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Capítulo II HEINRICH HERTZ: MECÂNICA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA

3.2 Objetos Hertzianos no Tractatus de Wittgenstein

Os Princípios da Mecânica de Hertz é um método crítico de análise de

problemas filosóficos no interior das teorias físicas, isto é, um método de clarificação filosófica. Com ele, é possível identificar problemas filosóficos no interior dos debates científicos – como no caso das questões sobre a natureza dos conceitos de “força” e “energia”, como se viu no capítulo anterior. Na análise desses conceitos descobrem-se pseudoproblemas que lhes são subjacentes. Longe de serem resolvidos, segundo Hertz, devem ser eliminados (Cf. WITTGENSTEIN, IF, § 90). Um exemplo está no conceito de “força”, pois “não se pode negar que em muitos casos as forças utilizadas em mecânica para o tratamento de problemas físicos são simplesmente sócios adormecidos, que cuidam do negócio quando fatos reais têm de ser representados” (HERTZ, 1956, p. 11-12); isto é, proposições que envolvem tal conceito têm o seu sentido completamente indeterminado. Para resolver a indeterminação do sentido no interior das teorias físicas ou, na linguagem deste cientista, para “eliminar os pseudoconceitos”, Hertz propõe uma terceira via, substitutiva daquelas apresentadas por Newton e Maxwell, em que todo o sistema é fundado em uma teoria de campo, numa “imagem de um espaço fechado, com

pontos como partículas” (GRAßHOFF, 2006, p. 9)17. Parece ser este modelo de

sistema a inspiração da ontologia do Tractatus.

Para entender a afirmação de que a ontologia do Tractatus (bem como a teoria da figuração e a filosofia da ciência) é tributária da mecânica de Hertz, retornar à biografia do pensador vienense será inevitável. Gerd Graßhoff (2006) vai buscar respostas quanto à inspiração hertziana de Wittgenstein em personagens que fizeram parte da história deste, como é o caso de Paul Engelmann, adjetivado por Graßhoff como aquele que era “famoso por sua excelente memória” (GRAßHOFF, 2006, p. 8).

Segundo o autor, Engelmann foi apresentado a Wittgenstein por Adolf Loos, que teria sido seu professor na escola de engenharia civil, numa época em que Wittgenstein servia o Exército Austríaco e estava parado em Olmütz para treinamento oficial. Com a amizade firmada, encontravam-se com frequência e discutiam, dentre outras coisas, religião – preocupação comum a ambos em vista da guerra e de leituras da obra de Tolstoi. A proximidade se firma ainda mais com o convite da família de Wittgenstein, no início de 1917, para que Engelmann projetasse a decoração interior da casa da família, em Neuwaldegg, e, depois, em 1920, para conduzir o trabalho de construção de uma casa na Kundmanngasse, em Viena. Todo o trabalho foi acompanhado por Wittgenstein e serviu para que os laços de amizade se aprofundassem ainda mais. Detalhes à parte, tendo admitido Wittgenstein como uma de suas maiores influências18, foi a Engelmann que em 1953

Friedrich A. von Hayek, procurou. Hayek, vencedor do Prêmio Nobel em Ciências Econômicas, era parente de Wittgenstein. De acordo com Graßhoff (2006), Hayek foi encaminhado a Engelmann por um dos irmãos do filósofo. Ele o contatou em Tel Aviv para informações a respeito das possíveis influências de Wittgenstein, visto que estava preparando um esboço biográfico sobre ele. Não se irão apresentar aqui os vários diálogos que transcorreram nas diversas trocas de correspondências entre Engelmann e Hayek e que se deram a partir de 6 de fevereiro de 195319, mas uma questão específica será de interesse: aquela sobre como se dera o treinamento de

17 GRAΒHOFF, G. Wittgenstein’s World of Mechanics. New York: Springer Wien New York, 2006. 18“Se eu posso claramente creditar qualquer coisa com respeito a minha própria busca intelectual,

então, isto é pelo fato que eu me vali da oportunidade, com a qual a sorte me favoreceu, ter tido os melhores professores que minha geração possivelmente poderia ter, e que eu aprendi alguma coisa deles: de Kraus não escrever; Wittgenstein não falar; de Loos não construir” (WIJDEVELD, 1994, p. 61 apud Graßhoff, 2006, p. 7).

19 Segundo Graßhoff (2006) estas cartas não estão publicadas, estão guardadas no Brenner Archiv

116 Wittgenstein em Manchester e Berlim, na época de seus estudos em engenharia mecânica, que Hayek pretendia descobrir. Ali ele especula com Engelmann: “eu não sei se ele conheceu Heinrich Hertz, por quem ele parece ter sido influenciado,

pessoalmente” (GRAßHOFF, 2006, p. 8 – grifos nossos)20. O termo “pessoalmente”

obviamente se tratava de um equívoco que, mais tarde, havia de ser reconhecido por Hayek:

A questão sobre Heinrich Hertz foi, é claro, um “erro grosseiro” meu, visto que ele morreu, como eu agora sei, muito jovem por volta de 1896 [1894]. Portanto, quando e onde Wittgenstein adquiriu seu aparentemente muito considerável conhecimento em física permanece um problema. Ele não parece ter trabalhado neste campo em Cambridge – exceto em lógica, ele pareceu ter experiência somente em psicologia.

A resposta de Engelmann foi que “Wittgenstein entendia física excepcionalmente bem (...). Seu conhecimento vinha presumivelmente ou principalmente da intensa leitura apaixonada dos escritos de Maxwell e Hertz. Que os dois também o inspiraram linguisticamente foi um pré-requisito para a influência que eles tiveram sobre ele” (GRAßHOFF, 2006, p. 9). Mas, o que mais impressiona são as afirmações de Engelmann, que vão diretamente ao encontro dos interesses deste trabalho:

O último impressionante exemplo deste tipo é a ciência natural do século dezenove. Uma tentativa de reunir todos os novos fatos dentro de um novo sistema físico singular é a teoria de campo de Heinrich Hertz. E o resultado geral obtido desta descrição – teoria da relatividade – alcança seus resultados pela tentativa de estabelecer um sistema de medida sem referência a qualquer outra coisa que quantidades mensuráveis, e somente medindo-lhes em relação um ao outro. A filosofia da época começa com aquela nova concepção física do mundo. Nós vimos a filosofia perseguir tentativa similar, cada vez mais se livrando dos padrões externos das qualidades medidas – do sujeito – e mudando para uma visão [apropriada] do fenômeno. Como na última [física], onde pontos espaciais são organizados por suas posições mútuas e seus movimentos, um para o outro, numa figura geral, aqui [filosofia] os fenômenos estão relacionados um ao outro sem um sujeito como sistema coordenado.

Engelmann continua comparando a contribuição de Hertz para Wittgenstein:

20 Os diálogos aqui apresentados encontram-se em Graßhoff (2006), entre as páginas 6 e 12 da

Uma importante tentativa nesta direção é aquela tomada por Wittgenstein. A concepção filosófica de mundo, que sobra depois de tal eliminação do ponto de referência subjetivo é determinada por sentenças declarativas da ciência natural. Seu conteúdo é idêntico àquele da ciência natural. Mas, isso significa alguma outra coisa, e isto é filosofia, se esta figura é vista em sua relação com um sujeito figurando, que não se relaciona com a figura e não fala a respeito dela. A pura e perfeitamente exata representação científica fornece como se fosse a primeira figura objetiva. O segundo passo é coordenar esta figura com o até então sujeito omitido: e, então, aparecem os interesses da filosofia.

O que impressiona nessa afirmação de Engelmann é que, para alguém que não é filósofo nem físico, isso demonstra uma grande capacidade de memória sobre assuntos específicos em outros domínios que não o de sua formação – certamente foi lembrança das diversas conversas que teve com Wittgenstein entre 1916 e 1920. Engelmann consegue não só descrever exatamente as pretensões da mecânica hertziana, mas também compará-la com a proposta de Wittgenstein sobre as condições de possibilidade de que o mundo seja representado. Para alguém que pode não ter lido diretamente a obra de Hertz, visto que ela não fazia parte dos livros-texto de física, algumas afirmações acerca do pensamento hertziano têm importância substancial, por exemplo: “uma tentativa de reunir todos os novos fatos dentro de um novo sistema físico singular é a teoria de campo de Heinrich Hertz” (grifos nossos). Não é fácil para um não-especialista em física descrever a mecânica de Hertz como uma teoria de campo, isto é, como “uma imagem de um espaço fechado, com pontos como partículas” (GRAßHOFF, 2006, p. 9). Mais inquietante ainda é descrição da mecânica de Hertz como uma “tentativa de estabelecer um sistema de medida sem referência a qualquer outra coisa que quantidades mensuráveis, e somente medir-lhes em relação um ao outro”. Detalhes como estes só surgiriam de alguém que, ou tivesse pesquisado Hertz, ou tivesse sido muito bem introduzido ao seu pensamento. O que mais impressiona é a sua habilidade em aproximar este sistema das pretensões de Wittgenstein, naquele tempo, em processo de incubação das ideias centrais do Tractatus: “nós vemos a filosofia perseguir tentativa similar, cada vez mais se livrando dos padrões externos das qualidades medidas – do sujeito – e mudando para uma visão [apropriada] do fenômeno (...) uma importante tentativa nesta direção é aquela tomada por Wittgenstein”. Como é que ele sabia que Wittgenstein estava tomando esta direção? Parece que Wittgenstein havia tido muito tempo para discutir com ele sua nova concepção de filosofia, com a qual pretendia livrar-se dos “padrões externos das

118 qualidades medidas” em prol de “uma visão apropriada do fenômeno” – e a filosofia de Russell se distanciava cada vez mais. A concepção russelliana de conhecimento direto do objeto acabara por ser substituída pela metodologia da mecânica de Hertz em que “pontos espaciais são organizados por suas posições mútuas, e seus movimentos estão um para o outro, numa figura geral”. E isso inspirou Wittgenstein a entender que “os fenômenos estão relacionados um ao outro sem um sujeito como seu sistema coordenado”.

Esse novo método em filosofia retira da representação o ponto subjetivo de um sujeito empírico e coloca em seu lugar a figura de um sujeito transcendental – “um sujeito figurando, que não se relaciona com a figura e não fala a respeito dela”. Este sujeito é uma figura formal, à qual nada cabe atribuir a não ser a contemplação do espaço lógico e a projeção de nomes sobre objetos. Ele é a pressuposição de toda figuração, figuração que só é possível a partir das proposições da ciência natural, visto serem estas as únicas capazes de representar a contingência dos objetos no espaço lógico21 – “A pura e perfeitamente exata representação científica fornece

como se fosse a primeira figura objetiva. O segundo passo é coordenar esta figura com o até então sujeito omitido” (o eu transcendental).

Percebe-se, com isso, o entrecruzamento da ontologia do Tractatus com o sistema físico da mecânica de Hertz: se Hertz fornece o esquema simbólico da representação, Wittgenstein ainda atenta para a necessidade de uma coordenação: incorpora ao esquema a ideia de um eu com o qual a figura seria coordenada – “E, então, aparecem os interesses da filosofia”. Mas, a questão sobre onde entra o “objeto” hertziano no esquema do Tractatus ainda não foi considerada.

A física nos tempos de Hertz era para ele e muitos outros de seus contemporâneos, tais como Boltzmann, uma teoria fundamental para a qual todas as declarações de outras ciências poderiam finalmente ser reduzidas. Nesse tempo,

os fundamentos da física baseavam-se exclusivamente na mecânica. E não havia na mecânica outro domínio de objetos físicos (não mecânicos) sobre os quais alguém pudesse teorizar. Todas as outras concepções aparentemente não mecânicas, tais como aquelas do calor e eletricidade, poderiam ser sucessivamente reduzidas aos modelos mecânicos. (GRAßHOFF, 2006, p. 16)

21

“A tautologia deixa à realidade todo o – infinito – espaço lógico; a contradição preenche todo o espaço lógico e não deixa nenhum ponto à realidade. Por isso, nenhuma delas pode, de maneira alguma, determinar a realidade”. (TLP, 4.463)

Como se viu no capítulo anterior, a mecânica de Hertz apresentou-se como uma alternativa às mecânicas newtoniana e energetista. Seu esforço era criar os fundamentos de uma ciência da mecânica que não postulasse nada sobre coisas em si mesmas, isso porque se evitariam explicações sobre o que são conceitos como “força” e “energia” (por sinal, obscuros e problemáticos); em lugar da explicação entraria a descrição do funcionamento da mecânica como um todo. Wittgenstein assume uma postura parecida quando defende, por exemplo, que “na sintaxe lógica, o significado de um sinal nunca pode desempenhar papel algum; ela deve poder estabelecer-se sem que se fale do significado de qualquer sinal, ela pode pressupor

apenas a descrição das expressões” (TLP, 3.33). Nesta mecânica, os únicos objetos

apropriados eram os sistemas de pontos materiais: “livres”, em que a aplicação de sua Lei Fundamental seria imediata; “adaptáveis”, em que seria necessária, para a descrição, a introdução de massas ocultas; e “vivos”, que não poderiam ser representados diretamente no seu modelo, mas para os quais sua hipótese seria permissível. Evitar dizer, ou explicar, qualquer coisa sobre a realidade empírica era o objetivo de Hertz quando constituiu seu sistema mecânico aos moldes de um sistema lógico, portanto, a priori. Wittgenstein tenta fazer a mesma coisa em sua ontologia quando toma como ponto de partida de sua concepção de mundo o “objeto” que é imaterial, indestrutível e eterno, posto que constitui a substância do

mundo – substância da qual só se pode determinar uma forma e não propriedades

materiais, pois estas são representadas apenas nas proposições (TLP, 2.0231). E qual é a proximidade real destas duas maneiras de conceber a realidade?

Pode se começar pelas noções de partícula material em Hertz e objeto em Wittgenstein. Quanto a Wittgenstein, há uma dúvida que reside até hoje no imaginário dos seus estudiosos: o que é o “objeto” do Tractatus? Há um montante de interpretações (em boa parte, divergentes) disponível sobre este assunto, uma vez que Wittgenstein não deixou pistas sobre o seu significado conceitual. E em momento algum, ele deixa um exemplo “prático” do que seriam tais objetos. Como lógico, talvez não visse a obrigação em apresentá-los22. Um exemplo é dado por Norman Malcolm quando pergunta a Wittgenstein

22 Até neste ponto, o pensamento de Wittgenstein é parecido com o de Hertz. Hertz introduz em seu Os Princípios da Mecânica o conceito de massas ocultas e até hoje não se sabe, em termos práticos,

qual exemplo que se teria desses elementos. O próprio Helmholtz, no prefácio a obra, lamenta a ausência dos exemplos que ilustrem a aplicação e, portanto, a necessidade da hipótese de massas e

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(...) se, quando escreveu o Tractatus, alguma vez terá pensado em algo que servisse como um ‘exemplo’ de um ‘objeto simples’. A sua resposta foi que nessa altura a sua idéia era que ele era um lógico, e que, tal como, não lhe competia tentar decidir se esta ou aquela coisa era uma coisa complexa ou simples, sendo isso um assunto puramente empírico!23.

Wittgenstein tinha claro que, como um lógico, sua preocupação deveria ser com o como os complexos estão combinados e não com a questão de que, por existirem complexos, consequentemente, devem existir também objetos. Para ele, a lógica está primordialmente interessada no sistema pelo qual construímos símbolos a partir de símbolos mais básicos (TLP, 5.555) e o que ela faz é apresentar o paralelismo entre a ordem a priori do mundo24 e do pensamento. No caso do

pensamento, a ordem das proposições significantes; no caso do mundo, a ordem dos estados de coisas e, em ambos os casos, diz Wittgenstein, trata-se da ordem das possibilidades. Da mesma forma, Hertz introduz os conceitos físicos e teoremas sem referência ao mundo externo, onde todas as proposições expressas são julgamentos a priori no sentido de Kant, como foi visto no capítulo anterior. Elas são afirmadas pelas “leis da imaginação interior” e da forma lógica. Ele entende que a conformidade das imagens com as coisas é limitada à compatibilidade das consequências lógicas das imagens com as correspondentes consequências naturais das coisas imaginadas. A univocidade dessa linguagem e sua consequente capacidade de manter-se livre das ambiguidades eram resultado direto de sua estrutura matemática, de sua forma. Forma que não resulta da experiência, nem de quaisquer convenções ou definições arbitrárias, pelo contrário, era imposta à experiência. E isso se parece muito com a proposta da ontologia do Tractatus.

Mesmo assim, ainda não responde às questões: o que é o objeto? Wittgenstein conhecia um exemplo de um objeto? Por que enunciá-lo e quais as dificuldades que lhes são inerentes? Em uma passagem do Notebooks, Wittgenstein já denunciava as dificuldades em responder a estas questões:

movimentos ocultos. Reitera-se, no entanto, que o conceito de massas ocultas não se identifica com o conceito de objeto no Tractatus; isso será visto mais tarde.

23 MALCOLM, N. Ludwig Wittgenstein: A Memoir, with a Biographical Sketch by G. G. von Wright.

Oxford: Oxford University Press. 1984, p. 86.

24 Ordem a priori do mundo é a ordem das possibilidades, que é comum ao mundo e ao pensar. É

anterior a toda experiência, perfaz toda experiência e não adere a nenhuma opacidade ou insegurança empírica.

A nossa dificuldade era, porém, a de falarmos sempre de objetos simples e não sabermos mencionar um em particular.

Se o ponto no espaço não existisse, então também não existiriam as coordenadas; e se as coordenadas existem, então existe igualmente o ponto. – É assim na lógica.

O sinal simples é essencialmente simples. [...]

Aparentemente, é como se houvesse objetos complexos a funcionar como simples e, em seguida, também realmente simples, como os pontos materiais da física, etc.

Vê-se que um nome designa um objeto complexo a partir de uma indeterminação nas proposições em que ele ocorre; ela provém justamente da generalidade de tais proposições. Sabemos que nem tudo está ainda determinado mediante esta proposição. A designação de universalidade

contém uma imagem originária. [cf. 3.24]

Todas as quantidades invisíveis, etc., etc. têm de ocorrer entre as designações de generalidade. (WITTGENSTEIN, 1998, p. 102-103, 21/06/1915)25

Geralmente nos Notebooks, quando Wittgenstein usa de termos hertzianos como “pontos materiais” e “quantidades invisíveis” (ou “massas invisíveis”), ele sempre os apresenta como exemplos de pseudo-objetos – “As massas invisíveis de Hertz são, segundo ele próprio confessou, pseudo-objetos” (Notebooks, 06/12/1914). Veja-se como ele chegou a tal concepção.

Junho de 1915 foi uma fase de intensa atividade intelectual para Wittgenstein. Um dia antes de escrever o parágrafo acima, uma série de indagações acerca da determinação do sentido proposicional veio à tona; suas perguntas foram: “Poderíamos justamente aplicar a lógica sem mais, tal como está nos Principia

Mathematica, às proposições ordinárias?”; “Mas deveria ser possível que as

proposições habitualmente utilizadas por nós tivessem como que um sentido incompleto (abstraindo de todo da sua verdade ou falsidade), e que as proposições da física se aproximassem, por assim dizer, do estádio em que uma proposição tem realmente um sentido completo??”; “Serão as proposições da física e as proposições da vida quotidiana, no fundo, igualmente precisas, e consistirá a diferença apenas na aplicação mais consequente dos sinais na linguagem da ciência??”; “Pode, ou não, dizer-se que uma proposição tem um sentido mais ou menos preciso?”; “Deveriam as nossas proposições ser de tal modo preparadas que pudessem ser matematicamente tratadas?” (Notebooks, 20/06/1915). Wittgenstein afirma ainda que, quando alguém analisa expressões da linguagem ordinária pelo significado lógico, deve determinar se estas expressões têm significado, ou deve levar em conta

122 que é difícil produzir o sentido das sentenças complexas, ainda assim, “há a possibilidade de falha” (Notebooks, 20 e 21/06/1915). Mas, como pode uma sentença falhar no produzir o sentido?

Na forma toda analisada, uma sentença que diga algo sobre a realidade deve se referir a objetos externos e suas relações e, apenas nesse caso, pode o valor de verdade da sentença ser determinado – pelo menos era o que pensava Russell. Por conseguinte, para ter a habilidade em julgar a falta de sentido da sentença, o complexo de objetos necessita ser analiticamente dividido em suas componentes atômicas – “A divisão dos corpos em pontos materiais, como ocorre na física, nada é mais que uma análise em componentes simples” (Notebooks, 20/06/1915). Sendo assim, na análise lógica, o sentido estaria plenamente determinado na medida em que um nome tomasse “o lugar de uma coisa, um outro de uma outra coisa, e estão ligados entre si, e assim o todo representa – como um quadro vivo – o estado de coisas (TLP, 4.0311)”. Nesse contexto, o objeto equivaleria à referência (o significado) dos nomes na proposição; eles são os sucedâneos desses nomes. Os nomes em si não possuem sentido, uma vez que, a única unidade linguística dotada de sentido é a proposição26.

Wittgenstein enfatiza os termos “pontos materiais”, “componentes simples”, “sinal simples”, “simples” e “objeto” para indicar os componentes últimos da realidade, com os quais é plenamente possível que o sentido proposicional seja determinado – “A exigência de coisas simples é a exigência de precisão do sentido”