5.1 FASE I – DO GOLPE (1964) ÀS MARGENS DO AI-5 (1968)
5.2.3 Análise por jornal
5.2.3.1 OESP: Instituições em frangalhos – simulacro de rompimento com
Parece contraditório ou ao menos surpreendente que o mesmo OESP, que, em 3 de abril de 1964, saudara o golpe civil-militar com o editorial “Em defesa da vitória”, transcorridos menos de cinco anos, em 13 de dezembro de 1968, traga à luz o editorial sob o título “Instituições em frangalhos”, no qual constata a desintegração dos poderes da República, aí incluído o Executivo, ou seja, o governo dos militares. Entretanto, o editorial, que circulou no mesmo dia em que Costa e Silva decretaria o AI-5, reveste-se de menor atitude de coragem axiológica do que sugere a superfície do texto.
O jornal OESP não rompe com a ditadura militar, se discorda dela e se aponta erros de ‘Sua Excelêcia’ o presidente Costa e Silva, é porque a condução do governo do marechal não estava sendo capaz de abafar plenamente os movimentos sociais nem de manter passiva, coesa e obediente à base parlamentar, conforme o trecho:
A desordem passou a campear nos arraiais estudantis, ao mesmo tempo em que, ante o mal-estar geral, o clero revoltoso fazia sentir a sua presença até mesmo nas praças públicas. Dentro dos próprios limites do feudo, aparentemente submisso à vontade do Palácio da Alvorada, não se passava dia sem que se manifestassem sintomas da insurreição latente.
OESP não se insurge contra a ditadura, opõe-se apenas aos rumos que o golpe tomava à época. Revela o editorial que o veículo se sente traído porque Costa e Silva evoca a “vitória de 64” como “obra das Forças Armadas”, quando na verdade o triunfo se deveria “ao próprio esforço da coletividade” – coletividade em que também se inseriria os meios de comunicação em geral e OESP em específico.
A ilegitimidade tanto do Executivo quanto do Legislativo só passam a constituir preocupação do jornal, quando esses dois poderes já não conseguem fingir bem o papel de representantes da vontade popular. É o que diz a passagem:
Apesar de tudo, a passividade do Congresso Nacional, aliada à disciplina militar, poderia ainda fazer as vezes do apoio da opinião pública.
Mesmo se tratando de uma crítica periférica visto que não questiona a ditatura, senão o seu desempenho, esse órgão da imprensa passou a ter sua edição censurada, primeiro com os censores presentes no próprio ambiente da redação, depois com a circulação do conteúdo dependendo de liberação prévia. Em consequência, verificou-se um hiato de 1968 até 1974 durante o qual OESP deixou de publicar editorial, preenchendo o espaço que lhe era destinado com textos de outros gêneros, a exemplo de receita de bolo e poemas de Camões.
A alternativa tem sido cumprimentada como exemplo de resistência do jornal à ditadura, como se ele houvesse de fato se colocado ao lado das hostes que defendiam as liberdades democráticas, a participação da sociedade civil nos rumos no Brasil e o fim da legalizada arbitrariedade do Estado. Seria ingênuo pensar, entretanto, que a censura não perceberia a mensagem do veículo aos seus leitores, significando algo como: “Publicamos receitas de bolo e poemas no lugar dos editoriais porque estamos sob censura dos militares, mas não só não nos submetemos a eles como ainda zombamos deles”. O mais racional é entender o fato como um acordo – explícito ou tácito – entre OESP e o governo da ditadura civil-militar, acordo esse que, por um lado, pouparia o governo ao trabalho e ao desgaste de censurar editoriais e, por outro, garantiria ao jornal a subsistência na qualidade de empresa econômica que é (KUSHNIR, 1988).
Analisando as representações feitas por OESP, a partir do olhar do Sistema de Transitividade, identificamos que, dos itens lexicais por nós investigados, nesta Fase II de análise, apenas quatro deles ocorrem no editorial “Instituições em frangalhos”, quais sejam: “Forças Armadas” (02), “Governo” (02), “Ditadura” (01) e “Democracia” (01). Vejamos de que modo esses itens constroem sentidos.
Governo
Na primeira ocorrência do item “Governo” no editorial “Instituições em frangalhos”, OESP parece estabelecer um diálogo com o marechal Costa e Silva, convergindo para o que afirma Abramo (1997, p. 116) sobre a quem se dirige o editorial: “O editorial é o meio mecânico de interlocução entre jornal e o poder” (ver Seção 3). Nessa possível interlocução, OESP identifica o que é governar uma nação estabelecendo um comparativo entre divisão e exército conforme evidenciado no exemplo (95) a seguir:
(95)
É que, com o correr do tempo e o contato com a realidade, vai s. exa. percebendo que governar uma nação com mais de 80 milhões de habitantes e que acaba de dar, com a vitória de 64 – que embora, s. exa. a considere como obra das Forças Armadas, se deve ao próprio esforço da coletividade – uma demonstração viva de fé democrática, é coisa muito diferente do comando de uma divisão ou de um exército.
Com essa caracterização – feita por um Processo Relacional Intensivo ser (é coisa muito diferente do comando de uma divisão ou de um exército) – o jornal, na verdade, cobra uma postura mais rígida do presidente no poder com relação aos protestos que tomam conta do país. Por essa razão – de cobrança de postura e endurecimento – o Portador – “Governar” é constituído por uma Metáfora Gramatical, a partir da uma nominalização do Processo – “governar”.
No segundo uso do item, OESP demarca os diferentes momentos do governo, apresentando-lhe o que estava a contento. Dessa forma, governo constitui um localizador de tempo – Circunstância de Localização (Tempo) – para, ao que parece, situar o marechal, como podemos verificar na passagem que segue:
(96)
No decorrer das primeiras etapas de seu governo tudo parecia sorrir-lhe, pois que, além de saber contar discricionariamente com a força dos regimentos, das brigadas e das divisões, dava ainda por certa a passividade da Câmara e do Senado, ambos constituídos pelos dois conglomerados que ele, como o seu antecessor, acreditava representarem a substância popular. Já nessa altura, para aqueles que através dos tempos afinaram aquela sensibilidade sem a qual ninguém é capaz de perceber os sinais precursores dos grandes terremotos, se mantinha s. exa. acima dos acontecimentos, na ilusória suposição de que tudo ia pelo melhor e que, se algumas vozes se levantavam em dissonância, não correspondiam ao sentir das camadas profundas da nacionalidade
Como podemos observar, em nenhum dos usos do item “Governo” é feito qualquer desafio à ditadura no sentido de enfrentamento, pois esse não era o propósito do jornal OESP.
Forças Armadas
Também são dois o número de ocorrências para o item “Forças Armadas” no editorial em análise. OESP, assumindo a postura de quem se sente traído, chama a atenção para o fato de ter também contribuído para o golpe, classificado de “vitória de 64”, e, nessa configuração, aproveita para contestar a posição de Costa e Silva em relação à coletividade, mais precisamente à contribuição do próprio jornal. Para isso, OESP utiliza-se de uma Circunstância de Ângulo (Ponto de vista) – como obra das Forças Armadas –, em que apresenta a maneira pela qual Costa e Silva compreende o golpe, como se evidencia na passagem que segue:
(97)
É que, com o correr do tempo e o contato com a realidade, vai s. exa. percebendo que governar uma nação com mais de 80 milhões de habitantes e que acaba de dar, com a vitória de 64 – que embora, s. exa. a considere como obra das Forças Armadas, se deve ao próprio esforço da coletividade – uma demonstração viva de fé democrática, é coisa muito diferente do comando de uma divisão ou de um exército.
No segundo e último uso do item, OESP continua na enumeração e condenação da existência de protestos no Brasil e chama atenção para a conduta “ousada do MDB”, de acordo com o que podemos ver nessa passagem:
(98)
A ARENA aderia à rebeldia geral com tamanha evidência que o próprio MDB sentiu que era chegado o momento da desforra. Resolveu então, com uma ousadia que a todos espantou, enfrentar a ditadura militar em que vivemos desde 1964, ferindo na sua susceptibilidade as Forças Armadas.
Nessa instanciação, “Forças Armadas” é o foco do MDB, uma vez que é instanciado como Meta do Processo Material ferir.
OESP usa apenas uma vez, no editorial em análise, o item “Ditadura” e o faz não como forma de se opor ao regime de exceção imposto ao Brasil, inclusive com a participação deste veículo de imprensa, mas como alvo do MDB – Meta do Processo Material enfrentar –, que, segundo percepção do jornal, resolveu partir para a revanche:
(99)
A ARENA aderia à rebeldia geral com tamanha evidência que o próprio MDB sentiu que era chegado o momento da desforra. Resolveu então, com uma ousadia que a todos espantou, enfrentar a ditadura militar em que vivemos desde 1964, ferindo na sua susceptibilidade as Forças Armadas.
Apesar de considerarmos que as escolhas linguísticas revelam crenças, atitudes e estão diretamente relacionadas à representação de mundo do usuário da língua, não consideramos que o item “Ditadura” esteja sendo usado pelo OESP, na passagem (99), com sua carga semântica condizente com os aspectos negativos que o constitui, mas como forma, talvez, de reproduzir a percepção do MDB na época.
Democracia
Mote desde sempre para justificar o golpe, o item “Democracia” é trazido mais uma vez à tona com propósito de reafirmar tal feito, dessa vez, a partir da variação “Democrática”. No editorial em análise, OESP faz uso uma vez desse item com intuito de ‘lembrar’ a força dos 80 milhões de habitantes, mas, principalmente, enfatizar a sua atuação no golpe civil- militar de 1964, como podemos constatar:
(100)
É que, com o correr do tempo e o contato com a realidade, vai s. exa. percebendo que governar uma nação com mais de 80 milhões de habitantes e que acaba de dar, com a vitória de 64 – que embora, s. exa. a considere como obra das Forças Armadas, se deve ao próprio esforço da coletividade – uma demonstração viva de fé democrática, é coisa muito diferente docomando de uma divisão ou de um exército.
Com essa instanciação, OESP demarca a ação com base no que parece acreditar ser a imagem de credibilidade para seus leitores. Por essa razão, põe “Democrático” como Participante Escopo-Processo, ou seja, a estrutura “uma demonstração viva de fé democrática” está centrada na própria ação, por isso não é atingida por ela.
Considerando que as escolhas linguísticas são feitas em função do dizer, a opção do OESP no editorial Instituições em frangalhos mostra o propósito desenhado pelo diário. Pois, o interesse considera tão somente os itens “Forças Armadas”, “Governo”, “Ditadura” e “Democracia”. Os demais itens não aparecem, em função dos propósitos considerados pelo jornal naquele momento, conforme vimos.