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  Figura 10 - Área total do bairro de Mãe Luiza. Fonte: SEMURB – Secretaria 

de Meio Ambiente e Urbanismo, 2008. 

 

Mãe Luiza está localizado na zona Leste de Natal/RN e antes        era conhecido como Monte do Bode, por servir de pasto para animais        como o bode. Depois que uma senhora chamada Luiza foi morar lá,        ela se tornou uma representação do espírito de solidariedade:        moradores do bairro disseram que ela era uma parteira e foi        responsável por praticamente todos os partos que aconteciam no        bairro em sua época. Por causa disso, o bairro passou a ser        denominado Monte de Mãe Luiza. Foi por meio da Lei nº ​794 de 23        de janeiro de 1958 que se tornou bairro de Natal, oficialmente        (NATAL, 2012). Está localizado bem no litoral e possui um farol,        bastante característico, cartão postal da cidade, que carrega o        mesmo nome do bairro. É um lugar de resistência e que está sempre        tentando construir uma comunidade solidária. Desde quando o bairro        tinha poucos habitantes, já existiam movimentos articulados pelos        habitantes, como o Pró-Frente de Trabalho João XXIII, o qual era        liderado por um sacerdote português chamado João Perestrello e        tinha como objetivo que a prefeitura trouxesse melhorias para a        infraestrutura do lugar. Sendo assim, essas reivindicações        comprovam que a luta dos moradores e as entidades religiosas,        especialmente a católica (PREFEITURA DO NATAL, 2007) estão        conectadas desde as origens do lugar.

 

Ao analisar as possíveis dinâmicas que podem existir dentro        de um bairro, Tuan (2013) afirma que ao se ter a noção de que o        bairro onde o indivíduo mora possui rivais, e que de alguma forma,        sofre ameaças, os sentimentos dos moradores se tornam mais        intensos e expansíveis. Como, por exemplo, se há uma afeição por        uma esquina da rua onde se mora, ela rapidamente passa a envolver        áreas maiores; especialmente se as áreas do bairro são bem        definidas e características, as moradias das pessoas por si só não        fabricam o sentimento de lugar, só se de alguma forma essas        diferenças forem deixadas em evidência (TUAN, 2013, p. 209).  

Há uma linha muito tênue para moradores de bairros        estigmatizados, como o bairro de Mãe Luiza, em relação a forma        como eles enxergam o lugar e o lugar influencia suas vidas. Pelo        senso comum, para os demais habitantes da cidade, Mãe Luiza é um        lugar perigoso e com muitos assaltos. Isso se dá ao histórico        existente de violência que tomou conta do mesmo por muito tempo;        e também por ser um bairro em que seus moradores, na sua maioria,        são de classes econômicas mais baixas. Há favelas e muitas casas        em situações de construção precárias, e para como indício das        desigualdades sociais, o bairro faz fronteira com outros dois de        classe alta: Areia Preta e Petrópolis. No entanto, nas últimas        décadas, com a influência de figuras importantes da igreja católica e        a própria reorganização dos moradores, Mãe Luiza recebeu muitos        investimentos em infraestrutura e lazer, e hoje é considerado um        bairro pacífico - isso só não está claro para a maior parte da        sociedade - e com isso, existem no mínimo dois caminhos que os        residentes podem reagir para essa situação em que vivem: se unirem        e se sentirem mais pertencentes ao bairro, como citado        anteriormente, ou ainda se sentirem envergonhados e com baixa        autoestima. Da mesma forma que a exclusão e os rótulos podem        impulsionar as pessoas e as unirem, pode também fazê-las se        sentirem imponentes, principalmente quando o responsável maior o        qual pode trazer alguma mudança concreta é o governo (BOMFIM et        al, 2018, p. 68). 

Para iniciar esse processo de intervenção em bairros como o        de Mãe Luiza, é preciso fomentar ações que sejam caracterizadas        pela aliança entre os cidadãos, para que se tenha claramente quais        as diferenças de necessidades existentes (heterotopias ) e também      1     

1“(...) é usado para descrever espaços que possuem diversas camadas de

significado e relacionamentos nem sempre claros para todos os que se referem a ele.” (FOUCAULT, 1984 apud SOUZA, 2015, p. 15)

que respeitem operações em comunidade orientadas ao direito à        cidade (JÚNIOR, 2004 apud SOUZA, 2015, p. 17).  

 

Blokland (2003) identifica quatro principais propósitos para        se integrar uma vizinhança: o uso por razões práticas; o        foco no significado simbólico e histórico da área; a imagem        de um estilo de vida que por alguma razão foi associada ao        local; e, por último, a completa falta de significância ou        atenção aos elementos anteriormente mencionados, uma        associação acidental. Esses fatores influenciam na        percepção individual dos habitantes, mas segundo Jenkins        (2004), é a maneira da comunidade se expressar que a        define. (SOUZA, 2015, p. 17) 

 

​Aqui, fica claro que quando um grupo de pessoas vive nas        mesmas circunstâncias de dificuldades sociais, insegurança ou se        apenas possuem âmbitos culturais similares, é muito mais fácil se        desenvolver a empatia entre eles, o que facilita nas relações entre        vizinhos dentro de um mesmo bairro, por exemplo (JENKINS, 2004        apud SOUZA, 2015, p. 18). Estudando o espaço público e os lugares        que essas pessoas frequentam, é uma boa forma de entender o nível        de engajamento das mesmas nas ações em prol de melhorias pro        bairro. Durante a disciplina de antropologia cultural - que a autora        deste trabalho cursou -, ficou claro o quão os residentes de Mãe        Luiza se disponibilizam e se envolvem em projetos que oferecem        mudanças para melhor dentro de onde eles moram.  

Muitas das pessoas que a autora e seus colegas de turma        puderam conversar, moraram no bairro a vida toda, ou então saíram        por um tempo e voltaram, por preferirem estar ali, por gostarem do        bairro; tem muitas crianças, jovens e idosos; e durante as ações        feitas, muitas pessoas paravam e perguntavam o que estava        acontecendo ou ofereciam ajuda.  

Foram feitas, também, algumas anotações a partir de        conversas com membros de liderança da comunidade: o        coordenador da Escola de Música, Edilza do Centro-Sócio Pastoral e        o Padre Robério, líder da igreja católica no bairro, trechos        importantes podem ser vistos nos tópicos abaixo: 

 

A ​Escola de Música de Mãe Luiza​ surgiu de um projeto do  Padre Sabino (já falecido) juntamente com uma empresa  alemã como parte do projeto Salvando Vidas que quer criar  novas oportunidades pros jovens. Têm alunos 

pré-adolescentes e adolescentes, aproximadamente 100.  Querem “abraçar os jovens e tirá-los da margem da 

sociedade”, fazem ensaios em espaços públicos para ter um  contato maior com a comunidade, e pelo menos uma vez por  semana tocam na extensão da Via Verde; 

A ​Via Verde​ - alameda que começa ao lado da igreja e vai até  uma das vias principais do bairro - é uma resposta a 

necessidade de espaço para as pessoas andarem por Mãe  Luiza. Tem calçadas padronizadas dos dois lados, uma parte  é mais larga, tem lugares para sentar e sombra numa parte.  Querem trazer o fluxo de pedestre para a Via Verde e  transformar num espaço de lazer, fechar aos domingos a  tarde; 

Mãe Luiza​ tem em torno de 16 mil habitantes, fluxo contínuo 

de pessoas, 92% do território é habitado, está em cima de  uma duna. A circulação de pessoas e veículos é concentrada  nas duas avenidas principais, não tem calçadas nem por onde  as pessoas andarem de forma segura; 

● Os projetos que estão em andamento hoje, de melhorias para  o bairro, começaram com o Padre Sabino. Ele os iniciou, e a 

comunidade e a igreja católica tem mantido eles funcionando  até hoje. Quem assumiu o posto dele foi o ​Padre Robério​; Nas​ escolas​, esse ano, estão trabalhando temas que 

envolvem empatia e relação da criança com a cidade/bairro.  Ocorreram várias atividades e pesquisas com as crianças  (tem muito material com dona Edilza sobre os problemas das  ruas a partir da visão dos moradores e dessas crianças);  ● É um bairro​ 100% saneado​, com a melhor coleta de lixo de 

natal (é bem regular, só não é seletiva), e eles estão tentando  ver opções de como ganhar dinheiro com esse lixo que é  coletado, já que o lixo dá muito problema, já houveram  mortes por causa dos dejetos; 

Os ​moradores​ têm costume de participar dos projetos, eles  se mobilizam e fazem parte, dão opinião, se interessam;  ● "Teve um tempo que discutimos muito sobre o cidadão e o 

bairro"​ disse Padre Robério. Ele afirmou, ainda, que estão 

tentando mostrar o lado bom do bairro - já que tem muitas  coisas boas), ainda mais que o bairro está mais tranquilo  agora. 

 

O presente trabalho pretende, de alguma forma, estreitar os        laços existentes entre os moradores e o bairro, além de intervir no        espaço urbano. Por fim, as imagens abaixo ilustram um pouco do        que o bairro de Mãe Luiza é hoje (figura 11). 

  Figura 11: imagens do cotidiano do bairro, pichações, grafites e a banda da 

Escola de Música. Fonte: acervo pessoal, 2019.   

5.1 | A disciplina de Antropologia 

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