o juízo de valor, os sentimentos veiculados pela metáfora
(1974:35-116).
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A primeira figura que aparece em Farrapos de idéias obri ga o leitor a deter-se sobre o próprio título que o denomina enquanto livro ' . Do significado habitual do vocábulo "farra po" — "pedaço de pano rasgado ou muito usado, andrajo, trapo; p.eça- de vestuário muito rota; péssoa maltrapilha; pedaço de
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qualquer coisa" — suprime— se boa parte — mormente o que se relaciona a tecido, pano, peça de' v e s t u á r i o , pessoa m a l t r a p i lha ■— e põe-se em relevo o fato de que "farrapo" é um "pedaço de qualquer coisa", que associado ã "idéia" forma uma imagem que s o b r e ’o leitor determina, a nível de imaginação, o pos s í vel conteúdo que o livro enceta: pedaços de idéias.'. 0 proces-
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sa nos obriga a ir mais longe e a questionai:: Por que não te mos "idéias inteiras"? Ou o que leva a Autora a sugerir que
suas "idéias" são' (como) "farrapos", gastaá, rotas?
Observando a estrutura do livro, percebe-se que é
cons-
/ ,tituída pelas c r ô n i c a s — pedaços — que veicularam em Repú- t
blica com o mesmo nome: "este livro ressuscita as crônicas li geiras do rodapé de 'República', aos domingos. Elas ressur gem como eram" (FI, 1937:19)'. Nos textos, "farrapos" é um dos muitos termos recorrentes e perseguidos, por Antonieta de Gar ros, o qual vem sempre associado a idéia de coisa não ‘intei ra, em pedaços, Se considerarmos o livro um "tecido", há que se observar o fato de ter sido feito de pedaços já usados, gastos; um tecido feito, não de fios inteiros, mas de pedaços de fios já usados em outros tecidos.
É uma costura curiosa, reveladora e consciente. Há ou-
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tros "tecidos" que se imiscuem ao dela — A Bíblia, Las fuer- zas morales, o próprio pensamento pedagógico oficial e o f i cializado por meio de artigos impressos — e ela jamais nega a participação deles na composição do seu. Talvez porque e s tes "tecidos já fossem do conhecimento público é que ela se refira ao seu como um que nada traz de novidade, que está a p e nas, e novamente, reproduzindo certas idéias que deveriam ser praticadas em benefício da Humanidade, da Coletividade, mas que teimosamente são postas de lado, esquecidas. Talvez por- isso, Farrapos de idéias busque o resgate de quase tudo o que dentro da vida já se tornou um farrapo:''a existência, o ser, o sonho, a civilização, a moral, a alma, a idéia.
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"A existência, transformada aos poucos, num infi nito de ilusões em farrapos (...) os des e n c a n t a dos .. . \_Farrapos de seres, abandonados, volunta riamente^— aos solavancos da sorte" (FI, 193:/:21).
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"Depois do ideal alcançado, há (...) um travo amargo, farrapo de ' sonho que não se integralizou"
(PI, 1937 : 2 3 } . .
"O mundo está velhíssimo (...) com (...) uma ci vilização em farrapos" (FI, 1937:54).
"Daí a moral, em farrapos, q u e s e nota em toda parte" (FI, 1937:59).
"Em meio aprendizado, apenas, já se sente a alrna cansada (...) em farrapos..."' (FI, 1937:94).
"Fugiram-lhe dalrna todas as migalhas da esfarra pada fraternidade existente" (FI, 1937:127). .
A transferência da carga semântica de "farrapos" — uma coisa concreta — para a caracterização de substantivos a b s tratos — alma, existência,, moral, por exemplo — c a r a c t e r i za claramente um estado de falência geral entre os homens e as suas relações; entre as próprias idéias já esfarrapadas de tão dicas e debatidas, ao qual a /Autora, pela metáfora, p r o cura convencer seu leitor a debruçar-se raais, a olhar de modo
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mais crítico e a , 'com ela, buscar a saída deste estado. A idéia que se faz.de farrapos já na sua primeira ocorrência no título — , antecipa ou revela o que será encontrado no in terior da obra: uma humanidade decadente, esfarrapada ã qual a Autora, com um farrapo de sonho, procura reerguer, fazer ascender através de uma Educação Ideal.
Mas para que a empreitada tenha êxito é necessário fazer o homem reconhecer o quanto é débil a sua posição e a sua atuação no mundo, o quanto seus gestos e pensamentos fazem re troceder toda uma civilização, nao com o sentido de criticá- lo, mas com o intuito de fazê-lo reconhecer e arrepender-se pa ra que a "redenção" seja possível. Retorna, aqui, o aspecto do catecismo que fala da denúncia dc caos e do anúncio do Cosmo.
Denunciando, ainda, o esfacelamento, a ruptura, o desgas-
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te, a violaçao, Antonieta de Barroç recorre, num processo si-, . nestlrslco, à cor vermelha para caracterizar, sobretudo, e s t a
dos e paixões humanas p e r n i c i o s a s . ,
"Ê quando, numa-ânsia, num \de.lir-i-0-_ve-rmedirJ, su focando nalma o quid divino lã existente, dão li berdade. â besta fera". . (FI, 1937:27) .
"O batismo de sangue se dará em todos os tempos, enquanto, sobre a terra, pisarem dois homens"
(FI, 19 37:57).
"Quando acorda, nos homens, a sede vermelha, nada os detém" (FI, 1937:58).
"É preciso que a locura vermelha domine as cria turas, para que sobre os cadáveres edifiquem os seus palácios" (FI, 1937:86).
"Co.ino poderão, pois, as mulheres que, sempre, gri tam e protestam contra a loucura vermelha dos ho mens (...) engrossar fileiras militares?" (FI,
1937:131).
"Por que os homens presentes (...) só sabem cons truir com argamassa de sangue?" (FI, 1937:175).
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Enquanto o delírio, a loucura e a sede são vermelhas o batismo e a argamassa são de sangue que evoca o vermelho. Para minimizar a carga tão negativa que o vermelho tem nas crôni cas, Antonieta de Barros demonstra que outras cores r e p r e s e n tam sentimentos e sensações positivas. Assim, o azul ■ simboli za o Ideal; o branco, a bondade; o amarelo ou o dourado, o
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sonho e a esperança
Aliado ãs cores que amenizam a forte p r e sença do v e r m e lho, do sangue, da ruptura e que, conseqüentemente demonstrara o intento da Autora de, não sõ apontar as falhas 'e os p r o b l e mas, mas, e também,apontar caminhos,e soluções, encontramos o vocábulo "doce" ou "doçura" como um outro contraponto ãs cargas negativas já detectadas no "far_r_apo!L_e__no- "s a n g u e " . Ã denúncia da decadência corresponde o anúncio da ascensão
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"Educados na doçura suave da religião d'/\quele que, fez da sua trajetória, ''uma esplendorosa . Via Látea de Amor..." (FI, 19 37:15).
"A bravura consciente do que enfrenta a vida, (...). procurando maravilhar os homens com uma d e s c o berta que lhes adoce a caminhada" (FI, 19 37:36).
"Há criaturas- que deixam, dulcificando a tristeza da ausência, o aroma da sua passagem" (FI, 19 37:
63) .
"É o clarinar da alvorada tentando despertar os brasileiros para uma doce m.iss'ão de Amor" (FI, 1937:110).
"Só o que luta (...) tem (...) o doce sorriso dos que sentem e compreendem a aleqria de viver" (FI, 1937:125).
"E deu em troca do escárnio (...) a doçura da sua palavra" (FI, 1937:135).
Acreditando na possibilidade da ascensão, Antonieta de Barros repassa, porque vive, uma certeza de que a Humanidade há de encontrar seu caminho, há de crer na vida, há de trocar
.as paixões mesquinhas e sanguinárias, pela brandura, pela d o çura dos gestos daqueles que procuram, ainda, realizar os pe~ quenos sonhos, as grandes descobertas, aprender cora o Cristo a doçurà dos gestos e das palavras.
Acreditando na sua "doce missão de Amor", a /Autora toma para si a responsabilidade de reconduzir o homem; daí o tom doutrinal, c a t e q u i s a d o r , evangelizador da "boa palavra" que o seu discurso guarda. Através dos seus atos educativos que, por força da repetição, hão de elevar e- redimir a criatura diante de si mesma, a Autora quer fazê-la aproximar-se d'Aquele que. ilumina e orienta para a grandeza dos pequenos gestos.
No decorrer o texto, é bastante freqüente o aparecimento
bulos como: iluminar (iluminado, iluminou, l-yminoso, etc.J^s^l, l u z ,^ r e f l e x o ,^âcender, ou atravé^__d'a própria negaçãd, ou ausêrv- cia d a ,l u z : \ s o m b r a s , trevas, ocáso, etc.
"As existências não se medem pelos relógios que 'dividem as horas e os minutos', mas pelas ações iluminadas pela solidariedade humana" (FI, 1937:
13). ' _
"Os pequenos e humildes acendedores da Esperan- . ça (...) fazem a maravilha de vitalizar a chama
da Ilusão, para iluminar salutares pensamentos de bem-estar" (FI, • 193 7 : 32 ) . ^
.. "Basta ao seu desmedido, incontentãvel Egoísmo, gozar da doçura da sombra, sentir a proteção con tra a inclemência do sol que cresta, mas vitali za, dando âs criaturas toda a pujança da sua in dividualidade" (FI, 1937:34).
" (Anchieta) criou, entre nós, os primeiros cleos, donde irradiaram as luzes primeiras instrução e da moral" (FI, 1937:196).
Se os sentimentos mesquinhos ■-— ódio, destrui mc — sitiam nas trevas "as criaturas do séc. XX"
nu- da
ção, egoís- (FI, 19 37:
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130); se elas gostara d e .viver "às sombras, ditas protetoras" (FI, 1937:90); se o egoísmo "nega-lhes a luz, para tudo quanto não seja elas mesmas" (FI, 1937:94), não se pode, segundo a Autora, assistir passivamente a este "ocaso de.* civilização"
(FI, 1937:73). É preciso iluminar o caminho dos jovens; a consciência do mestre há de ser uma lâmpada que .ilumina o ca minho que leva â estabilidade da moral social; "o professor' tem que ser mais que instrutor (...) (tem que) ser o sol"
(FI, 1937:106), pois o encanto da vida "consiste em ilumi ná-la sempre!" (FI, 1937:103) quer pela palavra — "sábia e cheia de luz" (FI, 1937:136) :— quer pela ação, pelo "traba lho luminoso do mestre" (FI, 1937:93), pelas ações ilumina das pela solidariedade.
Dada a sua múltipla proclamação, a idéia.luz assume a identidade de metáfora, não pelo rigorismo da sua ■ definição
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