Capítulo III: Memória cultural e autoficção
3.7. Olhar transitório, exotismo e autoexotismo
“Os turcos nasceram para vender bugigangas coloridas em canastras
ambulantes.
Têm bigodes pontudos, caras de couro curtido,
braços tatuados de estrelas. Se abrem a canastra, quem resiste
ao impulso de compra?
É barato! Barato! Compra logo! Paga depois! Mas compra! A cachaça, a geléia, o trescalante fumo de rolo: para cada um
o seu prazer. Os turcos jogam cartas com alarido. A língua cifrada
cria um mundo-problema, em nosso mundo
como um punhal cravado. Entendê-los, quem pode? [...] Os turcos,
meu professor corrige: Os turcos não são turcos. São sírios oprimidos pelos turcos cruéis. Mas Jorge Turco
aí está respondendo pelo nome, e turcos todos são, nesse retrato tirado para sempre... Ou são mineiros
de tanto conviver, vender, trocar e ser em Minas: a balança
no balcão, e na canastra aberta
o espelho, o perfume, o bracelete, a seda, a visão de Paris por uns poucos mil-réis?”
(Carlos Drummond de Andrade, Os Turcos, Boitempo II, 1973)
O exotismo é um olhar que coloca o outro num esquema pré-estabelecido como um objeto inferior instrumentalizado. Consoante a José Leonardo Tonus (2005), o exótico no Relato é relativizado:
O Relato “pode propor para um público europeu o cruzamento de dois universos fantasiados, imaginados, construídos e desejados a partir dos fantasmas exóticos: os universos amazônico e oriental” (...) No Relato observamos a utilização de uma série de estratégias narratológicas e poéticas com o objetivo de neutralizar o aparecimento de uma deriva exótica. Entre as principais estratégias, podemos citar, por um lado, o emprego de sujeitos de enunciação próximos da situação narrativa e, por outro lado, o processo de dessacralização do elemento exótico. (...) Para Hakim, o autoexotismo é uma etapa transitória do seu processo de formação pluricultural cujo objetivo é levá-lo ao conhecimento dos outros e de si próprio. Nos contatos interculturais, o estereótipo cultural de que se compõe o elemento exótico hatoumiano pode também contribuir com o processo de comunicação, estabelecendo, como nos sugere o autor, zonas temporárias de tradução cultural que, apesar de sua equivocidade e limitação, conduzem o “Mesmo” a um diálogo com o “Outro” (TÔNUS, 2005).
3.7.1. Dorner
Dorner parece ser o único personagem consciente da sua condição de estrangeiro. Anda com sua câmera batendo fotos que servem de registros das memórias familiares da cidade. Ele é uma figura amistosa. Estabelece amizade com todo o mundo, embora seu olhar seja o do turista europeu. Segundo o relato de Dorner, o pai de Hakim teria partido para o Brasil não para “fazer a América”, mas para “enfrentar o oceano e alcançar o desconhecido, no outro lado da terra” (p. 72). No capítulo 5, Dorner comenta sobre o papel das Mil e uma noites como ponte da sua
amizade com o pai de Hakim. A visão orientalista do imigrante alemão Dorner acha que o pai mistura passagens da sua vida com As Mil e uma noites (FREIRE, 2006; MOREIRA, 2007):
O convívio com teu pai me instigou a ler As mil e uma noites, na tradução de Henning. A leitura cuidadosa e morosa desse livro tornou nossa amizade mais íntima; por muito tempo acreditei no que ele me contava, mas aos poucos constatei que havia uma alusão àquele livro, e que os episódios de sua vida eram transcrições adulteradas de algumas noites, como se a voz da narradora ecoasse na fala do meu amigo. No início da nossa amizade ele se mostrara circunspecto e reservado, mas ao concluir a leitura da milésima noite ele se tornara um exímio falador. Ás vezes, a leitura de um livro desvela uma pessoa. Mas o curioso é que ele sempre deixava uma ponta de incerteza ou descrédito no que contava, sem nunca perder a entonação e o fervor dos que contam com convicção. Os fatos e incidentes ocorridos na família de Emilie e na vida da cidade também participavam das versões confidenciais por teu pai aos visitantes solitários da Parisiense. O que me fez pensar foi a coincidência entre certas passagens da vida de outras pessoas, que mescladas a textos orientais ele incorporava à sua própria vida. Era como se inventasse uma verdade duvidosa que pertencia a ele e a outros. Fiquei surpreso com essas coincidências, mas, afinal o tempo acaba borrando as diferenças entre uma vida e um livro. P.79.
José Leonardo Tonus (2005) notou a visão exotizante de Dorner:
A percepção endótica da natureza amazônica proposta por Hakim na cena em que ele comenta a paixão de Dorner por orquídeas, ícone incontestável do exótico tropical, é um exemplo concreto de tal procedimento. Para o olhar europeu, as orquídeas encerram por si próprias uma possibilidade de evasão fantasmática, ao passo que para as personagens acostumadas à realidade exótica, como Hakim, tal percepção é inoperante. As orquídeas evocadas por Dorner com tanto entusiasmo e veemência eram para Hakim apenas “simples palavras” que encerravam algum “mistério” (p. 60) (...)A máquina fotográfica não somente dirige, conduz, reduz a percepção de Dorner, como também instaura entre a personagem e o objeto visado e visualizado uma relação de distanciamento. (...). As lentes de sua câmera, de seus óculos e as pupilas azuladas dos seus olhos formam no texto um único sistema ótico a tal ponto que ao olhar para a Hassel, Dorner “via seu próprio rosto” (p. 60). (TÔNUS, 2005).
O tema do olhar estrangeiro tem sido revisitado no conto “Manaus, Bombaim, Palo Alto”, que aborda a vida do Almirante indiano Rajiv Kumar Sharma em Manaus. O jornalista indiano visita a casa do escritor (narrador-personagem) a fim de conhecê-lo, e escreve em seu jornal que a casa do rapaz era uma imundície.