• Nenhum resultado encontrado

Obstáculo Econômico, Educacional e Temporal

Lei 11.448/2007- 69 Passou a prever expressamente no artigo 5º,

3. DEFENSORIA PÚBLICA E O ACESSO À JUSTIÇA

3.1. Obstáculo Econômico, Educacional e Temporal

O primeiro obstáculo seria a ausência de recursos para arcar com as elevadas custas processuais e os honorários advocatícios. Além disso, a parte deve arcar com as despesas do oficial de justiça, citações e intimações, bem como verbas de sucumbência. Assim, resta evidente que o alto valor das custas e honorários torna-se um obstáculo ao acesso à Justiça, especialmente quando se trata de causas de pequeno valor, pois os gastos processuais podem extrapolar o benefício patrimonial que se auferiria com o sucesso da demanda.

O fator econômico é o obstáculo mais óbvio para o acesso à Justiça, eis que diante da extrema desigualdade social existente em nosso País, a população mais pobre fica excluída do sistema.173

Outro fator significativo é o tempo. Assim, o processo possui uma sequência de atos e prazos processuais que demandam um determinado tempo para a concretização. Porém, estes prazos não podem ser tão extensos que inviabilizem a efetividade da tutela jurisdicional.

Nota-se que a preocupação com a efetividade é tamanha que a Emenda 45/04, denominada Reforma do Judiciário, passou a prever a duração razoável do processo (artigo 5º, inciso LXXVIII, da CF/88),174 compatibilizando com a Convenção Americana de Direitos Humanos que tratava da duração razoável. No mais, o II Pacto Republicano por uma Justiça mais ágil, célere e efetiva também tinha como objetivo a duração razoável.175

173 MARINONI, Luiz Guilherme. Teoria Geral do Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, v.I, p.185. 174 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Emendas/Emc/emc45.htm

Esse cenário da Reforma traz novas oportunidades de ação para aqueles atores que há muito vêm pautando o sistema de justiça, bem como desperta o olhar de outros atores que se encontram fora do sistema. Isto é, com a participação popular da sociedade, seja por meio das conferencias, ouvidorias externas, dentre outros mecanismos para a institucionalização de direitos, surgem expectativas quanto à aplicabilidade de tais ferramentas no sistema de justiça.

Importante contatar que cresce a necessidade de inclusão dos destinatários do sistema de justiça no aprimoramento do acesso à Justiça, eis que o diálogo permite a democratização. Além disso, ao ouvir as pessoas passa-se a buscar mecanismos alternativos de resolução de conflitos, afastando-se da visão estritamente judicial.

Assim, vislumbra-se a possibilidade de novos arranjos políticos dirigidos ao referido sistema de justiça com a participação tanto de atores do próprio sistema quanto os de fora deste sistema com o fim de almejar a cidadania e o efetivo acesso à justiça de todos.

3.1.1. Possibilidade das Partes

Este obstáculo está relacionado diretamente à parte, qual seja a possibilidade financeira de arcar com as custas e honorários advocatícios, suportando a demora das lides176, como a capacidade de reconhecer um direito e a dele fazer uso de outras medidas judiciais.

Constata-se que parcela da população, nela compreendida especialmente o público alvo da Defensoria Pública desconhece a existência dos direitos e os mecanismos de proteção e salvaguarda.

A insuficiência de conhecimentos jurídicos básicos afasta-os ainda mais do Judiciário.

176 CAPPELLETTI, Mauro. GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre: Sergio

Nesse sentido, manifesta-se Fernando de Castro Fontainha:

“é lamentável que, de um lado, a ignorância sistemática afaste

tantas pessoas deste mundo construído do direito, e, de outro, este próprio mundo seja construído sobre lógica alheia à realidade da vida social mantendo tal afastamento sustentado por dois vetores de direções opostas (...) o que faz o cidadão carente de justiça teme-la ainda mais e sentir-se verdadeiro corpo estranho ao seu metabolismo social”177

Nessa linha de pensamento, bem como baseado nas desigualdades econômicas e sociais, no analfabetismo, na pobreza e nos diversos fatores de exclusão social, Donaldo Armelim afirma “ em certas regiões do país o acesso à justiça não chega sequer a ser

reclamado por desconhecimento de direitos individuais ou coletivos”178.

Essas pessoas desprovidas de informação muitas vezes nem percebem a violação de direitos, pois desconhecem quais são os direitos que possuem.

Há ainda outra barreira, qual seja a desconfiança em relação aos profissionais do direito, ao ambiente intimidador dos fóruns e tribunais, dos procedimentos complicados, etc.179

Para Boaventura de Souza Santos, por sua vez, existem três tipos de obstáculos que impedem que as classes populares tenham acesso à justiça: econômicos, sociais e culturais. 180

Do ponto de vista econômico, as classes populares não têm condições de arcar com os altos custos do litígio e, especialmente em demandas de cujo valor da

177 FONTAINHA, Fernando de Castro. Acesso à Justiça: da contribuição de Mauro Cappelletti à realidade brasileira.

Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p.43

178178 ARMELIM, Donaldo. Acesso à Justiça. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo: São Paulo,

n.31, p.181, jun. 1999.

179 MORAES, Ana Carvalho Ferreira Bueno, A defensoria Pública como instrumento de Acesso à Justiça,

Dissertação de Mestrado em Direito na PUC/SP, 2009.

180 SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução à sociologia da administração da justiça. Revista de Processo, São

causa seja baixo, eis que o custo de arcar com os honorários e custa judiciais seriam proporcionalmente mais altos do que o valor da causa propriamente dito.

Do ponto de vista social e cultural, Boaventura de Souza Santos afirma que quanto mais baixo é o estrato social, maior é a probabilidade que desconheçam os direitos. E mais, ainda que possam ter consciência de seus direitos, os socialmente desfavorecidos hesitam mais em procurar a solução dos conflitos, seja por insegurança e temor de represálias.

Dessa forma, para Boaventura de Souza Santos, os estudos revelam que a discriminação social no acesso à justiça é complexa, pois além de fatores econômicos, há condicionantes sociais e culturais envolvidas.181

3.1.2. A questão dos Direitos Difusos

A fim de promover os direitos difusos, importante a previsão legal da Defensoria Pública como ente legitimado para ajuizar ação civil pública quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes, seja por intermédio da criação da Lei n◦ 7347, de 24 de julho de 1985, que tratou da Ação Civil Pública, bem como da Lei n◦ 8078 de 11 de setembro de 1990, que instituiu o Código de Defesa do Consumidor.

Destarte, a Lei Complementar 132/09 passou a prever (artigo no artigo 4°, inciso VII, da referida lei, a legitimidade da Defensoria Pública para a propositura da ação civil pública.

Não iremos adentrar na legitimidade ou ilegitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento do referido instrumento de acesso à justiça, eis que embora aparentemente de simples constatação de que a ampliação de legitimados favoreceria a população carente, assegurando o mais amplo acesso à justiça, tais questionamentos acarretaram inclusive o ajuizamento de uma ADI 3943 perante o Supremo Tribunal Federal, que em Maio de 2015,

181 SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução à sociologia da administração da justiça. Revista de Processo, São

reconheceu a legitimidade da Defensoria Pública. Interpretação diversa afrontaria diretamente a Constituição Federal de 1988, eis que flagrante situação de restrição ao acesso à justiça.

Nos dizeres de Ana Luisa Zago de Moraes e Beatriz Lancia Noronha de Oliveira:182

“A Defensoria Pública exsurge, pois, como importante canal de acesso ao Poder Judiciário, mas não somente a este senão ao próprio Poder Público, de forma levar as reivindicações dos movimentos e conseguir avanços não apenas através de decisões judiciais favoráveis a causas ambientais, humanitárias, ações afirmativas, habitacionais, dentre outras, mas também fomentando políticas públicas em prol dos movimentos sociais”.183

3.2. Ondas Renovatórias de Acesso à Justiça como solução à universalização do Acesso à