5.2 Pronomes pessoais na função de Objeto (O) e Sujeito Estativo (SO)
5.2.1 Objeto e/ou Sujeito Estativo de terceira pessoa: h
3 FUT PL 3-pescar DIR caminho
‘Eles vão pescar (estão a caminho)’.
(AMADO, 2004, p. 112)
Diante do exposto nesta seção pode-se afirmar que o morfema kê, em Parkatêjê, assim como em outras línguas do Complexo Timbira, funciona como pronome livre e assume a função de sujeito de terceira pessoa singular, cuja ocorrência parece estar condicionada ao tempo futuro.
5.2 Pronomes pessoais na função de objeto (O) e sujeito estativo (So)
Conforme descrito por Ferreira (2003), na língua Parkatêjê, os pronomes livres não ocorrem como argumento objeto direto (O) de verbos transitivos nem como o argumento dos verbos estativos (So)13. Essas funções são expressas pelos pronomes
dependentes que ocorrem prefixados diretamente à raiz verbal.
Nesta seção, apresentaremos a descrição e distribuição dos morfemas h-, i-, ku- como formas pronominais dependentes para a expressão da terceira pessoa como objeto (O) e como sujeito estativo (So).
5.2.1 Objeto e/ou sujeito estativo de terceira pessoa: h-
Nos dados coletados notou-se a ocorrência do morfema h-, o qual funciona como uma forma pronominal dependente para expressão de terceira pessoa em posição de objeto (O) e sujeito intransitivo estativo (So), diante de vogal (66) e consoante (67).
(66) ĩntʃum te h-itep
pai.de.ego ERG 3-cortar
‘Meu pai cortou (a/as)’.
(FERREIRA, 2003, p. 102)
(67) mũ i-te mẽ hõ-pun
DIR 1-ERG PL 3-ver
‘Nós o vimos’.
(RIBEIRO-SILVA, notas de campo, 2015)
Seguem abaixo os dados com o morfema h-, diante de vogal, expressando a terceira pessoa na posição de objeto (O) (68) a (72) e sujeito intransitivo estativo (So), no exemplo (73).
(68) pê pia mũ h-apron mũ mẽ to mõ amʒiʒõʒe
PD DUB DIR 3-buscar DIR PL TO ir REFL.segurar
‘Dizem que ele foi busca-los e eles foram segurando (a mão do sol)’.
(FERREIRA, 2003, p. 256)
(69) wa ikrekrere nã amkro mã kutʃi nã apu h-amã
1SG limpar SS sol LOC botar SS CONT 3-vigiar
‘Eu vou limpá-la, colocá-la no sol quente e vigiá-la’.
(FERREIRA, 2003, p. 255)
(70) wa pê pia ry a-mã to h-akre
1SG PD DUB já 2-DAT fazer 3-ensinar
‘Eu [dizem que ele disse] já te ensinei como fazer’.
(FERREIRA, 2003, p. 258)
(71) ĩntʃum te h-itep
pai.de.ego ERG 3-cortar
‘Meu pai cortou (a/as)’.
(FERREIRA, 2003, p. 102)
(72) hõ-pun mã pit mũ apu kãm nkryk mã apte h-aher 3-ver DAT sol DIR CONT LOC raiva DAT FRUST 3-proximar
mũ apu h-apan to kukwỳr mã kakro apte
amjĩ to h-aher REFL fazer 3-cercar
‘(Ela o) vê, mas (até hoje), o sol continua zangado, ela tenta se aproximar dele, mas eles continuam se desconcentrando, não adianta se aproximar.’.
(FERREIRA, 2003, p. 268)
(73) pê aiku kri apu h-ape PD PR lá CONT 3-trabalhar
‘Parece que ele ficou trabalhando por lá’.
(FERREIRA, 2003, p. 253)
Nota-se nos exemplos acima que o morfema de terceira pessoa pronominal h- ocorreu com bases iniciadas em vogais, na posição de objeto (O) e sujeito intransitivo estativo (So).
Em relação às bases verbais iniciadas em consoantes, notou-se que, assim como nas bases iniciadas em vogais, o h- também ocorria na posição de objeto e sujeito estativo. Entretanto, observou-se que nesses casos ocorre sempre uma vogal õ, entre o h- e a primeira consoante da raiz verbal. Consideramos pelo menos duas possibilidades de análise para explicar essa ocorrência, conforme ilustrado no exemplo (74).
(74) h-õpun 3-ver ‘O vi’.
(RIBEIRO-SILVA, notas de campo, 2015)
Ao adotarmos essa segmentação teríamos que assumir a existência de um grupo específico de raízes verbais que aceitam essa vogal em sua base em determinados contextos, como é o caso quando o objeto é de terceira pessoa. Essa talvez não seria a análise mais adequada, uma vez que, o falante teria que memorizar todas as formas dos verbos em que ocorresse tal modificação, uma vez que, o léxico está relacionado ao processo de nomeação e cognição da realidade que se converte em palavras.
A segunda possibilidade de análise permitida pelos dados prevê a distribuição da vogal õ fixada ao morfema h-, conforme mostra o exemplo (75):
(75) hõ-pun 3-ver ‘O vi’.
(RIBEIRO-SILVA, notas de campo, 2015)
Nesta análise, o falante não precisaria memorizar todas as formas dos verbos que aceitariam essa vogal na raiz, mas somente a regra fonotática que prevê a alternância entre h- e hõ- quando o morfema de terceira pessoa é seguido por raiz iniciada em consoante. Vale ressaltar que adotaremos essa segunda análise para o presente trabalho, a qual será justificada mais adiante.
Observam-se nos exemplos (76) a (82), como o morfema h- está disposto diante das consoantes.
(76) mũ i-te mẽ hõ-pun
DIR 1-ERG PL 3-ver
‘Nós o vimos’.
(RIBEIRO-SILVA, notas de campo, 2015)
(77) mũ i-te mẽ hõ-pun tohina
DIR 1-ERG PL 3-ver verdade
‘Eu o vi mesmo (vimos mesmo)’.
(RIBEIRO-SILVA, notas de campo, 2015)
(78) i-te [amjĩ pupũn xà] kãm hõ-pun
1-ERG espelho LOC 3-ver
‘Eu o vi no espelho’.
(79) pê hõ-pun wỳr pỳp nã ku-pỳ ita pyn pĩn
PD 3-ver DIR cair SS ONC-pegar DEM pegar devagar
‘Dizem que ele viu onde (ela) caiu e a pegou. Pegou aquilo devagar’.
(FERREIRA, 2003, p.254)
(80) a-te hõ-pun 2-ERG 3-ver
‘Tu o viste (tu viste ele)’.
(RIBEIRO-SILVA, notas de campo, 2015)
(81) pê pia katʃer kãm aiku hõ-pa
PD DUB lua LOC PR 3-recear
‘Dizem que a lua ficou receosa (dele)’.
(FERREIRA, 2003, p. 250)
(82) mũ mẽkwỳ j-ukaprĩti mẽkwỳ hõ-tʃӯ
DIR alguns REL-ser.generoso alguns 3-ser.escasso
‘(Na aldeia, há) alguns generosos, alguns escassos’.
(FERREIRA, 2003, p. 131)
Para explicar a ocorrência do h- seguido de -õ- com as consoantes, recorreu- se à fonotática, uma vez que os padrões silábicos previstos para o Parkatêjê, segundo Araújo (1989, p. 24) são complexos e o tipo de sílaba define condições e restrições para a ocorrência ou não dos segmentos em determinadas posições. A autora (ibid.) propõe os seguintes padrões:
V, VC, CV, CCV, CVC, CCVC, CCVCC
No Parkatêjê, embora seja possível a sequência de consoantes em ataque silábico, a sequência silábica de consoantes hp, ht, htʃ, hk, não é possível. Segundo Araújo (ibid.) as sequências possíveis são kr, kw, pr, mr, kt, mx, nt, mp. Por esta razão é necessária uma vogal de ligação quando o morfema h- é seguindo por consoante, neste caso (õ), gerando assim a alomorfia h- ~hõ-. Se não houver a vogal
de ligação a sequência h- + Consoante não será uma sílaba bem formada segundo os padrões fonotáticos da língua.
Conclui-se diante do exposto que o morfema h- é uma forma pronominal dependente para expressão de terceira pessoa na língua Parkatêjê e, apresenta alomorfia: h- ~ hõ-, em que hõ- ocorre diante de consoantes e h- diante de vogais.