Buscamos neste item, apresentar o trabalho profissional nos espaços sócioocupacionais que são os CRAS diante na Política Nacional de Assistência Social, ampliando a reflexão a respeito dos elementos anteriormente apresentados.
Inicialmente falaremos sobre o objeto de trabalho do serviço social. Segundo Iamamoto (2011) o objeto de trabalho é a questão social. É ela, em suas múltiplas expressões que provoca a necessidade da ação profissional.
Assim, quando perguntado qual as principais demandas que os usuários trazem para o CRAS tivemos as seguintes respostas:
[...] a maior demanda é a procura por cestas básicas e programas de transferência de renda [...]
Entrevistada 1
[...] então a gente tem muita coisa relacionada a habitação...quando a gente vai atender a população... trazemos muitas questões da habitação, fora isso outra coisa que eles trazem são problemas com a alimentação que demanda cestas, estas coisas, e programas de transferência de renda [...]
Entrevistada 2
[...] solicitação de cestas básicas [...] orientações quanto os direitos tipo BPC [...] cursos, vale transporte [...]
Entrevistada 3
Ao analisarmos as afirmações acima, e ao relacionarmos com o que é o objeto de trabalho do Serviço Social conforme vimos no capítulo anterior, percebemos que os profissionais, ao se referirem a demanda apresentada nos CRAS não mencionam de fato, quais são as necessidades que os usuários apresentam, no sentido de explicitar quais expressões da questão social esses usuários vivem, apresentando assim como demanda, apenas o tipo de recurso que precisa ser acessado.
Observamos que é muito comum, entendermos como demanda o que o usuário vem solicitar e não o que realmente está na sua condição de como ele vive as expressões da questão social. Assim, as principais demandas expressas nas respostas dos profissionais são: a fome, a falta de alimentação, a falta de habitação, a falta de moradia, etc., ao
66 fazermos esta leitura, é possível de fato entendermos esta demanda no contexto das expressões da questão social.
Quando pensamos na cesta básica, na transferência de renda, no BPC, por exemplo, estamos fazendo referencia apenas ao recurso solicitado, ou seja, a resposta que o Estado dá as distintas expressões da questão social.
Ao não enxergarmos esta demanda realmente como manifestações da questão social, e relacionando com a discussão sobre trabalho, compreendemos que esta ação pode trazer impactos que podem provocar tendências a um trabalho que é apenas reprodutor, cumpridor de tarefas não conseguindo observar na totalidade as reais necessidades que os usuários trazem e que como consequência dificultam até mesmo a criação de estratégias de enfrentamento destas expressões. Pensando estas dificuldades por exemplo, a partir das diretrizes do que está expresso em nosso Código de Ética Profissional e diante do que está posto em nosso Projeto Ético Político, não ter essa clareza, traz ainda a dificuldade de pensar em estratégias que busquem a autonomia e a emancipação política desse sujeito, pois quando trabalhamos apenas com respostas pontuais a demanda imediata que ali está colocada, surgem as dificuldades em tentar mediações para se chegar ao que de fato fundamenta essa demanda imediata. Estas ações podem ainda, apresentar como consequência a formação de um ciclo, onde a demanda imediata estará sempre presente, bem como o usuário também sempre retornará com esta mesma demanda, não contribuindo de fato com a relação de autonomia dos sujeitos.
Ressaltamos que esta discussão, não quer dizer que os profissionais não se apropriam e não compartilham desta reflexão, mas sim que apenas tentamos pontuar questões importantes que diante de suas respostas não ficaram totalmente expressas, apenas a forma como estas respostas são apresentadas nos remetem a um lugar que é muito comum no cotidiano profissional, que é o espaço da não criticidade, o espaço da não interlocução com referências teóricas, da não reflexão ética e política.
A vida cotidiana é o espaço de reprodução do trabalho do assistente social. As demandas típicas das instituições rebatem na dinâmica da cotidianidade, ganhando consistência, pois a heterogeneidade, a repetição, a falta de crítica, o imediatismo, a fragmentação, o senso comum, o espontaneísmo são atitudes típicas da vida cotidiana repetidas automaticamente em face da burocracia institucional. Ou seja, a burocracia favorece essa dinâmica. Contudo não é necessário que seja assim.
(BARROCO;TERRA: 2012 P.73)
Em relação a totalidade das manifestações da questão social apresentadas, destacamos ainda, o quanto as mesmas expressões presentes historicamente em nossa
67 sociedade ainda permeiam mesmo com aparatos legais que deveriam ser garantidores de direitos básicos como moradia e alimentação:
Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
(CF/1988, art. 6º)
Diante disso, compreendemos que as expressões da questão social, estão ainda presentes e são cada vez mais evidenciadas no cotidiano profissional de forma a caracterizar-se como objeto para sua ação, segundo Iamamoto:
Esse quadro de radicalização da questão social atravessa o cotidiano do assistente social que se defronta com segmentos de trabalhadores duramente penalizados. De um lado ampliam-se as necessidades não atendidas da maioria da população, pressionando as instituições públicas por uma demanda crescente de serviços sociais. De outro lado esse quadro choca-se com a restrição de recursos para as políticas sociais governamentais, coerente com os postulados neoliberais para a área social, que provocam o desmonte das políticas públicas de caráter universal, ampliando a seletividade típica dos “programas especiais de combate a pobreza [...]
(2007,p.148)
Para melhor explicitarmos esta citação, vejamos a seguir, mais um eixo de nossa pesquisa, que diz respeito aos meios e instrumentos presentes no trabalho do Assistente Social.