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3 OS CAMINHOS DA RODA: A PESQUISA JUNTO COM AS

3.3 PROCEDIMENTOS PARA A COLETA DE DADOS

3.3.5 Observação

Um dos objetivos da observação foi estabelecer uma atmosfera de familiaridade entre mim, pesquisadora, as crianças, os professores e os funcionários da escola. Tratava-se de estender o olhar a tudo que acontecesse durante os encontros com as crianças na roda. A observação “possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado, [...] permite também que o observador chegue mais perto da ‘perspectiva dos sujeitos’” (ANDRÉ; LÜDKE, 1986, p.26)

O primeiro momento de observação aconteceu durante o mês de junho de 2009. Procurei capturar alguns momentos pedagógicos (aulas com a professora regente, a interação entre as crianças na sala de aula, aulas de Literatura Infantil na biblioteca com professor específico, entre outras atividades) e tudo que envolvesse as crianças-sujeitos da pesquisa. Realizei um levantamento de algumas informações, dados e relatos com professores e alunos.

Durante as visitas de observação exploratória que realizei na escola no mês de junho de 2009, estive presente na sala de aula das crianças que participaram da pesquisa e nas suas aulas de literatura infantil, que aconteceram uma vez por semana na biblioteca da escola, com duração de cinqüenta minutos. As aulas foram ministradas por uma

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Como os encontros com os grupos focais aconteceram sempre no período da tarde, a escola, algumas vezes, cedeu-nos a sala do laboratório de informática. Em outras ocasiões, tivemos que realizar os encontros no refeitório. Seja como for, todos os espaços cedidos permitiram a realização efetiva dos encontros.

professora especificamente designada para a tarefa e que atende a todas as turmas da escola.

Nesse caso, a observação recobriu um total de seis encontros, realizados semanalmente. No entanto, houve semanas em que ocorreram até duas visitas. Eu procurava chegar no início das aulas e manter-me até o final, para que fosse possível observar as rotinas e a interação das crianças. Para tanto, mantive-me apenas como espectadora, atenta a tudo que acontecia.

Nesse primeiro momento, evitei declarar exatamente quais seriam os objetivos da pesquisa, especialmente às professoras (regente e de literatura infantil), pois considerei que isso poderia levá-las a contar (mais) histórias ou desenvolver algumas atividades que correspondessem ao que investigo. Apenas comentei que se tratava de uma pesquisa com as crianças envolvendo a atividade de narração de história.

Durante a observação, aproveitei para identificar se, tanto na sala de aula quanto nas aulas de literatura infantil, as crianças ouviam e contavam histórias. Durante toda aquela etapa de observação, não vi, na sala de aula, a professora regente contar histórias. Tampouco as crianças o fizeram. É verdade que eram convidadas a cantar, ler textos e escrever no quadro, mas a contação de histórias, repito, não surgiu uma única vez.

Nas aulas de literatura infantil na biblioteca, em todos os encontros em que estive, ocorreu narração de histórias, mas quem narrava sempre era a professora. Como os momentos de narração de histórias observados ocorreram principalmente nas aulas de literatura infantil, vou abordá-las mais detidamente.

Notei, nas situações observadas, que, depois de ouvirem a história (contada pela professora com auxílio de livro, CD de áudio e filme, a exemplo de trabalho feito com a história O Patinho Feio em diferentes versões), as crianças eram orientadas pela professora a fazer um desenho. Isso aconteceu nos quatro encontros que observei.

É interessante destacar que as crianças estavam sempre atentas às histórias e demonstravam imenso prazer em participar da atividade. Chamou-me a atenção o comentário de uma criança que comparou a imagem de um personagem (Patinho Feio) vista em livro com outra vista na televisão: “Ah! é a mesma figura daquela lá... Agora ele tá azul”. Em outro momento, tendo as crianças acabado de cantar A Casa, de Vinícius de Moraes, um dos meninos, ao ver a figura de uma casa no livro didático, disse: “Essa aqui é a casa engraçada...”. Faltou, contudo, a oportunidade de instigá-lo a explicar melhor a sua constatação.

Durante as visitas na sala de aula, a familiaridade com as crianças já havia se estabelecido. A professora também, desde o início, demonstrou-se bastante receptiva e disposta a contribuir com a pesquisa. Como minha intenção era permanecer a maior parte do tempo apenas observando o que ocorria, procurei sentar-me ao fundo da sala, a fim de não chamar muito a atenção das crianças. Porém, como sabemos, por mais discretos que sejamos, não há muito como evitar alguma interferência. No meu caso, a observação acontecia às segundas-feiras, dia em que as crianças chegavam cheias de histórias para contar sobre o que havia acontecido no fim de semana. Certa vez, uma menina veio até mim e me contou longamente uma história envolvendo sua irmã, um menino que queria bater nela, o lugar em que tinha ido, etc. Por não dispor de um gravador naquele momento, não me é possível, agora, transcrever exatamente a narrativa. Seja como for, tive de interromper a menina, porque a professora, àquela altura, pedia silêncio, e preferi seguir as regras.

Importante dizer que, no curso de minhas observações, percebi que o que acontecia na biblioteca não era retomado em sala de aula pela professora regente e, muitas vezes, não tinha a mínima relação com as atividades desenvolvidas na sala de aula. Cabe concluir que os momentos na biblioteca aconteciam de forma isolada e não referente ao trabalho do professor em sala de aula.

O fato de os professores não se articularem uns aos outros é uma característica que já identifiquei em outras etapas de trabalho de pesquisa18. É que, muitas vezes, por haver um professor específico para determinadas atividades na escola, como é o caso do trabalho desenvolvido pelo professor de literatura infantil, considera-se que este é o “responsável” por certas tarefas, e ponto final. Penso, em contrapartida, que todos os professores precisam compreender a importância do trabalho na biblioteca. Ato contínuo, cabe-lhes propor ações como as que se efetivam na biblioteca, principalmente no espaço das salas de aula.

O que foi possível identificar durante esse período de observação foi que a prática de as crianças contarem histórias não aconteceu. Elas eram sempre convidadas a ouvir, e não a falar. Quando atuavam diretamente, a participação restringia-se, o mais das vezes, à linguagem

18 Trata-se pesquisa relatada em monografia que, em 2006, realizei no Curso de Especialização em Educação Escolar: Ênfase na Pedagogia Histórico-Crítica na Universidade Estadual do Oeste do Paraná- UNIOESTE. O título do referido trabalho é “O Projeto de Literatura da Escola Municipal Nossa Senhora do Sagrado Coração na Perspectiva da Pedagogia Histórico- Crítica”.

escrita. A oralidade, que poderia estabelecer um espaço de maior desenvoltura e liberdade para elas, pareceu negligenciada.

Vale ressaltar, entretanto, que, na fase final da pesquisa com as crianças, em fins do mês de novembro de 2009, aconteceu algo notável: já nos últimos minutos de aula, ao chegar à sala a fim de dar um recado para as crianças, vi a professora regente da turma abrindo espaço para que qualquer criança que desejasse fosse até a frente da turma para contar uma história, qualquer que fosse. Esse momento é certamente um dos mais significativos de meu trabalho de pesquisa.

O registro das observações foi todo escrito em um caderno de anotações, o qual faz parte do material de apoio para as análises posteriores.