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OFICINA 3: O gato preto sorte ou azar?

No documento Leitura do texto literário na sala de aula (páginas 62-66)

2 DE LEITURA A LEITURA O PROJETO DE PESQUISA

2.3 OFICINA 3: O gato preto sorte ou azar?

O texto de Edgar Allan Poe “O gato preto” foi um dos que marcou a minha vida acadêmica. Lembro-me de que, na apresentação de trabalho de uma disciplina de teoria literária, esse conto foi apresentado por uma colega, que criou toda uma atmosfera sombria, com música de fundo, na sala do anfiteatro semiescura e uma voz um pouca embargada ao longo da leitura. Fiquei com medo e, ao mesmo tempo, bastante envolvida com a narrativa. Então, logo que o tema para as oficinas foi pensado, esse texto me veio em mente, e eu pensei em reviver aquele momento, só que com a minha turma agora na função de professora.

Ao planejar a oficina, pensei em falar do gato nos dois aspectos que ele costuma ser associado – sorte e azar. Quatro aulas de cinquenta minutos cada, seria o tempo necessário para executar o planejado, nunca deixando de considerar o objetivo geral de reconhecer no texto literário um lugar de manifestação de sentidos, valores e ideologias. Pontos que não poderiam faltar na aula envolvem a discussão sobre as crendices populares que são incorporadas à cultura e também sobre os maus-tratos que os animais domésticos e de rua sofrem.

Ao ser questionada sobre o gato preto estar associado ao azar ou a sorte, a turma mostrou-se um pouco agitada. Alguns responderam que dependeria de onde o gato preto estivesse, outros disseram que existe muita superstição associada à cor do gato. Algumas meninas falaram do gato de forma afetiva e carinhosa, desassociando-

o da ideia que possa trazer algum mal ao ser humano. Ao ouvirem a leitura dos poemas, percebi-os bem atentos. Caprichei na entonação e avisei que aquele momento era de escuta, fator importante para o passo seguinte da aula.

Chegado o segundo momento da aula, organizei-os em grupos de cinco ou seis componentes e começaram a organizar o poema, cada grupo recebeu um diferente, já que eu havia recortado as estrofes e eles precisariam montar o quebra-cabeça. Programei essa atividade de montagem dos poemas, pensando também no que diz Cosson,

Crianças, adolescentes e adultos embarcam com mais entusiasmo nas propostas de motivação e, consequentemente, na leitura quando há uma moldura, uma situação que lhes permite interagir de modo criativo com as palavras. É como se a necessidade de imaginar uma solução para um problema ou de prever determinada ação os conectasse diretamente com o mundo da ficção e da poesia, abrindo portas e pavimentando caminhos para a experiência literária (COSSON, 2016, p. 53).

Não me pareceu uma tarefa difícil de ser executada e, de fato, apenas um grupo inverteu a ordem de duas estrofes. Como eu fiz a leitura dos poemas antes, acredito que tenha facilitado bastante a montagem. A atenção da turma no momento da leitura também ajudou a realização dessa tarefa. Enquanto estavam executando o comando, copiei no quadro o passo a passo do que deveria ser feito ao terminarem a montagem. Quando todos os grupos sinalizaram o término da atividade, convidei representantes de cada grupo para que lessem os poemas e destacassem as características ali apresentadas sobre os gatos. Na sequência, perguntei se eles viram naquela linguagem poética uma apresentação dos gatos mais próxima do azar ou da sorte. Unanimemente, todos os grupos apontaram que nos poemas, o gato era apresentado como um bicho fofo, carinhoso e amigo do homem, anulando a ideia de azar a ele associada. Para Cosson (2016, p. 47), a literatura não deve ser trabalhada somente pelo ler:

O ensino da literatura deve ter como centro a experiência do literário. Nessa perspectiva, é tão importante a leitura do texto literário quanto as respostas que construímos para ela. As práticas de sala de aula precisam contemplar o processo de letramento literário e não apenas a mera leitura das obras. (COSSON, 2016, p. 47)

Pensando em não somente ler o texto literário, foi que, nas oficinas, sempre após as leituras existia um momento de discussão sobre o que o texto nos

apresentava, a quais recordações ele nos remetia, quais sensações nos provocava, quais os sentidos que atribuíamos. O processo de letramento apareceu nos momentos de discussão e reflexão sobre os textos lidos. Apreciávamos o texto literário, mas também o discutíamos. Pensando numa aproximação temática foi que selecionei textos de gêneros diferentes, seguindo o que propõe Rildo Cosson,

Aproximar diferentes textos para mostrar como eles se relacionam enquanto intertextos é a base de toda leitura intertextual. Por meio da leitura do intertexto, o leitor solidifica e amplia o conhecimento da sua cultura e da relação que ela mantém com outras, tornando-se ele mesmo parte desse diálogo que, como já sabemos, é em última análise, a própria leitura (COSSON, 2017, p. 63).

Assim a atividade de leitura e montagem dos poemas objetivou relacionar a temática geral da oficina que era “Gato preto sorte ou azar”, e através dessa leitura dos poemas, eu introduzir o texto principal dessa oficina que era o conto “O gato preto”.

Na segunda aula do dia, antes da leitura do próximo texto, antecipei para a turma que se tratava de um conto “O gato preto”, de Edgar Allan Poe, um pouco mais longo do que os normalmente lidos na escola. Também acrescentei a informação de que era uma narrativa ficcional classificada como terror, mistério e morte. Avisei-os de que faria a leitura sem interrupções e só depois voltaríamos ao texto nos detendo aos pormenores da história.

Como previ, toda a aula foi ocupada com a apresentação do conto e a leitura. Os alunos mostraram certa expectativa para desvendar aquele texto. Solicitei que anotassem qualquer pergunta e que grifassem partes do texto às quais desejassem voltar depois.Anotar as questões é de extrema importância, pois,

A análise literária [...] toma a literatura como um processo de comunicação, uma leitura que demanda respostas do leitor, que o convida a penetrar na obra de diferentes maneiras, a explorá-la sob os mais variados aspectos. É só quando esse intenso processo de interação se efetiva que se pode verdadeiramente falar em leitura literária (COSSON, 2016, p. 29).

Tendo a turma interagido efetivamente, posso, então, afirmar que durante a leitura, diria que uns 95% se mantiveram bem atentos à leitura. Dois a três alunos ensaiavam alguma dispersão, mas a própria turma os reprimiu. Acredito que o suspense possa ter despertado uma maior curiosidade e atenção. Fiquei imensamente feliz em perceber toda aquela atenção dedicada à leitura. Não era uma

quietude fingida, temendo por alguma repressão; era, sim, interesse e vontade de saciar a curiosidade. Ao longo da leitura, vez ou outra, alguém manifestava alguma reação de surpresa, indignação ou insatisfação com algum fato narrado.

Comecei a terceira aula da oficina, já num outro dia, retomando a discussão sobre o conto da aula anterior. Classifiquei-o como uma narrativa densa, longa, com uma série de acontecimentos, fazendo a ressalva de que os contos, em geral, costumam ser mais curtos, focados em um acontecimento, logo, aquele se diferenciava pela sequência de fatos narrados pelo narrador personagem.

Distribuídas as cópias do texto que foi lido num dia anterior aos alunos, comecei com algumas perguntas orais. A primeira delas foi sobre o que eles acharam do conto. Respostas como “assustador, longo, surpreendente, interessante”, foram sendo citadas quase que simultaneamente por alguns alunos. Lancei a segunda pergunta: “o personagem principal é louco?”. Alguns acreditavam que sim, mas outros adjetivos foram sendo atribuídos a ele: “bipolar, depressivo, psicopata, maníaco”. Questionei por que atribuímos essas características a ele, e um aluno disse “pelo que ele fez”, e então completei “pelas ações, pelo desenrolar da história”.

Falamos um pouco sobre a psicopatia, o poder de frieza, da manipulação, da indiferença pelos sentimentos dos outros e da dificuldade de praticar a empatia. Os alunos começaram a citar “A casa de papel”, uma série que estava passando no portal Netflix e que tem um personagem psicopata.Eles fazem então uma ligação entre os personagens do conto e da série e percebem traços em comum. Um texto que levou a outro texto dentro do que se avalia como intertextualidade. Voltando ao conto, falei da frieza do personagem ao arrancar o olho do gato vivo, sabendo que aquele sofrimento iria perdurar por um bom tempo. Um aluno concordou e disse que foi pior do que matá-lo enforcado.

Lancei uma nova pergunta: “vocês perceberam a tentativa do narrador em justificar suas ações ao longo do texto?”. Uma aluna pediu a fala e disse que o personagem atribuiu ao álcool a sua conduta assassina. Um outra disse que o narrador personagem fez parecer que estava endemoniado. Começamos a fazer uma análise do texto, voltando parágrafo por parágrafo, procurando traçar uma linha temporal dos acontecimentos. Alguns elementos foram destacados por mim, a exemplo da marca forte de adjetivação. Traçamos o perfil psicológico do narrador personagem, classificado pela turma como psicopata. Algumas incoerências do personagem central foram apontadas pela turma, como situações em que ele diz estar

com remorso do que faz ao mesmo tempo em que demonstra total frieza. Feita a análise dos pormenores da história, percebemos como o narrador personagem tenta induzir o leitor a acreditar que todos os seus atos perversos tiveram um culpado: o gato preto, causador de toda destruição.

Terminada a discussão do conto, parti para a exibição de um vídeo que encontrei no youtube em que aparecem vários gatos. A turma ficou toda melíflua com as imagens dos gatinhos que foram sendo transmitidas e começaram a ensaiar um coro de “ó, ó, ó, ó” cada vez que um gato aparecia. Terminado o vídeo, perguntei se conseguiram perceber alguma semelhança entre o vídeo e os poemas lidos na oficina anterior. Eles disseram haver muitas diferenças, pois os gatos são retratados em momentos de fofices no vídeo, acompanhados de frases que exaltam suas qualidades físicas, também de companheirismo e fidelidade aos humanos. Já no conto, o gato transforma-se num monstro, na visão do narrador personagem, trazendo-lhe muito azar e destruição.

Na sequência, exibi, no telão, três notícias recentes de perversidade e maus- tratos contra gatos em três cantos do Brasil. Lemos alguns trechos das três notícias, e então perguntei se ali tratava-se de ficção. Eles disseram que não. Uma garota disse que aquilo era bem real, e alguns alunos pediram a fala para relatar situações parecidas nos bairros onde moram, em que animais, a exemplo de cachorros e gatos são envenenados pelos vizinhos, somente porque eles latem ou miam. A discussão ferveu, com um certo tom de indignação diante da ação humana com os animais. Ressaltei que hoje em dia parece haver uma preocupação maior por parte da sociedade, pois já temos uma legislação de proteção aos animais, que prevê a criminalização dos infratores. Sem contar as tantas ONGs de proteção de animais. Um aluno falou de uma ONG que fica no bairro em que ele mora, responsável por cuidar de animais capturados nas ruas.

No documento Leitura do texto literário na sala de aula (páginas 62-66)