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3 UMA PESQUISA SOBRE A LEITURA NO BRASIL

3.2 Algumas experiências de leitura em meio digital

3.2.5 Obra híbrida, caminhos abertos

Nossa discussão, nesta Subseção, vai centrar-se na análise das informações obtidas com a experiência de navegação dos alunos de Literatura Brasileira I do primeiro semestre letivo de 2010. Especificamente nessa experiência, não pudemos contar com a participação dos estudantes oriundos do grupo da disciplina de Literatura Brasileira II do primeiro semestre45. As respostas do grupo de Literatura Brasileira II do segundo semestre do mesmo ano foram descartadas pela impossibilidade comparativa. A exemplo da terceira experiência de leitura, nessa quarta análise também não relacionamos os

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45 Por questões relacionadas ao nosso cronograma de realização das atividades, não tivemos tempo hábil para realizar essa atividade com o grupo de Literatura Brasileira II do primeiro semestre de 2010.

dados do grupo de alunos de Literatura Brasileira II, pois as respostas encaminhadas pelos alunos coincidiram com as que eles nos apresentaram no primeiro semestre.

Ao observarmos que, também para essa atividade, os alunos se utilizaram da estratégia do meio digital que permite recortar conteúdos de uma página e colar em outra, percebemos que a tecnologia pode se tornar um empecilho quando o foco fica estagnado na própria tecnologia e não no conteúdo que se tenta passar através ou com ajuda dela. Os alunos não tiveram dificuldades de utilizar os recursos digitais, o que demonstra que eles estão familiarizados com o meio, mas, com isso, desperdiçaram a oportunidade de conhecer melhor a obra em questão, de aprofundar as reflexões a respeito da mesma e ainda de averiguar em que medida haviam desenvolvido práticas de leitura apropriadas à obra.

Os alunos deixaram de navegar na obra proposta para uma releitura, apenas copiaram e colaram as respostas das impressões que tiveram no primeiro contato com a obra da quarta experiência. Dessa maneira a tecnologia encerrou-se em si e as reflexões a cerca do conteúdo da obra ficaram restritas a um primeiro contato. O desenvolvimento da fluência da leitura também foi prejudicado. Adiante em nossas considerações finais prosseguimos nossas reflexões sobre o assunto.

Essa quarta experiência de leitura em tela consistiu na navegação num ambiente poético cibernético construído em 3D chamado Palavrador. A criação digital em questão permitia que cada aluno criasse seu próprio percurso de leitura e que o variasse quantas vezes quisesse.

Os participantes afirmaram ter feito percursos variados ao ler, buscando informações sem uma sequência prevista. Aqui, assim como na experiência de leitura anterior, as características de um ‘leitor imersivo’ são imprescindíveis para que a leitura se efetive. Ele precisa estar ativo perante as possibilidades vistas na tela. Ao clicar do mouse é que o leitor disponibiliza inúmeras possibilidades, um universo de signos, programáveis e sequenciáveis para a navegação. Assim ele constrói seu percurso de leitura. Segundo Santaella (2004, p. 34), essa interação do leitor com o meio digital traz “conseqüências também para a formação de um tipo de sensibilidade corporal, física e mental”. Essas transformações estão ligadas à globalidade do processo de leitura em meio digital.

Quando perguntamos sobre a utilização de outra ferramenta complementar à leitura, todos afirmaram não ter feito uso de nada além

da própria obra, diferentemente do resultado obtido para a mesma pergunta nas experiências anteriores de leitura em meio digital. Estamos inclinados a crer que a experiência de leitura de criações digitais não requer a utilização de outras ferramentas. Precisamos, ainda, levar em consideração que os participantes são oriundos de um grupo que está iniciando os estudos de literatura na universidade.

Quanto à opinião pessoal de cada aluno sobre essa última experiência de leitura em meio digital, fizemos a seleção destes comentários:

De todas as obras que foram disponibilizadas para a nossa “avaliação” essa foi a que menos tinha “cara” de obra literária, ou a mais híbrida de todas elas. A principal impressão foi de que ela proporciona uma liberdade muito grande, e se faz extremamente flexível, no sentido de que não exige uma organização convencional, e mais que isso, permite ser construída de várias maneiras. Gostei de interagir com essa obra e o fiz até sentir esgotadas as possibilidades. Acho que é uma excelente ferramenta ao estímulo de aprendizado e memorização. Imaginei vários ambientes em que há a visitação de salas de teoria literária, de épocas, de autores, com passagens para outros ambientes interligados logicamente, onde um espaço de conhecimento dá acesso ao outro (isso parece um cérebro, com suas áreas e sinapses). As opiniões a respeito da obra foram unânimes. Os alunos gostaram de experimentar a navegação por um ambiente hipermidiático, como bem pontuado pelos relatos acima. A liberdade de seguir pelo caminho que quisessem foi uma característica levantada por grande parte dos alunos. A estrutura da obra foge do convencional e isso também agradou a nossos participantes.

Para concluir perguntamos aos alunos: Quais as diferenças que você encontrou entre essa última leitura e as anteriores? Qual obra mais te agradou? Segue o relato de um participante:

Essa obra é mais dinâmica, com interferências visuais, auditivas e liberdade sobre a parte a ser lida pelo leitor. Percebo que assim como há mais

ousadia da parte dos produtores, adentrando mais o espaço mental e interativo do leitor, há também maior atividade do receptor frente à obra. À medida que o produtor avança em direção ao leitor, este também toma mais intimidade com a obra oferecida. Gostei mais desta última experiência.

A comparação feita pelos alunos das obras lidas destaca, sobretudo, as características das duas últimas obras. A flexibilidade organizacional e a liberdade para escolher o percurso de leitura são as diferenças mais presentes nos depoimentos em relação às primeiras obras. As duas últimas propostas de leitura referentes à terceira e à quarta experiências em meio digital foram as obras que mais agradaram a nossos leitores. Uma pequena diferença aponta a quarta leitura como a que mais agradou. Esse resultado reforça a suposição de que quanto mais híbrida for a obra do meio digital, mais ela irá ser eficiente.