Scenario 2: Extending the market Scenario 4 : “Schools as focused Scenario 6 : “Teacher exodus
4.2.4. Um Olhar Final Bem Português
Por último, apresentaremos uma outra perspectiva, certamente mais próxima do contexto português, já que é baseada num estudo encomendado pelo Ministério da Educação em Portugal, dirigido e coordenado por Roberto Carneiro e que tem como lema tentar recuperar definitivamente em 20 anos o atraso educativo de 20 décadas.
Neste contexto, partindo da contextualização da situação educativa actual, a abordagem é feita a partir de três paradigmas que correspondem a três tempos. O passado, o presente e o futuro.
O passado que provem do modelo industrial, passado próximo, mas que ainda se vem de certo modo mantendo, traduz-se numa educação fortemente uniforme e igual para todos, apoiada num Estado Providência condutor de todo o processo
educativo que detém praticamente o monopólio da provisão e da regulação, detentor de uma pesada máquina burocrática, que tudo domina e define.
O presente, marcado pelo crescente domínio dos mecanismos do mercado, cada vez mais emergentes numa sociedade marcada pela globalização, e pelo desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação.
O futuro, utopia em que se caminhará para uma educação cada vez mais personalizada, em que as comunidades estarão próximas no seu desenvolvimento e a sociedade civil terá um papel activo fundamental na definição das regras e da sua execução.
Estes três paradigmas são traduzidos pelas designações de “Laranja Mecânica” industrial, o do passado, o de hoje está a passar para a “Idade do Conhecimento”, apostando-se no futuro na permanente aprendizagem a caminho de uma “Sociedade Educativa”.
O ponto de partida, traduzido pela “Idade do Conhecimento”, pressupõe uma aposta forte no saber, numa nova ordem de prioridades, em que a sociedade terá um lugar relevante no desenvolvimento do sabedoria e uma elevada responsabilidade na própria realização de todo o processo educativo. Como diz Carneiro (2001, 49)
Trata-se de uma visão suportada por ‘comunidades aprendentes’ plenamente capacitadas para assumir as responsabilidades primordiais de condução das actividades de educação e da formação no seu interior, de acordo com as respectivas identidades comunais.
Estaremos assim, numa época de transição, entre o forte impacto da oferta da informação, através das novas tecnologias da comunicação e o aprofundamento do conhecimento, com vista a uma sociedade que visa a sabedoria, a “Sociedade Educativa”.
Uma nova cultura e uma aposta forte na sociedade civil é o que esta visão pressupõe, como se torna bem visível na afirmação de Carneiro (2001, 49)
Estas ‘culturas comunitárias de resistência’, embriões de trincheiras difusas que actuam a um tempo contra a globalização e contra o individualismo, são tonificantes de uma nova sociedade civil em rede, constituem-se como novos sujeitos da história com o potencial de transformação das sociedades como um todo.
A aposta na diminuição do papel do Estado, obrigará no entanto a um cuidado acrescido, para que o bem público que é a educação não seja pura e
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simplesmente entregue ao mercado, apesar deste enquadramento defender o aluno como cliente principal de todo o processo.
Numa solução que se pode considerar entre o Estado e o mercado surgirá então o “mercado social” que Carneiro (2001, 52) apresenta deste modo
Não cedendo à tentação do individualismo nem ao reducionismo mercantilista, a tese aposta num ‘mercado social’ da educação, convenientemente orientado, regulado, fiscalizado, financiado até, pelo Estado mas onde a responsabilidade de governo e de gestão das unidades prestadoras de serviços é radicalmente devolvida às comunidades de pertença.
Partindo do eixo metodológico definido pelos três paradigmas enunciados acima, e considerando como ponto de partida o que corresponde à “Idade do Conhecimento”, são construídas quatro hipóteses alternativas que correspondem a variantes do modelo inicial, resultantes de desvios relativamente ao eixo paradigmático definido e que portanto, traduzirão possibilidades muito mais prováveis que a visão da “Sociedade Educativa” utopicamente construída. Os dois primeiros correspondem a pequenas variações na “Laranja Mecânica” e os dois seguintes traduzem alguma evolução da “Idade do Conhecimento”.
A primeira alternativa resultará da natural resistência à mudança no que se refere ao predomínio do Estado na educação, apesar de se deixar influenciar pela globalização que as novas tecnologias da informação e da comunicação, não deixam de forçar. Como diz Carneiro (2001, 56)
É um cenário prisioneiro da enorme inércia que exibe a máquina educativa, e cuja probabilidade será tanto mais alta quanto maior for a debilidade da sociedade civil portuguesa e mais conjunturalista se revelar a acção do Estado.
A segunda hipótese, configura uma situação em que apesar de se manter o predomínio do papel do Estado na educação, se concede uma certa abertura a alguns operadores que ele próprio define, deixando-os operar em segmentos restritos bem definidos. Ou, como observa Carneiro (2001, 56)
Este cenário combina uma sociedade civil com pouca capacidade de empreendedorismo educacional – no plano mais geral – e um Estado com alguma iniciativa estratégica mas eminentemente conservadora.
O terceiro enquadramento, ao contrário dos anteriores, aparece com um certo predomínio do mercado e um nítido recuo do papel do Estado na provisão da educação. É um cenário onde medidas como o cheque ensino ou o crédito nos
impostos, só para citar as mais conhecidas, podem vir a ser implementadas. Será também expectável que as iniciativas privadas ou locais possam aparecer em diversos segmentos educacionais e que a sociedade civil se comece a organizar neste sector. Como refere Carneiro (2001, 57)
O cenário aqui descrito produz-se na convergência de um Estado mínimo – e possivelmente fraco – e de forças de mercado fortes mas tendencialmente dispersas – e possivelmente pouco concatenadas.
Por último, a quarta hipótese prevê a existência duma sociedade civil organizada, aliada a um mercado forte de educação. As tecnologias da informação e da comunicação têm um papel importante na globalização do mercado educativo e o Estado vê-se afastado do processo, enquanto as comunidades locais mantêm uma certa liderança. Carneiro (2001, 57) dá-nos a seguinte ideia deste cenário contrastado
Neste cenário generaliza-se o modelo do ‘franchise educativo’ o qual acomoda valências crescentes de cultura local descentralizada com ‘economias de escala e tecnologias amigáveis’;
Apesar de todas as hipóteses aqui apresentadas não serem mais do que simples abstracções teóricas, elas ajudam a perceber as principais características da sociedade educativa e permitem perspectivar e, se possível, influenciar as reformas, de modo a definir os melhores caminhos para atingir os objectivos pretendidos.
No caso de Portugal, e face ao atraso educativo bem patente em todos os indicadores de literacia que as entidades avaliadoras nacionais e internacionais têm mostrado, esperamos que as reformas a promover no sector da educação tenham em conta os estudos realizados, de modo a que as soluções encontradas assentem nos inúmeros trabalhos teóricos e práticos que se têm desenvolvido e publicado. Nesta perspectiva será também possível e aliás, essencial, observar a escola através dos olhares dos diversos agentes educativos. Ou como diz a OCDE (1989, 117)
As reformas escolares só podem ser eficazes se a missão da escola se modificar de modo a permitir aos alunos, aos professores, aos administradores e às famílias definir, em conjunto, os serviços que a escola deve prestar.
Maria de Lurdes Ventura C. dos Santos
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III. Exemplos de Reformas
A reforma do ensino deve conduzir à reforma do pensamento e a reforma do pensamento deve conduzir à reforma do ensino.
Edgar Morin