Grafico 1: Faixa etária das Marisqueiras
2.1 OBJETO, RECORTE ESPACIAL, RECORTE TEMPORAL E SUJEITOS DE
Esta pesquisa tem como objeto a atividade da mariscagem e situa como Campo Empírico o município de Valença (BA). A problemática proposta neste trabalho, a saber: como o grupo de Marisqueiras da comunidade de Mangue Seco (Valença) articula e compartilha saberes para o aprimoramento de práticas produtivas, orientou-se para uma investigação que abrange o período de 2009 a 2014, haja vista que durante este período aconteceram ações que auxiliaram na resposta do referido questionamento.
No ano de 2009 propôs-se um projeto de ensino que se originou na disciplina Economia, trabalho e educação, ministrada por esta pesquisadora, quando solicitou aos discentes de pedagogia que produzissem um documentário em uma comunidade cujas atividades estivessem na informalidade. Assim, um dos grupos apresentou a situação das Marisqueiras de Mangue Seco.
Já em 2010, a partir das demandas exibidas no documentário, a pesquisadora foi ao local conhecer o grupo de Marisqueiras e, dessa forma, elaborou o projeto de extensão
conhecido como Maria Marisqueira: um mapeamento sobre demandas de trabalho e educação das Marisqueiras de Mangue Seco em Valença (BA). Este projeto vincula-se ao Campus XV da UNEB e inicialmente objetivou mapear as demandas sobre trabalho e educação do grupo de Marisqueiras. Assim, as primeiras ações vincularam-se à ações de aproximação com a comunidade e com o próprio grupo. Atualmente, o projeto de extensão abrange duas comunidades: Mangue Seco e Maricoabo, ambas no município de Valença, e tem por objetivo subsidiar as ações do projeto de pesquisa e ainda promover educação em espaços não formais. As demandas das Marisqueiras em relação às práticas produtivas, ao trato com o saber e sua articulação tomaram uma proporção que extrapolaram as possibilidades do projeto de extensão. Assim, ainda em 2010, esta pesquisadora apresentou ao Doutorado Multidisciplinar e Multi-Institucional em Difusão do Conhecimento (DMMDC), o projeto de pesquisa intitulado Saberes e práticas produtivas das Marias Marisqueiras da comunidade de Mangue Seco: uma investigação sobre mariscagem em Valença (BA) a fim de investigar como as Marisqueiras de Mangue Seco articulavam e compartilhavam seus saberes no intuito de construir com elas a melhoria de suas práticas produtivas. Em 2011, com a aprovação do projeto, deu-se início uma nova etapa de investigação.
No sentido de ampliar os horizontes da pesquisa sobre a mariscagem e enriquecê-lo, a Professora Ana Maria Meneses, orientadora do presente estudo, submeteu à Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) o projeto de pesquisa Mapeamento e difusão de ferramentas de gestão do conhecimento e capital social em comunidades locais: um estudo sobre as Marisqueiras do Mangue Seco em Valença (BA)3, vinculados à UNEB, do qual a autora dese trabalho também foi pesquisadora. Este projeto teve como objetivo investigar, em conjunto com a comunidade, quais as ferramentas de gestão do conhecimento que podem contribuir para a melhoria das atividades produtivas de mariscos na comunidade de Mangue Seco em Valença (BA), bem como acompanhar e avaliar a implementação das mesmas.
Importa destacar que os projetos de extensão e de pesquisa referenciados, caminharam juntos com o presente estudo, embora com objetivos, problemáticas perspectivas diversas, formando vínculos na busca pela solução de problemas relacionados com o objeto em comum: a atividade mariscagem.
3
Projeto de pesquisa de caráter interdisciplinar vinculado à Universidade do Estado da Bahia, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) sob edital 022/2011 e coordenado pela Profª Dra. Ana Maria Ferreira Menezes.
Os sujeitos de pesquisa deste estudo são vinte e nove Marisqueiras residentes na comunidade de Mangue Seco, que foram escolhidos com base na participação de cada uma delas no Projeto de extensão Maria Marisqueira. Inicialmente o grupo era composto por trinta mulheres, mas uma delas faleceu no ano de 2013. Decidiu-se que as participantes deste estudo serão tratadas por nomes fictícios, conforme apêndice, e o grupo de Marisqueira assumirá o nome de Maria Marisqueira, nome escolhido coletivamente, visto que a maioria tem por prenome Maria.
O grupo aqui intitulado de Maria Marisqueira tem na extração e beneficiamento de crustáceos e moluscos sua principal atividade. Para empreendê-la cotidianamente as Marisqueiras necessitam de condições que são alheias à sua vontade a exemplo daquelas sintonizadas com a natureza: fluxo das marés, fases da lua, direção dos ventos, ritmo das chuvas e a sazonalidade de animais aquáticos; e de outras relativas ao ambiente econômico, político e social: mercado e preço de produtos, políticas públicas para pesca artesanal, violência, poluição ambiental e saúde, conforme apontado no relatório do projeto de pesquisa Mapeamento e difusão de ferramentas de gestão do conhecimento e capital social em comunidades locais: um estudo sobre as marisqueiras do Mangue Seco em Valença (BA) em 2012, p. 7:
Com o que ganham, além de ajudar na renda familiar, pagam a Colônia de Pescadores e, no entanto, não têm garantido nenhum direito trabalhista, entre eles, o salário-desemprego e licença-maternidade, direito de todas as trabalhadoras brasileiras. [...]. Os produtos são comercializados com as peixarias locais, ou diretamente pelas marisqueiras em suas casas e, ainda, através de atravessadores. O grupo tem a expectativa de fortalecer o vinculo interpessoal e formalizar seu trabalho, de modo a valorizá-lo e deixar a relação de subordinação.
As observações sobre as configurações do grupo de Marisqueiras aqui descritos e o ponto de partida da pesquisa, a articulação e o compartilhamento dos saberes, definiram como postura epistemológica deste trabalho os pressupostos da complexidade, visto que para vivenciar e compreender as problemáticas surgidas na atividade do grupo de Marisqueiras, as flutuações a que estão sujeitas, assim como a busca pelo equilíbrio foi preciso transcender a visão fragmentada e compreender que a desconstrução é necessária para que se possa reconstruir o novo (DEMO, 2002).