• Nenhum resultado encontrado

1 O INSTITUTO DO REEXAME COMPULSÓRIO DO PROVIMENTO

1.4 O reexame compulsório do provimento jurisdicional

1.4.4 Objeto, natureza jurídica, conceito e efeitos

Precedentes lógicos para se definir o que seja reexame compulsório devem ser o seu objeto e a sua natureza jurídica.

Partindo então da redação do vigente art. 475, caput, do Código de Processo Civil (1973), tem-se que: “Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: (...).”

Prima facie, verifica-se, então, que o reexame compulsório tem como

objeto de análise as sentenças, tanto as definitivas (as que decidem total ou parcialmente o meritum causae – art. 269 do Código de Processo Civil), quanto as terminativas (aquelas que põem fim ao procedimento ou ao processo, não resolvendo o mérito – art. 267 do Código de Processo Civil). Eis as redações dos aludidos dispositivos legais:

Art. 267. Extingue-se o processo, sem julgamento do mérito: I – quando o juiz indeferir a petição inicial; II – quando ficar parado durante mais de 1 (um) ano por negligência das partes; III – quando, por não promover os atos e diligências que lhe competir, o autor abandonar a causa por mais de 30 (trinta) dias; IV – quando se verificar a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido e regular do processo; V – quando o juiz acolher a alegação de perempção, litispendência ou de coisa julgada;

62 EHRLICH, Eugen. Fundamentos da sociologia do direito. Tradução de René Ernaine Gertz.

Brasília: UnB, 1986. p. 309. Apud LOPES, José Reinaldo de Lima. Direito e transformação social: ensaio interdisciplinar das mudanças no direito. Belo Horizonte: Nova Alvorada, 1997. p. 162.

63 Sobre os valores da justiça e da igualdade, vide itens 2.2.2 e 2.2.3 do segundo tópico desta tese

VI – quando não concorrer qualquer das condições da ação, como a possibilidade jurídica, a legitimidade das partes e o interesse processual; VII – pela convenção de arbitragem; VIII – quando o autor desistir da ação; IX – quando a ação for considerada intransmissível por disposição legal; X – quando ocorrer confusão entre autor e réu; XI – nos demais casos prescritos neste Código.

Art. 269. Extingue-se o processo com julgamento de mérito: I – quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido do autor; II – quando o réu reconhecer a procedência do pedido; III – quando as partes transigirem; IV – quando o juiz pronunciar a decadência ou a prescrição; V – quando o autor renunciar ao direito sobre que se funda a ação.

Por assim dizer, Antônio Cláudio da Costa Machado64 aduz que:

Sentença proferida contra qualquer das pessoas jurídicas de direito público mencionadas é tanto o ato decisório de mérito que lhe seja desfavorável total ou parcialmente (procedência total ou parcial quando ré ou procedência parcial ou improcedência quando autora), como o ato de extinção do processo sem julgamento do mérito quando o Estado for o demandante.

Delimitado então o objeto do reexame compulsório, impõe-se estabelecer, por via de consequência, a sua natureza jurídica.

Extirpado do capítulo atinente aos recursos (CPC/1939), o reexame compulsório apresenta-se a partir do CPC/1973, no capítulo da coisa julgada, conforme observado alhures.

Entretanto, o assunto da natureza jurídica do respectivo instituto processual civil (duplo grau de jurisdição obrigatório) não é pacífico. A doutrina, historicamente, manifesta-se de modo plúrimo, inclusive ensejando vertentes antagônicas sobre a correspondente natureza jurídica do reexame compulsório.

Francisco de Paula Baptista65 designava os então recursos ex offício como “impugnações oficiais”, visto como é confiado ao zelo dos juízes para bem usarem delas.

Outro posicionamento, de Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda66, é o

de considerar o duplo grau de jurisdição obrigatório como impulso processual:

64 MACHADO, Antônio Cláudio da Costa. Código de processo civil interpretado: artigo por artigo,

parágrafo por parágrafo. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 487-488.

65 BAPTISTA, Francisco de Paula. Compêndio de teoria e prática do processo civil comparado

com o comercial e de hermenêutica jurídica. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1935. p. 179.

66 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao código de processo civil de

A figura processual não é a da inserção do Estado, através do próprio juiz, na relação jurídica processual, e sim a de impulso processual. O juiz é recorrente, sem ser parte, sem ser litisconsorte ou terceiro prejudicado. A própria situação do recorrente é-lhe conferida como explicação do impulso, que se lhe confia; porque, rigorosamente, a apelação de ofício é apelação sem apelante. A conclusão poderia ser mecânica, feita pelo escrivão (art. 25). A lei entregou a missão ao próprio juiz.

Terceira posição, defendida por Sergio Bermudes67, considera o reexame necessário como recurso:

Controvertida a natureza jurídica do instituto, vejo-o como um recurso, interposto pelo Estado, através do juiz, agente seu, para se prevenir contra a inércia dos seus representantes, em casos especiais, reputados pelo direito de transcendental relevância.

Quarta posição, na acepção de José Frederico Marques68, é a que

entende sê-lo – o reexame compulsório – um quase-recurso:

É ele, o recurso de ofício, antes, um quase recurso, pois o reexame, na jurisdição superior, se efetua ‘ex vi legis’. Há, aí, uma ordem de devolução imposta pela lei (...) e não remédio recursal: só se compreende este, quando o interessado declara sua inconformidade com a decisão e pede ao Juízo ‘ad quem’ a reforma total ou parcial da sentença que lhe trouxe gravame...

Também diz sê-lo um ato complexo. E realmente o é, porquanto há manifestação (julgamento) dúplice de instâncias jurisdicionais. Ora, a decisão judicial de primeiro grau, contrária ao Estado, constitui o primeiro dos momentos de um ato judicial complexo, cujo aperfeiçoamento requer a manifestação do tribunal.

Já a sexta posição, aliás, majoritária, concebe o reexame compulsório como condição de eficácia da sentença. É defendida por Ada Pellegrini Grinover, Alcides de Mendonça Lima, José Carlos Barbosa Moreira, José Manoel de Arruda Alvim Netto, Nelson Nery Junior, Rogério Lauria Tucci, dentre outros.

Aliás, nas palavras de Nelson Nery Junior69:

No reexame necessário, faltam-lhe a voluntariedade, a tipicidade, a dialeticidade, o interesse em recorrer, a legitimidade, a tempestividade e o preparo, que são características e pressupostos de admissibilidade dos

67 BERMUDES, Sergio. Introdução ao processo civil. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010. p. 176. 68 MARQUES, José Frederico. Elementos de direito processual penal. Rio de Janeiro – São Paulo:

Forense, 1961. p. 317.

69 NERY JUNIOR, Nelson. Princípios fundamentais: teoria geral dos recursos. 5. ed. São Paulo:

recursos. Assim, todos os provimentos judiciais oriundos do juízo de primeira instância, não terão por si só qualquer efeito, senão depois de sua confirmação pelo órgão ad quem, momento pelo qual, gerará plena eficácia.

E tal já é, há tempos, o amplo entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no que tange à natureza jurídica de condição de eficácia

da sentença em relação ao instituto do reexame compulsório (art. 475 do CPC).

Vejamos:

O duplo grau de jurisdição obrigatório, previsto no artigo 475 do Código de Processo Civil, é condição de eficácia para o trânsito em julgado da sentença, porém, descabido em sede de execução.70

Antes da análise da remessa oficial, a decisão não transitará em julgado, pois trata-se de condição de eficácia da sentença que, embora válida e existente, somente produzirá seus efeitos depois de confirmada pelo colegiado superior.71

Nos termos do art. 475 do Estatuto Processual, o reexame necessário constitui condição de eficácia da sentença nos casos em que é cabível, devendo o juiz ordenar a remessa dos autos ao Tribunal, quer tenha sido ou não interposta apelação da parte vencida.72

Configurado o reexame necessário como condição de eficácia da sentença, o momento adequado para verificar se esta já está apta a produzir seus efeitos ou se carece da implementação de alguma condição é justamente no momento de sua prolação.73

A remessa necessária, expressão do poder inquisitivo que ainda ecoa no ordenamento jurídico brasileiro, porque de recurso não se trata objetivamente, mas de condição de eficácia da sentença, como se dessume da Súmula 423 do STF e ficou claro a partir da alteração do art. 475 do CPC pela Lei 10.352/2001, é instituto que visa a proteger o interesse público.74

70 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão da 6ª Turma do STJ. Recurso especial n. 242.566

– RS. Relator: Ministro Hamilton Carvalhido. Julgamento em: 21 mar. 2000. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/jsp/ita/abreDocumento.jsp?num_registro=199901157226&dt_publicac ao=19-06-2000&cod_tipo_documento=1>. Acesso em: 22 maio 2013.

71 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão da 5ª Turma do STJ. Recurso especial n. 254.170

– MG. Relator: Ministro Jorge Scartezzini. Julgamento em: 29 jun. 2000. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/jsp/ita/abreDocumento.jsp?num_registro=200000324850&dt_publicac ao=04-09-2000&cod_tipo_documento=1>. Acesso em: 22 maio 2013.

72 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão da 5ª Turma do STJ. Recurso especial n. 625.224

– SP. Relatora: Ministra Laurita Vaz. Julgamento em: 29 nov. 2007. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_Documento.asp?sLink=ATC&sSeq=3521747&sReg=200 400025190&sData=20071217&sTipo=5&formato=PDF>. Acesso em: 22 maio 2013.

73 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão da 6ª Turma do STJ. Recurso especial n. 655.046

– SP. Relator: Ministro Hélio Quaglia Barbosa. Julgamento em: 14 mar. 2006. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_Documento.asp?sLink=ATC&sSeq=2305831&sReg=200 400504390&sData=20060403&sTipo=5&formato=PDF>. Acesso em: 22 maio 2013.

74 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão da 1ª Seção do STJ. Recurso especial n. 959.338

– SP. Relator: Ministro Napoleão Nunes Maia Filho. Julgamento em: 29 fev. 2012. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_Documento.asp?sLink=ATC&sSeq=19844569&sReg=20 0701321078&sData=20120308&sTipo=5&formato=PDF>. Acesso em: 22 maio 2013.

Sétimo posicionamento entende ser o reexame necessário mera condição suspensiva ex lege, realçada por Jorge Tosta75, para quem:

Inicialmente tratado como apelação ex officio, o reexame necessário sempre mereceu diversas críticas quanto à sua natureza como recurso. De fato, embora inserido no primeiro Código de Processo Civil de âmbito nacional (1939) no capítulo relativo aos recursos, suas características pouco o aproximavam dos demais meios de impugnação recursais.

No atual Código de Processo Civil, o instituto foi deslocado para a seção relativa à coisa julgada, o que veio reforçar a tese de que o reexame necessário não tem natureza recursal.

(...) se entendermos o reexame necessário como condição de eficácia da sentença, estaremos afirmando que ela, enquanto não submetida à apreciação do Tribunal, não tem aptidão para produzir efeitos.

Tal consideração não pode, no entanto, ser compreendida de maneira absoluta, porque, como já dito, implicaria negar a possibilidade de execução provisória a toda e qualquer sentença sujeita ao reexame necessário. Isso é inaceitável, (...) pela própria sistemática do Código de Processo Civil, que admite a execução provisória mesmo em face da Fazenda Pública, nos casos previstos no art. 520, I a VII, do CPC.

(...). Em outras palavras, o reexame necessário não impede a execução provisória da sentença nos casos em que a lei processual deu à própria sentença eficácia imediata tão logo publicada.

O reexame, portanto, não passa de uma condição suspensiva ex lege que, repita-se, em nada difere da que também está sujeita a sentença contra a qual foi interposto recurso. (...).

Torna-se claro, portanto, que o reexame necessário tem natureza jurídica de

condição suspensiva ex lege. Essa suspensividade é entendida como um

prolongamento da ineficácia natural da própria sentença em virtude de situações taxativamente previstas em lei. (grifos no original).

Entretanto, novel nomenclatura é a exarada nesta tese doutoral, segundo a qual o reexame compulsório tem-se por natureza jurídica ser a condição de

reanálise compulsória de provimento jurisdicional. Segue-se, pois, o entendimento

firmado por Jorge Tosta, inclusive com síntese (mera condição suspensiva ex lege) à tese genuína (recurso) e antítese à posição majoritária (condição de eficácia da sentença).

Aliás, fixa-se a natureza jurídica do reexame compulsório pelo seu provimento jurisdicional, posto ser ato jurídico de demarcação decisória pela ocupação judicacional da estrutura procedimental, praticada pelo magistrado, no tempo e segundo as disposições normativas vigentes dentro do ordenamento jurídico.

75 TOSTA, Jorge. Do reexame necessário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 151, 166, 167

Ex positis, conceitua-se o duplo grau de jurisdição obrigatório como

sendo a condição de rejulgamento compulsório do provimento jurisdicional

prolatado em primeira instância pela superior, visando à produção de seus jurídicos e legais efeitos em caráter definitivo, tão logo ocorra o trânsito em julgado do decisum. (grifo nosso).

Por fim, tangencialmente aos efeitos do reexame compulsório, consideram-se: a) obstativo (obsta ao trânsito em julgado da sentença, atinente aos casos previstos no art. 475 do Código de Processo Civil); b) liberativo (sistema da pluralidade de graus de jurisdição); c) translativo-proibitivo (transfere-se ao tribunal a competência para rejulgar os pedidos insertos pelas partes, consubstanciados na sentença, e, por via de consequência, proíbe-se a reformatio in pejus da Fazenda Pública, à luz da Súmula n. 45 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a qual estabelece: “No reexame necessário, é defeso, ao Tribunal, agravar a condenação imposta à Fazenda Pública.”); d) suspensivo (suspende-se a eficácia da sentença, de modo a impedir a formação da coisa julgada, obstruindo-se, por regra, a execução provisória); e) substitutivo (ante a substituição da decisão de primeiro grau pelo acórdão). Por tais casos, entende-se não ser aplicável o efeito devolutivo, porquanto, se assim o fosse, o órgão ad quem somente poderia apreciar matéria que tivesse efetivamente sido impugnada pelo recorrente. Destarte, não havendo recurso voluntário da parte vencida, o que há é apenas a aplicação do efeito translativo, consoante item “c” supramencionado. Também, há que se entender pela não aplicação do efeito suspensivo em sede de reexame compulsório, apenas se o ato judicial de instância de piso for oriundo de decisão que condena à prestação de alimentos, rejeita liminarmente os embargos à execução ou julga-os improcedentes, confirma a antecipação dos efeitos da tutela, tal como ocorre no recurso de apelação (art. 520, inc. II, V e VII, do CPC). Em tais casos, vislumbra-se a execução provisória, i. é, a título precário, inclusive quando possa causar dano grave e de difícil reparação, exigindo-se, para tanto, seja seguro o juízo, exceto quanto ao previsto no art. 475-O, § 2º, do CPC: “A caução a que se refere o inciso III do caput deste artigo poderá ser dispensada: I – quando, nos casos de crédito de natureza alimentar ou decorrente de ato ilícito, até o limite de sessenta vezes o valor do salário-mínimo, o exequente demonstrar situação de necessidade; II – nos casos de execução provisória em que penda agravo perante o Supremo Tribunal Federal ou o

Superior Tribunal de Justiça (art. 544), salvo quando da dispensa possa manifestamente resultar risco de grave dano, de difícil ou incerta reparação.”