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A OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA E OS DANOS DECORRENTES DO EXCESSO DE LIXO

No documento HUMANIDADES & TECNOLOGIA EM REVISTA (páginas 73-101)

ELETRÔNICO

Flávia Sepúlveda Silveira4

*

Hildeliza Lacerda Tinoco Boechat Cabral5

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Carlos Henrique Medeiros de Souza6

***

Resumo: objetivou-se com esta pesquisa caracterizar o fenômeno do consumismo e a consequente descartalização como práticas mercadológicas que causam lesão ao consumidor, além do acúmulo de lixo eletrônico descartado de forma inadequada, transgredindo norma disciplinadora do tratamento e destinação dessa espécie de resíduo. O presente artigo apresentou o seguinte problema: de que forma a obsolescência programada pode causar lesão ao consumidor e ao meio ambiente? Justifica-se esta abordagem pela necessidade de analisar os prejuízos decorrentes dessas práticas que trazem sérias consequências ao consumidor. Empregou-se metodologia qualitativa, baseada em pesquisa bibliográfica de artigos científicos e obras de autores estudiosos dessa temática, além de análise de legislação pertinente. Concluiu-se que a prática da obsolescência programada causa lesão de ordem econômico-financeira ao consumidor e, além disso, o acúmulo de lixo eletrônico dela decorrente provoca danos ambientais e à saúde humana.

Palavras-chave: obsolescência programada. Descarte precoce. Lesão ao consumidor. Lixo eletrônico. Danos ambientais.

* Graduada em Direito

** Mestre e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Cognição e Linguagem da UENF; professora dos cursos de Direito e Medicina; Membro efetivo da Associação de Bioética da

Universidade Nacional de La Plata. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Bioética e Dignidade Humana. E-mai: [email protected]

*** Docente e Coordenador do programa de Pós-graduação em Cognição e Linguagem da UENF.

Recebido em 22/02/2017 Aprovado em 23/04/2017

Abstract: The objective of this research was to characterize the phenomenon of consumerism and the consequent disregarding as marketing practices that cause harm to the consumer, besides the accumulation of electronic waste discarded in an inadequate way, transgressing the disciplinary norm of the treatment and destination of this kind of waste. This paper presents the following problem: how can programmed obsolescence cause harm to the consumer and the environment? This approach is justified by the need to analyze the losses resulting from these practices which have serious consequences for consumers. A qualitative methodology was used, based on a bibliographical research of scientific papers and works by scholars on this subject, as well as an analysis of pertinent laws. It was concluded that the practice of programmed obsolescence causes an economic-financial injury to the consumer and, in addition, the accumulation of e-waste resulting from it causes environmental damages and human health.

Keywords: programmed obsolescence. Early disposal. Injury to the consumer. Electronic waste. Environmental damage.

“A natureza pode suprir todas as necessidades do homem, menos a ganância.” (Mahatma Gandhi)

Considerações iniciais

Sabe-se que a evolução tecnológica do presente século acarreta um impacto sobre a sociedade, que se torna cada dia mais consumista, numa desenfreada apologia ao novo e à busca pela aquisição do último modelo dos eletrônicos de uso diário. Nessa esteira, o mercado de consumo, valendo-se dessa tendência do consumidor, passa a empreender esforços no sentido de fazer circular seus produtos de forma mais rápida a fim de satisfazer, por um lado, os interesses capitalistas e, por outro, os do consumidor cada vez mais consumista.

Nesse contexto, instala-se um campo fértil à prática mercadológica consistente na utilização de matéria-prima de qualidade inferior objetivando tornar o produto substituível em um tempo cada vez mais curto – consuta que caracteriza o fenômeno da obsolescência programada. Então, vários

desdobramentos dessa prática são constatados na sociedade, desde a lesão ao próprio consumidor que adquire no mercado de consumo produtos de qualidade cada vez mais baixa, até enormes danos ambientais decorrentes desse fenômeno. Assim, tem-se o seguinte problema: De que forma a obsolescência programada causa lesão ao consumidor e ao meio ambiente?

O objetivo do presente artigo é analisar a prática mercadológica da obsolescência programada, apresentando as consequências danosas ao consumidor e os impactos decorrentes do descarte precoce de produtos fabricados para durarem por um tempo cada vez menor. A relevância da abordagem desse tema é exatamente a grande movimentação do mercado de consumo no sentido do estímulo ao consumismo e do descarte precoce de mercadorias ainda úteis que se tornam obsoletas simplesmente pelo fato de surgir um modelo mais novo. Espera-se que este artigo desperte reflexões e consequente conscientização a respeito dos efeitos dessas práticas no meio ambiente.

Emprega-se metodologia qualitativa, baseada em obras e artigos científicos de autores estudiosos do tema, tais como: Rizzatto Nunes (2015), Bauman (2011), Cavalieri Filho (2010), Hildeliza Cabral; Maria Madalena Rodrigues (2012), Bauman (2008), dentre outros, cuja abordagem se coadunam com a apresentada acerca do tema. E ainda em documentos jurídicos como Leis Federais, Código de Defesa do Consumidor, bem como jurisprudência.

1 A descartalização e o fenômeno da obsolescência programada

Vive-se uma era de crescente consumismo, fato que traz a consequência do descarte precoce de produtos. Nesse contexto, faz-se necessário, inicialmente, apresentar o conceito e caracterizar o fenômeno da obsolescência programada, que consiste na descartalização precoce dos produtos em face de o fabricante se utilizar de insumos com qualidade cada vez pior, objetivando a inutilidade logo após o término do prazo de garantia dos produtos disponibilizados no mercado de consumo, fazendo com que o consumidor adquira um novo produto em um curto espaço de tempo.

Para Cabral e Rodrigues, alguns produtos já saem da fábrica com uma estimativa de vida útil pré-determinada, pois na sociedade voltada altamente para o consumo desenfreado, faz com que o ciclo de vida dos produtos se torne cada vez menor, devido ao excesso de ofertas, facilidade nas linhas de crédito fácil, variedade de bens disponíveis no mercado, além das maciças

campanhas publicitárias, impulsionando-os à aquisição de novos produtos mais modernos, obedecendo a um padrão de consumismo acelerado. Asseveram que “os produtostornam-se rapidamente ultrapassados, seja pela necessidade do consumidor em comprar as novidades disponíveis no mercado, seja em razão de as empresas programarem a vida útil dessas mercadorias para períodos cada vez mais curtos” (CABRAL; RODRIGUES, 2012, p.49).

Assim, a prática mercadológica de descartalização precoce dos produtos, acarreta consequentemente o descarte desnecessário e inadequado, contribuindo para o crescente aumento do lixo eletrônico.

Observe-se no que consiste a obsolescência programada:

É o termo utilizado para a vida curta de um bem ou produto projetado de forma que sua durabilidade ou funcionamento se dê apenas durante um período reduzido, fazendo parte de um fenômeno industrial e mer-cadológico surgido nos países capitalistas nas décadas de 1930 e 1940,

conhecido como descartalização, surgindo com a finalidade estratégica

de mercado que visa garantir um consumo constante através da insatis-fação, de forma que os produtos que satisfazem as necessidades daque-les que os compram parem de funcionar, tendo que ser obrigatoriamen-te substituídos de obrigatoriamen-tempos em obrigatoriamen-tempos por outros mais modernos (PAZ, 2011).

Constata-se, portanto, que a obsolescência programada se refere ao ato de estabelecer uma data de morte de um produto, seja através de mau funcionamento ou por ser tornar velho perante as tecnologias mais recentes existentes no mercado. Que reflete o incentivo planejado para o rápido descarte (PADILHA, 2016). Magera assevera que essa prática teve origem na década de 1930 como uma solução para a crise econômica que atingiu, principalmente, os países capitalistas, surgindo com a finalidade de redução do ciclo de vida dos produtos, dando-lhes uma vida útil menor, para que fosse substituído por outro produto em menos tempo (MAGERA, 2012).

Já para Leonard, o conceito da obsolescência programada surgiu por volta de 1920, quando os fabricantes de lâmpada elétrica começaram a reduzir a vida útil de seus produtos para que aumentasse a venda e consequentemente um lucro maior, com a criação do primeiro cartel mundial denominado

Phoebus. Seus membros dirigentes de empresas fabricantes de lâmpadas perceberam que as lâmpadas durarem muito não era vantajoso do ponto de vista econômico, não traziam o lucro esperado, pois as lâmpadas tinham

duração de até 2.500 horas, e o cartel, por volta de 1940 conseguiu reduzir a vida útil das lâmpadas para mil horas, produzindo lâmpadas mais frágeis e consequentemente com menor durabilidade, forçando o consumidor a adquirir nova lâmpada em menos tempo (LEONARD, 2011). Para a autora, essa estratégia visava estimular a aquisição de novas lâmpadas em curto período de tempo, alavancando com isso suas vendas e lucratividade.

Segundo Vance Packard, existem três modos diferentes de obsolescência, sendo a primeira a de função, a segunda, de qualidade, e a terceira, a obsolescência de desejabilidade ou obsolescência psicológica (PACKARD, 1960).

Na obsolescência de função, o produto se torna antiquado ao ser introduzido no mercado um similar que executa melhor a função. Nessa lógica, o produto não é criado com defeitos, a substituição precoce ocorre porque um produto genuinamente aperfeiçoado foi lançado no mercado, fazendo com que a variedade e a mudança acelerem a obsolescência (PACKARD, 1960).

Já na obsolescência de qualidade, o produto ou mercadoria se quebra ou se gasta em determinado tempo, geralmente não muito longo, e é vendido com probabilidade de vida bem mais curta sabendo que poderia estar oferecendo ao consumidor um produto com vida útil bem mais longa (PACKARD, 1960).

Por fim, a obsolescência de desejabilidade ou psicológica ocorre quando um produto que ainda está sólido, em termos de qualidade ou performance, torna-se ‘gasto’ na mente dos consumidores porque um aprimoramento de estilo ou outra modificação torna-o menos desejável. Induz o consumidor a se preocupar mais com as aparentes modificações do que com as benfeitorias efetivas, trata-se de uma maneira de manipular o consumidor para ir repetidamente às compras (PACKARD, 1960).

Constatam-se, portanto, outras definições conceituais de obsolescência, já que não se dispõe de uma definição legal. Trata-se, no entanto, da redução da durabilidade dos produtos, de modo a induzir os consumidores à substituição de um bem por um novo em um lapso de tempo relativamente curto.

Na sociedade de consumo da obsolescência induzida, todo objeto se transforma em lixo, pois quanto mais breve for a vida dos produtos, mais rápido será o descarte. Nessa perspectiva, a publicidade se torna o motor que faz toda essa dinâmica funcionar. Assim, a obsolescência dos produtos gera mais consumo, mas gera concomitantemente mais lixo, o que acaba se tornando um problema econômico, social e ambiental. Na sociedade capitalista, os fabricantes precisam produzir muito e vender rápido para

alimentar um ciclo de produção e consumo chamado de ciclo de acumulação do capital, denominado ciclo de enriquecimento dos empresários, pois se valem da estratégia da publicidade, do crédito e da obsolescência programada para atingir seus objetivos de acumulação de riquezas (PADILHA, 2016).

Segundo Pedro e Alencar, dentre as práticas mais comuns, o consumismo é o principal causador da degradação ambiental. Com a rapidez com que a tecnologia avança, são fabricados com previsão de vida útil cada vez menor, como acontece com os produtos eletrônicos, objetos de desejo da maioria da população mundial, sendo produzidos já com data marcada para se tornarem obsoletos (PEDRO; ALENCAR, 2014). Observa-se, portanto, que a obsolescência programada é derivada da sociedade de consumo, do chamado consumismo. Bauman distingue o consumo do consumismo: para o autor, o consumo é um elemento inseparável da própria sobrevivência biológica, já o consumismo surge bem mais tarde pela intensificação do consumo:

Aparentemente o consumo é algo banal, até mesmo trivial. É uma ati-vidade que fazemos todos os dias. Se reduzido à forma arquetípica do ciclo metabólico de ingestão, digestão e excreção, o consumo é uma condição, e um aspecto, permanente e irremovível, sem limites

tempo-rais ou históricos; um elemento inseparável da sobrevivência biológica

que nós humanos compartilhamos com todos os outros organismos

vi-vos. [...] Já o consumismo, em aguda oposição às formas de vida pre -cedentes, associa a felicidade não tanto à satisfação de necessidades

(como suas “versões oficiais” tendem a deixar implícito), mas a um vo -lume e uma intensidade de desejo sempre crescentes, o que por sua vez implica o uso imediato e a rápida substituição dos objetos destinados a satisfazê-la. (BAUMAN, 2008, p. 37)

Extrai-se das palavras do autor o desejo sempre crescente por novos objetos, o que torna a mola-mestra da obsolescência programada. O termo consumismo representa um comportamento que possui por característica principal o consumo desenfreado. Segundo Giacomini Filho (2008, p.29) Consumismo é o consumo extravagante ou espúrio de bens e serviços, não havendo preocupação ambiental em relação às consequências geradas pelo consumo em sociedade.

Além da obsolescência programada, alguns autores como Paz e Leonardo Bortoletto, constatam a existência da obsolescência planejada. Segundo Paz, a obsolescência planejada é caracterizada pela inutilidade de um produto

ou serviço, mesmo que esteja em perfeito estado, devido ao aparecimento de outro produto tecnologicamente mais avançado, desta forma, tornando-o obsoleto mesmo funcionando. E para que se torne inútil em tão curto prazo, as fábricas articulam seus engenheiros para que produzam vida curta, quando a parte vital do aparelho tem sua durabilidade compatível com o prazo de garantia (PAZ, 2011).

Nessa mesma linha de pensamento, Bortoletto diz que a obsolescência planejada garante aos comerciantes uma margem de lucro garantida, pois, com o descarte precoce do produto, a lógica mercadológica é ter sempre uma gama de consumidores ávidos a buscar aquele tipo de produto. Consequência desta prática é o descarte desnecessário diretamente na natureza, principalmente dos produtos eletrônicos, acumulando lixo, o que se torna uma grande preocupação para a comunidade científica e ambiental (BORTOLETTO, 2015).

Traz-se essa diferenciação por efeitos meramente didáticos, sendo enfoque deste artigo a obsolescência programada como prática abusiva e consequente lesão ao consumidor, pois na sociedade pós-moderna a publicidade deixa de exercer o seu papel precípuo, qual seja, informar. Já que, nos moldes atuais, a propaganda ocorrida de forma abusiva corrompe a vontade do consumidor, deixando de ser um instrumento informativo para ser um instrumento de manipulação. Segundo Souza:

[...] vive-se a massificação do consumo na sociedade contemporânea,

de produtos e serviços regulados pelo mercado descartável da obso-lescência produzida e perceptiva, da constante troca dos objetos de consumo, desejados e atraídos pelo constante apelo do ter, adquirir ou contratar (SOUZA, 2014, p. 6).

Cabe ressaltar que a publicidade é um meio de aproximação entre fornecedor e consumidor, com proteção constitucional. Para Rizzatto Nunes, publicidade é um princípio que orienta a conduta do publicitário no que diz respeito aos limites da utilização desse instrumento. O autor salienta a distinção entre publicidade e propaganda: “a palavra propaganda vem de coisas que devem ser propagadas, donde afirma-se que a palavra comporta o sentido de propagação de princípios, ideias, conhecimentos ou teorias. Já o vocábulo publicidade, por sua vez, aponta para a qualidade daquilo que é público ou do que é feito público” (RIZZATTO NUNES, 2015,p.107). Ambos os termos, portanto, são adequados para expressar o sentido buscado pelo

anunciante do produto.

No mesmo sentido, a publicidade quanto mais “apelativa” mais atraídos ficam os consumidores para aquisição de novo modelo, a versão mais recente de um produto ainda em perfeito estado de funcionamento.

[...] tais propagandas chegam quase a hipnotizar os consumidores,

principalmente crianças e outras classes de pessoas consideradas hiper-vulneráveis, pois são consumidores que apresentam uma circunstância

agravante de vulnerabilidade, em razão da idade ou da deficiência ou

ausência de informação, ou, simplesmente, por fazerem parte de uma

minoria da população (CABRAL; RODRIGUES, 2012, p.54)

Observe-se, portanto, que inegável é a influência da publicidade na sociedade de consumo, que se deixa levar pelo crescente desejo do consumismo. Cavalieri Filho afirma que não se pode negar a importância da publicidade para a sociedade de consumo, pela ação que exerce sobre o consumidor, porém não se pode permitir sua utilização sem qualquer espécie de controle, induzindo o consumidor ao erro (CAVALIERI FILHO, 2010, p.124).

É necessária uma análise do que seja publicidade enganosa. Segundo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), o conceito de publicidade enganosa é encontrado no parágrafo primeiro do artigo 37, que diz:

Art. 37. Éenganosaqualquer modalidade de informação ou

comunica-ção de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qual-quer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o con-sumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços BRASIL. CDC, 1990)

Nesse sentido, a obsolescência programada se refere a mercadorias ou produtos que se apresentam com vida útil menor do que aquela que se espera, constituindo-se a publicidade enganosa a partir do momento em que as empresas utilizam para convencer o consumidor a adquirir produtos desconhecendo a durabilidade do produto ou falta de peça para reposição em eventual defeito (CABRAL; RODRIGUES, 2012).

O tema foi abordado, brevemente, no Superior Tribunal de Justiça no acórdão relatado pelo Ministro Luis Felipe Salomão por ocasião do julgamento do Recurso Especial nº 984.106, julgado em 04/12/2012. O Tribunal consignou

os seguintes exemplos de ocorrência do fenômeno:

São exemplos desse fenômeno: a reduzida vida útil de componentes eletrônicos (como baterias de telefones celulares), com o posterior e

estratégico inflacionamento do preço do mencionado componente, para que seja mais vantajoso a recompra do conjunto; a incompatibilidade

entre componentes antigos e novos, de modo a obrigar o consumidor a

atualizar por completo o produto (por exemplo, softwares ); o produtor

que lança uma linha nova de produtos, fazendo cessar açodadamente a

fabricação de insumos ou peças necessárias à antiga. [...] Certamente,

práticas abusivas como algumas das citadas devem ser combatidas pelo Judiciário, visto que contraria a Política Nacional das Relações de Con-sumo, de cujos princípios se extrai a “garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade, segurança, durabilidade e desem-penho” (art. 4º, inciso II, alínea”d”, do CDC), além de gerar inegável impacto ambiental decorrente do descarte crescente de materiais (como lixo eletrônico) na natureza (BRASIL, STJ, 2012).

Percebe-se que a jurisprudência já pacificou o entendimento pela abusividade da obsolescência programada frente à vulnerabilidade do consumidor, como estratégia para estimular a aquisição de novos produtos em curto período de tempo para alavancar as vendas e consequentemente ter o lucro cada vez maior, pois o consumidor compra, descarta e rapidamente adquire outro, repetidamente. Ressalta-se, ainda, que alguns produtos já saem de fábrica programados para durarem por um determinado tempo, que na prática, após o decurso do prazo legal da garantia, o produto apresenta defeito.

Observe-se o julgado do Supremo Tribunal Federal em Recurso Extraordinário com agravo 805.568, relatado pelo Ministro Luís Roberto Barroso, julgado em 30/04/2014:

CONSUMIDOR. VÍCIO DO PRODUTO. TELEVISOR. VÍCIO DE NATUREZA OCULTA. DIREITO À DEVOLUÇÃO DO PREÇO PAGO. SENTENÇA REFORMADA.

1. O consumidor não pode arcar com o vício constante do produto do qual se espera durabilidade maior que um ano, como é o caso dos autos, eis que se trata de um aparelho televisor.

2. A autora juntou aos autos laudo técnico que atesta a existência de vício de larga extensão no produto em curto prazo de tempo após sua aquisição, bem como valor para conserto praticamente equivalente ao

valor pago pelo bem. 3. Assiste razão ao consumidor no que tange ao pedido de restituição dos valores pagos mesmo que fora do prazo de garantia do produto, eis que, em se tratando de vício oculto, o prazo legal para a sua reclamação só corre a partir da ciência dos defeitos. Aplicação do artigo 26, § 3º, do CDC (BRASIL, STF, 2014).

Pode-se constatar no julgado que decorrido o prazo de garantia o aparelho televisor apresentou defeito, o valor para conserto ficou o equivalente ao valor pago na aquisição, tendo em vista que o laudo técnico comprovou a existência de vício no produto, fazendo jus o consumidor ao dano patrimonial pela má-fé configurada na prática abusiva.

2 Considerações acerca do lixo eletrônico

A grande movimentação econômica gerada pelo capitalismo, como propagandas que motivam o consumo exagerado mesmo sem necessidade, faz com que todos os dias milhares de aparelhos e equipamentos eletrônicos sejam substituídos por se tornarem obsoletos, contribuindo para o aumento do lixo eletrônico, sendo oportuno analisar o lixo eletrônico, também denominado resíduos eletrônicos. Segundo Viana, o lixo eletrônico, também chamado de lixo tecnológico ou ainda conhecido como Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos (REEE), é todo aquele gerado a partir de componentes dos aparelhos eletrodomésticos e eletroeletrônicos, incluindo os acumuladores de energia, como as baterias e pilhas, e produtos magnetizados, de uso industrial, doméstico, comercial e de serviços que encontram-se em desuso. São os

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