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Capítulo 05 Análise do World Press Photo do ano 2014 premiado em 2015

5.5. Observando a imagem a partir das categorias

2. Dentro do Regime Ético das imagens:  Critérios de Noticiabilidade  Estórias que emocionam

 Manipulação/tratamento de imagens  Questões de alteridade: vítimas

Critérios de Noticiabilidade

A temática possui proximidade geográfica e cultural, a questão homofobia é de interesse de todos os países. A Rússia é um país de interesse, com muita riqueza energética, fornece gás para a Europa, sediou as olimpíadas de inverno recentemente e sempre está na mídia, o que significa proeminência da nação envolvida. Existe algo de imprevisível no fato de, enquanto outros países estão descriminalizando a homofobia, a Rússia anda na direção contrária, e existe a negatividade do tema como valor notícia também. Por último, é uma imagem que ilustra um acontecimento que pode ser personalizado para essencialmente evidenciar as características de humor humanas, nesse caso afeto, amor, como tristeza, medo, sentimentalismo.

Questões de alteridade: vítimas

No quesito Representação das vítimas e dos heróis, temos claramente o herói. Temos os nomes das pessoas que aparecem na imagem, eles não estão em situação de vulnerabilidade física, expostos a uma fotografia que não gostariam que fosse feita. Existe um acordo para fotografar, uma aceitação, um momento de contribuição criativa na elaboração da foto. Existe um “nós” no olhar sobre esses personagens, uma empatia do fotógrafo com a questão em si e uma abordagem próxima, eles não são chamados somente de vítimas, ou homens, ou pessoas, sabemos claramente quem são. A questão não é mostrada com exotismo, com formatos estereotipados, mas com uma sensibilidade respeitosa à questão que esses dois homens enfrentam de terem seus direitos violados.

Estórias que emocionam

Essa fotografia enquadra-se perfeitamente na ideia de Gaye Tuchman narra “estórias” que são os conflitos particulares, “realçando o drama”, a “perda”, o “miúdo”. Este modo de contar a partir de personagens e histórias privadas dentro de um acontecimento maior, é um recorte da questão sobre homofobia, lei e direitos, mas principalmente é uma sinalização da consequência colocada em um debate privado.

Manipulação/tratamento de imagens

Nesta categoria não encontramos especificamente quanto a essa imagem nenhum embate sobre o tratamento proposto. Observamos que é uma imagem muito cuidada tecnicamente, com tratamento profissional devido à baixa iluminação.

Dentro do Regime Poético ou Representativo  Os moldes Religiosos

 A representação do bem versus o mal  A co-presença

 Imagem Intolerável

Os moldes Religiosos

Na categoria dos elementos da cultura sacro/cristã podemos dizer que não é uma imagem diretamente sacra, não chega a usar aqueles pré-formatados modelos da Pietà ou da morte de Cristo ou ressurreição, mas temos alguns elementos da estética barroca, do claro e escuro, do velado e desvelado, do proibido/ inevitável, tudo isso com a dramaticidade da luz da lua. Existem imagens de casais premiadas anteriormente, que se aproximam mais do que imagens sobre homofobia, direitos para os gays etc. Em 2014 os retratos de Braden Summers no ensaio love is equal teve muita repercussão na internet assim como a exposição: Here and Now: Queer Geographies In Contemporary Photography com uma perspectiva intimista, quase bucólica de

casais, imagens cotidianas que universalizam a temática. No entanto, apesar de não haver novidade no assunto não encontramos imagens semelhantes na abordagem da temática.

A representação do bem versus o mal

A referência ao amor proibido, ao certo e errado, do escondido e público chegamos à outra categoria: a categoria dualidade, nela não temos uma contraposição de ideias, na mesma imagem bonzinhos e bandidos, que neste caso poderia existir pela polêmica do tema, mas temos um claro contraste do coberto e do descoberto, assim que tangencia a categoria de forma estética e temática, mas não é uma imagem elaborada nos moldes da dualidade no fotojornalismo. A forma singela do registro mostra a empatia do fotógrafo com a questão. O direito ao afeto que não faz mal a ninguém é o registro deste ano sem mostrar o confronto, o conflito, imagens viscerais do tema não aparecem, nem enfrentamentos com a polícia que poderiam gerar imagens de dualidade. Nesta imagem vencedora não há isso.

A Co-presença

A imagem possui uma co-presença de dois elementos descontínuos, heterogêneos, na medida em que não pertenciam ao mesmo mundo. O afeto, o bucólico, o idílico, uma beleza sensível e um extracampo que faz parte da imagem de forma conotativa de medo, perigo, dos riscos que envolvem o tema, rodeado de violência e perseguição.

Imagem Intolerável

Poderia ter sido uma imagem de violência ou com o intuito de gerar desconforto e ação, o assunto é permeado por imagens mais gráficas da intolerância, no entanto esse não foi o caminho escolhido nesta imagem principal do prêmio.

3. Dentro do Regime estético

 Fotojornalismo e arte Contemporânea  Imagens de Fuga/Imagem pensativa

No capítulo que Charlotte Cotton (2013) chama de “Era uma Vez”, ela fala de imagens que fazem referência a contos de fadas, lendas urbanas e mitos modernos que já estão incorporados ao nosso consciente coletivo. Quando o fotógrafo falou que se tratava de uma história de Romeu e Julieta, pensamos haver uma conexão, a fotografia de quadros (tableau photography) ou de quadros-vivos (tableau vivant photography), ou seja, quando a narrativa pictórica se concentra numa única imagem: a fotografia conta toda uma história. A combinação dos dois aproxima muito essa imagem dessas referências e a faz crescer diante dos nossos olhos.

Imagens de Fuga/Imagem pensativa

A imagem do casal, da questão da homofobia na Rússia, um tema perene e uma história íntima são interessantes para ser considerada de fuga ou pensativa. No entanto a abordagem não é tão única assim e, desde de 2013 nas Olimpíadas, a lei sobre os direitos dos gays tem sido debatida e mostrada. A frase da jurada, Pamela Chen, mostra um debate interessante para pensar uma imagem contemporânea: “We were looking for an image that would matter tomorrow, not

just today” (WPP, 2015). Mas, é uma escolha que já foi feita por outros fotógrafos. Mesmo que o

World Press Photo não tenha premiado antes, ela é existente na linguagem de retratos em posição afetuosa e bucólica. Então, não consideramos uma imagem contemporânea, porque não surpreende a ponto de repensarmos a forma como podemos olhar e debater a questão.

Abaixo uma imagem de referência quase idêntica à que foi vencedora:

Foto 133 - Richard Renaldi

A seguir, uma análise de toda a premiação do World Press Photo 2015.