4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.3 O DISCURSO DE PROFESSORES EM FORMAÇÃO SOBRE O SISTEMA
4.3.2 Objeto: construção de significados acerca do contexto escolar
Os sujeitos inseridos no sistema de atividades atuam visando atingir determinado objeto. Desse modo, o objeto das disciplinas de Estágio I e II, de acordo com o discurso dos professores em formação, é conhecer os ambientes que constituem o contexto escolar e observar as interações e práticas em sala de aula (Excerto 2):
Excerto 2
Gustavo: conhecer o ambiente, conhecer a sala dos professores, que é onde a gente mais
vai ter contato, o que que envolve, o que que eles conversam, né, conhecer a turma, caso a gente continue mesmo, e a experiência, né[...]. Acho que a nossa adaptação ao espaço mesmo. Conhecer um pouco mais do ambiente, o que passou despercebido do primeiro. Agora a gente pode ter mais atenção.
Érika: Tu observar pra ti futuramente usar as experiências que tu teve ali pra melhorar tua
própria prática [...]. A gente saber se adaptar a cada contexto, saber como que tu vai conseguir trabalhar dependendo do contexto, até pelo relato que a gente escuta dos colegas “ah isso, funcionaria na minha escola”.
Como podemos notar, não há uma grande modificação no objeto, nos Estágios I e II. Gustavo, em seu discurso (Excerto 2), aponta para um objeto voltado à exploração do contexto escolar. O participante representa o objeto do estágio de forma implícita, a partir de uma oração relacional – atributiva, que tem como Atributo a oração encaixada “conhecer o ambiente, conhecer a sala dos
professores”. Assim, podemos perceber que o Estágio de observação é descrito
escolar e de seus diversos segmentos. O participante ainda destaca que a sala dos professores é um espaço importante para a formação do estagiário, pois é nele que vai interagir mais com o professor regente e entender melhor como o contexto escolar se estrutura. Por meio de uma oração relacional – atributiva, Gustavo destaca que a sala dos professores é a entidade Portador com foco no Atributo constituído por uma oração encaixada “onde a gente mais vai ter contato, o que
que ela envolve, o que eles conversam, né.”
A sala dos professores então, conforme Iório (2013), é um espaço que congrega diversas identidades e ideologias. De acordo com a autora, a sala de professores27, “certamente, tem impacto na construção de suas carreiras, ajudando a compor a lógica da instituição e do trabalho pedagógico nela realizado” (IÓRIO, 2013, p.10). Porém, muito se discute sobre o real papel da sala dos professores na troca de assuntos pedagógicos, uma vez que essa se torna um espaço de interação entre os professores e demais funcionários do contexto escolar.
Paro (2000) discute as relações interpessoais estabelecidas nesse espaço. Essas relações apresentam uma série de conflitos, aspirações, grupos de interesse e quadros de movimento, principalmente pela escola ser um espaço de diversidade e contato humano (PARO, 2000). Sendo assim, a sala dos professores e os atores que nela interagem representam um ambiente a ser explorado por professores em formação que até pouco tempo a enxergavam a partir da perspectiva de estudantes.
Outro ponto destacado por Gustavo (Excerto 2), além de conhecer o espaço físico escolar, é conhecer a turma, e a partir desses processos, adquirir experiência como futuro professor. No Excerto 3, Gustavo reforça seu posicionamento em relação ao objeto estar pautado na “adaptação ao espaço” escolar. A partir da oração mental “acho”, Gustavo se coloca como parte do grupo de professores em formação ao empregar o pronome pessoal do caso reto na primeira pessoa do plural “nossa”. Em seu discurso, ele e os demais professores em formação experienciam o Fenômeno “adaptação ao espaço”. Desse modo, o fenômeno indicado no discurso de Gustavo refere-se ao processo de inserção e adaptação como profissional no espaço escolar. Ele reafirma o objeto dos Experienciadores (professores em formação) sendo “conhecer”, processo mental – cognitivo, o
27
Fenômeno “um pouco mais do ambiente” e ainda outros detalhes que passaram despercebidos no Estágio I. O Fenômeno a ser experienciado, dessa forma, continua focado no espaço escolar e não apenas na sala de aula ou atuações de atores sociais. Gustavo ainda complementa, partindo da circunstância de lugar “agora”, que os professores em formação “a gente” tem a possibilidade de “ter mais
atenção” sobre a prática que realizam. Dessa forma, o processo “ter”, associado
aos elementos “mais atenção”, constroem uma oração mental em que os estudantes podem experenciar mais atentamente a prática docente como um todo.
Érika (Excerto 2) reforça os aspectos mencionados por Gustavo, e complementa que o objeto tem o papel de estimular o aprimoramento da prática docente que os futuros professores desenvolverão em suas salas de aula. Assim, Érika destaca que o Experienciador “tu”, no sentido de professor em formação, tem a função de “observar” (processo mental – cognitivo) o Metafenômeno “pra ti
futuramente usar as experiências que tu teve ali pra melhorar tua própria prática”.
Nesse Metafenômeno, o Ator “ti” desenvolverá ações materiais a partir das experiências observadas, com o propósito de “melhorar tua própria prática”. O processo mental “melhorar”, juntamente com o Fenômeno “tua própria prática”, indicam um processo reflexivo em que o estagiário faz parte ao longo de sua formação.
Outro aspecto destacado no discurso de Érika (Excerto 2), refere-se à adaptação aos diferentes contextos de ensino por meio da interação com os colegas da disciplina. Essa representação se dá a partir do processo mental – cognitivo “saber” em que os professores em formação são Experienciadores que aprendem a se “adaptar a cada contexto”, “como que tu vai conseguir trabalhar
dependendo do contexto” (orações encaixadas). Discursivamente, essa
aprendizagem se dá a partir das trocas de experiências entre colegas.
Segundo Silva e Ferreira (2014), a escola, por receber uma grande diversidade de alunos oriundos de contextos e realidades diferentes, se constitui em um espaço, no qual, muitas vezes, o professor precisa adaptar sua prática e se reconstruir como profissional a fim de atender as necessidades variadas de um grupo ou de alunos heterogêneos. A partir de um processo crítico-reflexivo sobre o contexto em que está inserido como profissional, Liberali (2004) afirma que:
Por meio da reflexão crítica, torna-se possível ao professor olhar a si com o distanciamento proporcionado pela descrição da própria ação. A partir desse descrever, o profissional pode se posicionar frente a teorias sobre o agir, acumuladas historicamente. A partir daí, é aberto espaço para o professor questionar se suas ações condizem com seus interesses, com os interesses do grupo do qual faz parte e com a necessidade de criação de oportunidades de transformação social mais ampla. Com base nessas avaliações, o profissional poderá assumir um papel mais consciente sobre uma mudança de atitude, ação e participação na história de sua própria ação e de seus companheiros. (LIBERALI, 2004, p.47).
Ao reconhecer as diferenças contextuais que constituem a sala de aula como um espaço de crescimento pessoal e intelectual, o professor em formação pode promover ações específicas pensadas para determinado grupo, visando sempre atingir seus objetivos previamente estipulados para um processo produtivo de ensino e de aprendizagem, ao mesmo tempo em que se reconfigura como profissional que entende sua formação como “contínua, progressiva e não linear” (WIELEWICKI, 2007 p.45). Esse processo formativo se constitui, também, a partir da troca de experiências, como Érika destaca em seu discurso. Conforme Aroeira (2009), o processo de reflexão e troca, chamada pela autora de “reflexão partilhada”, possibilita “a significação e resignificação da atividade docente num ambiente de troca coletiva” (AROEIRA, 2009, p. 91). Dessa forma, a disciplina de Estágio pode tornar-se um lócus em que, a partir da troca entre os pares, processos de reflexão sobre os diferentes contextos de ensino podem propiciar uma aprendizagem significativa para todos os envolvidos.
4.3.3 Instrumentos: incongruências no uso das ferramentas mediadoras de