CAPÍTULO 2. EXPANSÃO DA AGROPECUÁRIA NO CERRADO
2.1.3 Ocupar o Cerrado (Cerrados) Projetos e programas governamentais
Brasília, nos anos 1960, consolidava-se como centro político e administrativo, e o governo federal tinha grande interesse em desenvolver as regiões vizinhas e em ocupar os cerrados (VASCONCELOS, 1989). Trecho de um dos discursos do Presidente Costa e Silva, em 1968, demonstra o que o General entende ser “uma filosofia política a integração nacional no seu máximo desempenho, o que é, aliás, a preocupação primordial do governo, que procura dar a este País a noção do todo que ele deve ser, em vez de um arquipélago econômico, social e político” (ibid., 1989, p. 95). A política de ocupação dos Cerrados é, portanto, uma vertente do já mencionado objetivo de integrar (para não entregar) o território (ibid., 1989).
Ademais, a ideologia promovida pelo governo militar, intervencionista e nacionalista, enaltecia o orgulho nacional pelas riquezas brasileiras, em especial as densas e contínuas florestas (WWF Brasil, 2000). Entretanto, a aparência seca do Cerrado, durante metade do ano, associada aos incêndios naturais (LIMA, 2003), promoveram a percepção do Bioma como algo já devastado, pobre em biodiversidade. Dessa maneira, para políticos dos anos 1960 e 1970, a redenção dos cerrados foi materializada com a introdução de lavouras, sem a internalização dos custos ambientais e a obediência ao Código Florestal (ibid., 2000).
75 Embora a participação dos movimentos sociais em audiências públicas e discussões nas comissões parlamentares seja crescente, o
texto final de leis importantes, na área florestal e de interesse socioambiental, sucumbe ao ideário acima mencionado. Discute-se a questão no Capítulo 5.
76 A idéia de vazio demográfico deve ser relativizada, pois desconsidera comunidades sertanejas, ocupantes dos Cerrados há séculos
Entre os atores desse processo, destacamos o próprio ex-presidente e então fazendeiro Juscelino Kubitschek, proprietário de uma fazenda em Luziânia - GO, nos últimos anos de sua vida. JK, entusiasmado com a realização de mais um sonho, declarou que “tratadas como devem, as terras do cerrado podem ser tão férteis como quaisquer outras. Nelas tudo pode ser plantado com sucesso. Até mesmo o trigo”.77 “Tratadas como devem” significa a correção dos solos
(naturalmente ácidos, ricos em alumínio e pobres em fosfato e nitrogênio), a irrigação, plantio e colheita mecanizados e o uso de tecnologias específicas para os Cerrados. A demanda científica foi grande e tornou-se fundamental a criação de um núcleo estatal de pesquisa tecnológica voltado à exploração do Bioma: Em 26 de abril de 1973, foi criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e em 1975 foi criado o Centro de Pesquisa Agropecuária dos Cerrados (EMBRAPA/CPAC)78.
Planos de desenvolvimento a partir dos anos 1970 modificaram radicalmente a paisagem econômica e ecológica da região. A Fundação Brasil Central é extinta em 1967 para dar lugar à Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO), órgão que define as áreas apropriadas para o desenvolvimento e para a fixação de pólos de crescimento. A partir dessa mudança, para o Planalto Central são alocados investimentos vultosos em infra-estrutura, além de apoio financeiro direto e indireto (BRAGA, 1998).
O modelo foi sendo delineado a partir do Programa de Crédito Integrado (PCI), que se baseava na transformação das atividades agrícolas. O PCI foi criado 1972, elaborado pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). Seu objetivo era a incorporação de 292.798 hectares de terras nos Cerrados mineiros. Com a finalidade de aumentar as margens de lucros, as propriedades rurais foram transformadas em empresas rurais (SILVA, 2000). O PCI englobou o Alto Paranaíba e toda a região do triângulo mineiro, mas não alcançou os resultados pretendidos. Seu maior êxito foi servir de modelo a outros programas (WWF, 2000, SILVA, 2000).
O Programa de Desenvolvimento do Centro-Oeste (POLOCENTRO) foi instituído pelo Decreto nº 75.320 de 29 de janeiro de 1975 e priorizou a agropecuária. No art. 1º do Decreto lê-se que seu objetivo era “promover o desenvolvimento e a modernização das atividades agropecuárias no Centro-Oeste e no Oeste do Estado de Minas Gerais, mediante a ocupação racional de áreas selecionadas, com características de cerrado” (grifo nosso)79. Trata-se de um texto simples, de
apenas seis artigos. Discriminam-se as áreas selecionadas para investimentos, determina-se o aporte de recursos e estipula-se a competência dos ministérios e secretarias estaduais relacionadas à sua execução (Planejamento, Agricultura, Fazenda etc). Não é feita qualquer consideração sobre
77 Texto publicado na Revista MANCHETE – Especial JK 100 anos, dezembro de 2002, p. 89.
78 EMBRAPA/CPAC. No site da empresa lê-se que a missão da EMBRAPA Cerrados é "viabilizar soluções tecnológicas para o
desenvolvimento competitivo e sustentável do agronegócio da região do cerrado em benefício da sociedade". Disponível em:
http://www.cpac.embrapa.br/boletimeletronico/bo280605.pdf acesso em 21.9.2007.
os aspectos ambientais. O decreto modificaria, para sempre, extensos Cerrados no Brasil, mediante o que se convencionou ser a ocupação racional das áreas selecionadas, sem qualquer menção ao Código Florestal em vigor. Em suma: não se condicionou a liberação de recursos à manutenção de RLs e APPs.
Maria Braga (1998) informa que o programa envolveu 202 municípios dos estados de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais80. Foram aplicados, entre 1975 e 1981, recursos da ordem de US$ 750 milhões. Seu objetivo: incorporar à agropecuária nacional 3 milhões de hectares de cerrados, dos quais 1,8 milhões destinados às lavouras, por meio de: a) mecanização agrícola; b) crédito bancário para desmatamento e compra de fertilizantes e corretivos do solo; c) monoculturas comerciais de reflorestamento; d) construção de estradas vicinais; e) eletrificação rural; f) regularização da propriedade fundiária (POVOAS, 1977).
A Fundação João Pinheiro foi encarregada de avaliar os resultados do POLOCENTRO. Em relatório, aquela instituição destaca que o programa teve, como mérito, demonstrar a viabilidade empresarial dos Cerrados para a produção de grãos e para intensificar atividades pecuárias. Entretanto, indica também que não foram propiciados os incrementos necessários de emprego, renda e bem-estar. Dessa maneira, “as tendências concentradoras, tanto em termos econômicos, quanto em termos de adensamento espacial da população nas cidades, não foram revertidas, mas, ao contrário, estimuladas com o programa” (apud. BRAGA, 1998, p. 99).
O texto não explicita um quadro mais grave: o POLOCENTRO atuou como responsável direto na expropriação do pequeno produtor rural, fato que gerou intensa concentração fundiária. Atraiu da região Sul do Brasil produtores experientes no cultivo de monoculturas. Esses formaram a maioria dos agricultores beneficiados pela expansão de fronteiras, assertiva confirmada pelos dados que se seguem.
O projeto JICA - Japan International Cooperation Agency foi apresentado ao Presidente João Goulart em meados da década de 60. Era um plano para o desenvolvimento dos Cerrados por meio da produção de grãos para exportação e seus beneficiários diretos seriam os estados de MG e GO. O projeto foi vetado, mas foi revisto em 1971, durante o Governo Médice, embasando o Programa de Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados - PRODECER. Iniciado em 1976, o programa incentivou a ocupação de extensas áreas dos Cerrados, por meio do que se convencionou ser a agricultura racional. Criou imensas unidades agrícola-empresariais e diversificou o uso de novas tecnologias. O PRODECER priorizava produtores jovens e escolarizados. Os produtores beneficiados foram os sulistas, que possuíam capital, acesso ao crédito e conhecimento acumulado na área agrícola (SALIM, 1986).
80 Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, e Araguari, em Minas Gerais, são exemplos de municípios que tiveram economias
Peixinho (2001) informa que entre 1970 e 1980 cerca de 21.374.273 hectares de Cerrados foram agregados ao processo produtivo e o número de tratores na região saiu de 12.282 em 1970 para 94.354 em 1975.
Nos anos oitenta, o programa político da Nova República “priorizou, ao menos em suas teses, o resgate da dívida social, com a perspectiva de congregar desenvolvimento econômico e social” (BRAGA, 1998, p. 103). No esteio dessa política, foi criado o Programa de Ampliação dos Efeitos Sócio-econômicos da Agricultura no Cerrado. Maria Braga (1998) esclarece que o objetivo foi incentivar pequenos produtores, oferecer meios à conservação dos recursos naturais e o aproveitamento racional dos recursos hídricos. Paradoxalmente, o programa apresentou a ambiciosa meta de acrescentar 4,6 milhões de hectares ao sistema produtivo.
A reflexão sobre esses dados revela que a expansão do agronegócio nos Cerrados mantém os paradigmas observados em outras regiões e momentos do país: desprezo pelos ecossistemas naturais e o crescimento extensivo dos meios de produção. Robert Buschbacher, do World Wildlife Fund - WWF Brasil, sugere que as monoculturas no Cerrado, em especial a soja, despontam como herdeiras dos desastres ambientais perpetrados pela cana-de-açúcar nos séculos XVII e XVIII e pelo café no século XIX. Substituiu-se, mais uma vez, um rico bioma nativo por uma monocultura exótica que, “ao que tudo indica, acabará por sofrer os efeitos da superprodução e da degradação ambiental, como já se pode ver pelo crescimento da contaminação e da perda de solos” (WWF Brasil, 2000). 81
O autor acrescenta que a aposta dos produtores tem sido no crescimento horizontal e quantitativo, ao invés de reduzir ou manter o território ocupado por meio do aumento da produtividade. Essa alternativa possibilitaria preservar os remanescentes de Cerrado, efetivar as APPs e RLs e viabilizar as opções de uso múltiplo do Bioma (ibid., 2000).
Ressalte-se que o avanço das pastagens plantadas e do cultivo de grãos colocou em outro patamar a tradicional atividade agropecuária. Os atores se profissionalizaram, criaram novos parâmetros de convivência e realizam trocas culturais com brasileiros de outras regiões. Música, comportamento, festas, mídia, vestuário: tudo está em transformação, adaptando-se ao consumo e progresso dos agronegócios (SENA, 1999).
Um importante ícone dessa reviravolta cultural são os Centros de Tradição Gaúcha – CTGs, espalhados por toda a região dos Cerrados. Clovis Sena (1999) esclarece que esses centros começaram a ser implantados no Rio Grande do Sul, “por iniciativa de jovens estudantes em resistência à penetração dos pacotes da indústria cultural norte-americana, no pós-guerra” (SENA, 1999, p. 256).
81 WWF Brasil. 500 anos de destruição Ambiental no Brasil: Um Balanço do Meio Ambiente. Coordenação: Robert
O choque entre esses novos atores e o sertanejo tradicional não tardaria a acontecer. A professora Laura Duarte (2006)82 relata que em viagem de estudos ouviu de um gaúcho, plantador de soja, a seguinte afirmação, enquanto apontava ao longe um trabalhador braçal: “a senhora está vendo aquele homem ali? Goiano burro, já foi dono de toda essa terra. Trabalha para mim”. A professora conclui ser essa a lógica, pois os mecanismos de dominação cultural e tecnológica dos Cerrados e de suas gentes reproduzem-se por meio desses CTGs e da perspectiva de progresso trazida por eles. Prevalece, no embate dessas visões de mundo, a imemorial lei do mais forte.
A devastação não se limita mais aos Estados do Centro-Oeste. Atualmente, a maior frente de destruição do Cerrado é o Sul do Piauí, nos municípios de Marcos Parente, Porto Alegre do Piauí, Antônio Almeida, Tamboril, Uruçuí e Ribeiro Gonçalves, onde o Cerrado vira carvão da noite para o dia, muitas vezes com o aval do governo estadual (MARTINS, 2007).
Carvoaria no Cerrado Piauiense. Disponível em http://osverdestapes.googlepages.com/home Acesso em: 5.12.2007.
Ao total arrepio do Código Florestal, áreas públicas são griladas, e os processos se acumulam, dificultando o trabalho do Dr. Flávio Teixeira de Abreu, Titular da Promotoria de Uruçuí. As denúncias são sempre relacionadas a trabalho escravo, uso irregular e destinação indevida de embalagens de agrotóxicos, além dos conluios entre assentados e grandes produtores, acordos que deturpam a política oficial de reforma agrária (Ibid., 2007).
O aterro de nascentes, a contaminação dos cursos d’água, a morte de raposas, jacarés, cobras, pássaros e tantos outros animais é testemunhado diariamente pelos antigos e estarrecidos moradores locais (MARTINS, 2007).
O ciclo do desmatamento, no caso do Piauí, tem relação estreita com a atuação da multinacional no setor de alimentos Bunge (MARTINS, 2007). A empresa afirma que não utiliza
82 DUARTE, L. M. Centro de Desenvolvimento Sustentável – CDS/UNB. Fundamentos Teóricos e Epistemológicos do
lenha entre os combustíveis de suas esmagadoras. Entretanto, assume que recebe em seus pátios lenha fornecida por terceiros, com origem comprovada por autorizações de desmatamento emitidas pelo IBAMA. Alguém deve estar faltando com a verdade, “já que diariamente são descarregados no pátio da empresa cerca de 29 caminhões de árvores cortadas” (ibid., 2007, p. 11).