Ao procurarmos exemplos para demonstrar o conceito desenvolvido para definir o que são “ódios cotidianos” o ódio “bater o dedo mínimo do pé em uma quina”,exemplificado pela ilustração a seguir, é um dos mais rapidamente lembrado, por exigir poucos elementos para que ocorra. Poucos de nós nunca fomos acometidos por ele.
Esse ódio cotidiano tem um potencial de alteração em nosso conatus elevado, pois ocorre no momento em que estamos inseridos plenamente na cotidianidade, não sendo gerado através de um risco que tomamos ao executar alguma ação como dirigir um carro, ou andar de bicicleta, mas sim pelo fato de estarmos andando com o pé descoberto, ou com uma proteção anti-choques não tão eficiente (chinelos abertos, pantufas, sandálias, etc.)
Andar, por si só, já é um elemento pertencente à cotidianidade exemplificada por Heller (2011) em sua análise do cotidiano, pelo fato de que o praticamos todos os dias de maneira inconsciente. Ao andarmos em nosso momento de relaxamento estamos ainda mais desarmados em relação à ação de um ódio cotidiano. Ao nos locomovermos (seja de um cômodo a outro de nossa casa, ou durante um passeio na praia por exemplo) com os pés desprotegidos corremos o risco de bater nosso dedo em algum objeto rígido, cujo conatus seja maior do que o de nosso dedo, o objeto no qual batermos nos causará o efeito de dor, o que constringirá o conatus de todo nosso corpo, e por nos infligir dor esse ódio cotidiano tem o potencial de reduzir nossa potência de agir por um tempo prolongado (pelo tempo em que tivermos de conviver com a dor gerada) Esse encontro gerará um afeto-paixão de ordem triste em nós, o que fará que atribuamos a causa desse afeto ao objeto com o qual interagimos.
Esse ódio cotidiano tem também a característica de ser imprevisível porque não esperamos que aconteça em momento algum, sabemos portanto os efeitos que causa em nosso corpo e sabemos a situação em que pode ocorrer, mas por estar inserido no desenvolvimento de uma ação tão intrínseca a cotidianidade (andar) não temos a capacidade para evitá-lo conscientemente. O que podemos evitar é a geração de um afeto-paixão no momento em que ocorre.
5.2.1 A ilustração "Odeio bater o dedo mínimo do pé em alguma quina"
A peça gráfica foi realizada na medida de uma folha A3 (297 x 420cm), usando técnicas mista de ilustração, como a vetorização e a pintura digital. A primeira etapa no desenvolvimento dessa ilustração foi a definição dos elementos presentes na imagem, foi decidido que seriam representados um pé humano prestes a se chocar com outro elemento.
Nesse momento a decisão a respeito do estilo foi tomada, sendo que optamos por utilizar como principal referência no desenvolvimento dos elementos o trabalho do designer gráfico norte americano Saul Bass (Figura 17), devido a predominância de retas e ângulos no desenvolvimento de suas imagens.
Figura 17 - ilustração de Saul Bass Cartaz para o filme Vertigo (Um corpo que cai) de Alfred
Hitchcock (1958) Fonte: DESIGNMUSEUM, 2013
Foram então elaborados croquis, que foram posteriormente digitalizados (Figura 18), então começou o processo de vetorização digital das imagens desenvolvidas manualmente. Foram vetorizadas nessa etapa a imagem do pé humano e do elemento que interagiria com o pé. Para a vetorização foi utilizado o software Adobe Illustrator.
As imagens vetorizadas foram então passadas para um novo documento (dimensões 297mmx420mm) no software Adobe Photoshop. Nesse software a imagem recebe uma camada de sombra através do filtro Curves, para que a sensação de volume em toda a composição seja maior. Também é adicionada a tipografia, que assim como os outros elementos da imagem é angulosa.
Figura 18 - Croqui para a ilustração "Odeio bater o dedo mínimo do pé em alguma quina" Fonte: Autoria própria
Acerca da composição da ilustração podemos afirma que procuramos evidenciar a tensão entre os elementos presentes na situação. Para que conseguíssemos impregnar o espectador com essa tensão utilizamos linhas retas para desenhar tanto o pé, quanto o objeto que irá afetar negativamente o componente humano da ilustração. A maneira como estão organizados os elementos no cartaz também buscam evidenciar essa tensão, para fazer isso decidimos centralizar a imagem do pé, e colocar o objeto com o qual irá reagir no canto superior direito da ilustração, deixando o canto esquerdo sem nenhum elemento a fim de causar um desequilíbrio na composição. Ao afastarmos o pé do objeto, optamos por não demonstrar o exato momento do ódio cotidiano, representando assim o evento no instante imediatamente anterior à concretização da interação do pé com o objeto localizado no canto superior direito, instante esse
que não vemos conscientemente na maioria dos casos, isso faz com que o espectador crie uma expectativa sobre o desfecho da situação representada na ilustração, procurando despertar no espectador além disso trás a lembrança de uma situação igual que tenha vivido.Tanto a forma, quanto a composição fazem com que os elementos presentes na ilustração tenham entre si relações dissonantes.
Para que houvesse uma maior identificação com a situação, o elemento no canto superior direito não possui uma forma que lembre diretamente um utensílio presente em nosso cotidiano (mesa, cadeira, etc.), isso faz com que o observador não limite-se a definir o ódio cotidiano em questão como a interação entre o fator humano e um objeto específico, mas sim generaliza a situação para a interação entre um pé, e um objeto rígido.
As cores escolhidas, tons de vermelho e laranja, contribuem para aumentar a tensão do espectador em relação a obra sendo que a utilização do branco para o texto e as unhas é utilizado para atrair o olhar na direção destes dois elementos e para oferecer um descanso visual em uma composição onde o vermelho é o tom predominante. O título serve como um guia textual para a imagem, pois com o título “Rota de Colisão” estamos descrevendo a ilustração com poucas palavras, conseguimos assim facilitar o entendimento da obra e a relação com a situação contida nela.
Figura 19 - Ódios cotidianos - Odeio bater o dedo mínimo do pé em alguma quina Fonte: Autoria própria