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Parte II – Estudo Empírico sobre a Tolerância à Fraude no Seguro Automóvel

1. Objeto, objetivos, hipóteses e metodologia

1.1. Objeto, objetivos e hipóteses

Considerando o referencial teórico, designadamente a súmula final, alguns estudos apontam para a existência de correlações entre a tolerância dos consumidores face a práticas fraudulentas oportunistas nos seguros e o ambiente sociocultural (Tennyson, 1997), a relação com a seguradora (CAIF, 1997, 2008; Dionne & Gagné, 2001; Lammers & Schiller, 2011; Miyazaki, 2008; Tennyson, 1997) e as suas racionalizações sobre a fraude nos seguros (Brinkman & Lentz, 2006; CAIF, 1997, 2008; Fukukawa et al., 2005). Outros estudos assinalam diferenças entre os consumidores quanto à tolerância relativamente à fraude oportunista nos seguros em função das experiências com os seguros (Tennyson, 2002) e das características demográficas (CAIF, 1997; Dean, 2004; Tennyson, 1997, 2002). Em Portugal, até à data, desconhecemos trabalhos que explorem a problemática da tolerância à fraude no seguro automóvel, razão pela qual a presente investigação assume um carácter exploratório52.

Neste quadro, tendo em conta o escopo último da investigação empírica – estudo da tolerância à fraude no seguro automóvel em Portugal –, a presente investigação procura, partindo de estudos referidos anteriormente, contribuir para o desenvolvimento de saberes no âmbito dos fatores relacionados com a tolerância à fraude no seguro automóvel na realidade portuguesa. Nesta lógica, iremos, na presente secção, proceder à delimitação do objeto de estudo do trabalho, através da definição e caracterização dos atos fraudulentos em estudo, da definição dos objetivos e da formulação das hipóteses de trabalho. Importa sublinhar que algumas hipóteses de trabalho formuladas resultam de estudos, anteriormente referidos, e visam a sua testabilidade para uma amostra em Portugal. Outras hipóteses foram formuladas com base nas teorias discernidas no enquadramento teórico.

No presente estudo empírico, a fraude no seguro automóvel reporta-se a um conjunto de atos fraudulentos, adotados nas investigações da CAIF (1997, 2008) e do IRC (1991, 1993), perpetrado pelos consumidores, os quais são definidos e caraterizados sob o ponto de vista do tipo de fraude – fraude oportunista (FO) e fraude planeada (FP) – e do momento de ocorrência – processo contratual (PC) e processo de sinistro (PS) –, conforme descrito na tabela 1.

52 Em Portugal, apenas temos conhecimento da existência de um estudo em desenvolvimento pelo Observatório

de Economia e Gestão da Fraude relativo à quantificação da fraude nos seguros e um estudo sobre a fraude nos seguros realizado pela APS.

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Tabela 1: Definição e caracterização dos atos fraudulentos

Atos fraudulentos Tipo de fraude Momento de ocorrência

1.Omitir informações ou fornecer informações incorretas na subscrição da

apólice de um seguro, para obter um prémio de seguro mais baixo. FO PC

2. Subscrever uma cobertura depois da ocorrência do sinistro (evento que

aciona o seguro), por exemplo, quebra de vidros, para cobrir os danos. FO PS

3. Sobrevalorizar o valor dos danos na participação de sinistro, para compensar o valor da franquia (parte do valor dos danos que fica a cargo do tomador de seguro).

FO PS

4. Aumentar um pouco o montante do custo do sinistro, para recuperar os

prémios de seguro que pagou anteriormente. FO PS

5. Deturpar alguns factos relativos ao sinistro, de modo a garantir a liquidação

de danos não cobertos pela apólice. FO PS

6. Criar faturas para aumentar o montante a receber na indemnização do

sinistro. FO PS

7. Indicar que o veículo circula habitualmente numa zona com prémios de

seguro mais baixos. FO PC

8. Indicar que o condutor habitual é um adulto, quando na realidade é um

jovem com idade até aos 25 anos. FO PC

9. Omitir informação sobre acidentes anteriores e participações de sinistro,

quando a mesma é solicitada. FO PC

10. Subestimar o número de quilómetros que o automóvel faz por ano. FO PC

11. Exagerar o valor do veículo e dos seus equipamentos, na subscrição da

apólice de seguro. FO PC

12. Exagerar no valor do veículo e dos seus equipamentos, na participação de

um furto. FO PS

13. Declarar que os danos antigos presentes no veículo ocorreram durante o

acidente, para que a seguradora os inclua na indemnização. FO PS

14. Descrever o acidente automóvel de forma diferente da que realmente

aconteceu, para reduzir o seu grau de responsabilidade. FO PS

15. Esconder a viatura e reportá-la como furtada, para receber a indemnização

do seguro. FP PS

16. Prolongar o tratamento médico, para obter uma indemnização do seguro

mais elevada. FO PS

17. Apresentar despesas médicas de tratamentos de dano corporal que não

foram realizados, para obter uma indemnização do seguro mais elevada. FO PS

18. Apresentar baixa médica por um período de tempo mais prolongado do

que o necessário, para obter uma indemnização do seguro mais elevada. FO PS

19. Submeter uma participação de sinistro por danos corporais, de pessoa que

não esteve envolvida no acidente. FO PS

20. Envolver-se numa rede organizada de médicos, advogados ou oficinas que

apresentam falsas participações, para obter dinheiro das seguradoras. FP PS

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Uma vez descrito o objeto de estudo, esta investigação foi levada a cabo com vista a cumprir com o seguinte objetivo53 geral – caraterizar a tolerância do consumidor à fraude no seguro automóvel, procurando estabelecer potenciais relações entre variáveis e possíveis diferenças entre grupos –, a partir do qual construímos os seguintes objetivos específicos:

1. Analisar o impacto que o ambiente sociocultural do consumidor, a relação deste com

a instituição seguradora e as suas racionalizações atinentes à fraude nos seguros exercem sobre a tolerância do mesmo à fraude no seguro automóvel;

2. Analisar a relação entre a tolerância do consumidor à fraude no seguro automóvel e

algumas características sociodemográficas.

Considerando os objetivos, formulámos as hipóteses54 de trabalho. Partindo do primeiro objetivo, em sede do ambiente sociocultural, colocámos a seguinte hipótese geral, a saber: a tolerância do consumidor à fraude no seguro automóvel está relacionada com o ambiente sociocultural do mesmo, da qual surgiram as sequentes hipóteses operacionais: (i) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está positivamente relacionado com o grau de aceitabilidade a outros comportamentos fraudulentos, (ii) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está positivamente relacionado com a perceção que tem sobre o grau de prevalência da fraude no seguro automóvel, (iii) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está positivamente relacionado com a perceção que tem sobre o grau de aceitabilidade das pessoas da sua relação perante este fenómeno.

No âmbito da relação com a seguradora, constituímos a seguinte hipótese geral: a tolerância do consumidor à fraude no seguro automóvel está relacionada com a relação deste com a instituição seguradora, a partir da qual construímos a subsequentes hipóteses operacionais: (i) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com o grau de concordância que possui face às reações do setor segurador ao fenómeno, (ii) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com o grau de concordância que possui face às consequências para os defraudadores, (iii) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com as perceções positivas que possui

53 A este propósito, os objetivos visam “compreender mais profundamente e interpretar mais acertadamente os

fenómenos da vida coletiva com que se confrontam” os investigadores “ou que, por qualquer razão, os interpelam” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 16).

54 A este respeito, as hipóteses, proposições afirmativas e específicas sob a forma de relações entre duas ou mais

variáveis, resultam de teorias gerais (Ghiglione & Matalon, 1997; Hagan, 2006) e fornecem à investigação um fio condutor, a qual visa o teste das mesmas (Quivy & Campenhoudt, 2008).

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sobre a indústria seguradora, (iv) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com o grau de justeza do valor do prémio de seguro, (v) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com o grau de avaliação do atendimento prestado pelos serviços seguradores, (vi) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com o grau de satisfação da qualidade de informação prestada relativa aos seguros contratados e, por último, (vii) o grau de aceitabilidade dos consumidores que submeteram participações de sinistro recentemente – últimos dois anos – é inferior ao grau de aceitabilidade dos que não submeteram recentemente participações de sinistro.

Ao nível das racionalizações, colocámos a seguinte hipótese geral: a tolerância do consumidor à fraude no seguro automóvel está relacionada com as racionalizações do mesmo concernente à fraude nos seguros, da qual surgiu a sequente hipótese operacional: o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está positivamente relacionado com o grau de concordância acerca de racionalizações para agir de modo fraudulento.

Atendendo ao segundo objetivo, formulámos a sequente hipótese geral: a tolerância do consumidor à fraude no seguro automóvel está relacionada com algumas variáveis sociodemográficas, a partir da qual construímos a seguintes hipóteses operacionais: (i) o grau de aceitabilidade dos consumidores do género masculino é superior ao do género feminino, (ii) o grau de aceitabilidade dos consumidores que residem em zonas rurais é inferior ao grau dos que residem em zonas urbanas, e (iii) o grau de aceitabilidade do consumidor à fraude no seguro automóvel está negativamente relacionado com a idade do consumidor.

Definidos os objetivos e as respetivas hipóteses gerais e hipóteses operacionais, trataremos, na próxima secção, o método adotado, discernindo, detalhadamente, sobre as etapas realizadas.