19 Os termos ‘maria’ e ‘mariazona’ são usados na linguagem popular se referindo à Maria, mãe de Jesus,
5.3 Face, dor e o olhar dos outros
5.3.3 O olhar dos outros
Após nos referirmos a alguns dos desdobramentos da violência praticada contra a mulher no âmbito conjugal no que concerne às marcas deixadas quando a face é ferida pelo parceiro amoroso, pretendemos mover o foco para possíveis repercussões do olhar alheio na significação dessas marcas.
À exceção de alguns grupos sociais que, por motivos religiosos, climáticos, ou desejo voluntário de ocultação da identidade26, entre outras razões, encobrem parcial ou totalmente a cabeça e a face, para a maioria dos povos ocidentais estas são as partes do corpo que oferecem maior visibilidade. E justamente por estar mais à vista, o rosto está, também, mais sujeito à apreciação e ao julgamento de outros atores que fazem parte do mesmo cenário social. Este “olhar dos outros” assume papel primordial nas interações humanas e vai influenciar sobremaneira os sentidos atribuídos às agressões ao rosto feminino.
Como já aventado no segundo capítulo, a face humana funciona como uma espécie de vitrine ao expor aos outros não só os elementos físicos do rosto, mas
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No caso de questões de crença, pode ser citado o costume de mulheres islâmicas de usar (por obrigação ou não) vestimentas que devem proteger a cabeça e o rosto, além do resto do corpo, da visibilidade alheia. Essa proteção pode se limitar a um xale envolvendo a cabeça e o pescoço, deixando o rosto à mostra, como no caso do Xador, ou deixando apenas os olhos descobertos, o chamado Niqab ou ainda encobrindo também os olhos com uma espécie de tela para não impedir a visão da usuária, a mais conhecida Burca. Outro exemplo é o de moradores de regiões geladas que, por razões óbvias, usam vestes apropriadas ao clima, incluindo óculos de proteção contra as baixíssimas temperaturas, ocultando, dessa forma, suas fisionomias quando em ambiente externo. Ainda, grupos criminosos e algumas seitas paralelas costumam também usar disfarces, máscaras ou capuzes exatamente para ocultação de identidade com a finalidade de evitar acusação policial e/ou social. Exemplo clássico é a ainda existente Ku Klux Klan, grupo racista norte-americano conhecido por seu uniforme branco composto por roupas compridas e capuzes brancos.
também ao exteriorizar aspectos da subjetividade por intermédio de expressões faciais que transmitem sentimentos e emoções (FREITAS-MAGALHÃES, 2012; LE BRETON, 2009; YU, 2001; SYNNOTT, 1989). Além disso, é principalmente através do rosto que a comunicação entre pessoas se processa, por meio do olhar, da fala e da escuta. Há aí um movimento reflexivo, assim como nas vitrines: a exposição de um lado e a avaliação, de outro. Isso não quer dizer que aquilo que é mostrado corresponda efetivamente ao que é visto, já que se tratam de seres humanos complexos, com fatores individuais e coletivos engendrando tanto intenções, quanto percepções.
Excluindo quatro entrevistadas, que não fizeram uma referência direta, todas as outras revelaram sua preocupação com o olhar dos outros sobre as marcas aparentes da violência conjugal vivida.
[...] ele uma vez deu um murro no meu rosto que partiu. Eu tive que ir pro HGE e levei ponto no rosto [...] se ele me batesse em outro lugar, eu poderia esconder e no rosto eu não tenho como esconder. (Alice, 27 anos)
(Os outros perguntavam) – O, que foi, Lara?
– Uma queda. Bati o rosto no quintal. Inventei uma desculpa. Se acreditavam ou não, mas eu tive que continuar trabalhando e fazer de conta que aquilo não tinha acontecido. (Lara, 44 anos)
O rosto desse tamanhão assim (mostrando com as mãos). Todo mundo (perguntava): O que é isso? O que é isso? – Eu caí. Uma outra pessoa perguntava e eu com vergonha, muita vergonha de dizer. (Ilka, 43 anos)
Le Breton, ao falar das emoções que podem brotar no indivíduo quando se percebe como alvo de observação, sustenta que “em nossas sociedades ocidentais, os sentimentos como a vergonha, culpabilidade ou embaraço subentendem o julgamento alheio, real ou potencial” (LE BRETON, 2009, p. 94). Quer dizer, sentimentos de vergonha, culpa ou embaraço, muitas vezes, são experienciados independentemente da manifestação dessa avaliação crítica por parte dos outros.
O diálogo com Jéssica (33 anos) também é ilustrativo do constrangimento causado, quando a face é atingida:
Pesquisadora: E o fato de ser no rosto? – Eu não tinha como esconder.
P: E para as outras pessoas [...] você dizia... – Que era outra coisa, que era um machucado.
Fátima (52 anos) também se referiu aos sentimentos experienciados por ter o rosto marcado em um conflito doméstico:
Pesquisadora: Outras pessoas viram (a marca roxa no rosto)?
– Aí foi uma vergonha danada [...] eu evitava até de sair, pra ninguém poder ver. No rosto é pior porque todo mundo vê, né?
Nestes depoimentos fica claro o desconforto das informantes com o fato de terem que exibir, durante suas atividades rotineiras diante de outras pessoas, uma marca facial originada no conflito com o parceiro. As quatro últimas falas se referem a estratégias de encobrimento do sinal da violência (atribuindo outro motivo à presença da marca ou abstendo-se de sair de casa) a fim de preservar aquilo que Goffman chama sugestivamente de “face” no original inglês e que a tradução para o português traz como fachada. Segundo o autor:
O termo fachada pode ser definido como valor social positivo que uma pessoa efetivamente reivindica para si mesma através da linha que os outros pressupõem que ela assumiu durante um contato particular. A fachada é uma imagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovados (GOFFMAN, 2011, p. 13-14).
Quer dizer, a concepção que os outros atores têm sobre o sujeito é construída a partir do compartilhamento dos atributos pessoais por parte desse sujeito na interação. Esse compartilhar, por sua vez vai ser influenciado pelo feedback recebido em termos de aprovação ou não dos atributos revelados. Associando esse entendimento aos relatos acima citados, é possível supor que, como em nosso contexto cultural, marcas de violência conjugal possuem valor social negativo, a exposição dessa marca pode representar uma ameaça à fachada das pessoas no seu círculo social cotidiano, daí a necessidade de ocultá-las.
A frase “contemplar o outro é como tocá-lo de maneira simbólica” (LE BRETON, 2009, p. 12) é uma bela afirmação, prenhe de significados. Nela o autor alude à tatilidade do olhar humano e à multiplicidade de afetos entranhados nesse gesto. Justamente por causa destas características, o olhar pode ser interpretado de diferentes formas por parte daquele que se torna seu objeto. Um dos depoimentos colhidos no trabalho de campo apresenta uma percepção sobre o olhar muito relevante para análise:
As pessoas sempre perguntam ‘o que foi isso? Foi acidente?’. E às vezes é um constrangimento de você chegar e dizer que foi uma agressão de seu ex-companheiro, pelo fato até deles às vezes pensar: ‘será que ela num fez nada de errado?’, e você não fez. E você fica se sentindo humilhada e
constrangida, porque muitos pensam assim, não que ela faz, mas eu já vi muitos dizer ‘ah, às vezes ela traiu’ e não é por aí, nem sempre. Às vezes
pode até ocorrer uma traição, mas no caso de muitas não é isso. E aí a gente fica bastante constrangida. (Gisele, 29 anos)
Ao ser questionada, pelas pessoas, sobre a origem das cicatrizes no seu rosto, Gisele se sente tocada de maneira incômoda pelas perguntas (e pelo olhar que as gerou), pois aquelas indagações lhe acionam a memória do ocorrido. E ainda mais, despertam nela o receio de que lhe atribuam a “culpa” por carregar aquelas marcas. Duas observações podem ser feitas a partir desse enunciado: a primeira se refere ao drama da revitimização vivido por essa participante ao ter que, frequentemente rememorar, por causa de uma bandeira sinalizadora (como falamos em seção anterior) inserida pela força no território do seu corpo, a violência que sofreu do ex-companheiro. Em segundo lugar, nos chama atenção o sentimento de humilhação e constrangimento que nela aflora ao imaginar que aqueles olhares também simbolizam um julgamento moral de sua conduta. No seu entendimento, se ela tivesse traído o parceiro, talvez a violência fosse justificável. Mas ela insiste em reforçar: “não é por aí”. Parece haver uma embaraçosa sensação de não saber o que os outros “realmente” estão pensando a seu respeito27
. O fato de, a seu ver, “não ter feito nada de errado”, potencializa seu sofrimento e sua perplexidade ante à experiência traumática que viveu e que ainda revive a cada olhar inquiridor sobre suas marcas.
Outra participante do grupo estudado fala da angústia gerada por aquilo que o próprio olhar percebe ao contemplar sua face ferida e as possíveis implicações do que é visto para sua vida social e profissional:
Eu não consegui me ver no espelho [...] não conseguia. Eu olhei uma vez...eu olhei uma vez. Não conseguia porque eu num queria ver como é que eu tava. Até hoje quando eu me olho assim...num me dói tanto isso aqui (indicando a cicatriz do corte na testa), o que me dói é quando eu olho pro meu dente, falo assim: ‘meu Deus, eu que trabalho com o público, como é que eu vou trabalhar agora? Como é que eu vou me apresentar com uma marca no rosto e o dente quebrado?’ (Fátima, 33 anos)
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Goffman comenta este tipo de sensação em seu trabalho sobre pessoas estigmatizadas, afirmando: “[...] surge no estigmatizado a sensação de não saber aquilo que os outros estão ‘realmente’ pensando dele” (GOFFMAN, 1988, p. 23).
Em outro momento já citado, esta mesma entrevistada compartilhou como foi difícil encarar-se no espelho. E aqui ela expressa o porquê dessa dificuldade: ela não queria ver seu rosto daquela forma. Olhar o espelho lhe traz dor, mas não é a dor física da cicatriz, antes é um sofrimento causado também pela projeção que faz do impacto das marcas da violência nas suas relações sociais. Nesse sentido, mais uma vez, uma contribuição de Le Breton parece pertinente “A alteração do rosto que expõe a marca de uma lesão é vivida como um drama aos olhos dos outros, não raro como um sinal de privação de identidade” (LE BRETON, 2006, p. 71). Fátima não se reconhece na imagem refletida, afinal aquela marca não permite que ela seja a mesma que era antes, seja no aspecto físico, seja na sua subjetividade.