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4 PERCURSOS METODOLÓGICOS

4.3 OBSERVAÇÃO PARTICIPADA

A observação participada é parte da metodologia de investigação qualitativa e um dos instrumentos da coleta de dados complementar ao GF. Esta foi selecionada com o intuito de investigar na prática como os TGs funcionam, possibilitando captar uma variedade de situações as quais por meio da realização do GF não se teria acesso. Segundo Iturra (1986), por intermédio da observação será possível adquirir determinadas informações que durante uma entrevista, por exemplo, o participante não relataria, seja por esquecimento, seja por receio de se expor, uma vez que não verbalizamos tudo o que fazemos. Para realizá-la é necessário delimitar o campo e as unidades de observação (ESTRELA, 1994).

Dessa maneira, nesta etapa da coletas de dados, foram selecionadas duas professoras que participaram do GF, sendo que, uma leciona para a turma de 4/5 anos e uma para a turma de 5/6 anos de idade. Para iniciar as observações, combinou-se com essas professoras para informar quando realizariam os TGs com as crianças da sua turma. Foram observadas um total de seis aulas, sendo, três aulas na turma de 4/5 anos e três aulas na turma de 5/6 anos.

De acordo com Estrela (1994) e Haguete (2003), o propósito da observação é compreender um determinado tema ou situação particular, sendo que, o pesquisador fica próximo aos participantes em seu próprio ambiente, com a intenção de conhecer a situação delimitada na pesquisa. Essa experiência direta do observador com o sujeito da pesquisa possibilita identificar várias situações pertinentes.

Para a observação participada, “o observador poderá participar, de algum modo, na actividade do observado, mas sem deixar de representar seu papel de observador, e consequentemente, sem perder o respectivo estatuto” (ESTRELA, 1994, p.35). Neste percurso, essa participação do pesquisador ocorre a partir de conversas e/ou de perguntas, com o objetivo de descobrir e/ou de esclarecer determinados comportamentos e práticas no decorrer da observação, “as opiniões do observado, por emitidas durante o período em que está centrado na acção que se observa, são passíveis de uma análise [...]” (ESTRELA, 1994, p.35). É importante destacar que, não há intenção de alterar o processo a ser desempenhado pelos participantes, apenas coletar dados. Para tal, espera-se que o pesquisador tenha algumas competências para a realização da observação, dentre elas, destacam-se a capacidade de se estabelecer uma relação de confiança com os participantes; ter sensibilidade com as pessoas; atentar-se para as falas; ter conhecimento das questões a serem investigadas; ter um embasamento teórico; delimitar a situação observada e ser flexível para realizar adequações conforme os imprevistos.

Os autores acrescentam que é necessário elaborar um plano sistemático e padronizado para realizar a observação e a coleta de dados, segundo Estrela (1994) isso é necessário mediante a possibilidade de haver uma variedade de dados obtidos. Portanto, considerando os objetivos da pesquisa, é preciso ver e anotar o que acontece, descrever os participantes envolvidos, as atividades desenvolvidas, bem como tomar nota dos aspectos do meio físico que contribuem para entender o que está sendo pesquisado (FIORENTINE e LORENZATO, 2009).

Com relação aos recursos, utilizou-se o roteiro de observação na sala de aula (APÊNDICE 3) e o diário de campo para registrar de forma descritiva os percursos das aulas observadas.

O diário de campo é um dos mais ricos instrumentos de coleta de informações durante o trabalho. É nele que o pesquisador registra observações e fenômenos, faz descrições

de pessoas e cenários, descreve episódios ou retrata diálogos (FIORENTINE e LORENZATO, 2009, p.94).

Os percursos das aulas observadas estão relacionados às três etapas apresentadas por Gauthier et al. (2014): a abertura; o corpo (interação) e o encerramento. Assim, estas etapas foram tomadas como referência para a elaboração das seguintes questões: para realizar a abertura da aula e durante o desenvolvimento dos trabalhos em grupos, como o docente obtém a atenção dos alunos? Como ocorreu a organização dos grupos? O que foi feito para ativar os conhecimentos prévios das crianças? Em qual momento da aula foram utilizados os trabalhos em grupos? No decorrer da realização dos trabalhos em grupos, quais foram as funções desempenhadas pelas professoras? Como ocorreu o encerramento da aula? Quais foram os limites e as possibilidades no uso dessa estratégia?

Essa parte da coleta permitiu conhecer sobre o funcionamento dos trabalhos em grupos com as crianças. Desta maneira, acompanhou-se o percurso da aula, registrando no diário de campo o objetivo da aula e o percurso da atividade desenvolvida. Saber qual é o objetivo da aula é fundamental para delimitar o que se pretende alcançar na aula planejada, pois quando estes não estão bem definidos pelo professor e claros para os discentes, a fase de interação fica prejudicada (GAUTHIER et al., 2014).

Após a observação participada, o material coletado foi separado para leitura e os objetivos da pesquisa foram consultados. Posteriormente, organizou-se as informações necessárias considerando as categorias que foram emergindo. Diante dessa organização, a análise e a interpretação dos dados foram sendo realizadas, tendo como suporte a análise de conteúdos. Apresenta-se de forma descritiva neste estudo alguns fragmentos dos percursos da realização dos TGs, seguindo as categorias definidas. As etapas das aulas descritas serviram para a identificação e para a análise das funções desempenhadas pelas professoras nos percursos apresentados, assim como identificar em qual momento pedagógico realizaram os TGs e quais os critérios de organização dos grupos. Os limites e as possibilidades existentes, na prática docente, foram identificadas e especificadas em um texto específico.

Retomando para a escolha deste método de pesquisa, é mister considerar que, existirão os limites e as vantagens no uso da observação, dentre os limites, percebe-se que a presença do observador pode inibir o comportamento de alguns participantes (ESTRELA, 1994). Diante disso, torna-se necessário que o pesquisador se apresente, além disso explique qual é o objetivo da pesquisa, informando sobre o sigilo no momento do registro dos dados. Outra limitação é decorrente da relação observador/observado, sendo que, o primeiro poderá se envolver em situações que podem desviar o foco de sua pesquisa, deixando de realizar registros importantes.

A preocupação entre o quanto se observa e o quanto se participa também é apontada por Haguete (2003). Para evitar essas inquietações, utilizou-se um roteiro de observação de forma a orientar a coleta de dados durante as aulas. Para minimizar o desconforto dos participantes, ocorreram pelo menos três visitas de observação, desse modo, foi possível criar mais oportunidades de comunicação e de aproximação entre o participante e o pesquisador.

Por outro lado, esta metodologia assegurou a espontaneidade dos participantes por estarem em seu ambiente social de costume, oportunizando para o pesquisador captar informações fiéis da situação em observação (ESTRELA, 1994). Segundo Vianna (2007, p. 12)

“a observação é uma das mais importantes fontes de informações em pesquisas qualitativas em educação. Sem acurada observação não há ciência”. Essa aproximação do pesquisador com o objeto de investigação possibilitou acompanhar de perto as vivências dos sujeitos de forma que puderam compreender a realidade e as determinadas ações (LUDKE e ANDRÉ, 1986).