos de produtos acessórios. O entrevistado 3 mencionou que, em sua casa, todas as peças possuem algum produto da marca, estampando a marca. Para ele, a Harley passou a ser um membro da família, pois acompanha ele e a sua esposa, desde os passeios até nos cômodos da casa. Contou também que: “Eu acabei de pendurar, na parede do quarto, um quadro de 70x70cm só com fotos de passeios que eu fiz e tudo mais da Harley. Em cima do balcão tem um negocinho da Harley, um cinzeiro da Harley, tem um copo da Harley” (transcrito pela autora). Existe uma necessidade de colecionar os acessórios, os produtos, os momentos. É uma espécie de cultivo da marca e de todos os momentos que esta pode proporcionar. Parece-nos algo próximo a um vício de colecionar momentos: viver mais, para contar mais. Próximo a um fanatismo mesmo.

Baseados em todas as opções de produtos que a marca disponibiliza, é possível, para eles, estabelecer uma relação pessoal e dar aos objetos sentimentos particulares. Esses consumidores sentem-se acolhidos pela marca – a partir dos demais motociclistas –, mas também notamos que ela proporciona momentos tão importantes e prazerosos que eles buscam, da mesma maneira, acolher a marca: “Então, eu acho que sem querer, a marca acaba entrando na tua vida, como um membro da tua família. Passa a fazer parte do teu cotidiano. Tudo que tu vai fazer, tu vincula à marca” (Entrevistado 3 – transcrito pela autora). Esse acolhimento serve como meio de cristalizar os momentos e conservar as memórias, as lembranças, produzindo imagens vivas.

O entrevistado 4, por exemplo, contou que, em seu guarda-roupa, existe uma parte que é só para as roupas da Harley: “Lá em casa, já eu fiz uma porta do roupeiro que é só Harley” (transcrito pela autora). A paixão pela marca se materializa a partir de gestos como esses: tornar exclusiva uma parte do roupeiro só para a marca, e cada nova roupa, é uma renovação da paixão; cada nova foto acrescentada no quadro, cada detalhe; todos esses gestos representam a vontade de privatizar essa relação. Cada um dá um sentido, apropria-se a sua maneira da marca. Vários dos entrevistados estavam, inclusive, vestindo roupas da marca, numa espécie de ritual, pois foram convidados a falar sobre a marca. Parece uma ação interligada, pois falar sobre a marca, assim como andar de motocicletas, exige a vestimenta adequada. É um ritual que possui seu passo a passo.

O entrevistado 6 também contou que em sua casa existem diversos objetos da marca. Para ele, isso representa um sentido tribal. Trata-se de uma tribo que compartilha essa paixão, compartilha os mesmos sentimentos, caracteriza-se por um estereótipo, isto é, pelo universo que só a Harley pode propiciar. Para ele: “É identificação. É tu chegar na casa, tu teres na tua casa os adereços, é tu ter o livro, é tu ter revista, eu tenho três books enormes, eu tenho dois... eu tenho roupa, eu tenho bandana, tenho camisa, tenho carteira, tenho... porra, anel...” (transcrito pela autora). A marca produz desde acessórios para a motocicleta, como todos os segmentos de vestimenta, masculino e feminino, até material decorativo para casa, livros, etc. Ela adaptou-se aos mais diversos nichos para compor a motocicleta, as roupas e a casa dos consumidores. Os consumidores buscam, a partir da ação de cercar-se pela marca, um meio de projetar-se na casa, de transferir os valores que colocam sobre a marca em sua casa, nas suas roupas. A identificação da qual o entrevistado 6 se refere é, na verdade, um meio de ver-se projetado ao redor, de ver a si mesmo a partir da paixão pela marca.

Quanto aos acessórios que a marca produz para as vestimentas, jaquetas ou coletes, que têm como intenção fomentar a personalização, acaba enquadrando-se na categoria de colecionáveis também. Os entrevistados mencionaram que os pins e

patches colocados nas jaquetas e coletes são comprados, normalmente, a cada

viagem, para deixar marcados os lugares em que estiveram. Colecionam-se estes acessórios para contar histórias. Isso pode gerar quase que uma disputa entre os integrantes do grupo, porque quem viaja mais, tem a sua jaqueta ou colete mais

interferido, o que alimenta o desejo, entre os consumidores, de viajar mais, de procurar conhecer mais lugares, para, dessa forma, terem as suas roupas cheias de “história para contar”. O entrevistado 3 comentou que: “Tanto a jaqueta, quanto o colete, servem até pra ti contar um pouco da tua história. É que nem o Entrevistado 4 falou, cada lugar que tu viajas, tu colocas o pin pra ti lembrar: aqui eu estive, nessa loja, nesse lugar, estive em tal lugar” (transcrito pela autora). Existe um desejo de colecionar os momentos para recordar.

O que caracteriza esses consumidores, enquanto colecionadores mesmo, poderíamos dizer, é a paixão pela marca, pelas suas motocicletas. Uma paixão extrema que coloca este objeto entre as relações pessoais, como explicou o entrevistado 2: “A minha namorada que me desculpe, mas ela sabe que entre eu e ela, é a Harley. Ela sabe disso. Mas ela me ama, né. Ela me disse assim: – Essa tua amante metálica, ainda bem que é uma Harley, que a minha concorrente é uma moto” (transcrito pela autora). Após este relato, fica claro que a paixão gerada a partir do objeto assemelha-se a paixão sentida por uma pessoa. Parece-nos que, para esses consumidores, não existe um limite de relação com as motocicletas. Elas tornam-se membros da família, competem com as namoradas, estão equiparadas a pessoas. É interessante notar que dois dos entrevistados – um de 64 anos e o outro que não mencionou a idade, mas aparenta ter em torno de 45 anos – mencionaram ter namoradas. Ou seja, relações que condizem com esse modo mais livre de viver, sem ter a necessidade de oficializar a relação no papel, com costumes tradicionais.

Chamou-nos atenção que todos mencionaram a sua paixão pela marca, o entusiasmo que extravasa e transborda para a casa, para os objetos decorativos, para os pins e patches na jaqueta, para todos os acessórios, mas nenhum se identificou diretamente com o fato de ter mais de uma motocicleta, ainda que alguns dos entrevistados tenham mencionado já terem adquirido mais de uma. Parece-nos que isso é uma reação natural, pois após ter a primeira, vai querer se adquirir outras para seguir customizando, envolvendo-se. Isso expressa essa vontade de colecionar, de amar cada modelo com suas diferenças. Ter mais de uma motocicleta para visitar na garagem, como o entrevistado 8 falou: “dar uma espiadinha”.