CAPÍTULO 1 – OBJETO: CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.2 Objeto interno
Embora estejam separados aqui no texto com o objetivo de organizar a escrita, é importante assinalar que a noção de objeto interno e fantasia inconsciente estão intimamente ligadas, pois ambas as noções são derivadas, se assim podemos dizer, dos processos de introjeção e projeção — expulsar para fora e sugar para dentro —, que estão presentes desde o nascimento. A definição de objeto interno formulada por Hinshelwood nos mostra essa estreita ligação:
35 FIGUEIREDO, L. C. As Diversas Faces do Cuidar: Novos Ensaios de Psicanálise Contemporânea. São Paulo:
Editora Escuta, 2009, p. 25.
36 ISAACS, 1952.
Este termo denota a experiência ou fantasia inconsciente de um objeto concreto fisicamente localizado no interior do ego (corpo), que possui seus próprios motivos e intenções para com o ego e outros objetos. Ele existe dentro do ego em maior ou menor grau de identificação com este (uma fantasia de absorção ou assimilação pelo ego). A experiência do objeto interno é profundamente dependente da experiência do objeto externo, e os objetos internos são, por assim dizer, espelhos da realidade. Eles também contribuem de modo significativo, porém através da projeção, para a maneira pela qual os objetos externos são, eles próprios percebidos e experienciados. 37
Um objeto interno é constituído simultaneamente de uma imagem mental e emocional advinda da relação com o objeto externo que é interiorizada e, também, de uma representação mental da pulsão. Durante a vida ocorrerá, por meio dos processos de introjeção e projeção, uma interação constante entre as figuras internalizadas e as pessoas reais, ou seja, os objetos não só serão afetados, mas também influenciarão a realidade externa. Eles podem ser experimentados como algo concreto dentro do corpo, assim como também se refere a uma imagem emocional de um objeto externo dentro de si. São experimentados numa inter-relação entre si, podendo ser assimilados e até identificados.
Os objetos internos mais importantes são aqueles constituídos nas primeiras relações do bebê. Tudo começa pela incorporação dos pais. Tendo-os incorporados, o bebê sente como se eles fossem pessoas vivas dentro do seu corpo — da mesma maneira concreta que profundas fantasias inconscientes são vividas na sua mente —, eles são objetos “internos”.
Enraizado no pensamento kleiniano, W. Baranger enfatiza algo importante e expande nossa compreensão de objeto interno. Segundo ele, não deveríamos tratar “os objetos como coisas, nem descrevê-los como tendo uma identidade independente do sujeito que as vai constituindo e se constitui a si próprio mediante eles.”38 Tratar os objetos de forma isolada traria o risco de tornar essa compreensão muito superficial.
O autor lembra-nos, ainda, que o objeto é parte de uma constelação sempre em movimento. Sempre existe para um sujeito em correlação com outros objetos como parte de vínculos internos ou externos, em função dos conflitos que a orientam das angústias que surgem nesses conflitos. 39
37 HINSHELWOOD, 1992, p. 82.
38 BARANGER, W. Posição e objeto na obra de Melanie Klein. Porto Alegre: Artes médicas, 1981, p. 100.
39 Ibidem.
Por outro lado, ele diz que o inverso também é verdadeiro. Não corresponderia à concepção de objeto de Klein, nem à da realidade, conceber o objeto como uma mera criação imaginária, um mero fantasma, sempre dependente de um ego que pudesse controlar sua existência e modelar suas características a seus caprichos.
Podemos dizer de certa forma: nem o céu, nem a terra. Devemos considerar a inter-relação existente no processo. Ele explica o porquê:
Primeiro porque os objetos externos intervêm poderosamente na constituição do mundo interno e isto ainda mais quando o sujeito é capaz de perceber o mundo externo com suas características reais e de atuar sobre estas. Segundo porque os objetos internos ou projetados apresentam às vezes uma solidez férrea (correlativa com a do ego) e são tão resistentes ao trabalho analítico como pode ser a pedra dura ao joalheiro.
Esta dureza é experimentada nas paralizações do processo introjetivo-projetivo, nas vivências ou condutas estereotipadas, nas repetições infalíveis de situações, em tudo que se opõe ao livre desenvolvimento da vida psíquica. 40
Nos casos de psicoses, confirma-se a presença desses objetos com essa solidez férrea, de que o autor fala, sendo que impactará principalmente no processo de introjeção e projeção, consequentemente no crescimento psíquico.
O termo objetos parciais foi introduzido por Freud (1905).41 Designava-os como tipos de objetos visados pelas pulsões parciais. Estas, tomam por objetos algumas partes do corpo, reais ou fantásticos (seio, fezes, pênis) e seus equivalentes simbólicos.42
Klein, partindo da compreensão de Freud e também do estudo de Karl Abraham,43 e podendo acessar as fantasias das crianças por meio do brincar, ampliou sua visão a respeito dos objetos parciais.
Quando ela apresentou a posição depressiva,44 o objeto parcial era compreendido no mesmo sentido do de Freud: o objeto completo é a pessoa inteira em oposição aos objetos
40 BARANGER, 1981, p. 100.
41 FREUD. (1905). “Fragmento da análise de um caso de histeria”. In: ___. Edição standard das obras psicológicas completas Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
42 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 325.
43 HINSHELWOOD, 1992, p. 225.
44 KLEIN, M. (1935). “Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco depressivos”. In: ___. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. Tradução de A. Cardoso. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. II, pp. 301-329.
parciais que seriam partes do corpo, órgãos (seio, fezes, pênis). Essa compreensão estava mais relacionada com a maturação biológica, pois à medida que a criança fosse capaz de fazer uma síntese — reconhecer a mãe corporalmente inteira —, passaria então a reconhecê-la separada dela. De acordo com Petot, somente em 1952 Klein expandiu sua compreensão mencionando as qualidades do objeto (amor e ódio). 45
Bion também foi um dos autores que pôde trazer mais esclarecimento. No seu texto Ataques ao elo de ligação (1957),46 ele faz uma importante observação quando diz que é enganadora a correspondência da concepção de objeto parcial à uma estrutura anatômica, pois para ele o objeto parcial é um objeto primeiramente emocional e sua relação não é apenas com as estruturas anatômicas, mas com funções; não com a anatomia, mas com a fisiologia; não com o seio, mas com a amamentação, o envenenamento, a vida, o ódio.47
As experiências do bebê estão permeadas por objetos parciais; elas são mais de ordem afetiva e sensorial. A percepção se desenvolve aos poucos e vai acontecendo à medida que as relações de tempo e espaço vão acontecendo. Com o amadurecimento do aparelho perceptual — capacidade de ver a pessoa inteira, tal como ela é —, estabelece-se uma relação com o objeto total, contudo, como foi mencionado acima, o desenvolvimento do conceito mostrou que uma relação com um objeto total envolve não somente a ampliação da percepção, mas também a capacidade de sentir que o objeto causa tanto prazer como desprazer.
A maturidade está relacionada com a predominância de objetos totais, correspondentes à posição depressiva. No entanto, como uma integração nunca se realizará por completa, continuaremos, ao longo da vida, experimentando relações com objetos parciais, ou seja, continua-se tendo experiências esquizoparanóides.
De acordo com Caper, um objeto interno é produto de uma identificação com um objeto externo. Essas identificações acontecem de formas diferentes em cada posição. Há objetos internos esquizoparanóides e objetos internos depressivos.
O estado mental caracterizado pela crença inconsciente de que o objeto está concretamente dentro da pessoa corresponde a uma identificação esquizoparanoide.
O estado mental associado com uma relação não concreta com o objeto, que envolve
45 PETOT, J. M. Melanie Klein II: o ego e o bom objeto — 1932-1960. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.
46 BION, W. R. (1959). “Ataques ao elo de ligação”. In: ______. Estudos psicanalíticos revisados (Second Thoughts). 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
47 HINSHELWOOD, 1992, p. 391.
o conhecimento de que é física e mentalmente diferente do objeto, corresponde a posição depressiva. 48